Principio X – Direito a crescer dentro de um espírito de
1.2 – A CRECHE E A SUA FINALIDADE
As roturas ocorridas ao longo de anos, nas estruturas familiares e sociais, que tiveram como âncora a sociedade moderna, levaram a que a concepção de criança e a sua educação não fosse sempre igual. Hoje, cada vez mais as famílias têm necessidade de deixar os seus filhos desde a mais tenra idade aos cuidados de instituições que os acolham, que cuidem, que os eduquem e os estimulem. Estas transformações impõem-nos reflexões constantes acerca da responsabilidade social e educacional da Creche.
Segundo Carvalho (2012, p.18):
―Na sequência das suas ideias apresentadas em textos anteriores (Portugal, 1998; Portugal & Laevers, 2010), defendeu que as crianças só estarão disponíveis para se implicar em atividades que contribuem para o seu desenvolvimento e aprendizagem se as suas necessidades forem satisfeitas, garantindo o seu bem-estar (Laevers, 1997; Portugal, 2012). Estas necessidades (físicas, de afeto, de segurança, de reconhecimento e afirmação, de sentimento de competência e de significados e valores) devem ser tidas em conta na planificação dos objetivos educativos, tendo em vista o bem-estar e implicação das crianças (Portugal, 2012).
Na sua perspetiva, as finalidades educativas da creche são: (1) o desenvolvimento de um sentido de segurança e autoestima (que se relacionam com a confiança e competência para dominar o seu corpo, o seu comportamento e o mundo; (2) o desenvolvimento da
curiosidade e ímpeto exploratório; e (3) o desenvolvimento de competência social e comunicacional.
O currículo é desenvolvido nas interações, nas rotinas e no brincar, sendo fundamental assumir sempre a perspetiva da criança e envolver a família como um parceiro imprescindível‖ (Portugal, 2011; 2012 cit por Carvalho, 2012).
Pressupõe-se daqui que é necessário resgatar no espaço Creche as manifestações próprias, o espaço da brincadeira e do jogo, da interação e da relação, dos afetos e da expressão das diferentes linguagens.
1.2.1 – DO APOIO SOCIAL AO DESENVOLVIMENTAL; DA SOCIALIZAÇÃO À EDUCAÇÃO O pronunciarmo-nos sobra a natureza, função e características da educação de infância supõe, implícita e explicitamente, pronunciarmo-nos sobre o modelo de sociedade em que vivemos e cuja formação se quer construir e o modelo de pessoa e cidadão que se pretende formar. Estes modelos enunciados na Lei de Bases do Sistema Educativo definem claramente que a educação é antes de mais uma prática social imbuída de fortes funções socializadoras e de ―formação da personalidade‖ (Tedesco 2000, p.116). Ou seja a educação alicerça todo o seu ideário numa determinada forma de entender as relações entre o desenvolvimento do ser humano e o contexto social e cultural no qual, sempre e necessariamente, este desenvolvimento tem lugar. Deste modo ―educar reassume (…) a sua mais vasta significação social, ao postular que toda a verdadeira aprendizagem deve ter lugar em grupo e numa dimensão relacional‖ (Carneiro, 2001, p. 214).
A construção de uma identidade pessoal faz-se nesta dialéctica entre o social e o cultural e o desenvolvimento é uma construção evolutiva, social e cultural, que é traduzido segundo aprendizagem progressiva, sendo essencial ―reconhecer à educação esse papel-chave na modelagem do futuro, em termos de desenvolvimento, equilíbrio social, coexistência internacional e espírito de solidariedade‖ (Silva et al., 1988, p.174).
Considerando a Creche como um contexto que para além da função de acolhimento também tem que ser vista como espaço educativo, e numa altura em que o nosso país atravessa várias crises e reformas educativas, pode-se entender que esta é também uma valência que sofre com estas mudanças e exigências, mesmo não sendo tutelada pelo Ministério da Educação. Cada vez mais existe uma maior exigência dos pais e crianças para que todo o processo vá ao encontro das suas necessidades e interesses.
