4 OS CONDICIONANTES HISTÓRICO-ESTRUTURAIS DA RETOMADA DA
4.4 A DESCOBERTA DO PRÉ-SAL COMO FATOR PROPULSOR DA INDÚSTRIA
nacionais interessadas no setor possuem capacitação considerada acima da média.
(AMARAL, 2013).
4.4 A DESCOBERTA DO PRÉ-SAL COMO FATOR PROPULSOR DA INDÚSTRIA
NAVAL
A retomada da indústria naval e o Estaleiro Enseada Indústria Naval
resultaram em grande parte da descoberta da camada do pré-sal, mais
especificamente à Petrobras.
O pré-sal é uma sequência de rochas sedimentares formadas há mais de 100
milhões de anos, no espaço geográfico criado pela separação do antigo continente
Gondwana, notadamente pela fragmentação dos atuais continentes Americano e
Africano, iniciada há cerca de 150 milhões de anos. Entre os dois continentes
formaram-se grandes depressões, que originaram grandes lagos, nos quais foram
depositadas, ao longo de milhões de anos, as rochas geradoras de petróleo do
pré-sal. Como todos os rios dos continentes que se separavam correram para as regiões
mais baixas, grandes volumes de matéria orgânica foram ali depositados.
(PETROBRAS, 2018).
Essa camada de sal alcança, atualmente, 2 mil metros de espessura (Figura
6):
Figura 6 - Formação do pré-sal
Fonte: Petrobras (2018).
A camada pré-sal se estende ao longo de 800 quilômetros entre os estados
do Espírito Santo e Santa Catarina, abaixo do leito do mar, e engloba três bacias
sedimentares (Espírito Santo, Campos e Santos). O petróleo encontrado nesta área
está em profundidades que superam os 7 mil metros, abaixo de uma extensa
camada de sal que, segundo geólogos, conserva a qualidade do petróleo (FOLHA,
2009) conforme Figura 7.
Figura 7 - Descoberta da Camada pré-sal
Fonte: Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social - BNDES (2012).
A descoberta dessa reserva no Brasil representou um grande desafio para a
Petrobras, que criou um Plano de Investimento agressivo, de longo prazo, com a
descoberta de petróleo e gás nessas áreas profundas. Entre os fatores de risco
estão: o endividamento em longo prazo, por conta do alto investimento que
pressiona a geração de caixa da companhia, e o nível de alavancagem. (WHITAKE,
2015).
O projeto estratégico do pré-sal sinaliza para um robusto engrandecimento
nas finanças do governo, sem contar com o avanço e modernização da indústria
naval, como investimento direto e indireto. Segundo Machado (2012, p. 70):
[...] a estratégia econômica do petróleo do pré-sal inclui a expansão
da utilização dos recursos para as áreas de saúde, educação,
habitação, inovação e pesquisa científica e tecnológica e
infraestrutura.
Embora de alto risco, o Plano previa também uma revolução no sistema de
partilha dos royalties
27do petróleo, cerca de 30%, sendo que vários campos e poços
27
As empresas exploradoras como: Petrobras, BG Brasil, Repsol Sinopec, Statoil Brasil, Petrogal Brasil, Shell Brasil, Sinochem Petróleo, Parnaíba Gás Natural, Queiroz Galvão, ONGC Campos,
de petróleo já foram descobertos na área do pré-sal, entre eles o de Tupi, o
principal. Há também os nomeados: Guará, Bem-Te-Vi, Carioca, Júpiter e Iara, entre
outros. (FOLHA, 2009).
Conforme esta matéria da Folha (2009), em novembro do ano de 2003, o
campo Tupi apresentou reservas gigantes, o que fez com que os olhos do mundo se
voltassem para o Brasil e ampliassem o debate acerca dessa camada pré-sal. À
época do anúncio, a então Ministra-chefe da Casa CiviI, Dilma Rousseff chegou a
dizer que com aquele achado o Brasil teria condições de se tornar o maior
exportador de petróleo.
Ainda de acordo com esta matéria da Folha (2009), neste ano, as ações da
estatal tiveram forte oscilação após a empresa britânica - BG Group (parceira do
Brasil na reserva da Tupi, com 25%) – ter divulgado uma nota, estimando uma
capacidade entre 12 bilhões e 30 bilhões de barris de petróleo equivalente em Tupi,
tendo a portuguesa Galp (10% do projeto) confirmado o número.
As reservas provadas de petróleo e gás natural da Petrobras, no Brasil,
ficaram em 13,920 bilhões (barris de óleo equivalente), em 2007, segundo o critério
adotado pela ANP (Agência Nacional do Petróleo). Ou seja, considerando-se
corretas as estimativas para Tupi, este campo tem potencial até para dobrar o
volume de óleo e gás que poderá ser extraído do subsolo brasileiro. (FOLHA, 2009).
Estimativas apontam que, no total, a camada pode abrigar algo próximo de 100
bilhões de barris de óleo equivalente (BOE) em reservas, o que colocaria o Brasil
entre os dez maiores produtores do mundo. (EIA/RIMA, 2009).
Essa posição diferenciada do país do ponto de vista do controle estratégico
na área de produção de energia e gás suscita interesses econômicos e geopolíticos
de corporações internacionais, dado o papel do país como global player no âmbito
da economia e política internacionais.
Com a descoberta da reserva do petróleo na área do pré-sal, em 2006, o
governo federal considerou a possibilidade de reativação da indústria brasileira
naval, reabilitando estaleiros e construindo novos para exploração do pré-sal. De tal
espécie de indenização ao proprietário do local onde está sendo explorado o petróleo. A distribuição desses valores entre os estados e municípios brasileiros é chamada de Sistema de Partilha.
forma que no plano de política brasileira de conteúdo local para o setor de petróleo e
gás, o seu principal pilar é a indústria naval. (FIEB, 2015).
