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DEUS NO ANTIGO TESTAMENTO PATRIARCAS

2- Deus como El

A ideia que elohim traduz é a de divindade, um ser transcendente dotado de poder, cuja compreensão pertence, em geral, a todas as culturas daquela região. Mas o termo elohim possui sua raiz na palavra

el que é assim explicada por Christopher Wright:

A palavra ’el também era usada como substantivo próprio para se referir ao supremo deus do panteão canaanita, como é conhecido dos textos ugaríticos (séc. 14 a.C.) que o exalta como “pai dos homens” e “deus dos deuses”. O nome é comumente composto com outros títulos descritivos nas narrativas patriarcais do AT (meados do segundo milênio a.C.). É claro que a tradição do AT tratou todos estes nomes como o único Deus, o Deus de Israel (“’El, o Deus de Israel”, como Ele é na realidade chamado em Gn 33:20). Mas provavelmente, nomes

de Israel. Entretanto, grande incerteza deve permear qualquer tentativa de delinear os estágios históricos desta assimilação, e esta tarefa é improdutiva. Embora o AT certamente testemunhe em exaustão o ambiente politeísta de Israel — e o politeísmo de seus próprios ancestrais (Js 24:14ss) — desde a perspectiva da revelação, ela testemunha principalmente as várias revelações do único Deus vivo aos patriarcas contra o pano de fundo cultural daquele tempo (1982, p. 505).

O que é curioso notar é que a construção da tradição patriarcal utiliza uma forma de denominação para Deus que varia ao longo das narrativas. Tomemos o caso do patriarca Abraão, que é o principal personagem que dá origem a toda a história do povo de Israel.

(Mapa adaptado de Galbiati e Aletti, 1991, p. 65)

A história de Abraão começa perto da cidade sumérica de Ur [...] Em Ur, ou talvez melhor nos arredores de Ur, acampado à maneira dos seminômades, vivia o clã de Taré, pai de Abraão. Após a queda da III dinastia de Ur (c. 1955 aC) a região foi agitada ao longo de mais de um século por frequentes perturbações políticas, com eventuais choques armados e pilhagens.

Talvez tenha sido este o motivo que influiu na decisão de Taré [Terá] em abandonar Ur, dirigindo-se com todo o rebanho rumo ao norte, seguindo o curso do Eufrates, cobrindo um percurso de mais de mil quilômetros. A meta da viagem era Harã (Harran), uma cidade que tinha em comum com Ur o culto da deusa Lua (Sin) e nos documentos de Mári (séc. XVIII) aparece numa área de população amorréia, os semitas do oeste, da qual tiveram origem também os arameus (Galbiati e Aletti, 1991, p. 63).

Abraão é descrito como sendo um integrante do povo semita amorita que habita Ur, uma cidade da Baixa Mesopotâmia. Ele, assim como sua família, era seminômade, e esta característica cultural é mantida quando ele se separa do clã de seu pai e inicia suas peregrinações na terra de Canaã, ao sul de Harã (Gênesis 12:4). Ao lermos as narrativas da história de Abraão notamos que ao longo do seu circuito de peregrinações ele estabeleceu diversos locais como santuários:

Sua fundação era de acordo com as regras de escolha de um lugar de culto. Eles são estabelecidos onde um elemento natural manifesta a presença do Deus dos patriarcas — perto de uma árvore, uma colina, uma fonte, mas principalmente onde Deus se manifestou em uma teofania. Esses santuários localizam-se ao longo da rota dos patriarcas (De Vaux, 2003, p. 327).

