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A dúvida aplicada à busca pelo conhecimento

DÚVIDA, REFLEXÃO, CRÍTICA E AUTOCRÍTICA

1- A dúvida aplicada à busca pelo conhecimento

Minha intenção agora é explorar um pouco mais a ideia de que é na dúvida curiosa que podemos encontrar um fator motivador para a investigação teológica. Reforço a ideia de que este tipo de dúvida é diferente da falta de fé. Pelo contrário, é porque cremos em Deus que tentamos, curiosamente, compreendê-lo. Vale a pena trazer à mente que a fé é vivenciada diante de um paradoxo constante, como elaborado no evangelho de Marcos: “Se podes?, disse Jesus. Tudo é possível àquele que crê. Imediatamente o pai do menino exclamou: Creio, ajuda-me a vencer a minha incredulidade!” (Marcos 9:23- 24). Na língua original as expressões creio (pisteuo) e incredulidade (apistia) possuem a mesma raiz, oriunda da expressão fé (pistis). Por isso, uma possibilidade de tradução seria: “tenho fé, mas ajuda-me na minha falta de fé”.

De modo semelhante, o apóstolo Paulo também aborda esse paradoxo da fé usando a experiência de Abraão. Em Romanos 4, ele elabora o tema da fé e da justificação, ou salvação, e diz que Abraão “contra toda esperança, em esperança creu” (v. 18). Ao explicar o paradoxo na experiência de Abraão, Paulo usa como referência o texto de Gênesis 17:17: “Abraão prostrou-se com o rosto em terra; riu-se e disse a si mesmo: Poderá um homem de cem anos de idade gerar um filho? Poderá Sara dar à luz aos noventa anos?”. A expressão rir-se (tsachaq), em hebraico, carrega a ideia de divertir-se, brincar, zombar, ou seja, caracterizando, no relato, um riso de dúvida. Comprovando a tese de que o autor de Gênesis está construindo a noção bíblica do paradoxo da fé, logo no capítulo 18, ele a expande usando quase que a mesma construção de frases anterior:

“Onde está Sara, sua mulher?”, perguntaram. “Ali na tenda”, respondeu ele. Então disse o Senhor: “Voltarei a você na primavera, e Sara, sua mulher, terá um filho”. Sara escutava à entrada da tenda, atrás dele. Abraão e Sara já eram velhos, de idade bem avançada, e Sara já tinha passado da idade de ter filhos. Por isso riu consigo mesma, quando pensou: “Depois de

realmente dar à luz, agora que sou idosa?’ Existe alguma coisa impossível para o Senhor? Na primavera voltarei a você, e Sara terá um filho”. Sara teve medo, e por isso mentiu: “Eu não ri”. Mas ele disse: “Não negue, você riu” (Gênesis 18:9-15).

Paulo, entretanto, opta por não aprofundar a discussão sobre a presença da dúvida proposta pelo autor de Gênesis e prefere destacar apenas o papel da fé ou da esperança que vence a desesperança. Ainda assim, olhando para as nossas próprias experiências de fé, sabemos que vivemos o dilema de crer que não existe “coisa impossível para o Senhor”, mas devido às circunstâncias e à desesperança, lutamos internamente afirmando a nossa confiança, olhando para o passado, e caminhando na reafirmação dessa fé.

Se as coisas são realmente assim, não está em jogo aqui a fé em Deus e sim a busca pelo conhecimento gerada por uma dúvida curiosa que quer entender. Mais uma vez, recorro ao personagem Abraão para reforçar esse raciocínio. Curiosamente, o texto que quero usar como referência para a próxima argumentação encontra-se no mesmo capítulo 18 do livro de Gênesis, dos versículos 16 a 33. O relato da história apresentada possui uma construção bem interessante, parecendo querer ressaltar a importância da dúvida curiosa na construção da elaboração do pensamento teológico. O cenário amplo é a história da destruição de Sodoma e Gomorra.

