Parte 8 - Medidas Mitigadoras, Compensatórias e Programas de Monitoramento
5.3 AS REPERCUSSÕES DOS ESTUDOS DE IMPACTO E DECISÕES
O Relatório de Impacto Ambiental foi duramente criticado pela sociedade civil,
a exemplo da Comissão Pró-Iguape, que produziu um novo estudo, apontando os
equívocos do RIMA, que, segundo eles, continha inconsistências e aspectos
incompletos de relevância socioambiental resultantes da implantação do estaleiro na
região.
O estudo da Comissão Pró-Iguape apresentou um conjunto de análises,
muitas confirmadas, denotando inconsistências na previsão da dispersão de
sedimentos, na interferência da fauna e flora e distribuição das espécies,
principalmente as marinhas, redução da atividade de pesca e mariscagem, tanto
pela alteração na fauna quanto pela reconfiguração territorial do empreendimento
(MARTINS, 2010). Ademais, alude a uma grave interferência na dinâmica social das
comunidades quilombolas e outras comunidades extrativistas locais, além do
possível agravamento do desemprego no momento de parada das obras e do
recrudescimento dos investimentos na obra.
A realização desse relatório alternativo e crítico pela Comissão Pró-Iguape
revela um papel comprometido e fiscalizador em relação ao impacto desses grandes
empreendimentos e, por outro lado, indica também o papel mediador e crítico destes
intelectuais - pesquisadores ambientalistas, universitários comprometidos com os
direitos das comunidades atingidas e com a garantia das condições efetivas das
atividades socioeconômicas e ambientais.
Em seu documento de análise do EIA/RIMA, para o Termo de Referência, a
Comissão sinaliza um conjunto de solicitações que não foram respondidas
(MARTINS, 2010, p. 61-66), tais como:
a) sobre a Localização Geográfica, o EIA/RIMA carece de indicação das áreas
legalmente protegidas (Área de Preservação Permanente e Reservas
Legais) existentes; bem como da indicação de outras interferências
consideradas relevantes;
b) sobre a área de Influência do Empreendimento, os parâmetros de uso e
ocupação do solo, indicadores sociais e de conservação da biodiversidade,
ecossistemas predominantes e populações fragmentadas não foram
utilizados na qualificação da Área de Influência do Empreendimento;
c) sobre o diagnóstico ambiental, o estudo não elencou onde seriam
apresentadas áreas de descarte de materiais; bem como não realizou a
caracterização da qualidade da água a partir de amostragens
representativas em mais de uma campanha amostral; e não descreve o
estado de conservação da biota aquática, relacionando aos aspectos de
interferência na qualidade da água e assoreamento, assim como ao uso do
solo e aos recursos hídricos.
Esses apontamentos têm relevância fundamental, seja pelo papel de
evidenciaras fragilidades dos suportes ―científicos‖ adotados, como revela um papel
ativo de membros da comunidade acadêmica quanto às tomadas de decisão sobre o
local, revelando as relações intrínsecas de um saber público
54.
Do ponto de vista do processamento e adequação legal, no dia 27 de
fevereiro de 2009 foi protocolado ofício da Diretoria de Licenciamento Ambiental –
DILIC/IBAMA, para o Diretor de unidades de conservação de Uso Sustentável, do
Instituto Chico Mendes para a Conservação da Biodiversidade (ICMBio), que pedia
compatibilidade entre o empreendimento e a área de sua instalação, já que se
tratava de uma área da RESEX. O Instituto encaminhou, de volta ao órgão, parecer
desfavorável a tal instalação, em março do mesmo ano. Diante dessa negativa e
desse impasse, os órgãos responsáveis pelo acompanhamento do licenciamento no
estado da Bahia informaram, em abril, que a área prevista para o empreendimento
seria remanejada. (MMA, 2010).
54
Aqui entendido como a externalização do papel dos pesquisadores colocado a serviço da sociedade.
27/02/2009: a DILIC/IBAMA encaminhou o Oficio nº 193/2009 ao Diretor de
Unidades de Conservação de Uso Sustentável do Instituto Chico Mendes para a
Conservação da Biodiversidade (ICMBio), solicitando manifestação acerca da
compatibilidade entre o empreendimento em questão e os objetivos de uma Unidade
de Conservação de Uso Sustentável uma vez que a localização inicial encontrava-se
inserida nos limites da RESEX Marinha Baía do Iguape.
Em novembro de 2009 publicou-se o RIMA-Estaleiro do Paraguaçu, dando
início ao processo oficial de licenciamento, com alterações de limites legais da área
da reserva extrativista. Em dezembro de 2009, o IBAMA publicou no Diário Oficial da
União o edital no qual informa o recebimento do EIA/RIMA e a realização da
Audiência Pública, realizada em 18/01/2010, com a presença de 1.315 pessoas.
(MMA, 2010).
