3 ASPECTOS NORMATIVOS DA REGULAÇÃO DO TERRITÓRIO: direito
3.2 A DIMENSÃO DO DESENVOLVIMENTO TERRITORIAL
Desenvolvimento territorial se constitui, portanto, no processo que transforma
o espaço a partir das organizações, instituições e políticas (PIRES, 2007),
estabelecendo articulação dos atores nesse território. Neste caso, o agente principal
do desenvolvimento são as instituições e organizações, públicas ou privadas, que
atuam através das políticas públicas, prevendo recursos específicos a serem criados
ou implantados no local ou região ou articulando o local à outras escalas.
Pires (2007) entende o desenvolvimento territorial como resultado de ―uma
ação coletiva intencional de caráter local e específica‖ (PIRES, 2007, p. 160), com o
objetivo de promover arranjos de regulação das práticas sociais. O autor fala em
superação do dilema da regulação por parte do Estado e das corporações.
Estes elementos fundam um território local. Desta forma, o Estado
(poder público), o mercado e a sociedade civil comunitária seriam os
três agentes capazes de resolverem os grandes conflitos, a
promoverem o território a assumir o papel de agente do
desenvolvimento, e das mudanças socioespaciais. Todavia, qualquer
forma de se apoiar, doutrinariamente, em apenas uma das três
pontas do triângulo (Estado, mercado, sociedade civil comunitária),
incluiria o perigo de eliminar e incapacitar as outras fontes de ação,
necessárias para a criação, regulação e a integração social (PIRES,
2007, p. 161).
Uma vez que o desenvolvimento territorial implica interesses potencialmente
conflitantes de variados atores sociais, a partir das mudanças nele implementadas,
impõe-se a necessidade de sua regulação. É necessário lembrar que não somente
os interesses econômicos imperam na disputa pelo território, mas existem também
diversas outras dimensões extra-econômicas, relacionadas ao desenvolvimento, ao
pertencimento e aos interesses públicos.
Nesse sentido é que o debate da governança do desenvolvimento
territorial se pauta em um equilíbrio necessário e complementar entre
o Estado, o mercado e a sociedade civil/comunidade. Ao Estado
corresponde a capacidade humana de julgamento razoável, ao
mercado corresponde o interesse, e à comunidade corresponde a
solidariedade. Nesse sentido, acentua-se a cooperação na estratégia
de desenvolvimento, o alcance dos aspectos extra-econômicos, que
objetivaria a sensibilização da comunidade ou da região para suas
vocações e potencialidades, partindo das vantagens econômicas e
extra-econômicas localizadas, através de um processo de
governabilidade participativa, democrática e solidária que envolveria
governos (federal, estadual e municipal), entidades de classe,
organizações não governamentais e lideranças comunitárias (PIRES,
2007, p. 160).
Imaginemos um território ocupado por determinada comunidade, que recebeu
uma obra de grande impacto no sistema de transporte em seu entorno (metrô,
rodovia, estação rodoviária). Outros atores desejam ocupar aquele espaço,
originalmente território da comunidade primitiva (no sentido de primeira ou
precedente), gerando, então uma série de conflitos de interesses de ordem
econômica, social, ambiental, política.
Com essa perspectiva, Pires (2007) entende a mudança social como um
resultado combinado dessas ambiguidades. De um lado, cria-se um aparato de
Estado para regular o território, por outro, persistem esquemas de solidariedade
territorial local e, por fim, uma estrutura financeira de investimentos, interna ou
externa, com interesses econômicos no território, e, acrescente-se, também,
externos ao território. Nesse sentido, o autor afirma que os territórios ―têm se
convertido em novos atores coletivos e novas fontes de vantagens competitivas‖
(PIRES, 2007, p. 160).
Outra questão importante é como os interesses criados pelo desenvolvimento
territorial e as políticas que o fomentam passarem a ser delegadas a outros atores,
que não só o Estado, assumindo este, muitas vezes, um papel de regulador do
desenvolvimento local, antes implementado somente pelo Estado (PIRES, 2007).
