O PARADIGMA MODERNO 1: ILUMINISMO
1- Teoria do paradigma
Há muitas definições para paradigma, mas a ideia que quero explorar é a que o entende como um conjunto de crenças, valores, técnicas, procedimentos e tradições de pesquisa compartilhadas por um grupo ou comunidade. O paradigma, então, é entendido também como o corpo de estruturas de referência, modelos de interpretação e caminhos para o conhecimento. Para Thomas Khun, observando a história humana, a ciência não cresce cumulativamente, mas sim por meio de “revoluções” ou saltos em que ocorre uma nova percepção da realidade. Um paradigma não é “criado” ou propositalmente elaborado; ele surge, cresce e amadurece inserido em uma rede composta por diversos fatores sociais e científicos.
Alguns indivíduos começam a perceber a realidade de modo qualitativamente diferente de seus antecessores e coetâneos que estão realizando “ciência normal”. O pequeno grupo de pioneiros sente que o modelo científico existente está repleto
de anomalias e se mostra incapaz de resolver problemas emergentes. Principiam, então, a procurar um novo modelo ou estrutura teórica, ou (termo favorito de Khun) um novo “paradigma”, que está, por assim dizer, apenas esperando para substituir o velho (BOSCH, 2002, p. 230).
Quando um novo paradigma surge, ele não é aceito imediatamente por todos como algo óbvio, pois, a mudança de paradigma não é mera questão de dar um passo racional. Na linguagem de Khun, a mudança de paradigma acontece em um lampejo de intuição. Ele chega a usar linguagem religiosa afirmando que abandonar um paradigma em função de outro é como uma conversão, como escamas caindo dos olhos.
Isso explica por que defensores da velha ordem e paladinos da nova, frequentemente, contendem sem chegar a consenso algum. Protagonistas do velho paradigma, sobretudo, tendem a se imunizar contra os argumentos do novo. Elas resistem a seus desafios com reações profundamente emocionais, porque esses questionamentos ameaçam destruir sua própria percepção e experiência da realidade, na verdade, seu mundo todo. Nas palavras de Einstein, “é mais fácil romper átomos do que preconceitos” (Bosch, 2002, p. 231).
Isso significa dizer, então, que sempre há conflito entre os defensores do velho e do novo paradigma, embora vivam no mesmo mundo e contexto. As reações emocionais, que deporiam contra a argumentação científica racional que, em tese, sustenta qualquer paradigma, aparecem por causa da sensação de insegurança em perceber que o sistema que fundamenta as estruturas daquela comunidade está sendo ameaçado por uma nova ordem. Curiosamente, o velho paradigma raras vezes desaparece por completo. Via de regra, acabamos por encontrar grupos que insistem em perpetuar o seu paradigma como se não houvesse outro.
Podemos fazer uma análise dos caminhos históricos da teologia com base na teoria do paradigma de Khun. Na unidade anterior indicamos apenas três fases históricas por uma questão de simplificação e proximidade do tempo contemporâneo, contudo, Bosch 6202, P. 227-223)
1. O paradigma apocalíptico do cristianismo primitivo. 2. O paradigma helenístico do período da patrística. 3. O paradigma católico romano medieval.
4. O paradigma protestante (da Reforma). 5. O paradigma moderno do iluminismo. 6. O paradigma ecumênico emergente.
Com base nesses seis paradigmas, Bosch analisa o processo de mudanças e permanências, mostrando sua complexidade:
Também, em um outro sentido, o “velho” paradigma raras vezes desaparece completamente. Em seu diagrama de mudanças de paradigma na teologia, Küng indica que o paradigma helenístico do período patrístico ainda vive em partes das igrejas ortodoxas, o paradigma católico romano medieval, no tradicionalismo católico romano contemporâneo, o paradigma da Reforma protestante, no confessionalismo protestante do século 20, e o paradigma iluminista, na teologia liberal. Brauer [Jerald, cf. Küng] nos lembra que, em quase todas as denominações hodiernas, encontramos, lado a lado, crentes fundamentalistas, conservadores, moderados, liberais e radicais. A questão torna-se ainda mais complexa pelo fato de que as pessoas, frequentemente, estão comprometidas com mais de um paradigma ao mesmo tempo (2002, p. 232-233).
