Principio X – Direito a crescer dentro de um espírito de
1.1.1 – CRECHE FAMILIAR VERSUS CRECHE INSTITUCIONAL
No que diz respeito à organização dos cuidados e educação destinados às crianças entre os 0 - 3 anos em Portugal, verifica-se que aqui, ―…são-lhe atribuídas duas grandes finalidades, a saber, apoiar as famílias na tarefa de educação dos filhos, e proporcionar a cada criança oportunidades e desenvolvimento global, promovendo a sua integração na vida em sociedade‖ (Ministério da Educação, 2000, p.40, cit por Coelho, 2007).
Recentemente a Creche é vista como um espaço Educativo necessário ao desenvolvimento e bem-estar de bebés e crianças muito pequenas. ―Hoje, a Creche é uma realidade e uma necessidade para muitas famílias‖ (Portugal, 2000, p.35). Os pais reconhecem na atualidade que este é um lugar de variáveis; estímulos cognitivos, sócio-emocionais e físicos, oferecidos às crianças através das relações interpessoais em que esta se envolve. O ambiente no qual a criança se insere é também ele fator motivador para as aprendizagens das crianças, pois de acordo com Marchão (2003, p. 15) ―…na realidade o ambiente, o espaço, acaba por se tornar num recurso educativo que se pretende adequado, facilitador de estímulos e oportunidades de expansão experiencial para as crianças da creche‖.
Contudo, estes pressupostos levam-nos a afirmar que em Portugal não existe uma definição da Creche, como serviço educativo, assumindo esta a função social e apoio às famílias, daí a valência ser tutelada pelo Ministério da Segurança Social e não pelo Ministério da Educação.
Atualmente, existem ainda para além das Creches,
―…as amas (pessoa que, por conta própria e mediante retribuição, cuida de uma ou mais crianças que não sejam suas, parentes ou afins, por um período de tempo correspondente ao trabalho ou impedimento dos pais; a mini creche (uma organização pequena e de ambiente semelhante ao familiar, incluindo 5 – 6 crianças) e, finalmente, a creche familiar (conjunto de amas, não inferior a 12 nem superior a 20, residentes na mesma zona geográfica enquadradas técnica e financeiramente pelos Centros Regionais de Segurança Social, Santa Casa da Misericórdia de Lisboa ou Instituições Particulares de solidariedade Social‖ (Ministério da Educação, 2000 cit por Coelho, 2007, p.9).
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Também as amas oficializadas36, dependem diretamente dos CRSS uma vez que a sua atividade está sujeita ao licenciamento e a normas de funcionamento desses serviços, (Decreto Lei 158/84 de 17 de Maio do Diário da República e mais recentemente a portaria n.º 232/2015 de 6 de Agosto) os quais supervisionam e apoiam técnica e financeiramente a sua atividade. Estas não necessitam de ter uma formação académica especializada para o exercício da sua função. Contudo cabe aos CRSS a responsabilidade pela sua formação, fiscalização e acompanhamento (Bairrão, 1990; Marchão, 1997). O referido decreto-lei prevê, a regularização do exercício da atividade de ama quando desenvolvida no âmbito de uma instituição de enquadramento designada por creche familiar. Esta é entendida como o conjunto de amas que estão enquadradas por instituições particulares de solidariedade social ou instituições como a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, desde que disponham da Valência Creche.
A Amas tem que respeitar um regulamento da instituição de enquadramento e o projeto pedagógico que deve ser elaborado conjuntamente e avaliado semestralmente, ou seja Segundo o Decreto-lei nº 115/2025, de 22 de Junho; ―A creche familiar visa proporcionar à criança até aos três anos de idade, ou até atingir a idade de ingresso no estabelecimento de educação pré-escolar, e em colaboração com a família‖.
Quanto às IPSS, elas são instituições que desenvolvem atividades de solidariedade social bastante diversificadas, concretamente ao nível do apoio social a crianças, jovens, idosos e crianças com necessidades educativas especiais. Têm acordos de cooperação com o Estado e apesar de apoiadas financeiramente pela Segurança Social, não estão vinculadas a normas de funcionamento, como por exemplo: critérios de admissão, composição quantitativa e qualitativa dos efetivos ou à avaliação das atividades desenvolvidas ― (…) o que pode
comprometer, nalguns casos, a qualidade dos serviços prestados‖ (Portugal, 1995, p.189).
