ENQUADRAMENTO EMPÍRICO
4.2– CONFRONTO COM, E REPRESENTAÇÕES SOBRE A EXPERIÊNCIA EM CRECHE
Consideramos de suma importância analisar e interpretar a valoração que a experiência em Creche teve para as protagonistas do estudo, tentando extrair, a partir daqui, contribuições
para um elencar de competências, necessárias ao trabalho pedagógico nesta especificidade pedagógica. O quadro seguinte expõe as principais unidades de sentido que nos indicam o enunciado exposto:
Quadro n.º 24 - Sistematização e interpretação dos olhares sobre as experiencia em contexto educativo de
Creche Protagonistas
do Estudo
Palavras-chave
Representações sobre as experiencias pedagógica em Creche
Ins ti tu iç ão CI F
Filó Considera um prazer a experiencia em Creche
Vera
Não possuí experiência de lecionação em Creche, no entanto tem
uma representação positiva desse trabalho através da formação em
contexto de estágio, tomando como modelo a sua educadora cooperante. Está convicta que é possível de fazer um trabalho de
qualidade em Creche.
Lúcia Teve experiências satisfatórias em Creche, nas salas de transição onde trabalhou a autonomia e a afetividade
Júlia
Considera que ser educadora em Creche não é fácil, no entanto é
gratificante, já que se cria uma relação muito estreita com as
crianças e se podem observar diversificadas evoluções. Sublinha a necessidade de um EI gostar do que faz e de se envolver totalmente.
Ana
Gostou das três experienciais de lecionação em Creche, no entanto
reivindicou o direito a seguir o grupo até aos seis anos. Considera
importante ver esta evolução e não ficar apenas na adaptação e nas aquisições básicas.
Mónica A sua prática em Creche proporcionou-lhe sabedoria para se ajustar e reajustar às diversas situações. Mara Omisso
Raquel
Em trinta e três anos de experiência só esteve a lecionar três vezes em Creche e considera que o trabalho pedagógico é muito interessante. Não se centra apenas nos cuidados básicos, mas num trabalho de
envolvimento relacional, de promover evoluções e de aprender a lidar com eles de forma idiossincrática.
Ins ti tu iç ão F MS Fernanda Omisso Gabriela
Iniciou o trabalho com muita insegurança. A sua persistência e a
experiencia direta foram fatores de aprendizagem
Glória Sentia-se muito pouco preparada e insegura. Entrou em desespero Patrícia Iniciou o trabalho com muita insegurança. A sua persistência e a experiencia direta foram fatores de aprendizagem
Ins ti tu iç ão S CM V
Matilde Nunca trabalhou em Creche
Joana
No confronto com a experiencia teve receio e inseguranças, porque considerou que era muito diferente do JI (contexto onde efetuou estágio curricular), no entanto acabou por gostar
Liliana
Sentia muitas inseguranças, porque estava consciente da sua fragilidade de formação na área, no entanto assumiu as suas fragilidades e decidiu experimentar e arriscar, até porque a sua
condição de religiosa não lhe permitia rejeitar desafios. Neste encalço abriu uma Creche na IPSS onde trabalha. Hoje não troca a sua ação
em Creche por uma ação educativa em JI
Margarida
No confronto com a experiência teve receio e inseguranças, porque considerou que era muito diferente do JI (contexto onde efetuou estágio curricular), no entanto acabou por gostar
Mafalda Nunca trabalhou em Creche
Sete das protagonistas, com experiencia de trabalho, pertencentes às instituições (CIF; FMS, SCMV), dizem ter tido experiências muito positivas e gratificantes no trabalho em Creche. Expressam-no através de vocábulos, tais como: prazer, gratificante, positivo. Nestas verbalizações, duas das protagonistas elogiam a formação inicial de forma explícita, como alavanca securizante destas experiencias.