Há, inclusive, um interesse recente da economia pela dimensão territorial ou
espacial do desenvolvimento. (ABRAMOVAY, 2000).
Abramovay (2000) mostra as possíveis relações entre mercado e território
não como entidades dadas por uma dotação natural, mas sim como...
[...] o resultado de formas específicas de interação social, da
capacidade dos indivíduos, das empresas e das organizações locais
em promover ligações dinâmicas, capazes de valorizar seus
conhecimentos, suas tradições e a confiança que foram capazes,
historicamente, de construir (ABRAMOVAY, 2000, p. 9).
A empresa, como um novo ator do desenvolvimento territorial, apesar da sua
importância devido à intervenção econômica, não corresponde a um agente
inovador isolado. Para Abramovay ―ela é parte do meio que a faz agir‖ (2000, p. 10).
Sendo assim, mesmo que a proposta do desenvolvimento atenda aos objetivos
nacionais, os mesmos dependem de elementos já pertencentes ao plano local ou
regional (ABRAMOVAY, 2000). Tem-se, então, a presença de meios inovadores que
não possuem localização ou atributos físicos no território onde atuam, mas trazem
para este o capital de suas relações.
Gehlen e Riella (2004) se referem ao modo como os agentes da sociedade
global interferem na construção identitária dos territórios, introduzindo elementos
sócio-econômicos-culturais, que modificam o sentido territorial local e criam
mecanismos de competitividade. Os autores propõem para a ação coletiva local,
estratégias para gerir os benefícios dessa competitividade, através da organização
coletiva local e da negociação de conflitos.
Este processo constrói um patrimônio sociocultural respaldado na
tradição (história local) e possibilita apontar alternativas inovadoras.
Aos poucos, sedimenta uma memória coletiva rearticulando os
saberes e as relações com o meio natural e com o patrimônio
material e simbólico e desencadeando processos de construção de
cidadania. Seria inimaginável, nesse processo compartilhado, a
implementação de um modelo de desenvolvimento que não seja
sustentável segundo os padrões atuais do conhecimento e das
tecnologias. (GEHLEN; RIELLA, 2004, p. 21).
Para os autores, ademais, quando se pensa em direito ambiental é pertinente
considerar-se a realidade do território na modernidade, encarando a dicotomia entre
rural e urbano e suas respectivas funções. As modificações trazidas às atividades
agropecuárias podem ter como consequência a preservação ambiental, aliada ao
desenvolvimento cultural das tradições, das identidades e de novas organizações
societárias. Novas atividades passam a encontrar lugar de existência e coerência
tanto em escala local como regional ―como agroecoturismo, artesanatos,
agroindústrias "caseiras", valores estéticos ambientais‖ (GEHLEN; RIELLA, 2004, p.
22). Neste caso, o desenvolvimento é fundador de uma nova ruralidade, com novas
funcionalidades e interações societárias.
A inserção de atores globais externos no âmbito desse desenvolvimento
territorial modifica o território e suas interações alteram a natureza das interações
sociais, a espacialidade, a economia e outros aspectos. Nesse sentido, a
intervenção racional sobre territórios implica a necessidade de mobilização dos
recursos e das competências, através de atribuições de responsabilidades sociais,
por meio de processos participativos. Essa a função primordial de uma governança
democrática, considerada aquela realizada pela discussão dos projetos e dos
sentidos e objetivos do desenvolvimento realizadas em arenas de discussão dos
estudos de impactos, como analisa Ivo, 2016. A organização e mobilização das
sociedades locais diante da discussão do empreendimento envolve a maneira de
gerenciar conflitos e de estabelecer relações para que se consiga aproveitar os
benefícios trazidos por agentes externos e rejeitar ou negociar os malefícios,
impedindo que uma intervenção seja social e culturalmente deletéria em escala local
ou regional.
No documento
UNIVERSIDADE CATÓLICA DO SALVADOR PRÓ-REITORIA DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO
(páginas 66-69)