Foi em 1985 que se começou a desenvolver em algumas zonas do país outro tipo de atendimento — as Creches familiares — que têm como suporte jurídico uma IPSS, podendo ser definidas como ― (…) grupos de amas residentes na mesma área geográfica, que deverão funcionar sob o enquadramento técnico de educadores de infância‖ (Cardona, 1997, p. 85).
A diversidade de estabelecimentos, de tutelas e de serviços prestados oferecem, só excecionalmente, boas condições de funcionamento. A prática de preços reduzidos em detrimento da inexistência de recursos humanos e materiais promove uma desleal concorrência. O Governo no sentido de controlar esta situação fez aprovar legislação, ―(…) repondo a obrigatoriedade do licenciamento e de fiscalização destes serviços e definindo as condições de instalação e funcionamento das Creches e Jardins de Infância desta natureza‖ (Portugal, 1995, p.189). Embora haja alguma legislação ela é ainda escassa e restritiva como é possível analisar no quadro n.º4 (Legislação Norteadora da Oferta Educativa na Primeira Infância Creche vs Pré-escolar). Segundo a mesma autora, as Creches portuguesas não têm praticamente um enquadramento normativo no que concerne ao seu funcionamento, à exceção das Creches particulares com fins lucrativos e das Creches dependentes dos serviços sociais do Ministério da Saúde.
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Qualquer pessoa com idade compreendida entre os 21 e os 55 anos, que por conta própria e mediante retribuição do MSST cuide diretamente de uma a quatro crianças (não familiares) entre os 3 meses e os 3 anos de idade, durante cinco dias por semana, num período mínimo de 4 horas e máximo de 12 horas diárias (Decreto-Lei n°158/84 de 17 de Maio).
Foram necessárias duas décadas para se reavaliar a Lei 30/89 imanada pelo Ministério da Segurança Social, que define as características a que devem obedecer as instituições e refere as condições do ratio educador-criança, a existência de Educadores de Infância em todas as salas à exceção do berçário, ou seja poucas alterações foram consideradas na sua revogação.
Para além destas considerações, particularmente importantes se atendermos à eficácia das instituições, devemos comtemplar
―(…) ainda, as condições gerais de localização e instalação e higiene, compartimentos e espaços necessários, equipamento e material pedagógico, condições de protecção e de segurança nas instalações, pessoal e direcção técnica, condições gerais de funcionamento do estabelecimento, incluindo a existência de um projecto educativo, objecto de programação e avaliação periódica, e articulação permanente entre a família e o estabelecimento, de forma a garantir uma continuidade de acção educativa, bem como o registo da observação sobre a evolução do desenvolvimento da criança‖ (Portugal, 1995, p.190).
De acordo com a mesma autora, isto constitui em termos gerais, aquilo que é estipulado por lei para as Creches com fins lucrativos. Nas restantes, que são a maioria, apenas existem documentos que funcionam como orientações, não estando as mesmas sujeitas a qualquer legislação específica – apesar da legislação existente se destinar às Creches com fins lucrativos, fontes do CRSS informaram que as restantes Creches se regulam também pela referida legislação (Portugal 1995).
É neste contexto que têm vindo a ser elaborados pelo ―Núcleo de Documentação Técnica e Divulgação‖, e emanados pela DGAS - Direção Geral de Acão Social, regulamentos normativos orientadores sobre Creches, que contemplam as condições necessárias à implantação, localização, instalação e funcionamento das mesmas, visando uma maior eficácia e qualidade dos serviços prestados, sendo o mais «recente» a revogação de Dezembro de 2012 do Despacho normativo n.º 99/89 e em 2005 com surgimento dos MAQRS, como anteriormente foi abordado.
Segundo o relatório do Conselho Nacional de Educação (2003), fornecidos pela Carta Social (2000) do Ministério da Segurança Social e do Trabalho, os serviços para a primeira infância no que respeita a: amas, Creches familiares e Creches, a distribuição de respostas sociais no Continente relativo à modalidade de Creche é no total de 1484. No que respeita a amas legalizadas o total é 1234 e o número de amas integradas em Creches familiares 676.
A opção da colocação das crianças em amas ou Creches depende de vários fatores de ordem psicológica, social e de ordem geográfica dado que em alguns casos, não dispondo os pais de Creches em número suficiente na área de residência ou ainda pelo facto de não serem compatíveis com os horários de trabalho, optam pela solução das amas localizadas, para evitar que a criança seja sujeita a grandes deslocações e/ou mudanças da Creche para amas ou centros de apoio.
