CAPÍTULO 3 A COLONIALIDADE DO PODER, DO SABER E DO SER E
3.1 A „colonialidade‟ e a „pós-colonialidade‟ A divisão dos saberes: as „outras‟
3.1.3 A colonialidade do poder e a violência estrutural e institucional
Como já foi dito, é sob a luz da dinâmica colonizadora que se busca compreender a concepção da violência em sua força material e, principalmente, imaterial.
Para Briceño-Leon (2002) é na força imaterial que reside a violência estrutural, apresentando situações de dominação que abrangem todos os aspectos da vida social e política, implicando em uma maior dificuldade para sua identificação, pois muitas vezes está camuflada por mecanismos de acobertamento e de poder.
Nesse sentido, o autor referenciado destaca o caráter sempre inovador do fenômeno da violência, seja por sua magnitude, seja por sua singularidade nos processos sociais em que se encontra inserida, inclusive por ostentar uma ‗vocação de poder‘. Ao analisar a ‗colonialidade do poder‘ / ‗violência estrutural‘, Briceño-Leon (2002) salienta que a sua compreensão implica transitar por diversos aspectos e dimensões das relações sociais, adquirindo certas especificidades em relação à condição de gênero.
A perspectiva dos estudos da ‗colonialidade do poder‘, que engendra, segundo o autor, a violência estrutural, permite adentrar tanto nas situações mais aparentes como também naquelas em que suas manifestações localizam-se em um plano mais abstrato. Assim, é perfeitamente apropriado ancorar-se nas definições de ‗colonialidade do poder‘, do ‗saber‘ e do ‗Ser‘, para extrair, capturar, interceptar, analisar e compreender as práticas de violência – lidas como sendo práticas colonizadoras – situadas no âmbito institucional, evidentemente, associadas ao olhar de gênero, precipuamente ao se ressaltar, as imagens e estereótipos presentes no processamento dos crimes sexuais.
Nessa direção, Segato (2003) salienta que quanto mais dissimulada e sutil for a violência, maior será sua eficiência para mantê-la em operatividade. A autora aduz que é assim que se configura o universo amplo e difuso da violência moral (ou
psicológica), considerando-a como um conjunto de mecanismos legitimados pelos costumes (ou pelas dinâmicas colonizadoras) para garantir a manutenção das distinções das relações sociais de gênero.
Portanto, pode-se dizer que a percepção da violência passa pela análise da totalidade dos contextos em que se encontra inserida, pelo desmembramento abstrato dos fenômenos que a cerca, e, pela apreensão dos elementos interiores e exteriores às pessoas por ela atingida e por ela praticada (Santos, 1996).
Observa-se, assim, que a violência enquanto fenômeno social e globalizado, ao mesmo tempo em que é incorporada à estrutura, pela via contrária, e em outros contextos, revela-se no subterrâneo das relações sociais e na subjetividade dos indivíduos. A violência tem várias facetas e nem todas se mostram com clareza, o que denota ser portadora de mecanismos complexos, sutis, escorregadios, dificultando a compreensão na sua profundidade.
Nesse compasso de idéias, Foucault (2002-b) sublinha que a violência encontra o seu fundamento mais profundo na racionalidade que se emprega para praticá- la. Essa perspectiva da violência, como fenômeno que possui a sua própria lógica, metabolismo e racionalidade, permite um inter-relacionamento com o exercício do poder com laços mais duráveis, com mecanismos mais eficientes e com cálculos mais exatos de controle em seus diversificados campos de atuação e em suas intrincadas ações.
Segato (2003) comenta que a violência institucional se reproduz com certo automatismo, com invisibilidade e com ‗inércia‘ durante um longo período de tempo. Remarca que os processos de violência institucional, seja pela sua variedade ou multidimensionalidade, podem ser concebidos como estratégias de reprodução do sistema, pois estão em constante re-fundação, inovação e permanente ocultação do ato instaurador.
A análise da violência institucional também foi realizada por Arendt (2004: 97), que a caracteriza como um instrumento e não como um fim:
A violência sendo instrumental, por natureza, é racional. Ela não promove causas, nem a história, nem a revolução, nem o progresso, nem o retrocesso; mas pode servir para dramatizar causas e trazê-las à atenção pública.