A partir desse ponto, usarei a tradução livre do texto e aplicarei paráfrases na tentativa de uma interpretação que atenda ao raciocínio sobre o tema. Toda a história narrada nesse episódio é introduzida por uma pergunta retórica de Deus: “Deixarei encoberto de Abraão o que pretendo fazer, considerando que ele é quem terá como responsabilidade levar adiante o meu plano de abençoar toda a humanidade?” (v. 17-19). Antecipando a motivação do diálogo seguinte, e parte da conclusão aplicativa do texto, o que esta pergunta traz como mensagem indicativa é que Deus, intencionalmente, se revela àqueles que são o seu povo, dada a responsabilidade que eles têm em fazê-lo conhecido no mundo. A expressão deixar encoberto tem relação direta com o conceito de revelação, que seria remover aquilo que cobre algo. Deus, portanto, quer deixar-se conhecer a Abraão, e a nós, seu povo, para que possamos comunicá-lo aos outros povos que não o conhecem.

O que ocorre, contudo, é que essa revelação não é passiva e estática. Ela é construída na relação e no diálogo, permeada pela investigação

e dúvida. Isso é o que observamos na sequência do texto de Gênesis 18. Abraão faz, então, uma pergunta a Deus: “Por acaso, em seu juízo, o Senhor condena o justo com o injusto, indistintamente?” (v. 23). Perceba que a pergunta carrega uma dúvida teológica importante, que trata do juízo e da misericórdia divina. Perceba também que a dúvida possui um grau de elaboração e reflexão mais profundo, demonstrado nos versos seguintes. A forma como o texto é construído traz algumas nuances interessantes com o colorido típico da literatura hebraica. O texto não explicita, mas podemos considerar que a dúvida de Abraão carrega elementos do seu contexto pessoal, da mesma maneira como ocorre conosco. Nossa jornada teológica é sempre influenciada pelo contexto e desafios que nos cercam. No caso de Abraão, ele estava preocupado com seu quase filho, o seu sobrinho Ló, que morava em Sodoma com a família. Assim, aprofundando sua dúvida teológica sobre o juízo e misericórdia, ele arrisca o uso de uma metodologia de hipótese estatística. Não nos importa a precisão dos números, mas apenas por conjectura, há quem indique que a população da cidade girava em torno de 600 a 1200 pessoas5, portanto, arredondemos

para 1000. Tentando medir a misericórdia de Deus, Abraão sugere a proporção de 5% de justos na cidade querendo saber se seria suficiente para fazer com que o peso do amor se sobressaísse ao peso da ira sobre os injustos (v. 22). Mais que isso, ele também se antecipa e apresenta sua preconcepção teológica: “Deus jamais trata o justo como o injusto. Ele jamais os julga igualmente (v. 25)”. A resposta de Deus está em consonância com a teoria de Abraão (v. 26), mas o problema que se apresenta, no entanto, é que Abraão necessita de confirmação e maior conhecimento dessa doutrina, quando aplicada a situações concretas da vida. Ele quer verificar como se dá a teoria na prática.

A maneira como o diálogo entre Abraão e Deus é apresentado é bastante interessante. Depois dessa pergunta introdutória, que alguns poderiam pensar que seria suficiente para sanar a dúvida, Abraão apresenta ainda mais cinco perguntas (v. 28-32), de mesmo teor, variando apenas na proporção estatística entre justos e injustos

Agora, quero sugerir um caminho de interpretação sobre a razão do texto ser apresentado a nós dessa maneira.

