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2.4 A RELAÇÃO ENTRE DEMOCRACIA E DIREITOS FUNDAMENTAIS

2.4.1 Democracia e direitos fundamentais processuais

O emprego da razão comunicativa realoca o critério de racionalidade e de legitimidade de um resultado do sujeito para o procedimento. Serão racionais e legítimas as normas obtidas num processo comunicativo, no qual certas regras procedimentais sejam respeitadas, a fim de se garantir a potencial participação dos interessados52

.

É possível depreender que questões de ordem prática podem ser decididas imparcialmente, de forma racional, desde que as pretensões de validade levantadas

51

HABERMAS, 2010, p. 154-168. 52

SOUZA NETO, Cláudio Pereira de. Jurisdição constitucional, democracia e racionalidade

sejam legitimadas por um procedimento discursivo argumentativo que atenda às condições de comunicação53. Isto quer dizer que normas de ação (como as normas

jurídicas) podem ser fundamentadas imparcialmente e decididas racionalmente, contanto que submetidas a um procedimento discursivo, cuja essência reside na garantia de condições de comunicação, as quais devem assegurar a participação livre e igual dos envolvidos.

Ainda, num processo comunicativo ideal a validade das pretensões levantadas se baseia no uso de uma linguagem inteligível, para que os participantes possam entender-se mutuamente; no emprego de proposições verdadeiras, para que o conteúdo destas seja posto a todos; em sujeitos verazes; e na correção normativa das manifestações54

.

Há que se destacar a imprescindibilidade das condições comunicativas, que remetem à liberdade (não coação) e à igualdade (simetria e paridade) na participação, para que a racionalidade dos discursos se dê a partir do atendimento dos pressupostos aptos a conferir validade às pretensões levantadas intersubjetivamente. Deste modo, há como supor a obtenção de resultados legítimos alcançados num debate racional. Sob tal parâmetro o diálogo precisa ocorrer num procedimento em que os argumentos apresentados permanecerão abertos e criticáveis em função do risco da própria falibilidade.

Insta destacar que tais condições de comunicação somente podem ser asseguradas pelos direitos fundamentais. Por meio delas possibilita-se o exercício de uma soberania popular, a qual é diluída em procedimentos relacionados a iguais direitos à comunicação e à participação dos cidadãos no processo democrático. Por este caminho há ainda a vantagem de não se contar com uma justificação metafísica dos direitos fundamentais, e sim procedimental, de modo que estes podem ser compreendidos como a condição que viabiliza a participação dos cidadãos na formação do consenso democrático55.

O caráter ideal de condições de comunicação possibilita que estas sejam buscadas num discurso processual, a fim de dotá-lo de maior legitimidade democrática. Com tal medida, busca-se incrementar a aceitabilidade racional das

53

TEIXEIRA, Welington Luzia. Da natureza jurídica do processo à decisão judicial

democratizada. Belo Horizonte: Fórum, 2008, p. 137. 54

ATIENZA, Manuel. As razões do direito: as teorias da argumentação jurídica. São Paulo: Landy, 2006, p. 161-163.

55

BINENBJOM, Gustavo. Uma teoria do direito administrativo: direitos fundamentais, democracia e constitucionalização. 2 ed. Rio de Janeiro: Renovar, 2008, p. 56.

decisões judiciais pela sua construção colaborativa, participativa e plural, fundada num diálogo intersubjetivo orientado argumentativamente.

A função de garantia das condições de comunicação assumida pelos cinco grupos de direitos fundamentais abstratamente considerados deve persistir mesmo após a transformação destes em normas jurídicas positivas56. Assim, é possível

estabelecer uma conexão entre direitos fundamentais abstratamente considerados, direitos fundamentais normatizados nas Constituições e direitos infraconstitucionais. Tal relação é aplicável aos direitos de natureza processual, especialmente pelo caráter procedimental da teoria do discurso. Portanto, é válido afirmar que as normas de direito processual civil, ao conferirem densidade ao conteúdo dos direitos fundamentais, necessitam atender ao papel que estes últimos assumem enquanto direitos abstratamente considerados. Ao saírem da categoria na qual estavam agrupados, os direitos fundamentais processuais não perdem sua natureza de condições de comunicação, tampouco sua finalidade de assegurar a participação simétrica e paritária em discursos procedimentalizados. Afinal, um objeto retirado de um conjunto carrega consigo as características que lhe permitiram ingressar no grupo que o continha. Ao ser observado mais de perto, o elemento em questão pode revelar, além dos traços genéricos da classe a qual pertencia, outras feições suas, mais particulares, contudo, seus predicados gerais permanecem57

.