Para algumas famílias a Creche é vista como um bem necessário devido ao facto da emancipação da mulher, assumindo cada vez mais um papel empregador na nossa sociedade, e de ambos os cônjuges necessitarem de trabalhar para o sustento da família. Contudo, alguns
agregados familiares ainda vêm a Creche como um mal necessário, devido aos focos de infeções pelos quais os filhos passam e pela dificuldade enorme de se separarem destes.
Embora haja alguns pais a optarem pelas amas pensando que é a melhor solução, podemos referir que existe uma grande tendência para a colocação das crianças nas Creches (91% do total nacional), onde as crianças podem conviver com outras da mesma idade e usufruir de pessoas qualificadas, favorecendo assim o processo de socialização e complementando o papel da família (Portugal 1995). Por outro lado, o relatório do Conselho Nacional de Educação (2003), diz também que cerca de 55% das amas legalizadas estão enquadradas técnica e financeiramente em Creches familiares enquanto que as restantes 45% são enquadradas pelos Centros Regionais de Segurança Social. Para além disto, a grande maioria das Creches (Vasconcelos 2005) está inserida em equipamentos que têm outras valências (87,6% do total), por exemplo: centro de dia para idosos (possibilitando a estes desempenhar o papel de avós) e nomeadamente o Jardim de Infância. Já com apenas uma valência do equipamento existem 12,4%. É também de salientar que existem 45% de amas a nível nacional que não estão enquadradas técnica ou financeiramente.
Na verdade, os dados demonstram um fraco índice de participação de pessoas tecnicamente preparadas / qualificadas para o atendimento das crianças dos 0 aos 3 anos de idade, apesar de com a regulamentação de Lei-Quadro, para além de outros aspetos, como afirma Vasconcelos (2005, p.42)
―(…)reconhecido o grau da licenciatura como habilitação mínima para o exercício da educação de infância (Lei 115/97, de 19 de Setembro), valorizando uma profissão decisiva para o futuro da população infantil e, em geral, para o tecido social‖.
E mais recentemente com o Processo de Bolonha em 2006 o grau de Mestrado
―O processo de aprofundamento da unidade europeia, de algum modo acentuado em 1999, tornaria necessárias alterações de fundo no sistema de formação de professores do 1º ciclo do ensino básico. A 19 de Junho, os ministros de vinte e nove estados europeus subscreveram a declaração de Bolonha, cujo objectivo primordial consistia na criação, até 2010, do espaço europeu de ensino superior que pretendia que o conhecimento, a mobilidade e a empregabilidade dos seus diplomados constituíssem factor de coesão europeia‖ (Ferreira e Mota, 2009, p. 80).
Ficando á mercê do próprio ministério do ensino superior repensar a formação do profissional de educação de infância.
―A declaração consubstancia uma mudança de paradigma de formação, ao nível do ensino superior, centrando-a na globalidade da actividade e nas competências que os jovens devem adquirir, articuladas com a evolução do conhecimento e dos interesses dos indivíduos e da comunidade(s)‖ (Ibidem).
Este novo regime de habilitações profissionais para a docência na educação de infância situa- se numa perspetiva de:
―(…) alargam-se os domínios de habilitação do docente generalista que passa a incluir habilitação conjunta para a educação pré-escolar e 1º ciclo do ensino básico ou habilitação conjunta para os dois primeiros ciclos do ensino básico. Com a estruturação
do ensino superior em três ciclos, a habilitação profissional para todos os docentes passa a ser o mestrado, um acréscimo, pelo menos, no título académico. A titularidade da habilitação profissional para a docência generalista, na educação pré-escolar e nos 1º e 2º ciclos do ensino básico é conferida a quem obtiver uma licenciatura em Educação Básica e um mestrado em Ensino (Idem p.81).
Mas, e mais uma vez onde se situa a formação especifica para um profissional em Creche, que competências a desenvolver, que competências a aplicar, que competência entre o profissional pessoa e o profissional formação/profissão?