Vasconcelos (2011, p.5) salienta para o facto de Portugal ser um dos países europeus ― (…) onde maior número de mulheres em idade fértil trabalha a tempo inteiro: 87,2% de mulheres entre os 24 e os 34 anos de idade e 86% de mulheres entre os 35 e os 44, (…) ‖, que leva a uma crescente procura dos serviços prestados à primeira infância. A mesma autora referencia o estudo da OCDE (2006), que reconhece que estes 30 serviços de Creche ― (…) são uma necessidade nos países onde uma elevada percentagem de mulheres trabalha‖ (Vasconcelos 2011, p.8 cit por Ramos, 2012, p.29,30).
E, se por um lado a valência de Creche cobre essas necessidades, nem sempre é bem vista quer pelo corte temporário que se verifica ao longo do dia, semanas e anos da vinculação próxima que pai e mãe criaram durante nove meses de gestação e durante quatro meses de licença, e ainda, por nem sempre existirem locais/Creches em quantidade e com qualidade.
Outro senão que é enunciado no que diz respeito à permanência da criança na Creche, é o facto de esta estar mais susceptível a doenças, visto ser desde logo um Ser mais fragilizado pois é bebé, possui ainda um sistema imunitário reduzido, e por se encontrar num meio com outros elementos, crianças e adultos responsáveis, que naturalmente convivem com outras pessoas, onde a propagação pode ser mais facilitada e por sua vez permissivas de bactérias ou agentes prejudiciais, mas necessários, ao crescimento saudável das crianças.
Mas…A Creche também é considerada um bem necessário para as crianças e famílias que a frequentam. O facto de a família reconhecer este espaço como um prolongamento do ambiente familiar, como um local que oferece condições de qualidade para o desenvolvimento global da criança, do seu filho, onde pode participar activamente e onde sinta a devida segurança e confiança, e se acrescentar a tudo isto, o facto da criança se desenvolver num clima afetivo e social que lhe proporcionem bem-estar e prazer nas suas aprendizagens, ao saber comunicar, esperar, respeitar e partilhar experiências, então pode-se pensar que a Creche tem que ser considerada como um bem útil e necessário. A criança encontrará só por si e/ou em conjunto defesas e capacidades, de socialização adquirindo assim fatores que lhe permitem futuramente integrar-se como elemento constituinte da comunidade, capaz de ser e saber, pensar e fazer, transformar e transformar-se (Delors, 1996).
Uma outra vantagem que referenciamos, é o facto de juntamente com os cuidados diários de higienização da criança, a Creche tem também ao seu cargo a estimulação tanto social como cognitiva, sendo esta considerada necessária e fulcral nos primeiros anos de vida. Augusto (1985, p.14) reforça esta ideia dizendo-nos que
― …juntamente com os cuidados ligados à saúde, as Creches têm a responsabilidade da primeira fase da educação da criança, sendo a estimulação social desde os primeiros anos de vida um factor decisivo, no desenvolvimento das funções cognitivas‖.
Outro fator, que para nós resulta numa vantagem é o facto de no espaço Creche existir mais objectos, mais elementos estimulantes e assim inúmeras possibilidades de a criança se desenvolver e explorar através de outros meios não oferecidos no contexto familiar.
O contexto grupal é também ele fator decisivo no que diz respeito ao desenvolvimento da criança, pois é com esta partilha, comunhão de saberes e experiências que as crianças adquirem o espírito de pertença de um grupo - os colegas e adultos da sala, isto numa perspetiva micro-sistémica, e futuramente numa perspetiva macro-sistémica - a sociedade. As rotinas subjacentes à vida diária de uma Creche são também elementos fundamentais na estruturação do pensamento da criança, sendo estes de carácter espaço-temporal, de sequências lógicas das atividades e dos comportamentos que conduzem a um maior amadurecimento desta.
Segundo Alava et al (1993, p.99),
―…o infantário é mais fértil, quanto à utilização do espaço, dos meios e objectos concebidos para ajudar o desenvolvimento da criança, não só pelo maior número de possibilidades que lhe oferece, mas por dispor de outros meios inacessíveis ao contexto familiar‖.