Carvalho e Heimer (2015) atribuem a redução de três para um estaleiro, em
parte, à pressão popular contra o empreendimento, organizada pelos grupos de
extrativistas, pescadores, quilombolas e outros movimentos sociais organizados.
O Empreendimento Enseada Indústria Naval, segundo o relatório do
PAC 2 (2010), faz parte de um conjunto de estratégias do governo do
estado da Bahia em apoiar a implantação de grandes obras para
além dos eixos das capitais, que por sua vez está voltado a atender o
objetivo do Estado brasileiro em revitalizar sua indústria naval e
atender suas demandas pós-descoberta do pré-sal. (BRASIL, PAC 2,
2010). Com a proposta de processar 36 mil toneladas de aço por ano
para a fabricação de navios, plataformas e unidades de perfuração
voltadas para as atividades da indústria petrolífera (Offshore), o
Empreendimento é formado por um grupo de empresas
consorciadas, sendo a ODEBRECHT, OAS, UTC Engenharia e a
Kawasaki Heavy Industries. (SILVA, 2015, p. 494).
Em Nota Técnica nº 161/2009 – COTRA/CGTMO/DILIC/IBAMA, após
realização de check-list, o IBAMA demandou alterações/complementações de uma
série de itens relacionados ao meio biótico, além da adequação do RIMA,
considerando-o extenso e com linguagem excessivamente técnica.
No curso de sua elaboração (EIA/RIMA, 2009), foi realizada audiência
pública, em 2010. Os estudos e relatos apontados no EIA/RIMA (2009), além das
vistorias técnicas de profissionais do IBAMA, seus resultados foram descritos no
Parecer Técnico nº 042/2010 – COTRA/CGTMO/DILIC/IBAMA, que serão
pela Comissão Pro-Iguape expôs as fragilidades do EIA em 2010, como analisam
Carvalho e Heimer (2015).
O documento produzido pela Comissão Pró-Iguape expôs as fragilidades do
EIA/RIMA, ainda no ano de 2010. Tal documento demonstra que os impactos
ambientais e sociais foram erroneamente dimensionados pelo EIA/RIMA, conforme
especificado em parecer técnico, mas, mesmo assim, o projeto seguiu seu curso,
ignorando o parecer técnico de análise do EIA construído pelo IBAMA e o
documento crítico elaborado pela Comissão Pró-Iguape, do qual geólogos, biólogos,
ambientalistas e pescadores fizeram parte. (CARVALHO; HEIMER, 2015).
Em março de 2010, o Ministério do Meio Ambiente, através do IBAMA, emitiu
o parecer técnico n°042/2010, de análise do EIA Estaleiro Enseada. Este parecer do
IBAMA tomou por base o EIA e a Audiência Pública de implantação do
empreendimento, além das vistorias técnicas realizadas nas áreas de influência do
mesmo. Este parecer aponta inconsistências do EIA em relação a alguns elementos
físicos e outras observações, como a falta de um programa de proteção de
aquíferos. A conclusão do Parecer foi a de que para os meios físico e biótico o EIA
apresenta erros, falhas e falta de dados do meio biótico, o que levou à solicitação de
levantamentos complementares. No que tange ao meio socioeconômico, o parecer
concluiu que o EIA apresentou informações que retratam a realidade local, mas
solicitou-se, como complemento, um plano de ações para conter a ocupação
desenfreada da região (BRASIL, 2010).
Além da Odebrecht
55, OAS
56e UTC Engenharia
57, que formaram juntas o
consórcio Estaleiro do Paraguaçu Participações, responsável pela obra do Estaleiro,
55
A Odebrecht Participações e Investimentos S.A. é uma organização empresarial de origem brasileira com atuação nos setores de infraestrutura, energia, saneamento, química e petroquímica, transporte e logística, agroindustrial, imobiliário, defesa e tecnologia. É a maior exportadora brasileira de serviços e uma das maiores multinacionais do Brasil, com atuação em 93 países. Em
1981, foi criada a Odebrecht S.A., holding da Organização é responsável pelo direcionamento
estratégico e pela manutenção da unidade filosófica, assegurada pela prática da Tecnologia
Empresarial Odebrecht (TEO). (EEPSA, 2013) e (ODEBRECHT – ESTRUTURA EMPRESARIAL,
2018). 56
A OAS Investimento S.A. é uma das maiores empresas de engenharia do Brasil, está presente em mais de 20 países. Atua na construção de estradas, barragens, hidrelétricas, portos e aeroportos e também investindo em setores como infraestrutura, saneamento ambiental, incorporação imobiliária,
energia e concessões de serviços públicos – como vias urbanas, rodovias, metrôs e aeroportos.
(EEPSA, 2013). 57
A UTC Participações S.A. possui atuação global, sendo uma das maiores empresas brasileiras de Engenharia Industrial. Destaca-se por obras de grande porte nos segmentos de óleo e gás, petroquímica, energia, siderurgia, papel e celulose, mineração e manutenção industrial. (EEPSA, 2013).