• Nenhum resultado encontrado

Objetivos da unidade

2- Conhecimento natural

Há pelo menos dois textos bíblicos que sugerem um tipo de revelação que possibilita o conhecimento de Deus a toda a humanidade. O primeiro texto encontra-se no livro de Salmos:

Os céus declaram a glória de Deus; o firmamento proclama a obra das suas mãos.

Um dia fala disso a outro dia; uma noite o revela a outra noite. Sem discurso nem palavras, não se ouve a sua voz. Mas a sua voz ressoa por toda a terra, e as suas palavras, até os confins do mundo. Nos céus ele armou uma tenda para o sol, que é como um noivo que sai de seu aposento, e se lança em sua carreira com a alegria de um herói. Sai de uma extremidade dos céus e faz o seu trajeto até a outra; nada escapa ao seu calor (Salmo 19:1-6).

O segundo é apresentado pelo apóstolo Paulo em sua carta aos romanos:

Portanto, a ira de Deus é revelada do céu contra toda impiedade e injustiça dos homens que suprimem a verdade pela injustiça, pois o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou. Pois desde a criação do mundo os atributos invisíveis de Deus, seu eterno poder e sua natureza divina, têm sido vistos claramente, sendo compreendidos por meio das coisas criadas, de forma que tais homens são indesculpáveis; porque, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe renderam graças, mas os seus pensamentos tornaram-se fúteis e os seus corações insensatos se obscureceram (Romanos 1:18-21).

Ambos os textos afirmam que a natureza é uma fonte de conhecimento de Deus. Embora o Salmo pareça restringir os elementos naturais aos astros celestes, o que nos salta aos olhos é a quantidade de expressões que podemos associar ao exercício do fazer teológico. São elas: declarar ou relatar (saphar), proclamar ou anunciar (nagad), falar ou borbulhar palavras (nava omer), revelar ou fazer conhecido (chavah), palavra (omer) e discurso (dabar). Já o texto de Romanos traz as seguintes expressões: conhecer (gnostos), manifestar (faneros), entender ou ver claramente (noieo), compreender ou perceber (kahtorao), pensamentos (dialoguismos).

A questão imediata que surge, então, é como, ao observarmos a natureza, temos a capacidade de conhecer a Deus, conforme indicam os textos? Mais ainda, sendo a natureza uma revelação comum a toda humanidade, ela independeria da religião e da fé como fonte para o conhecimento de Deus. Aliás, é por esta razão que o apóstolo Paulo considera todos os seres humanos indesculpáveis. Este assunto introduz uma discussão bastante complexa na Teologia que permeia o pensamento cristão desde a Patrística. Wolfhart Pannenberg (2009) oferece uma investigação abrangente sobre esta discussão chegando ao ponto de diferenciar o que seria o conhecimento natural e a teologia natural. Pannenberg explica que o conceito de teologia natural é anterior ao cristianismo, tendo surgido na Grécia:

Panáicio designou como “teologia natural” a doutrina filosófica sobre Deus diferenciada da “teologia mítica” dos poetas por um lado, e, por outro, da “teologia política” dos cultos instituídos com autoridade estatal e sustentado pelos estados. O sentido da expressão está ligado à pergunta levantada pela sofística acerca da expressão “de natureza”, isso é, pelo verdadeiro de si mesmo, em contraposição ao verdadeiro, cuja validade se deve exclusivamente a proposições (thesis) humanas, seja por costume e origem, seja por determinação política (2009, pp. 118-119).

A teologia cristã elaborada pela igreja primitiva, tendo se desenvolvido no ambiente greco-romano, teria se apropriado desta

que ela se diferenciava da teologia revelada em suas fontes primárias. Principalmente na modernidade, a teologia natural representava o esforço humano racional no conhecimento de Deus, tendo como objeto a natureza e o próprio ser humano, enquanto a teologia revelada ocupava-se das Escrituras. Pannenberg resume esse percurso:

A função das “demonstrações antropológicas da existência de Deus” consiste, em contrapartida, na comprovação de que a idéia de Deus é elemento constituinte e essencial de uma autocompreensão adequada do ser humano, seja com vistas à razão humana seja sob inclusão de outras realizações básicas da existência humana. Do grupo das demonstrações da existência de Deus que argumentam expressamente de modo antropológico, já faz parte a comprovação de Agostinho de que a consciência conhecedora depende da luz da verdade, que não procede dela mesma. Também faz parte a comprovação de uma idéia de Deus inata à consciência humana, no saber do infinito, que procede a toda idéia de coisas finitas e se encontra em sua base, na terceira meditação de Descartes. Além disso, pertencem a esse grupo a demonstração moral da existência de Deus de Kant na Crítica da Razão Prática, bem como o ver- a-si-mesmo da autoconsciência como estar-fundamentado no absoluto, como é apresentado nas posteriores doutrinas de Fichte, como liberdade, que existe por meio do ser absoluto. Além, disso, também se deve incluir aí a comprovação por parte de Schleiermacher de um sentimento de absoluta dependência como base da autoconsciência humana e a tese de Kierkegaard de uma referência constitutiva da autoconsciência ao infinito e eterno. A série justamente destas tentativas pode ser continuada até o presente [...] Nenhum desses argumentos antropológicos é capaz de demonstrar a existência de Deus em sentido rigoroso. Na maioria dos casos também não se tem essa pretensão, mas se afirma apenas uma relação do ser humano com uma realidade que transcende o ser humano e a realidade, no mais inescrutável, de modo que se garante ao nome de Deus da tradição religiosa um apoio na realidade da experiência do homem em si mesmo. Além disso, não pode tratar-se de uma verdadeira demonstração da existência de Deus, porque deveria

ser demonstrada a existência de Deus não somente em relação ao ser humano, mas também e, sobretudo, em relação à realidade do mundo. Nisso se fundamenta a importância permanente das demonstrações do tipo cosmológico e o interesse nelas ainda no pensamento presente (2009, pp. 141-142).

Aquilo que determinaria, portanto, o conhecimento natural de Deus pode ser considerado como a consciência ou autoconsciência humana de sua própria existência, que teria origem causal em algo anterior, Deus, seja pelo princípio temporal ou pelo princípio do movimento da máquina da criação. Novamente, o tema da transcendência é lembrado, porém, trazendo a necessidade de relação com a imanência do cosmos.