Os receios e as inseguranças pautaram as primeiras experiencias de seis entrevistadas, por se sentirem impreparadas para o trabalho pedagógico em Creche. Observe-se a carga de insegurança deste excerto verbal proferido pela Gabriela da instituição FMS:
A mim quando me disseram: “pró ano vai para uma sala de dois anos”… eu só pensava assim: “não vou fazer nada”, “vai ser horrível”... Vou lá estar, os miúdos vão andar a destruir a sala e eu só vou dizer, não se aleijem e não vou trabalhar. Vou ficar parada! Eles [nesta idade] não fazem nada. A primeira impressão que eu tive foi esta, e andei assim uma semana. Não! Eu vou ter que conseguir fazer alguma coisa, disse para mim própria. Como é que vai ser? Como é que não vai ser? Mas com insegurança. Mas (…) nós começamos a ver que afinal conseguem!... o brincar… alguns já saltitam, já se equilibram num pé, nós… conseguem depois fazer o resto. E aquela magia, aquele mistério… brincadeiras todas …e eles… eu pelo menos senti-me realizada no fim do ano.
As instituições de formação inicial focalizam mais o ensino técnico na vertente educativa de Jardim de Infância do que na vertente educativa em Creche. Tal facto gera bastantes inseguranças aos profissionais de educação. Estes ficam com a ideia que nestas idades a criança necessita sobretudo de cuidados básicos. Normalmente, depois de vivida a experiência, mudam de ideias, tal como Gabriela (Instituição FMS) em cima supra citada ou Joana (instituição SCMV) que assume um gosto especial por esta valência:
(…) gostei imenso, porque foi diferente. Eu já tinha estado a trabalhar antes em J.I e realmente achava que estava mais bem preparada para trabalhar com crianças dos 3 anos aos 6 anos mas fui, com um bocadinho de receio mas depois acabei por gostar (…).
Existe a ideia, por parte de alguns Educadores de Infância, de um vazio pedagógico em Creche, no entanto esta ideia é representativa, apenas, da falta de conhecimentos técnicos. De facto, para exercer a profissão na valência de Creche, tal como nos diz Júlia (Instituição CIF):
(…) é preciso saber (…) acho que a maior parte das minhas colegas que dizem que não eram capazes de estar a trabalhar em Creche, se calhar é porque não têm conhecimentos, não é! E… estar numa sala com bebés sem saber o que podem fazer, o que é que eles nos têm para dar (…) a relação que nós criamos (…) nós apanhamos aquele primeiro desenvolvimento, o começar andar, começar a falar, começar a gatinhar. Todos os dias há uma aquisição… (…)
Vale aos profissionais de educação de infância a ousadia de se proporem a arriscar, mesmo conscientes das suas fragilidades formativas, tal como aconteceu às entrevistadas supra referidas, bem como a Liliana (Instituição SCMV):
Quando me propuseram ir para a Creche… eu [disse]: “se calhar eu nem sei tratar dos bebés, mas eu sei lá… vou tentar (…) vou experimentar. Bem… algumas
das minhas colegas puseram logo essa parte de fora. E eu disse assim: “Com o hábito vestido eu não posso dizer aqui que não, não é? (…) Eu lá me fui ajeitando (…) quando vim para aqui, o Sr. Provedor disse: “D. Liliana vamos abrir Creche… e eu disse: “Não sei senhor provedor, se realmente estarei preparada para uma coisa dessas, tenho mais experiência na parte infantil. Então ele disse: se a Senhora não aceita, não podemos abrir (…). E eu disse: “vamos em frente”. Vamos para frente que eu dou aquilo que souber e o melhor que puder.
Mesmo face às dificuldades avançam e confrontam-se com novos desafios organizacionais e pedagógicos, com crescentes diversidades de contextos de atuação, com necessidades emergentes de uma diferenciação do público-alvo. Nestas batalhas vão tecendo num processo evolutivo, resultante da interação entre os quadros de referência conceptuais disponibilizados [pela formação inicial] e os dados de terreno [experiencia em Creche] (Guerra, 2006, p.25), sobressaindo e ganhando maior valor formativo a experiência em contexto.