ENQUADRAMENTO EMPÍRICO
5.1– IMPORTÂNCIA DE UM EDUCADOR EM CRECHE
A resistência da existência de um educador em Creche era, a partida, um cenário que não se colocaria numa discussão reflexiva entre profissionais em exercício e entre profissionais em formação, no entanto o assentamento de uma atitude crítica às políticas, à formação e á representação social dos educadores de infância dominaram o discurso, tal como se evidencia no quadro síntese:
Quadro n.º 26 - Sistematização e interpretação dos olhares sobre a importância da existência de um Educador em Creche Protagonistas do Estudo Palavras-chave
Importância da existência de um educador em Creche
3º
A
n
o Mariana
A Creche deve ser a base da formação humana. O Educador é um
modelo quer pelo exemplo que dá, quer pelo tempo que passa com a
criança. Existem estereótipos e desvalorização social da profissão Carolina
O Educador é um modelo. Tem um lado maternal muito embora não o
substitua. Deveriam existir mais educadores de qualidade em Creche (sujeitos a um processo de avaliação)
Beatriz Omisso
4º
A
n
o
Filipa O Educador em Creche é importante e deve ter conhecimentos
Lara O Educador em Creche é importante e deve ter conhecimentos, já que estas idades são as bases da aprendizagem da criança Áurea O Educador em Creche é importante, sem dúvida
Cláudia O Educador em Creche é importante, sem dúvida
Rec ém - li cen ci ad
as Paula O Educador em Creche é importante
Filomena O Educador em Creche é importante Maria O Educador em Creche é importante
Adriana O Educador em Creche é importante e necessário em todas as salas
Ins ti tu iç ão CI F
Filó Considera fundamental um Educador em Creche, assim como os pais consideram. Lamenta que outras IPSS não respeitem esta situação e que
coloquem a profissional do JI apenas a orientar as AAE.
Vera Considera imprescindível o Educador em Creche. Este prepara-os mais para a vida do que para a escolaridade futura. Lúcia Lamenta que muitas crianças ainda não tenham direito ao apoio pedagógico da Creche
Júlia
Considera imprescindível um Educador em Creche, no entanto diz que
deveriam ser profissionais que gostassem dessa função. Conhece casos
em que uma educadora do JI orienta o trabalho e também existe uma enfermeira. Questiona e duvida das medidas de melhoria do governo
relativamente à Creche.
Ana
Considera a frequência de Creche fundamental, bem como a existência de um educador. Aliás diz que os pais hoje em dia já exigem a existência
de um profissional qualificado. Lamenta que esta exigência não seja legislada a nível nacional.
Mónica
Cabe aos Educadores de Infância, através do seu trabalho de excelência mudar a qualidade pedagógica em Creche. Considera que os pais devem
começar a sentir a imprescindibilidade de um EI em Creche e acredita
que o governo vai passar a valorizar mais esta valência.
Mara Omisso
Raquel
Considera imprescindível um Educador em Creche, bem como um trabalho muito satisfatório. Referindo o trabalho pedagógico como
amplo e relacional, não consiste, apenas, nos cuidados primários de
higiene. Lamenta que algumas colegas de profissão considerem o
trabalho em creche sem valor e invisível comparativamente ao do JI. A lei compactua com esta invisibilidade ao permitir que para toda a Creche só exista uma EI. Considera este facto uma desvalorização da profissão. Ins ti tu iç ão F MS Fernanda
Um Educador de Infância em sede de JI consegue perceber, em termos desenvolvimentais se a criança frequentou a Creche. Um Educador é imprescindível e contribui para o desenvolvimento da criança.
Gabriela Um Educador é imprescindível e contribui para o desenvolvimento da criança
Glória
Um Educador é imprescindível e contribui para o desenvolvimento da
criança e as AAE não possuem competências para desempenhar essa função.
Patrícia Um Educador é imprescindível em Creche, no entanto considera que uma boa formação é fundamental Ins ti tu iç ão S CM V
Matilde Considera de fulcral importância o Educador em Creche
Joana
Considera de fulcral importância o Educador em Creche e lamenta que o
estado não tenha apoiado mais esta valência. Percebe que a situação de valorização da Creche está a mudar, até porque os avós estão na
vida ativa até mais tarde e não podem cuidar dos netos. E para além disto o estado tem vindo a perceber que a educação se deve iniciar desde cedo.
Liliana
A instituição onde trabalha fazia distinção entre os grupos de crianças que tinham frequentado a Creche e os que não tinham, dividindo-os e atribuindo-lhe educadoras diferentes, pois considerava que era imprescindível um educador/ a frequência de Creche. Lamenta que o
tempo de serviço não seja contado do mesmo modo nas duas valências,
o que leva alguns Educadores a não quererem exercer em Creche. Margarida Considera fulcral importância o Educador em Creche
Mafalda
Considera imprescindível o Educador em Creche. Havendo diferenças
desenvolvimentais acentuadas entre as que frequentaram Creche e as
que não frequentaram
Mª José Considera de fulcral importância o Educador em Creche
Todas as protagonistas expressam vincadamente a imprescindibilidade de um Educador em Creche, para tal usam expressões fortes e vincadas, como exemplifica Raquel (Instituição CIF)
Muito. Importantíssimo, apesar de só agora estarem a ser valorizadas! (…). As crianças ficavam com os avós, para o estado nem sequer existiam porque não têm Creche, só existem a partir dos três anos e até lá, quer dizer… onde é que estamos? A idade começa a partir dos três anos? Agora sim, o estado já está a querer pensar um bocadinho na idade antes dos três anos, porque os avós já não têm tanta disponibilidade, parece que já se aperceberam do quanto é importante uma criança começar a sua educação a partir de meses. Porque a educação começa desde que ele nasce, começa logo a receber estímulos, tem de ser estimulada!
