emir sader
4. A construção do pós-neoliberalismo
O Brasil passou, em poucas décadas, por uma ditadura militar – 21 anos – por gover- nos neoliberais –12 anos –, e agora já completa 10 anos de governos pós-neoliberais. São mudanças muito radicais, num espaço relativamente curto de tempo.
Durante 38 desses quase 50 anos, a desigualdade se intensificou, a concentra- ção de renda e a exclusão social aumentaram. O Estado foi de um aparato blindado militarmente, fundado na Doutrina de Segurança nacional, promotor de políticas a favor do grande capital nacional e internacional, a um Estado mínimo, fundado nas doutrinas liberais de mercado, com políticas favoráveis ao capital financeiro.
Os governos do Lula e da Dilma representam uma ruptura com essas décadas, promovendo uma inflexão marcante na evolução da formação social brasileira. Por mais que o modelo neoliberal siga dominante em escala mundial e nosso próprio país ainda sofra os reflexos das transformações regressivas realizadas pelos governos neoliberais, os governos do Lula e da Dilma nos colocaram na contramão das tendências mun diais.
Esses governos de resistência se construíram como respostas anticíclicas às ten- dências recessivas do centro do capitalismo. Conseguiram resistir à recessão, mas ti- veram de se adaptar aos retrocessos impostos pelo neoliberalismo: a desindustria - liza ção, o protagonismo de exportador primário, uma sociedade fragmentada, as ideo logias consumistas.
Como construir sociedades democráticas, solidárias, humanistas, a partir dessa herança? é esse o maior desafio para o Brasil e para os governos pós-neoliberais da América Latina. não basta reagir à recessão e às fórmulas superadas do livre-comércio, do Estado mínimo, da centralidade do mercado etc. é preciso ter um projeto de socie- dade, tomando a fase atual – pós-neoliberal – como um momento de transição para projetos que não apenas reajam e resistam à onda neoliberal, mas se proponham a construção de sociedades justas, soberanas e solidárias.
no caso do Brasil, é necessário quebrar o papel hegemônico do capital financeiro, que insiste em canalizar seus investimentos para a especulação, a atividade econômica antissocial, que não cria nem bens nem empregos. Esse capital resiste a todos os in- centivos do governo para uma reciclagem na direção dos investimentos produtivos.
Acentuar as formas de tributação da movimentação do capital financeiro, levar adiante uma reforma tributária socialmente justa – em que quem tem mais paga mais –,
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reforçar um papel ainda mais atuante dos bancos públicos e exigir contrapartidas a todas as formas de isenção e de subsídio do governo na direção de investimentos pro- dutivos e da criação de empregos são algumas das medidas para a quebra da hegemo- nia do capital financeiro, sob sua modalidade especulativa, que segue ainda vigente no Brasil. Essas devem ser tarefas centrais do governo.
O governo também precisa promover uma agricultura, que não seja meramente voltada à exportação, mas garanta autossuficiência alimentar, gerando empregos e acesso à terra aos milhões de trabalhadores ainda sem terra, além de fortalecer cada vez mais a economia familiar, a que realmente produz alimentos para o mercado in- terno e gera empregos no campo.
Além da quebra do monopólio do dinheiro – o capital especulativo – e do mono- pólio da terra, o Brasil precisa democratizar a formação da opinião pública, precisa produzir a democratização do acesso à palavra, precisa quebrar o monopólio dos meios de comunicação. Precisa fazer com que o imenso processo de democratização social chegue ao plano cultural, com a multiplicação dos espaços de informação, discussão, intercâmbio e criação cultural. País democrático é aquele onde há meios de comuni- cação pluralistas, que expressem a imensa e rica diversidade cultural e de opiniões de seu povo, não mais privilégio de alguns, dos mais poderosos.
A democracia não pode se reduzir ao acesso de todos aos direitos sociais funda- mentais e tem de incluir o direito à expressão. Para que o povo participe, não apenas sob a forma limitada do voto, do consenso passivo, mas da participação política mais plena, que o eleva a sujeito da história e não apenas objeto das políticas do governo, o direito à expressão é tão essencial quanto o direito de acesso aos bens materiais. há uma herança a ser quebrada aí, já que a democratização do Brasil veio acompanhada de um fortalecimento do monopólio dos meios de comunicação, com o mandato de cinco anos de Antônio Carlos Magalhães no Ministério das Comunicações, que conso- lidou o poder dos grupos oligárquicos tradicionais sobre as rádios, as tVs, os jornais e as revistas.
A alternativa na democracia não pode se colocar entre silenciar a mídia ou deixá-la sob monopólio privado, na mão de algumas famílias no caso brasileiro, o que silencia todos os que não têm acesso aos espaços midiáticos, a grande maioria da população. A assunção dos proprietários das empresas de mídia de que eles são o verdadeiro partido da oposição significa, expressamente, que eles não têm neutra- lidade, nem pretendem ser espaço para a formação democrática e pluralista da opinião pública.
na internet, conseguimos fazer “guerrilha”, com dinamismo e criatividade. Mas o papel de “exército regular”, que ocupa os grandes espaços e forja a agenda política nacional, está com os grandes meios. Os jornais, com tiragens sempre descendentes, fornecem a pauta para as rádios e as tVs, de forma concatenada, pela propriedade cruzada das grandes empresas monopolistas.
Outro eixo essencial para a superação do neoliberalismo é o financiamento pú- blico das campanhas eleitorais. O neoliberalismo representa um tipo de sociedade em que prima o poder do dinheiro, em que tudo tem preço, tudo se vende, tudo se com- pra, tudo é transformado em mercadoria. Da mesma forma que o poder do dinheiro
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se impõe nos meios de comunicação, o sistema político também é diretamente condi- cionado pelo poder econômico, fazendo com que entre o povo e seus representantes interceda o dinheiro, que financia desigualmente as campanhas eleitorais.
Como resultado, os parlamentos não representam a sociedade, mas refletem a desigual distribuição de renda, o que gera um Congresso dominado pelos lobbies – do agronegócio, das escolas privadas, dos planos de saúde privados, dos proprietários de meios de comunicação, das igrejas evangélicas, entre outros.
Superar um tipo de sociedade fundada no poder do dinheiro, da desigualdade econômica e social supõe contar com a consciência e a mobilização popular, o que requer a democratização dos meios de comunicação e da representação política.