Os instrumentos da violência para a autora seriam mudos, incorporam ‗o não reconhecimento‘ do outro, tal como, também, entendido por Santos (2007-b). Sob o
ponto de vista institucional, a violência poder ser definida como a afirmação de força física, por imposição legal de armas; ou jurídica, por imposição legal da norma, que não é discutida nem modificada aberta ou democraticamente, o que lhe confere um caráter de normatização, uma expressão excessiva ou autoritária de poder que impede o reconhecimento do outro (Zaluar, mimeo, s/d).
Para Pegoraro (2002) um suposto básico para analisar a violência institucional e o papel do sistema penal é entender que este está neutralizado por uma realidade social composta de desigualdades crescentes e de moral débil, além da presença dos chamados ‗poderes ocultos‘ ou paralelos que convivem com as instituições, colonizando-as com comportamentos matizados por discriminações. No plano estritamente jurídico, percebe-se que o conjunto de normas e teorias penais demonstra-se estreitos e obsoletos para lidar com as novas formas de violência.
Andrade (1999) ao tecer reflexões sobre o sistema de controle social, imputa-lhe a prática da violência institucional, ao exercer seu poder e seu impacto também sobre a vítima mulher, e, ao expressar e reproduzir dois grandes tipos de violência estrutural da sociedade:
[...] a violência estrutural das relações sociais capitalistas (que é a desigualdade de classes) e a violência das relações patriarcais (traduzidas na desigualdade de gênero), recriando estereótipos inerentes a estas duas formas de desigualdade – o que é particularmente visível no campo da moral sexual.
[...] O sistema penal não julga igualitariamente as pessoas, ele seleciona diferentemente autores e vítimas, de acordo com sua reputação pessoal.
[...] O sistema penal não pode, portanto, ser um fator de coesão e unidade entre as mulheres porque atua, ao contrário, como um fator de dispersão e com uma estratégia excludente, recriando desigualdades e preconceitos sociais (ANDRADE, 1999:113/114).
Portanto, nessa investigação, tornou-se possível analisar o potencial emancipatório (suas limitações e obstáculos) das decisões proferidas pelo Poder Judiciário brasileiro, nos processos relativos aos crimes sexuais contra a mulher, apoiando-se na compreensão dos instrumentos racionalizáveis da colonialidade do poder, do saber e do ‗Ser‘, vigentes nos sistemas e nas estruturas do poder.
Ancorando-se nesses parâmetros, e, para esta pesquisa, importa destacar que os efeitos da ‗colonialidade‘ não são sentidos igualmente por todos, pois as mulheres, além de sofrerem os reflexos da colonização, sobre a qual recai a matriz do poder patriarcal – que, também, envolve o exercício da exploração e da dominação em múltiplas dimensões da vida social – encontram-se, portanto, duplamente colonizadas: pelos sistemas e pelo homem.
Neste breve percurso pela teoria pós-colonialista, buscou-se ressaltar as categorias da ‗colonialidade do poder‘, do ‗saber‘ e do ‗Ser‘, enquanto práticas ou lógicas políticas, econômicas, sociais e culturais que se perpetuam nas sociedades – e no mundo globalizado, em seu todo. Essas práticas se conectam, simultaneamente, com a questão da violência, e, via de conseqüência, com os fenômenos sociais que carregam consigo as marcas das assimetrias, das desigualdades e da discriminação. Evidenciou-se que a persistência e a acentuação de tais colonialidades (poder, saber e ‗Ser) ligam-se, intrinsecamente, aos fatores mais impactantes da existência moderna e dos sistemas políticos, referindo-se não apenas como um acontecimento de violência originário, mas também presente no desenrolar da história.
Assim, é sob a luz dos múltiplos reflexos da dinâmica colonizadora que se compreende a concepção da violência em sua força material e, principalmente, imaterial. Pode-se, portanto, dizer que é nesta força imaterial que reside o fenômeno da violência institucional e estrutural, apresentando situações de dominação que abrangem múltiplos aspectos da vida social e política, implicando em uma maior dificuldade para sua identificação, pois muitas vezes ela está camuflada por mecanismos de acobertamento e de poder. Tal percurso representa um desenho, ou melhor, uma ‗cartografia‘ de como as relações sociais (re)produzem, engendram e conformam os sujeitos – e conhecimentos – ao escopo da dominação e da subalternização.
3.2 A emancipação social no pensamento de Boaventura de Sousa Santos: a