Segundo, Gaspar-Silva (2006, p.11) podemos dizer que é urgente repensar as políticas educativas para a Creche, revendo e/ou formalizando a documentação existente, tal como as Orientações Curriculares, a Lei de Bases do Sistema Educativo, a Lei-Quadro, entre outros; ou legislando novas normas mais específicas a esta valência e à formação dos profissionais de Educação de Infância. Vasconcelos (2005, p.53) assim o exprime:
―Face ao muito que foi feito mas também aos princípios de ―engenharia‖ acima enunciados, equaciono algumas perplexidades e interpelações finais. Assumo-as como cidadã responsável, mas considero que devem ser equacionadas pelo Estado em interacção com a sociedade civil. Não basta congratularmo-nos por, em 1999, se ter ―ganho politicamente‖ a ―batalha do pré-escolar‖, sob risco de, dentro de algum tempo, dizermos, olhando uns para os outros, em espanto: ―Olha afinal o Rei vai nu!!!‖, ou pior ainda, acontecer o edifício cair-nos em cima, qual frágil castelo de cartas. As políticas têm que ser mantidas. Têm que ter memórias e devem ser profundas. No caso do edifício da educação de infância em Portugal, não podemos descuidar a manutenção das fundações e o reajuste sistemático dos andaimes‖.
Não basta apenas formarmos profissionais com mais qualificações ao nível do grau de escolarização, nem formalizar manuais de qualidade para a Creche que pela sua complexidade, divergência e difícil aplicabilidade numa prática em que os afetos, o estar e o ser com a criança são a mais-valia desta faixa etária para o desenvolvimento da mesma. E, em que a ação do Educador se deve prender muito mais no contexto prático, diário e permanente e não tanto no contexto formal de burocracia, que no nosso entender se encontra pouco refletido e permeável á ação/prática de um Educador em Creche.
Não basta exigir dos profissionais de Educação de Infância a implementação dos manuais quando estes, na sua formação, poucos ou nenhuns conhecimentos têm sobre os mesmos e a sua aplicabilidade diverge de instituição para instituição, de grupo para grupo, de criança para criança, de pedagogia para pedagogia.
Porém, não se quer com isto dizer que, quer a entrada do processo de Bolonha no sistema de ensino superior;
―A sua regulamentação, sob a forma de decreto-lei, constitui o regime jurídico dos graus e diplomas do ensino superior, debruça-se, depois de clarificar conceitos, sobre graus académicos e diplomas, a acreditação e entrada em funcionamento dos ciclos de estudos, bem como, da sua adequação, estabelecendo as disposições para os novos ciclos de estudos e as normas transitórias‖ (Decreto-lei n.º 74/2006, de 24 de Março de 2006, cit por Ferreira e Mota, 2009 p. 80).
Favorecendo deste modo um maior empreendimento na investigação-ação do profissional, na medida em que se pretende que:
―[…] o desempenho dos educadores e professores seja cada vez menos o de um mero funcionário ou técnico e cada vez mais o de um profissional capaz de se adaptar às características e desafios das situações singulares em função das especificidades dos alunos e dos contextos escolares e sociais‖ (Decreto-lei n.º 43/2007, de 22 de Fevereiro de 2007).
De igual modo, quer pela implementação dos Manuais de Qualidade, os mesmos não tenham sido uma mais-valia no reconhecimento legal desta Valência e na exigência de um maior rigor nos espaços, rácio adulto-criança, nos métodos e nas pedagogias que até então pouco ou nada eram reconhecidas e postas em prática. Hoje e através de fiscalizações pela segurança social as instituições de Creche têm que estar num plano organizacional com regulamentos, objetivos, projetos, planos de ação, entre outros, o que exige do educador um maior rigor científico e um leque de competências pessoais e profissionais.
Neste contexto de exigências não se compreende que a Creche seja ainda vista pelo Ministério da Educação como um mal-menor na educação das crianças e não seja reconhecida no sistema educativo nacional.
Urge ao Estado passar assumir um papel mais preponderante em relação à educação que se quer de qualidade na Creche. ―O seu papel regulador consistia em criar legislação, oferecer apoio técnico e pedagógico e criar um sistema de inspecção‖ (Vasconcelos 2005, p.45), mais cuidado e mais de observação no terreno, de forma a valorizar e a credibilizar esta que é sem dúvida a primeira etapa da vida e na qual se fazem as primeiras e principais aprendizagens, onde tudo nasce e renasce do conhecer, do tocar, do provar, do manipular, do dialogar e do olhar, ou seja do conhecer hoje para saber amanhã.