Esta imprescindibilidade aponta como fator a modernidade e a falta de tempo dos avós e a recente valorização do Educador de Infância em Creche. Nesta nota positiva não deixa de tecer críticas, tal como grande parte das entrevistadas, a um estado infértil de valorização da educação anterior aos três anos de idade por parte do estado.
Ainda a propósito da recente valorização do profissional de educação de infância é de salientar, tal como nos informa Maria José (Instituição SCMV): a educadora de infância há trinta e tal anos não tinha assim um peso tão grande. Assevera que as mutações têm sido muitas e positivas para o grupo profissional, uma vez que:
(…) hoje os pais exigem [educador em creche] porque estão habituados a que, aqui haja sempre uma Educadora ou duas ou três Educadoras na Creche, mas se nós formos às IPSS, e eu fiz fiscalização às IPSS, sei muito bem do que estou a falar (…) muitas delas nem têm uma Educadora a tempo inteiro na Creche, é a… (…)Educadora do Jardim [acrescenta cristina]. (…) que faz esse trabalho de orientação. …
Quer a Filó, quer a Júlia, Ana, Raquel (Instituição CIF), e a Glória (Instituição FMS), tecem uma crítica feroz ao facto de a Creche não ter um educador de infância a tempo inteiro, isto é, a lei exige, como é referenciado na Portaria n.º262/2011 de 31 de Agosto,
depois da revogação do Despacho Normativo nº99/89 de 27 de Outubro, a permanência de um educador na Creche, com funções educativas:
―A intervenção é assegurada por uma equipa técnica dimensionada em função da capacidade da creche e dos grupos de crianças, devendo ser constituída por:
a) Duas unidades de pessoal, técnicos na área do desenvolvimento infantil ou ajudantes de acção educativa, por cada grupo até à aquisição de marcha que garantam o acompanhamento e vigilância das crianças;
b) Um educador de infância e um ajudante de acção educativa por cada grupo, a partir da aquisição da marcha (…)‖;
e de coordenação pedagógica
―A direcção técnica é assegurada, preferencialmente, por um educador de infância, podendo ser assumida por outros profissionais com licenciatura em Ciências Sociais e Humanas ou em outras áreas das Ciências da Educação (…) compete:
a) Desenvolver um modelo de gestão adequado ao bom funcionamento da creche; b) Supervisionar os critérios de admissão, conforme o disposto no regulamento interno;
c) Promover a melhoria contínua dos serviços prestados e a gestão de programas internos de qualidade;
d) Gerir, coordenar e supervisionar os profissionais; e) Enquadrar e acompanhar os profissionais da creche;
f) Implementar programas de formação, inicial e contínua, dirigidos aos profissionais;
g) Incentivar a participação das famílias e da equipa no planeamento e avaliação das actividades, promovendo uma continuidade educativa;
h) Assegurar a interlocução com outras entidades e serviços, tendo em conta o bem - estar das crianças‖.
No entanto, as instituições aproveitam o facto de terem a valência de Jardim de Infância para remeterem uma dessas educadoras para a coordenação do trabalho pedagógico, anulando um posto de trabalho e entregando a responsabilidade pedagógica quotidiana aos AAE. Estas profissionais, na perspetiva das entrevistadas, não possuem formação adequada para assumir a condução do ato pedagógico, como sublinha Glória (Instituição FMS): As auxiliares de ação Educativa não têm formação para estar em Creche.
Reivindica-se que o estado, no organismo que tutela esta valência – Ministério da Segurança Social, pugne por um maior cuidado qualitativo por esta valência (quatro registos), uma vez que as suas atitudes levam a que a profissão de Educador de Infância não seja devidamente valorizada. Nesta linha, apontam para o facto de o tempo de serviço não ser contabilizado nesta valência, o que coloca os profissionais que aí trabalham num patamar de grande vulnerabilidade face aos profissionais de Jardim de Infância. Aliás, Liliana (Instituição SCMV), diz-nos:
(…) sou do tempo em que uma Educadora ficava com os de cá (que tinham frequentado Creche), e outra Educadora ficava com os que vinham de fora. Isto porque [o tempo de serviço em Creche] nem sequer era contado. [Aliás], era contado porque tínhamos a valência do infantil (…) e havia educadoras, que diziam que não se sentiam realizadas na Creche, (…) e então assim que surgia uma oportunidade elas saíam.
Significa que muitos Educadores pelo facto do tempo de serviço não ser contabilizado, se sentiam desmotivadas e na primeira oportunidade passavam para a valência de Jardim de Infância. Refira-se que estes patamares de desigualdade ainda hoje persistem, o que leva os profissionais a ponderarem sobre a sua permanência em Creche, já que a sua progressão na carreira fica comprometida e a sua profissionalidade assume um carater meramente assistencial.
Assiste-se a uma (des)valorização paradoxal por parte da tutela, que recomenda um currículo educativo, manuais e procedimentos de qualidade em Creche e pessoal qualificado e na prática remete esta valência e os seus profissionais para um patamar de inferioridade face aos demais.
As acérrimas críticas por parte dos protagonistas em exercício reclamam a imprescindibilidade do Educador em Creche, por considerarem que o trabalho perpassa os cuidados básicos, como nos diz Raquel (Instituição CIF):
Eu acho que é imprescindível, deve haver uma educadora de infância por sala na Creche, porque não é só mudar a fralda. Há sempre a troca [relacional] não é. Eu acho que isso é… Olhe não sei o que lhe dizer… é uma satisfação”.
As protagonistas em formação também são da mesma opinião, muito embora se fiquem pela afirmação da sua imprescindibilidade sem grande explanação argumentativa, exigindo, apenas uma formação de qualidade (três registos).