Assim, o Governo Federal incentivou grandes estatais, como a Petrobras, a
entrarem no negócio, construindo equipamentos sofisticados, com altos valores
agregados e participação numa política de conteúdo nacional e local. O desafio foi
aceito e as estatais trouxeram empresas internacionais com experiência no ramo
naval para subsidiar a retomada do setor. Essa iniciativa gerou um salto nos
empregos na área da indústria naval, que passou de 2.000 empregos, nos anos
2000, para 85 mil empregos diretos, em 2014, acompanhando o desenvolvimento de
estaleiros de alto padrão e bem desenvolvidos. (FIEB, 2015).
Com o objetivo de incentivar a competitividade entre as empresas
fornecedoras do país, contribuir para a engenharia nacional, inovar a tecnologia em
segmentos importantes, aumentar os produtos do país, aumentar o nível dos
fornecedores e contribuir para geração de novas empresas, foi criado em 15 de
janeiro de 2016, através do Decreto nº 8.637, o Programa de Estímulo à
Competitividade da Cadeia Produtiva, ao Desenvolvimento e ao Aprimoramento de
Fornecedores do Setor de Petróleo e Gás Natural. Os investimentos colocados à
disposição deste programa vêm de fundos monetários e de bancos privados que
investiram de forma a que os objetivos fossem alcançados. (FIEB, 2015). Portanto,
acertadamente, as condições de aperfeiçoamento do setor associavam-se também à
dinâmica do setor financeiro, facilitando as inversões no setor.
O sucesso da política pode ser medido pelo crescimento da área petrolífera,
que desde 2004 apresentou um percentual de crescimento de 19,4% ao ano, sendo
que, de acordo com a Organização dos Países Exportadores de Petróleo, 23 dos 50
maiores projetos offshore
28estão no Brasil.
Entretanto, o setor de Petróleo e Gás sofreu grandes prejuízos após as
investigações da Operação Lava Jato
29. Estudo publicado em 27 de agosto de 2018,
28
Offshore é um termo da língua inglesa e que significa ―afastado da costa‖, na tradução para o
português. Em termos financeiros, é designada por offshore uma empresa que tem a sua
contabilidade num país distinto daquele (s) onde exerce a sua atividade. O significado de offshore
está também relacionado com a atividade (prospecção, perfuração e exploração) de empresas de
exploração petrolífera que operam ao largo da costa. O termo offshore também tem surgido com
muita frequência associado as empresas ou contas abertas em paraísos fiscais, que são, por vezes, utilizadas para fins ilícitos e crimes do colarinho branco.
29
A Operação Lava Jato constitui-se uma das maiores investigações contra a corrupção e a lavagem de dinheiro, envolvendo agentes públicos, empresas, empresários e atores políticos.
pelo Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás e Biocombustíveis – INEEP
30demonstra a partir de um conjunto de informações, o efeito devastador nos
investimentos do país:
[...] em 2015 a força tarefa [da operação Lava Jato] provocou a
redução do equivalente a 2,0% do PIB em investimentos da
Petrobras e a diminuição do equivalente a 2,8% do PIB em
investimentos das construtoras e empreiteiras; em 2016 calcula-se
que a Operação tenha sido responsável pelo encolhimento de 5,0%
dos investimentos em formação bruta de capital fixo no país, bem
como reduziu em mais de R$ 100 bilhões o faturamento das
empresas arroladas na Lava Jato. A indústria naval, uma das mais
afetadas, chegou a empregar 82.472 mil trabalhadores em 2014,
esse número caiu para 29.539 trabalhadores em 2018. (NOZAKI,
2018).
O trabalho realizado pela Operação retardou o processo de recuperação do
setor, principalmente por criar uma espécie de criminalização dos investimentos da
Petrobras que, na atual conjuntura, seriam fundamentais para retomada do
desenvolvimento econômico brasileiro. Além do mais, tais investimentos seriam
justificados tanto pelas oportunidades abertas pelo pré-sal, como para a necessária
ampliação do parque de refino e do desenvolvimento energético do país. Processo
que acabou afetando sensivelmente as contas da Petrobras, forçando a elaboração
de um plano emergencial para que a companhia pudesse se reerguer e continuasse
a dar lucros para o governo. (NOZAKI, 2018).
Ademais, o processo desencadeado pela Operação Lava Jato
31foi
amplamente criticado por punir demasiadamente as empresas (como se pessoas
físicas fossem) envolvidas nos casos de corrupção e não utilizar razoabilidade nas
sanções aos seus dirigentes, como ocorre em países onde o Poder Judiciário
assume especial responsabilidade de buscar reduzir impactos na economia,
considerando as ações ilícitas, graves, mas específicas aos dirigentes das
corporações, como nos casos Siemens e Volkswagen, respectivamente, na
30
Disponível em:
https://www.ineep.org.br/-Os-impactos-economicos-da-Operacao-Lava-Jato-e-o-desmonte-da-Petrobras+133858. Acesso em: 14 nov. 2017. 31
Durante a finalização desta tese, o portal The Intercep_ Brasil publicou o início de uma ampla reportagem acerca do que denominaram ―Vaza Jato‖, com supostas mensagens contendo comportamento antiético do então juiz do caso, e atual Ministro da Justiça, Sergio Moro intervindo junto aos procuradores que promoveram (e ainda promovem) as investigações no âmbito da operação. Comportamento que, diante do direito brasileiro é vedado. Disponível em https://theintercept.com/2019/06/16/vaza-jato-corrupcao-sergio-moro-politica-dallagnol/. Acesso em 15 de jun. 2019.