A oportunidade de jogo, de socialização e de novas aprendizagens, constitui sem dúvida um reforço para as crianças, uma vez que estas imitam as restantes crianças, observam os seus comportamentos promovendo desde logo um acentuado desenvolvimento, independência e autonomia, conforme nos diz Alava et al. (1993, p.100)
―…os educadores conscientes deste facto, partem destas realidades (jogos de observação, de imitação, de relação, colectivos, possibilidades de representação, discussão ou dialogo, etc) que, além de favorecer o desenvolvimento da criança, geram nela sentimentos de afecto, amizade, companheirismo e ternura (…).‖
Acrescentamos ainda aos aspetos positivos da frequência de uma Creche, o facto de esta compensar desde a tenra idade, as desigualdades dos ambientes pobres em que algumas crianças se inserem, permitindo-lhes assim desenvolver todas as suas capacidades cognitivas, sociais e afetivas sendo esta última, uma etapa fundamental da vida da criança. Segundo Portugal (2000, p. 89)
―…aquilo que os bebés necessitam é atenção às suas necessidades físicas e psicológicas; uma relação com alguém em quem confiem; um ambiente seguro, saudável e adequado ao desenvolvimento; oportunidades para interagirem com outras crianças; liberdade para explorarem utilizando os seus sentidos‖.
No que diz respeito aos aspetos negativos da frequência de Creche, pensamos como fator principal a separação precoce mãe/pai e filho, ou seja, a desvinculação. Bowlby (1969) considerava na realidade observada por ele, que a ―separação‖ da criança, da mãe era e foi sempre reconhecido como algo doloroso para ambos. Assim, após o seu estudo, Bowlby destacou dois aspetos resultantes da desvinculação:
―…a relevância da perda ou privação (temporária ou definitiva) da figura materna para o desenvolvimento de processos psicopatológicos e ainda uma certa continuidade entre uma experiência precoce de separação da mãe e perturbação de funcionamento da personalidade na idade adulta‖ (Soares, 1996 cit por Fernandes 2001/2002, p.1).
Porém, apesar de ainda se verificar (por vezes) comportamentos negativos face à permanência da criança na Creche, esta é vista como meio propício ao desenvolvimento integral do bebé, resultando dos vários contextos estimulativos (cognitivo; sócio-emocional; físico) no qual a criança se insere. Esta (Creche) poderá ainda assim compensar a angústia da separação mãe- filho enriquecendo e desenvolvendo possíveis relações que transmitem segurança à criança de tenra idade, bem como e em simultâneo um lugar onde se adquiram e desenvolvam competências que permitam um envolvimento e entrosamento com e na sociedade, sendo crianças/adultos participativos, inovadores e empreendedores.
Tal como sobressai na ideia de Bacelar (2001, p.127 cit por Ribeiro 2010, p.20, 21) ―a educação contemporânea não se pode reduzir a uma mera transmissão de conhecimentos, a um qualquer cognitivismo mecanicista, alheio a conteúdos éticos ou valorativos‖, pois desta forma ficariam por incluir na educação uma dimensão crítica e construtiva em torno da formação social e pessoal, dos direitos do homem, da democracia e da cultura. Ou seja, a atual missão da educação é incorporar uma formação integral, ajudando ―cada indivíduo a desenvolver todas as suas potencialidades, e a tornar-se um ser humano completo‖ (Tedesco, 2000, p.60). Deste modo, a instituição educativa transformar-se-á numa escola total o que
implicaria romper com os tradicionais métodos, currículos e estratégias, adotando novas posturas (Idem, p.117).
É neste sentido que se torna importante que o profissional de educação de infância reflita sobre as políticas de educação de infância para a Creche e projete pedagogicamente estratégias de intervenção-ação, que deixem de ser puramente moralistas e higienistas e passem a ser projetos no presente, para preparar o futuro. O Educador em Creche deve ser uma referência para a criança e o seu trabalho pedagógico deve a identidade social e cultural da criança, permitindo a evolução e desenvolvimento da mesma nas múltiplas dimensões humanas.
A criança dos zero aos três anos de idade está sedenta de saberes. A Creche deve ir mais além do apoio social, da saúde, da higiene e da segurança a creche tem uma identidade própria que considera a criança como um sujeito de direitos, oferecendo-lhe condições materiais e de espaços distintos e estimuladores, de pedagogias construtivistas, onde a criança em relação e em interação aprende consigo própria através da descoberta, do conhecer e do fazer e, desta forma complementar a ação da família.