O processo de construção da decisão quanto ao empreendimento refere-se
às estratégias utilizadas pelos agentes públicos e privados na implantação de uma
agenda nacional de desenvolvimento, pela implantação do PAC. Ele se constitui no
arranjo entre atores públicos (agentes dos governos federal, estadual e local) e
privados (empresas consorciadas) no processo prévio à implantação do
empreendimento.
Nesse processo, os governos constroem alianças com a finalidade de retomar
o desenvolvimento econômico nacional autônomo; estimular o crescimento e
fomentar, ao mesmo tempo, a criação de emprego e o aumento de renda das
famílias e trabalhadores residentes.
Para a retomada do desenvolvimento nacional com base na indústria nacional
o governo propôs recuperar a indústria naval, criando incentivos e políticas públicas
de forma a que empresas privadas pudessem investir no projeto.
Essa compreensão demonstra do ponto de vista analítico, a afinidade entre a
esfera política (dos governos e partidos) e a esfera econômica (empresas
consorciadas), questionando as contradições da própria estrutura institucional e
política que podem influenciar e definir o destino do lugar e legalizar processos de
espoliação dos bens naturais e sociais.
A implantação de um empreendimento desse porte reorganiza as regulações
pré-existentes e produz rupturas de pactos anteriores, mesmo institucionais, em
relação à RESEX, alterando as suas delimitações territoriais, que influenciam a
organização social local e o acesso da coletividade local ao uso dos recursos
marinhos.
A decisão do empreendimento envolve,
[...]preferências dos agentes envolvidos na escolha (cidadãos num
referendo, vereadores numa câmara municipal, deputados no
parlamento) e regras e procedimentos que permitem passar de
preferências diversas de cada indivíduo para uma única escolha
coletiva. (PEREIRA, 1997, p. 424).
Nesse sentido, a tese busca recuperar as convenções e regras institucionais
e regulatórias relativas aos usos e destino do lugar observando as seguintes
dimensões:
a) a perspectiva processual de construção da política (e decisão pública) pela
qual se observa a transição do uso do território pelas comunidades locais em
atividades tradicionais, e envolve tempos e escalas distintas entre os
agentes locais, nacionais e globais. Nessa tese, a regulação do território de
implantação do Estaleiro passa de uma área prioritária de preservação da
reserva marinha extrativista, que entende o desenvolvimento local
compatível com a conservação do meio ambiente e consoante o direito dos
moradores locais, passa a redefinir o ―destino do lugar‖, segundo regras e
princípios do PAC, reorientados para a retomada setor produtivo indústria do
poço naval e do crescimento nacional;
b) esse deslocamento da área resulta de um arranjo e articulação dos atores
políticos e econômicos sobre a área do empreendimento e implica uma
simbiose entre a esfera política, a esfera econômica e o território específico.
Desse ponto de vista, indaga como essas relações influenciam as escolhas
sociais da economia regional, que afetam o território e comprometem o bem
público e natural e os direitos dos cidadãos residentes;
c) a noção de bem público, que orienta as decisões no âmbito das práticas do
controle democrático e envolve o destino e uso dos bens naturais, não é
consensual, mas conflitiva, e supõe a disputa de diversos sujeitos e projetos
(preservação socioambiental e retomada do crescimento econômico
nacional), que envolvem concepções também distintas;
d) operacionalmente, a análise do território abarca conflitos de regulações
nacionais conflitantes em sua institucionalidade sobre um mesmo território
local: tanto uma regulação orientada segundo princípios de preservação do
comum (área da RESEX); como o processo de intervenção prioritária da
retomada do desenvolvimento do PAC (envolvendo poderosos interesses
públicos e empresarias externos). A crise institucional e política nacional que
atingiu o governo da Presidenta Dilma em 2015 afetou drasticamente o
território pela sua desregulação total na paralisação do empreendimento e
frustração do desenvolvimento pretendido implicando ainda a subtração de
recursos naturais antes manejados pela população local.
Assim, a análise do empreendimento envolve um processo de interação entre
os processos políticos e econômicos na sua perspectiva de reestruturação do
espaço localizado, no tempo presente. Dessa perspectiva, a análise abarca as
regras regulatórias resultantes de cada decisão e enfatiza, sobretudo, as causas e
determinantes das decisões políticas sobre o empreendimento local e como essas
se alteram ao longo do curto espaço de tempo até chegar ao contexto da crise
institucional de 2015 com a ―frustração do empreendimento‖.
