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Objetivos da unidade

3- Conhecimento revelado

A Teologia não lida diretamente com o conhecimento natural como principal fonte de conhecimento de Deus, embora use-o constantemente com aporte.

A ontologia é possível porque existem conceitos que são menos universais do que o ser, e mais universais do que qualquer conceito ôntico. Isto é, são mais universais do que qualquer conceito que designa um reino de seres. Esses conceitos foram chamados “princípios”, “categorias” ou “noções últimas”. A mente humana trabalhou durante milhares de anos em sua descoberta, elaboração e organização. Mas não chegou a nenhum consenso, embora certos conceitos reapareçam em quase toda ontologia. A teologia sistemática não pode, nem deveria entrar na discussão ontológica como tal. Contudo, ela pode e deve considerar estes conceitos centrais do ponto de vista de seu significado teológico. Tal consideração, exigida em cada parte do sistema teológico, pode influenciar indiretamente a análise ontológica. Mas a arena da discussão ontológica não é a arena teológica, embora o teólogo deva estar familiarizado com ela (Tillich, 1987, p. 142).

revelação, que inclui a parte natural, mas se concentra muito mais na revelação especial das Escrituras e de Jesus. É isto que a neo-ortodoxia de Karl Barth defende, de acordo com McGrath: “Barth declarou que a teologia cristã não era de maneira alguma dependente da filosofia humana, mas era autônoma e autossustentável. Deus foi perfeitamente capaz de revelar-se sem qualquer auxílio humano” (1994, p. 125).

De certa forma, alguns assuntos estudados anteriormente concorrem para a presente discussão sobre o conhecimento revelado de Deus. Tanto a discussão sobre revelação, inspiração e iluminação, quanto sobre a Teologia Bíblica podem nos auxiliar aqui. No entanto, gostaria de explorar alguns outros aspectos referentes à Bíblia como fonte principal do conhecimento revelado. Como já dito, dependemos da iluminação divina para o entendimento das Escrituras, mas isso não significa ausência de esforço racional, estudo organizado e dedicação. Embora revelado, o conhecimento não está pronto; ele precisa ser adquirido, construído. Assim, a Teologia Bíblica indica um meio, um caminho, uma maneira de tentarmos chegar a esse conhecimento.

Olhando, então, para a revelação feita por meio das Escrituras, o que temos em mãos é um livro (biblos) ou uma coletânea de livros (biblia). Cada um destes livros veio a fazer parte desta coletânea por ter sido considerado sagrado pela comunidade da fé, que foi formada primeiro pelo povo de Israel e depois pela igreja. Para os cristãos, a bíblia é composta por dois grandes grupos de livros, o Antigo e o Novo Testamento ou a Antiga e a Nova Aliança. Já o povo judeu considera como sagrados apenas os livros da chamada Bíblia Hebraica, que coincide com o Antigo Testamento da bíblica cristã. O Novo Testamento é a compreensão da Nova Aliança, que substitui a Antiga, instituída entre Deus e o povo de Israel, renovada com base na pessoa de Jesus Cristo, o Messias judeu. Como o judaísmo não reconhece Jesus de Nazaré como o Messias prometido, eles permanecem apenas com os livros do Antigo Testamento.

Os livros que compõem o Antigo Testamento foram sendo escritos, editados, copiados e usados pelo povo de Israel, ao longo de sua história. A seleção dos livros considerados sagrados, ou aqueles que representavam a Palavra de Deus revelada, ocorreu dentro desse

longo processo e feita pela própria comunidade. Aquilo que hoje chamamos cânon, ou seja, o grupo dos livros sagrados que formam a bíblia ocorreu em duas etapas distintas. A primeira referente aos textos do Antigo Testamento e a segunda referente ao Novo. O cânon do Antigo Testamento foi adotado pela igreja cristã como sendo o mesmo da Bíblia Hebraica, que havia sido determinado apenas por volta do ano 100 d.C. no chamado Concílio de Jâmnia. Antes, porém, por volta do ano 200 a.C. havia sido elaborada uma versão grega da Bíblia Hebraica, chamada Septuaginta, que continha outros livros além daqueles estabelecidos em Jâmnia. Foi a Septuaginta que os autores dos livros do Novo Testamento usaram para citar os textos sagrados em seus próprios escritos. A Igreja Cristã também foi determinando o seu cânon paulatinamente até que no Concílio de Hipona, em 393 d.C., quando foi estabelecido este grupo de livros que temos hoje.

Sobre a questão da canonicidade, Wilfird Harrington explica:

Canonicidade significa que um livro inspirado, destinado à Igreja, foi recebido como tal por ela. Embora todos os livros canônicos sejam inspirados e nenhum livro inspirado exista fora do cânon, contudo, as noções de canonicidade e inspiração não são as mesmas. Os livros são inspirados porque Deus é o seu autor; eles são canônicos porque a Igreja os reconheceu e admitiu como inspirados, pois, só a Igreja, por meio da revelação, pode reconhecer o fato sobrenatural da inspiração. O reconhecimento pela Igreja não acrescenta nada à inspiração de um livro, mas reveste o livro de uma autoridade absoluta do ponto de vista da fé e, ao mesmo tempo, é o sinal e garantia da inspiração (1985, p. 51).

A complexidade do assunto nos remete mais uma vez ao elemento da fé. Tanto a revelação, como a inspiração e, por conseguinte, o reconhecimento de ambos os fenômenos nos textos escritos, realizado pelo povo de Deus, são questões de fé. Partimos da fé, porém, uma fé que nos conduz à investigação e ao uso das faculdades intelectivas com

Referências

HARRINGTON, Wilfrid J. Chave para a bíblia: a revelação, a promessa, a realização. São Paulo: Paulinas, 1985.

McGRATH, Alister E. Christian theology: an introduction. Oxford, GB; Cambridge, EUA: Blackwell, 1994.

PANNENBERG, Wolfhart. Teologia sistemática. Vol. 1. Santo André: Academia Cristã; São Paulo: Paulus, 2009.

TILLICH, Paul. Teologia sistemática. 2 ed. São Paulo: Paulinas; São Leopoldo: Sinodal, 1987.

TEOLOGIA SISTEMÁTICA I -

Introdução e Teontologia

Unidade - 10