Pensando na igreja, talvez essa coexistência de paradigmas em um mesmo grupo seja devido ao desinteresse pelo estudo e busca pelo conhecimento, por parte da maioria dos crentes, e pela priorização da experiência mística desassociada da racionalização da fé. Talvez seja até o indício da influência, não consciente, do paradigma da pós- modernidade. No entanto, para o nosso propósito, que é o estudo da teologia, quero destacar a importância do paradigma moderno por causa de sua predominância na maneira como a teologia está estruturada, formal e informalmente, na igreja cristã nos dias de hoje. Ao olharmos para o paradigma moderno devemos manter em mente que, embora dominante, ele não é o único que permeia as mentes e práticas dos crentes. Como vimos, há outros paradigmas que se fazem presentes e influentes.
2- O Iluminismo
Para entender o paradigma moderno precisamos olhar para o processo histórico que o gerou. O período de transição entre a Idade Média e Moderna foi marcado por uma série de eventos e expressões culturais, filosóficas e políticas que culminou com o surgimento de um novo paradigma. Esses movimentos e períodos receberam diversas designações e nomenclaturas, normalmente feitas depois do ocorrido ou ao tentar remeter-se às mudanças causadas por eles no mundo ocidental. Renascimento, humanismo e iluminismo são os termos mais recorrentes ao nos referirmos ao início da era moderna. Justo González comenta sobre esse período:
Poucos termos na história são usados com maior ambiguidade que os de “Renascimento” e “humanismo”. O próprio título “Renascimento”, aplicado a uma época histórica, implica em um juízo negativo da época que lhe precedeu. Neste sentido o termo foi usado pelos que o cunharam. Para eles a Idade Média era somente isso: um período intermediário entre as glórias da antiguidade e as dos tempos modernos [...] Mas apesar de tudo isto ainda podemos, particularmente na Itália, dar o nome de “Renascimento” a este período. Muitos dos principais intelectuais da época viam no passado imediato, e às vezes no presente, uma época de decadência com respeito à antiguidade clássica, e por causa disto se empenhavam em provocar um renascer desta antiguidade, em voltar às suas fontes, e em imitar sua linguagem e estilo. É a isto que nos referimos aqui quando falamos “Renascimento” (1995, p. 135-136).
A menção sobre o resgate da antiguidade está diretamente relacionada ao conteúdo da filosofia e cultura greco-romana em seu auge, ou seja, que ocorreu até o século V d.C. A essa capacidade humana criativa e, de certa forma, autônoma em relação ao controle da igreja, deu-se a designação de humanismo. Para González, a principal característica do humanismo foi o estudo cuidadoso da literatura clássica e a admiração pelo tipo de ser humano capaz de
razão, em conduzir-se a um estado de plenitude em todos os sentidos. Essa independência tinha como principal referência antagônica o controle da igreja e religião sobre o conhecimento conforme ocorria anteriormente na chamada Idade Média. A perspectiva humanista se tornou, assim, a precursora do desenvolvimento das ciências baseadas na observação, experimentação e proposição racional de explicação da realidade, dando origem ao período do iluminismo.
Também o iluminismo possui definição fluida sobre o que foi e como se desenvolveu. Tomarei alguns comentários de Alister McGrath sobre o assunto para delimitar os contornos relevantes ao que nos interessa na presente argumentação. Para ele, a identificação do iluminismo com o racionalismo radical é um exagero, embora, em determinado período, entre 1720 e 1780, defendia-se a ideia de que ele seria “o livre e construtivo uso da razão com vistas a derrubar mitos antigos que eram vistos como atreladores de indivíduos e sociedades ao passado” (1994, p.78). A nomenclatura Idade da Razão, para McGrath, não deve ser tratada como sinônimo do iluminismo, ainda que “uma ênfase na habilidade da razão humana em penetrar os mistérios do mundo é acertadamente entendida como uma característica definidora do iluminismo” (1994, p. 78). O que o autor quer evitar é a percepção que alguém possa vir a ter de que antes na história não se usava a razão ou de que o iluminismo tenha ficado limitado ao tipo de racionalismo defendido por alguns autores, como René Descartes, que propunha que “o mundo externo pode ser conhecido pela razão, e apenas por ela” (1994, p. 79). Ainda no século XVIII, Imannuel Kant questionou essa perspectiva em seu livro A crítica da razão pura, propondo o que chamou de “mente ativa” no processo de conhecimento, que se daria por meio da experiência, ou seja, da observação e contato com as coisas do mundo, sem a exclusividade do uso da razão para conhecê-las.
