UNIDADE 15 A TRINDADE
1- Discussão bíblica
O tratamento de Deus na teologia do Antigo Testamento é claramente um apelo ao monoteísmo radical. Deus é único, sem comparação, nominado como Javé, e além dele não existem outros deuses. A radicalidade desta percepção coloca Deus como a origem de tudo, inclusive do mal (Isaías 45:7), mesmo não havendo uma elaboração mais profunda desse conceito, à parte da prática de atos que descumprem os mandamentos divinos. Como visto, é apenas após o período exílico que se desenvolve o conceito do mal como sendo representado por Satã, tido como uma das criaturas divinas angelicais.
Mesmo as mais promissoras construções da figura do Messias não davam conta de conceber o compartilhamento da divindade por este ser, tratado como filho ou servo, além do status de uma criatura especial, capacitada por Javé para agir no cumprimento de seus
desígnios. Ao pensarmos no Espírito, ele havia sido apresentado como a ação perceptível de Deus, o vento (ruach), que move e transforma a realidade do mundo criado, das pessoas e das coisas. Outras formas de pessoalidade ou de caracterização de alguma representatividade de Deus foram elaboradas em função dos temas da Palavra e da Sabedoria.
Aquilo que se desenvolveu como a Palavra, que mais tarde foi aproveitado para compor o pensamento de João, associando-a ao
Logos, recebe um tratamento inicial como a força motriz realizadora
da intenção divina. Logo no relato da criação vemos esta ideia por trás do uso repetitivo da expressão “disse Deus” e o consequente resultado de seu cumprimento. Mais adiante na história do povo de Israel, o profeta Isaías apresenta o seguinte entendimento:
Assim como a chuva e a neve descem dos céus e não voltam para ele sem regarem a terra e fazerem-na brotar e florescer, para ela produzir semente para o semeador e pão para o que come, assim também ocorre com a palavra que sai da minha boca: Ela não voltará para mim vazia, mas fará o que desejo e atingirá o propósito para o qual a enviei (Isaías 55:10-11).
Com o profeta vemos uma construção metafórica que dá a impressão de certa autonomia da Palavra, no sentido de diferenciar-se de Deus, que a envia, ao mesmo tempo que a associa ao ser divino de maneira bem próxima ao que é feito com o Espírito. Contudo, o texto mais perceptível sobre este tipo de consideração sobre a Palavra está no Salmo 119, que lida com várias expressões e ideias semelhantes ao tratar da Lei, mandamentos, etc: “A tua palavra, Senhor, para sempre está firmada nos céus” (Salmos 119:89).
Com a Sabedoria acontece algo similar. O livro de Provérbios constrói uma imagem personificada da Sabedoria:
A sabedoria clama em voz alta nas ruas, ergue a voz nas praças públicas;
nas esquinas das ruas barulhentas ela clama, nas portas da cidade faz o seu discurso:
conhecimento? Se acatarem a minha repreensão, eu lhes darei um espírito de sabedoria e lhes revelarei os meus pensamentos (Provérbios 1:20-23).
Também no livro de Jó, a Sabedoria aparece ao lado de Deus, metaforicamente personificada (Jó 28:12-28). Mas o que entendemos disto é que tanto a Palavra quanto a Sabedoria são expressões da revelação de Deus baseadas em referências didáticas aproximando-o da realidade humana. Não há a intenção nos textos de alimentar qualquer ideia que ultrapasse a percepção da fé monoteísta em Javé. Este inclusive é o mesmo tratamento que é dado ao Espírito e que será elaborado de forma diferente no Novo Testamento, possibilitando alguma alusão à ideia de Trindade.
É precisamente o Novo Testamento que enseja as primeiras elaborações que provocarão a elucubração dos teólogos da patrística. Ainda que os autores bíblicos não tenham construído uma doutrina da Trindade, o evento histórico de Jesus, como Messias e Filho de Deus, provocou o tratamento que recebeu dos primeiros cristãos, considerando-o como parte da divindade. De maneira mais clara, é na fórmula do batismo e da bênção apostólica que encontramos a junção das três principais representações de Deus:
a - Fórmula de batismo: “Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo [...]” (Mateus 28:19);
b - Fórmula de bênção: “A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo sejam com todos vocês” (2 Coríntios 13:14).
Pai, Filho e Espírito Santo aparecem destacados e participantes de atos significativos da vida da igreja. Aqui encontramos aquilo que Robert Jenson indicou como sendo o nome de Deus. Sua tese é de que assim como no Antigo Testamento Javé era o nome de Deus, a partir do Novo, o nome de Deus passa a ser Pai-Filho-Espírito Santo:
O nome trinitário não caiu do céu. Os crentes o formularam para o Deus com que nos encontramos envolvidos. “Pai” era a maneira peculiar em que Jesus se dirigia à transcendência
particular diante de quem vivia. Ele se qualificou como Filho exatamente por este modo de dirigir-se a Deus, e na memória da Igreja nos primórdios a sua aclamação como Filho foi o início da fé. “Espírito” foi o termo fornecido por toda a teologia bíblica para o resultado de tal encontro entre este Deus e um ser humano especial seu. O envolvimento nesta estrutura do próprio evento de Jesus — a oração dirigida ao “Pai” com o “Filho” no poder de e para o “Espírito” — é o conhecimento de Deus que a fé possui. Assim, “Pai, Filho e Espírito Santo” também foram juntados simplesmente para nomear o Deus apreendido no mesmo, e aparentemente isso aconteceu antes de qualquer análise de sua conveniência (1990, p. 110).
O livro de João ainda apresenta a inter-relação entre esta tríade Pai-Filho-Espírito Santo de maneira misteriosa. Nos capítulos 14, 16 e 17, João constrói um diálogo entre Jesus e seus discípulos em forma de despedida. Jesus diz que está de partida, rumo ao Pai, mas que, ao mesmo tempo, não abandonará os seus discípulos ao deixar com eles um representante (parakletos) (João 14:16). Este representante, entendido como uma forma de procurador na cultura grega, é identificado como sendo o Espírito Santo, que seria enviado pelo Pai (João 14:26). A condição para o envio do Espírito é a ida de Jesus para junto do Pai, para que o próprio Cristo possa, então, enviá-lo (João 16:7). Por último, encontramos uma construção ainda mais misteriosa que é a afirmação de unidade entre Jesus e o Pai, e a possível inclusão dos crentes nesta unidade (João 17:21).
Enfim, as indicações de uma possível doutrina da Trindade nos textos bíblicos parece ser algo fora de cogitação; o que deveria nos levar a uma atitude mais tranquila ao tratarmos do tema, sem que ele tenha o peso dogmático que adquiriu na história da igreja.