Deus havia decidido julgar aquelas cidades: “as acusações contra Sodoma e Gomorra são tantas e o seu pecado é tão grave que descerei para ver se o que eles têm feito corresponde ao que tenho ouvido. Se não, eu saberei” (v. 20-21). A história, então, parece ser construída em torno da preocupação de Abraão com seu sobrinho, tido por ele como justo. Sabendo que o pecado de Sodoma era grande e notório, Abraão tinha a expectativa de que não haveria chance de que a cidade escapasse da ira e condenação de Deus. Ao mesmo tempo, sua teologia considerava a possibilidade da aplicação da misericórdia e amor divinos. Sua dúvida, no entanto, sabendo que muitas catástrofes também atingem pessoas justas, era se Deus livraria Ló e sua família da possível condenação. Podemos questionar, por que, ao iniciar a sua argumentação teológica, Abraão não foi direto ao ponto e perguntou a Deus se ele livraria Ló, mesmo diante da supremacia do pecado? Por que foram necessárias seis perguntas? E mais, por que Abraão não terminou a sua série de perguntas com a proporção de quatro justos, o total de membros da família de Ló, considerando o próprio, a esposa e as duas filhas?

A interpretação que sugiro é que o autor do texto quer nos ensinar exatamente a validade e importância da dúvida teológica. Se a nossa relação com Deus for estabelecida com base no medo e receio de aproximação, ela terá pouca intimidade e, portanto, pouca possibilidade de construção de um conhecimento mais profundo. Poderíamos assumir um posicionamento bastante comum, diante desse tipo de situação, que é o da rigidez teológica e afirmar: Deus é soberano, é justo, é juiz, não suporta o pecado e sabe o que é melhor para o ser humano. Partindo desse posicionamento, de certa forma, correto em todas as suas considerações, não haveria por que questionar a Deus sobre a sua soberana decisão de condenar as cidades de Sodoma e Gomorra, destruindo-as completamente. Mesmo se houve “justos” ali, poderíamos ainda apelar para uma conclusão semelhante à do salmista: “Todos se desviaram, igualmente se corromperam; não há ninguém que faça o bem, não há nem um sequer” (Salmo 14:3; Romanos 3:10-18). No entanto, quando o nosso discurso teológico entra em conflito direto com a nossa vida particular, quando ele

aperta os nossos calos pessoais, a nossa mente e coração passam por um processo de questionamento e dúvida natural, que pode e deve ser explorado no ambiente da fé e da relação com Deus.

A dúvida de Abraão, conforme registrado no texto, mostra a nossa fragilidade, crise, receio e pressupostos teológicos. É muito claro o drama que ele enfrenta ao apresentar a sua dúvida. Ao mesmo tempo que ele é corajoso, porque a situação afeta a sua vida, paradoxalmente, ele tem medo por causa da compreensão de que Deus poderia vir a se chatear com a dúvida, como se aquele questionamento pudesse demonstrar falta de fé de sua parte. Ao introduzir as perguntas, ele se desculpa antecipadamente: “Sei que já fui muito ousado a ponto de falar ao Senhor, eu que não passo de pó e cinza” (v. 27); “Não te ires, Senhor, mas permite-me falar” (v. 30); “Agora que já fui tão ousado falando ao Senhor, pergunto” (v. 31); “Não te ires, Senhor, mas permite-me falar só mais uma vez” (v. 32). Embora da parte de Abraão haja receio, da parte de Deus todas as seis respostas são simples, diretas, sem alteração de humor, não demonstrando qualquer irritação pela dúvida e questionamento apresentados: “Se encontrar... não destruirei”; “Por amor... não destruirei”. A narrativa nos ensina que a dúvida teológica é lícita e própria, ela produz conhecimento e aprofundamento da relação com Deus. Abraão parece concluir que não apenas pode se aproximar de Deus com suas dúvidas e curiosidades, como também que o amor e a misericórdia de Deus são maiores que sua ira, afinal, ele é amor. Abraão não precisou chegar a quantidade de quatro, ainda que tenha sido necessário um longo processo de elaboração teológica. Em determinado momento, sua reflexão e o conhecimento obtido foram suficientes para saber que Deus pouparia a família de seu sobrinho. Sua dúvida, que motivou a investigação teológica, havia sido sanada.

2- A reflexão crítica aplicada à busca pelo