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A CONSTRUÇÃO DO PROJETO NACIONAL SOBRE O ÂMBITO LOCAL . 59

O processo de construção da decisão quanto ao empreendimento refere-se

às estratégias utilizadas pelos agentes públicos e privados na implantação de uma

agenda nacional de desenvolvimento, pela implantação do PAC. Ele se constitui no

arranjo entre atores públicos (agentes dos governos federal, estadual e local) e

privados (empresas consorciadas) no processo prévio à implantação do

empreendimento.

Nesse processo, os governos constroem alianças com a finalidade de retomar

o desenvolvimento econômico nacional autônomo; estimular o crescimento e

fomentar, ao mesmo tempo, a criação de emprego e o aumento de renda das

famílias e trabalhadores residentes.

Para a retomada do desenvolvimento nacional com base na indústria nacional

o governo propôs recuperar a indústria naval, criando incentivos e políticas públicas

de forma a que empresas privadas pudessem investir no projeto.

Essa compreensão demonstra do ponto de vista analítico, a afinidade entre a

esfera política (dos governos e partidos) e a esfera econômica (empresas

consorciadas), questionando as contradições da própria estrutura institucional e

política que podem influenciar e definir o destino do lugar e legalizar processos de

espoliação dos bens naturais e sociais.

A implantação de um empreendimento desse porte reorganiza as regulações

pré-existentes e produz rupturas de pactos anteriores, mesmo institucionais, em

relação à RESEX, alterando as suas delimitações territoriais, que influenciam a

organização social local e o acesso da coletividade local ao uso dos recursos

marinhos.

A decisão do empreendimento envolve,

[...]preferências dos agentes envolvidos na escolha (cidadãos num

referendo, vereadores numa câmara municipal, deputados no

parlamento) e regras e procedimentos que permitem passar de

preferências diversas de cada indivíduo para uma única escolha

coletiva. (PEREIRA, 1997, p. 424).

Nesse sentido, a tese busca recuperar as convenções e regras institucionais

e regulatórias relativas aos usos e destino do lugar observando as seguintes

dimensões:

a) a perspectiva processual de construção da política (e decisão pública) pela

qual se observa a transição do uso do território pelas comunidades locais em

atividades tradicionais, e envolve tempos e escalas distintas entre os

agentes locais, nacionais e globais. Nessa tese, a regulação do território de

implantação do Estaleiro passa de uma área prioritária de preservação da

reserva marinha extrativista, que entende o desenvolvimento local

compatível com a conservação do meio ambiente e consoante o direito dos

moradores locais, passa a redefinir o ―destino do lugar‖, segundo regras e

princípios do PAC, reorientados para a retomada setor produtivo indústria do

poço naval e do crescimento nacional;

b) esse deslocamento da área resulta de um arranjo e articulação dos atores

políticos e econômicos sobre a área do empreendimento e implica uma

simbiose entre a esfera política, a esfera econômica e o território específico.

Desse ponto de vista, indaga como essas relações influenciam as escolhas

sociais da economia regional, que afetam o território e comprometem o bem

público e natural e os direitos dos cidadãos residentes;

c) a noção de bem público, que orienta as decisões no âmbito das práticas do

controle democrático e envolve o destino e uso dos bens naturais, não é

consensual, mas conflitiva, e supõe a disputa de diversos sujeitos e projetos

(preservação socioambiental e retomada do crescimento econômico

nacional), que envolvem concepções também distintas;

d) operacionalmente, a análise do território abarca conflitos de regulações

nacionais conflitantes em sua institucionalidade sobre um mesmo território

local: tanto uma regulação orientada segundo princípios de preservação do

comum (área da RESEX); como o processo de intervenção prioritária da

retomada do desenvolvimento do PAC (envolvendo poderosos interesses

públicos e empresarias externos). A crise institucional e política nacional que

atingiu o governo da Presidenta Dilma em 2015 afetou drasticamente o

território pela sua desregulação total na paralisação do empreendimento e

frustração do desenvolvimento pretendido implicando ainda a subtração de

recursos naturais antes manejados pela população local.

Assim, a análise do empreendimento envolve um processo de interação entre

os processos políticos e econômicos na sua perspectiva de reestruturação do

espaço localizado, no tempo presente. Dessa perspectiva, a análise abarca as

regras regulatórias resultantes de cada decisão e enfatiza, sobretudo, as causas e

determinantes das decisões políticas sobre o empreendimento local e como essas

se alteram ao longo do curto espaço de tempo até chegar ao contexto da crise

institucional de 2015 com a ―frustração do empreendimento‖.