Nota-se uma relação de inclusão da classe dos direitos fundamentais na classe das condições de comunicação, da qual fala Habermas. Disto, conclui-se que os direitos fundamentais materiais e processuais são responsáveis por garantir participações efetivamente influentes em debates ocorridos nos espaços públicos, ainda que tal local seja jurisdicionalizado. A legitimidade e a racionalidade do resultado permanecem condicionadas à obediência a um devido processo (regras procedimentais), no qual todos os possíveis atingidos participem, alegando suas pretensões, de maneira argumentativa, a fim de obter decisões imparciais, racionalmente aceitáveis.

E este pode ser considerado o ponto chave para se demonstrar a imprescindibilidade do contraditório e da fundamentação das decisões. Enquanto direitos fundamentais de natureza processual, ambos têm o condão de garantir as

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HABERMAS, Jürgen. O Estado Democrático de Direito – uma amarração paradoxal de princípios contraditórios? In: _____. Era das transições. Trad. Flávio Siebeneichler. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2003a, p. 168-171.

57

condições comunicativas necessárias ao discurso processual de resultados racionais e legítimos. Só por meio deles se pode falar num diálogo participativo, simétrico e paritário, no qual os argumentos de todos interessados podem influenciar o resultado. Tais direitos fundamentais são indispensáveis para assegurar um acesso jurisdicional adequado, no qual as partes podem participar na formação das decisões. Por meio deles a jurisdição pode reconstruir a interpretação e aplicação do direito com a devida legitimidade democrática, em razão da participação dialógica e plural dos interessados, além de justificar-se perante a opinião pública dos especialistas e dos demais cidadãos58

.

É preciso deixar claro que para a existência de um direito legítimo “a cooriginariedade entre direitos políticos fundamentais e direitos individuais fundamentais é essencial”59

. Para tanto, cada direito fundamental deve ser refletido em seu duplo prisma, iluminando, concomitantemente, um direito subjetivo individual e um direito de participação política de viés democrático60

. Isto inclui os direitos fundamentais processuais, como o contraditório e a fundamentação das decisões.

A relação entre direitos fundamentais e democracia é alçada, pela teoria do discurso de Habermas, a alicerce da legitimidade do direito61. Ambos favorecem as

autonomias privada e pública do indivíduo. Portanto, buscar uma atuação jurisdicional dotada de legitimidade é garantir, também no espaço processual, a interação entre direitos fundamentais e democracia.

Nesta pesquisa já se tracejou um conceito adequado de democracia e se explicou como tal concepção afeta todo o sistema de direitos. Resta agora perscrutar a teoria dos direitos fundamentais para melhor compreender seus reflexos sobre o direito processual civil. Tal medida é irrefutável, uma vez que o contraditório e a fundamentação das decisões judiciais também são direitos fundamentais. Mais que simplesmente lançar tal assertiva como premissa, examinar-se-ão as consequências acarretadas para o âmbito processual civil.

É isto que se passa a fazer no próximo tópico.

58

HABERMAS, Jürgen. Sobre a lógica dos discursos jurídicos. In: A inclusão do outro: discursos de teoria política. São Paulo: Loyola, 2002c, p. 354.

59

HABERMAS, Jürgen. Sobre a legitimação pelos direitos humanos. In: MERLE, Jean-Christophe; MOREIRA, Luiz. (Org.). Direito e legitimidade. São Paulo: Landy , 2003b, p. 72. _____, Acerca da legitimação com base nos direitos humanos. In: A inclusão do outro. Trad. George Sperber e Paulo Soethe. São Paulo: Loyola, 2002b, p. 285-297.

60

CATTONI DE OLIVEIRA, 2007, p. 109. 61

NUNES, Dierle José Coelho. Processo jurisdicional democrático: uma análise crítica das reformas constitucionais. Curitiba: Juruá, 2012, p. 51-52.

3

A

TEORIA

DOS

DIREITOS

FUNDAMENTAIS:

AS

CARACTERÍSTICAS

GENÉRICAS

DOS

DIREITOS

FUNDAMENTAIS PROCESSUAIS AO CONTRADITÓRIO E À

FUNDAMENTAÇÃO DAS DECISÕES