Percebe-se uma estreita relação entre esses locais e as expressões religiosas de Abraão. Em alguns destes lugares são descritas a ocorrência de teofanias, aparições de Deus, ou de outros eventos significativos. Nesse primeiro momento da história podemos olhar para esta experiência como sendo bem incipiente e fortemente influenciada pela cultura semítica e cananeia:

a. Gênesis 12:7 – Siquém (carvalho de Moré) – aparição e altar; b. Gênesis 12:8 (13:3) – Entre Betel e Ai – altar e invocação; c. Gênesis 13:18 – Hebrom (carvalhais de Manre) – altar;

d. Gênesis 16:13 – Entre Cades e Berede (Beer-Laai-Roi) – invocação e poço;

As narrativas não nos oferecem detalhes sobre os altares, sobre as árvores, o poço ou o monte. Nem tampouco são descritas as formas litúrgicas de invocação. O que temos é uma estranha variedade de lugares e coisas que não formam uma unidade coerente com a identificação de Deus. Mais que isso, vemos uma variedade no uso de expressões ou nomes de Deus. Vale aqui a releitura da definição do termo el, descrita acima, para entender melhor algumas dessas variantes.

a. El Elyom (Gênesis 14:18-22) – alto, superior, exaltado; b. El Shaddai (Gênesis 17:1) – autossuficiente, senhor, deus da chuva, deus da montanha;

c. El Olam (Gênesis 21:33) – eterno; d. El Roi (Gênesis 16:13) – que vê;

e. El Bethel (Gênesis 31:13) – da cidade de Betel (casa de Deus);

Há quem entenda que estas variantes estão apenas sugerindo percepções dos atributos de um mesmo e único Deus. Por outro lado, podemos pensar que a história dos patriarcas são compilações tardias, em forma de texto, daquilo que foi transmitido pela tradição oral. John Bright explica,

Embora seja impossível descrever a religião dos patriarcas em seus pormenores, em virtude das falhas de nosso conhecimento neste campo, ela era claramente do tipo comum da religião da época. Em relação a quaisquer experiências religiosas pessoais que os patriarcas possam ter tido, não podemos naturalmente acrescentar nada ao que a Bíblia nos diz. Que os antepassados de Israel tenham sido antes pagãos é não só uma certeza a priori, mas também a própria Bíblia o afirma (Js 24:2, 14) (1978, p. 128).

Talvez o que os textos das narrativas de Gênesis queiram revelar, por meio dos autores e editores, é que o conhecimento de Deus ocorreu por um processo naturalmente humano, em meio às complexidades da vida e conforme contextos específicos. Mesmo que seu início tenha ocorrido por caminhos estranhos para nós hoje, como o paganismo e politeísmo, o que se vê na história de Abraão e de seus descendentes imediatos, Isaque e Jacó, é uma experiência curiosa, que no futuro

conduzirá a uma compreensão diferente e mais elaborada, dando origem à fé javista. Por isso, Bright conclui,

A religião patriarcal era assim uma religião de clã, na qual o clã era realmente a família do Deus patrono. Embora possamos supor que dentro do clã o Deus patrono fosse adorado acima de todos os outros deuses, quando não com exclusão de todos eles, seria errado chamar a este tipo de religião de monoteísmo. Também não sabemos se a religião dos patriarcas era uma religião sem imagens. A religião de Labão com certeza não o era (Gn 31:17-35). Entretanto, ela não se parecia nem com as religiões politeístas oficiais da Mesopotâmia nem com o culto da fertilidade de Canaã, de cujas orgias não há nenhum vestígio na narrativa do Gênesis (1978, p. 130).

Georg Fohrer concorda com Bright dizendo,

Então, nossa primeira conclusão é de que no período antigo de Israel cada clã (e provavelmente também cada tribo) cultuava o seu deus particular. Esse é o mais antigo estágio que se pode discernir. Há uma multiplicidade de religiões de clã (e religiões tribais), de modo que a tradição está correta em sustentar que os pais cultuavam outros deuses (Gn 35:1-7; Js 24:2,1-15). Tudo aquilo que restou, naturalmente, são referências a quatro deles [Abraão, Isaque, Jacó e Moisés?]. Nesses casos, pelo menos o relacionamento pessoal entre a divindade e o fundador do culto, que provavelmente era também o fundado ou líder do clã, representa um importante papel. Por intermédio do fundador do culto, todo o grupo e sua posteridade se tornavam adoradores da divindade relacionada com seu ancestral (2012, pp. 46-47).