O governo intervém sobre o território, desconstruindo o espaço natural, no

qual as famílias retiram o seu sustento, interferindo no dia a dia da comunidade.

Quando os interesses ultrapassam o bem-estar de toda uma comunidade e colocam

em risco uma área inteira de conservação, o olhar sobre esses empreendimentos

supõe observar-se de forma crítica essas decisões públicas, e considerar a natureza

contraditória entre a formação do valor de troca e do seu valor de uso e de

reprodução das populações residentes.

2.6.1 O conceito de território

O conceito de território será objeto de uma definição detalhada no próximo

capítulo (2) dessa tese. Considerando a área de localização do empreendimento em

zona costeira, Arzabade (2011, p. 6) entende que:

O ordenamento territorial da zona costeira é tema central no

equacionamento do desenvolvimento sustentável sendo necessário

para harmonizar os conflitos decorrentes dos múltiplos interesses

que recaem sobre o uso desse território. No Brasil, parte

considerável da zona costeira, na qual se incluem os terrenos de

marinha e seus acrescidos, são patrimônio público da União.

O conceito de território se constitui num ―[...] espaço definido e delimitado por

e a partir de relações de poder (SOUZA, 2012, p. 78. Grifo nosso)‖. O autor vai mais

além e questiona ―quem domina e influencia ou como domina ou influencia esse

espaço?‖ (SOUZA, 2012, p. 79). O desenvolvimento territorial se vincula à ação do

Estado na sua atuação quanto às decisões políticas e sociais, dentro do âmbito da

organização administrativa do espaço e pode ser também compreendida como

―mediação simbólica, cognitiva e prática, que a materialidade dos lugares exercita

nas ações sociais‖ (SAQUET, 2009, p. 87).

Nessa ebulição de relações de poder e identidades simbólico-culturais

(SAQUET, 2009), tais processos estão inseridos no interior da formação de cada

território, e, por consequência, nos arranjos territoriais deles derivados, tanto no

âmbito das instituições sociais, como no seio familiar.

De acordo com Santos (2010, p. 77),

[...] o Estado e suas instituições influenciam decisivamente o

desenvolvimento de base territorial, à medida que diferentes

institucionalidades locais e regionais (no esteio de processos de

descentralização de recursos) condicionam as formas de articulação

às redes de produção globais, promovendo maior desigualdade em

termos de desenvolvimento.

No âmbito local, as relações políticas de controle e de utilização de recursos

locais e naturais preexistentes entre comunidade, governo Estadual e o consórcio

responsável pelo empreendimento fazem com que as relações não sejam

espontâneas, mas implicam arranjos entre de atores locais com atores externos,

responsáveis pela instalação do empreendimento, o que pressupõe processos de

dominação e subalternidade de projetos.

2.6.2 A noção de “evento”- elemento disruptivo da reestruturação do território

A relação entre tempo/espaço pressupõe uma recuperação da história inscrita

no campo empírico, como analisa o autor:

Nesse sentido, temos a noção de tempo empírico como solução a

ser encontrada. Como unir tempo e espaço, este sempre contendo

um componente empírico, se o tempo não for considerado na sua

empiricidade, na sua historicidade, que está atrás da sua realização

histórica e geográfica? Realização entendida no sentido de tornar-se

realidade, de fazer-se atualidade. (SANTOS, 1996, p. 16).

No caso em estudo, a anterioridade do espaço empírico do empreendimento

é delimitada pela institucionalidade da RESEX. A novidade sobre o território

constitui-se na implantação do projeto nacional do Estaleiro Enseada Indústria

Naval, no tempo presente, transmutando o tempo necessário ao projeto proposto e

do território em que ele se implanta. A instalação desse empreendimento, do ponto

de vista analítico, constitui-se como um evento disruptivo, que rompe empiricamente

a simbiose entre tempo e espaço expresso no campo empírico da área do

empreendimento. O território passado, o presente (como futuro projetado e

desconstruído), que acompanham a dinâmica de instalação do Estaleiro Enseada

Indústria Naval sobre o território e têm efeito sobre os direitos da comunidade local.

3 ASPECTOS NORMATIVOS DA REGULAÇÃO DO TERRITÓRIO: