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É objeto do processo tudo que nele é discutido596. Qualquer assunto

debatido no processo, ou seja, toda matéria conhecida pelo órgão jurisdicional, é objeto do processo. Logo, coincide a sua extensão com o alcance do princípio do contraditório, de modo que a motivação da sentença deverá esgotar os pontos duvidosos nele incluídos597

.

No entanto, há uma parcela específica do objeto do processo sobre a qual deverá recair a parte dispositiva da sentença. Trata-se do próprio mérito da causa, denominado objeto litigioso do processo598

. O objeto litigioso do processo (mérito da causa) é composto pelo pedido e pela causa de pedir. Entender somente o pedido do autor formulado na peça exordial como mérito é tentar impingir uma separação artificial entre a realidade fática, narrada na causa de pedir, a pretensão levada a juízo, e a resposta jurisdicional. Ademais, a plena identificação do pedido, imprescindível ao seu correto atendimento, depende da compreensão da causa de pedir599.

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ARRUDA ALVIM, 1990, p. 258. Logo, de início, já se elucida que o estudo ora em pauta não emprega o termo “objeto do processo” no mesmo sentido de autores como Dinamarco. Para este a expressão em comento significa o mérito da causa, a pretensão ao bem da vida exercida no processo em busca de uma tutela favorável. O “objeto de cognição do juiz no processo”, aparentemente, é o que corresponderia ao “objeto do processo”, do modo que aqui se emprega. Ver: DINAMARCO, Cândido Rangel. O conceito de mérito em processo civil. Revista de Processo, São Paulo, v. 34, p. 20, abr. 1984. _____, 2004a, passim. A preferência desta pesquisa por traduzir o “mérito” em “objeto litigioso do processo” deve-se, primordialmente, pela necessidade de se estender ao campo do “objeto do processo” tudo aquilo que é nele, e a partir dele, deliberado, debatido, participado, comunicado, inclusive os pontos, controvertidos ou não, que extrapolam o conceito de mérito da causa. Afinal, não é apenas o juiz que exerce cognição durante o processo. Este é um sistema interacional de influência mútua, baseado numa estrutura dialética. Cf. MEDINA; WAMBIER, 2011, p. 53-55. Cf. item 7.5. Portando, o “objeto”, considerado como “o termo ou o limite de determinada operação”, quando relacionado ao processo, é de conhecimento geral, variando conforme a posição subjetiva que se parta. Cf. ABBAGNANO, Nicola. Objeto. In: Dicionário de Filosofia. 3 ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998, p. 723-725. Diferentemente, o “objeto litigioso do processo” será sempre litigioso, para todos os sujeitos, até que advenha trânsito em julgado do debate processual. Ainda, asseverando a coincidência entre “objeto do processo” e “objeto litigioso do processo”, considerando que ambos os conceitos abordam o tema a ser discutido e decidido no curso do processo: PINTO, Junior Alexandre Moreira. A causa petendi e o contraditório. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2007, p. 23.

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Isto não significa que cada ponto deva ser contraditado, apenas quer dizer que é cabível sobre eles o diálogo, e inexistindo divergência, não há porque persistir no tema. O entendimento de tal afirmação há de passar pelo alcance e conteúdo do direito ao contraditório, conforme o inteiro teor do item 5.

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Apesar de algumas conclusões divergentes das que são aqui apresentadas, sobre o tema remete- se ao seguinte estudo: DINAMARCO, 1984.

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Remete-se aos apontamentos de Junior Pinto no tocante à indissociabilidade da causa de pedir e do pedido como componentes do objeto litigioso do processo. Destaca o referido autor que a causa de pedir é indispensável para o correto entendimento do pedido, uma vez que este “pode estar

A causa de pedir (causa petendi) é definida como conjunto de fatos e fundamentos jurídicos extraídos da pretensão do autor600. Por compor o objeto do

processo, ela esclarece ao demandado conteúdo que deverá ter sua defesa, bem como delimita a extensão do provimento jurisdicional601. Em suma, a causa de pedir

deve ser encarada como o próprio fundamento da demanda602, na qual o autor alega

um fato que lhe agrava, apresentando o nexo entre tal circunstância e determinado efeito jurídico603

.

Em regra, o objeto do processo é recortado pelas questões aduzidas na peça exordial do autor, destacando-se o objeto litigioso do processo. Trata-se do princípio da demanda ou da adstrição. Todavia, o mérito da causa pode ser alargado caso seja levado ao processo fato novo604

. O ato postulatório praticado pelo réu pode levar à demanda a afirmação de direitos, por reconvenção ou pedido contraposto, além da afirmação de contradireitos, mediante o exercício da defesa. Assim, tanto a causa de petendi e o pedido, introduzidos pelo autor, quanto a causa excipiendi (causa da exceção) e o pedido, referentes às alegações do demandado, interessam ao mérito da causa (objeto litigioso do processo) 605

.

Primeiro, o demandante faz suas alegações fáticas, fundamenta-as juridicamente e formula o seu pedido606

. Depois o demandado faz a sua defesa, atacando o mérito diretamente, quando nega fatos ou consequências jurídicas apontados pelo autor, ou indiretamente, ao inserir fato novo, impeditivo, modificativo ou extintivo do direito afirmado na peça autoral. A primeira modalidade defensiva não amplia o mérito, ao passo que, a segunda estirpe, o dilata607.

fundado em diferentes causas de pedir”. PINTO, 2007, p. 31-34. Corroboram tais ideias as críticas sobre a separação das questões de fato e de direito, como se houvesse entre elas heterogeneidade e independência: CASTANHEIRA NEVES, 1993, p. 162 et seq. LARENZ, 1997, p. p. 433-439. KNIJNIK, Danilo. Os “standards” do convencimento judicial: paradigmas para o seu possível controle. Revista

Forense, Rio de Janeiro, v. 353, p. 15-52, 2001. Ainda, cf. itens 6.2.1 e 8.4. 600

Concorda-se com Junior Alexandre Moreira Pinto quando ele afirma que no direito brasileiro vale tanto a teoria da substanciação quanto a da individualização, uma vez que o art. 282, inc. III, do CPC, em momento algum despreza o enquadramento jurídico dos fatos. Vide: PINTO, 2007, p. 167-168. Como exemplo da posição que entende que o CPC vigente adotou somente a teoria da substanciação, cf. DIDIER JR., 2013, p. 464-467.

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Aqui nota-se a relação do tema com o princípio da correlação ou da congruência, que vincula o alcance da sentença ao que for fixado pelo autor na petição inicial: PINTO, 2007, p. 65 e 167. Ainda, cf. item 8.5. 602 MEDINA; WAMBIER, 2011, p. 175. 603 MARINONI; MITIDIERO, 2008, p. 291. 604 Cf. art. 462, CPC. 605 DIDIER JR., 2013, p. 343-347. 606

Cf. art. 282, inc. III, CPC. 607

O magistrado também influi no mérito da causa (influi, mas não o define), haja vista que pode decidir com base em fundamento jurídico diverso do formulado inicialmente, participar ativamente da instrução probatória e propor fatos novos relevantes para o julgamento da causa608. O contraditório surge como requisito de

validade para o exercício de tais poderes pelo órgão judicial, de modo que qualquer dessas medidas reclama o diálogo com as partes a ser realizado em instante prévio à decisão judicial. Assim, o magistrado pode colher elementos suficientes para fundamentar adequadamente sua decisão, sem surpreender as partes com juízos de terceira via. Logo, a fixação do objeto litigio do processo é função não só do autor, como também do réu e do juiz609

.

Nesse contexto, a estabilização da demanda só pode ser realizada com base na participação cooperativa e dialógica entre as partes e o órgão judicial, submetendo o mérito da causa ao contraditório. Assim, a audiência preliminar exsurge como ponto crucial para tal medida, de maneira que, após a conjunta delimitação do objeto litigioso do processo, será possível avançar para a fase instrutória, bem como fixar os pontos sobre os quais incidirá a sentença610

.

Apenas com essa breve conceituação já se percebe a intimidade entre os elementos da causa de pedir e aquilo que deverá ser posto em contraditório ao longo do processo. Fica também evidente a correlação entre o tema a ser debatido no discurso processual e o conteúdo da fundamentação da sentença611.

Nota-se que a melhor precisão da causa de pedir auxilia diretamente na fixação dos pontos sobre os quais o contraditório deve se desdobrar ao longo do itinerário processual. O demandado, ao se defender das alegações do autor, precisa atentar aos fatos e fundamentos jurídicos carreados pela petição inicial. Da mesma forma, o provimento jurisdicional deve considerar os elementos fáticos e jurídicos levantados e debatidos no processo, sob o risco de nulidade. Afinal, se a decisão extrapola os temas expostos na causa de pedir, sem que antes tenha sido oportunizado às partes o prévio debate sobre as questões decididas, haverá uma típica decisão surpresa612.

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Vale esclarecer que a alteração do fundamento jurídico pelo magistrado é limitada pela causa de pedir e pela causa de exceção, sob o risco de um julgamento extra petita. Cf. item 8.5.

609 MITIDIERO, 2009, p. 107-110. 610 ibidem, 2009, p. 112. PINTO, 2007, p. 170. 611 Cf. item 8.5. 612 Cf. item 5.2.4.

O próprio acertamento do objeto litigioso do processo depende da correta compreensão da causa de pedir por todos os interessados. Apenas é possível falar em diálogo processual, em adequada comunicação intersubjetiva, em colaboração, se todos os sujeitos estiverem tratando sobre o mesmo assunto. Assim, as questões processuais podem ser postas em debate, saudando o contraditório, de modo que a mútua participação trará a elucidação, ponto a ponto, daquilo que será objeto da decisão. Para tanto, a correta compreensão do objeto litigioso do processo (e, por conseguinte, da causa de pedir e do pedido) serve ao debate participativo, evitando- se juízos de terceira via.

Consequentemente, há de ser revisitado o emprego atual do adágio iura novit curia. Com amparo em tal brocardo permite-se que os juízes, no momento decisório, apliquem ao caso a norma jurídica que entenderem cabíveis, independentemente do dispositivo anteriormente alegado pelas partes. Compreende-se que a mencionada permissão alcança apenas o fundamento legal (ou seja, o texto legislativo), e não o fundamento jurídico (consequências jurídicas pleiteadas em decorrência da narração fática apresentada), bem como que somente este último integra a causa de pedir, não o primeiro613. Todavia, a interpretação do

aforisma ora em xeque precisa ser limitada pelo contraditório prévio e por uma decisão devidamente fundamentada que elucide o conteúdo debatido intersubjetivamente e a conclusão obtida614.

A participação paritária em contraditório apta a formar um verdadeiro diálogo colaborativo no processo é imperativa no Estado Democrático de Direito. Portanto, é defeso ao juiz decidir sem antes submeter determinada questão ao contraditório. Aqui, os deveres de esclarecimento, de consulta, de prevenção e de auxílio despontam do princípio da colaboração, o qual se encontra emaranhado aos princípios do contraditório e da fundamentação das decisões615.

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NEVES, Daniel Amorim Assumpção. A causa de pedir nas ações de responsabilidade civil, o

aforisma Iuri novit cúria e o princípio do contraditório. Disponível em: < http://www.professordanielneves.com.br/artigos/201011151756400.causadepedir.pdf>. Acesso em 15 jan. 2013.

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Várias são as manifestações doutrinárias neste sentido. Apenas exemplificado: ALVARO DE OLIVEIRA, 1998. NUNES, 2012, p. 244-247. PINTO, 2007, p. 76-93. ZANETI JUNIOR, 2007, p. 81. 615