O que podemos compreender, então, é que a construção da ideia de Deus, a partir da história dos patriarcas, iniciada com o uso da expressão elohim e as variações de el, apresenta uma estreita relação com a experiência do líder do clã que é transmitida a gerações futuras. Deus, então, se torna o Deus de Abraão, depois o Deus de Isaque e depois o Deus de Jacó. Continuidades e descontinuidades

além das características de poder, de criador e de superioridade, acima das outras divindades, temos, entre algumas possíveis constatações, o seguinte resumo elaborado por Fohrer:

O deus do clã não é um deus do céu, nem está associado com um santuário local. Ele é um deus que protege os nômades errantes em suas viagens. Os nômades sentem-se dependentes da direção da divindade, porque movem-se entre forças que são estranhas e, frequentemente, hostis. Eles procuram a sua proteção, porque o seu deus conhece os caminhos e os perigos, e os guiará com segurança. Ele dá origem ao crescimento dos rebanhos, toma providências para que os proprietários dos territórios habitados sejam benevolentes durante a transumância anual ou dá ao fraco nômade a astúcia que o salvará diante do poderoso. Finalmente, ele o ajudará a ganhar a sua própria terra e fará com que a sua posteridade seja numerosa. A melhor expressão de todo esse complexo de idéias é a expressão idiomática que diz que a divindade está ou estará “com” a pessoa em questão (2012, p. 48).

Conclusão

A tentativa de se construir o conhecimento sobre Deus, por meio de sua revelação bíblica, tomando como princípio metodológico a Teologia Bíblica, deveria nos remeter a uma postura de humildade e compreensão do fenômeno humano. Nossa busca pela transcendência e explicação da existência produziu várias representações religiosas desde os primórdios da humanidade. A experiência dos patriarcas, neste sentido, nos insere neste universo, apresentando um tipo de religiosidade e compreensão da divindade diretamente atrelado ao contexto e realidade daqueles habitantes do Antigo Oriente Próximo, com todas as suas limitações.

Pensando, por exemplo, em uma aplicação imediata deste entendimento, podemos citar as ações missionárias da igreja quando em contato com outras realidades religiosas, quer seja em meio aos

povos não alcançados quer seja em um contexto plurirreligioso como os grandes centros urbanos. Deus como aquele que quer revelar-se e relacionar-se com o ser humano parece bem mais condescendente com as tentativas humanas de contato transcendente do que aquilo que representa a maioria de nossas ações e posturas atuais por parte da igreja evangélica. O nosso pretenso exclusivismo teológico acaba tornando-se uma barreira para o diálogo e compreensão do fenômeno humano de anseio por Deus. Nossas rápidas condenações e fechamentos sistemáticos parecem divergir da paciência e tratamento divino para com o ser humano.

Referência

BRIGHT, John. História de Israel. São Paulo: Paulinas, 1978.

DE VAUX, Roland. Instituições de Israel no Antigo Testamento. São Paulo: Teológica, 2003.

FOHRER, Georg. História da religião de Israel. São Paulo: Academia Cristã/Paulus, 2012.

GALBIATI, Enrico Rodolfo; ALETTI, Aldo. Atlas histórico da Bíblia e do

Antigo Oriente. Petrópolis: Vozes, 1991.

WRIGHT, Christopher J. H. God, names of. In: BROMILEY, Geoffrey W. (ed.) The international standard bible encyclopedia. Vol. 2. E-J. Grand Rapids: Eerdmans, 1982.

Anotações

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TEOLOGIA SISTEMÁTICA I -

Introdução e Teontologia

Unidade - 11

DEUS NO ANTIGO TESTAMENTO – TRADIÇÃO