O governo intervém sobre o território, desconstruindo o espaço natural, no
qual as famílias retiram o seu sustento, interferindo no dia a dia da comunidade.
Quando os interesses ultrapassam o bem-estar de toda uma comunidade e colocam
em risco uma área inteira de conservação, o olhar sobre esses empreendimentos
supõe observar-se de forma crítica essas decisões públicas, e considerar a natureza
contraditória entre a formação do valor de troca e do seu valor de uso e de
reprodução das populações residentes.
2.6.1 O conceito de território
O conceito de território será objeto de uma definição detalhada no próximo
capítulo (2) dessa tese. Considerando a área de localização do empreendimento em
zona costeira, Arzabade (2011, p. 6) entende que:
O ordenamento territorial da zona costeira é tema central no
equacionamento do desenvolvimento sustentável sendo necessário
para harmonizar os conflitos decorrentes dos múltiplos interesses
que recaem sobre o uso desse território. No Brasil, parte
considerável da zona costeira, na qual se incluem os terrenos de
marinha e seus acrescidos, são patrimônio público da União.
O conceito de território se constitui num ―[...] espaço definido e delimitado por
e a partir de relações de poder (SOUZA, 2012, p. 78. Grifo nosso)‖. O autor vai mais
além e questiona ―quem domina e influencia ou como domina ou influencia esse
espaço?‖ (SOUZA, 2012, p. 79). O desenvolvimento territorial se vincula à ação do
Estado na sua atuação quanto às decisões políticas e sociais, dentro do âmbito da
organização administrativa do espaço e pode ser também compreendida como
―mediação simbólica, cognitiva e prática, que a materialidade dos lugares exercita
nas ações sociais‖ (SAQUET, 2009, p. 87).
Nessa ebulição de relações de poder e identidades simbólico-culturais
(SAQUET, 2009), tais processos estão inseridos no interior da formação de cada
território, e, por consequência, nos arranjos territoriais deles derivados, tanto no
âmbito das instituições sociais, como no seio familiar.
De acordo com Santos (2010, p. 77),
[...] o Estado e suas instituições influenciam decisivamente o
desenvolvimento de base territorial, à medida que diferentes
institucionalidades locais e regionais (no esteio de processos de
descentralização de recursos) condicionam as formas de articulação
às redes de produção globais, promovendo maior desigualdade em
termos de desenvolvimento.
No âmbito local, as relações políticas de controle e de utilização de recursos
locais e naturais preexistentes entre comunidade, governo Estadual e o consórcio
responsável pelo empreendimento fazem com que as relações não sejam
espontâneas, mas implicam arranjos entre de atores locais com atores externos,
responsáveis pela instalação do empreendimento, o que pressupõe processos de
dominação e subalternidade de projetos.
2.6.2 A noção de “evento”- elemento disruptivo da reestruturação do território
A relação entre tempo/espaço pressupõe uma recuperação da história inscrita
no campo empírico, como analisa o autor:
Nesse sentido, temos a noção de tempo empírico como solução a
ser encontrada. Como unir tempo e espaço, este sempre contendo
um componente empírico, se o tempo não for considerado na sua
empiricidade, na sua historicidade, que está atrás da sua realização
histórica e geográfica? Realização entendida no sentido de tornar-se
realidade, de fazer-se atualidade. (SANTOS, 1996, p. 16).
No caso em estudo, a anterioridade do espaço empírico do empreendimento
é delimitada pela institucionalidade da RESEX. A novidade sobre o território
constitui-se na implantação do projeto nacional do Estaleiro Enseada Indústria
Naval, no tempo presente, transmutando o tempo necessário ao projeto proposto e
do território em que ele se implanta. A instalação desse empreendimento, do ponto
de vista analítico, constitui-se como um evento disruptivo, que rompe empiricamente
a simbiose entre tempo e espaço expresso no campo empírico da área do
empreendimento. O território passado, o presente (como futuro projetado e
desconstruído), que acompanham a dinâmica de instalação do Estaleiro Enseada
Indústria Naval sobre o território e têm efeito sobre os direitos da comunidade local.
3 ASPECTOS NORMATIVOS DA REGULAÇÃO DO TERRITÓRIO:
No documento
UNIVERSIDADE CATÓLICA DO SALVADOR PRÓ-REITORIA DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO
(páginas 58-63)