O mais importante a ser destacado sobre o iluminismo é a mudança de paradigma na epistemologia. O método científico iniciado a partir dali influenciou também a maneira de se fazer teologia. Descartes, Kant, Francis Bacon, John Locke, David Hume, Isaac Newton e tantos outros filósofos, matemáticos e físicos estabeleceram uma nova forma de compreensão do mundo que, para a maioria de nós, é tida como a única, por termos sido formados na cultura ocidental e mais ainda pela
maneira como recebemos o evangelho. É claro que estamos tratando de um longo período de tempo na história ocidental e de muitas mudanças na produção do conhecimento. No que se refere à teologia, também temos fases distintas, mas meu objetivo é, de modo resumido, apresentar alguns efeitos do iluminismo e as principais consequências práticas na estruturação do pensamento teológico.
Na análise de Stanley Grenz,
No Iluminismo, a ênfase primeira sobre as causas finais (o telos, ou o propósito dos objetos) deu lugar à visão matemática e quantificadora da empresa científica da qual foi pioneiro Galileu, cerca de um século antes. O novo estudo dos fenômenos naturais ressaltava a aplicação de técnicas matemáticas para a produção de resultados quantificáveis [...].
O ponto alto dessa revolução na ciência foi o trabalho de Isaac Newton (1642-1727). O universo de Newton era uma máquina grande e organizada. Seus movimentos podiam ser conhecidos porque seguiam certas leis observáveis [...].
O objetivo de Newton ao procurar descrever o universo não era simplesmente acadêmico. Ele cria que, ao mapear os ritmos regulares do universo, a ciência aumentava nossa percepção da grandeza de Deus (1997, p. 105-106).
Se no paradigma medieval a explicação do mundo e da realidade era uma questão dogmática e transmitida pela tradição dos pais da igreja, a partir do discurso teológico, sem questionamentos, no iluminismo, o ser humano é livre e autônomo para investigar, com o uso da razão, esse mesmo mundo, descobrindo as leis que governam essa grande máquina. O conceito de matemática aqui não se refere a uma questão numérica e sim filosófica. A matemática é a ciência da lógica, daquilo que é exato, que é rigorosamente demonstrado e que ficou conhecido como método cartesiano, ou seja, proposto por Descartes. Em tese, seria difícil incluirmos a teologia nesse paradigma uma vez que seu objeto primário, que é Deus, não está diluído
que concerne ao que foi revelado na natureza. Em parte, o que ocorreu foi uma divisão no campo da teologia entre os que propunham uma teologia natural, alcançada pela investigação científica do universo, incluindo o ser humano, e uma teologia revelada, que pressupunha alguma intervenção sobrenatural em sua investigação. Os defensores da teologia natural, ou religião natural, deram origem ao que se chamou de deísmo e “desfizeram-se de vários dogmas que a tradição da igreja havia atribuído à revelação divina, pois consideravam-nos inadequados como parâmetros da verdade religiosa” (Grenz, 1997, p. 112). Mais tarde, como sustenta Leslie Newbigin, também originou a teologia liberal:
Estamos familiarizados com o tipo de teologia liberal tão característica do final do século dezenove, início do vinte, em que os limites daquilo em que é possível acreditar-se foram firmemente fixados nos axiomas do Iluminismo [...] Isso requereu a reconstrução da história bíblica nas linhas da ciência histórica moderna. Ela requereu a eliminação do milagre [...] integridade intelectual requeria que a Bíblia fosse entendida nos termos daquilo que era possível para uma pessoa moderna acreditar (1986, p. 44).
Conclusão
O iluminismo representou a mudança de paradigma na construção do conhecimento humano, antes determinado por um caminho de simples explicação de uma tradição recebida, de forma dogmática. O novo paradigma, defendido pelo iluminismo propunha que o conhecimento da realidade poderia se dar pelo uso da razão humana, em sua livre investigação, tendo como pressuposto que o mundo consistia em uma máquina cujas leis haveriam descobertas e expostas em forma objetiva e proposicional.