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É indispensável frisar o duplo caráter dos direitos fundamentais. Desde já, insta esclarece a adesão à dicção “perspectiva” para não causar confusões com o termo “dimensão”, anteriormente usado. Mas nada impede o câmbio destas expressões, haja vista tratar-se de mera questão de denominação75

.

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GUERRA FILHO, Willis Santiago. Processo constitucional e direitos fundamentais. São Paulo: Celso Bastos Editor, 1999, p. 40.

74

ZANETI JUNIOR, Hermes. Processo constitucional: o modelo constitucional de processo civil brasileiro. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2007, p. 62, 113-116.

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3.3.1 A perspectiva subjetiva

A perspectiva subjetiva revela a tradicional concepção de direitos subjetivos, a qual relaciona uma pessoa, titular do direito a uma coisa, a uma ação, ou a um estado de coisas76.

Robert Alexy parte de tal visão subjetiva para a explicação de sua teoria dos direitos fundamentais. Afirma que um direito fundamental completo pode ser tido como um feixe de posições de direitos fundamentais77

. Pode ainda ser disposto por várias normas ou por apenas uma. Em cada norma de direito fundamental, várias são as posições jurídicas que podem ser assumidas pelo sujeito titular do direito em face das ações ou dos demais sujeitos envolvidos numa determinada relação. Tais posições são repartidas, triplamente, em direitos a algo78

, liberdades e competências79

.

Tal perspectiva remete a “posições ou pretensões individuais juridicamente accionáveis através de procedimentos e processos específicos previstos e regulados na ordem jurídica”80. Quando assim considerados, os direitos fundamentais dão azo

à determinada posição jurídica, na qual o indivíduo que figure como titular de um direito pode requerê-lo em face do Estado. Estabelecem, portanto, situações jurídicas ativas.

Neste sentido, ao se falar que direitos fundamentais são direitos subjetivos se quer dizer que eles são dotados de exigibilidade ou justiciabilidade. Logo, são reclamáveis em face do Estado, em razão da posição jurídica de vantagem assumida por um sujeito em relação a um determinado bem juridicamente protegido, a uma norma jurídica, ou a outro sujeito, conforme uma dada situação81

. 76 EDMUNDSON, 2006, p. 15. 77 ALEXY, 2008, p. 249. 78

Alexy esclarece que a expressão “direito a algo” pode ser designada no mesmo sentido de “pretensão”. Mesmo sendo esta última de uso mais comum na linguagem jurídica pátria, prefere-se aqui manter o termo empregado pelo autor. Para maiores detalhes, ver: Ibidem, p. 193, nota 48. 79

Ibidem, p. 193. 80

CANOTILHO, José Joaquim Gomes. Das constituições dos direitos à crítica dos direitos. Revista

de Direito Público, v. 1, n. 7, jan./fev./mar., 2005. 81

Acredita-se que mais considerações acerca do que vem a ser direito subjetivo seriam desinteressantes ao objeto do presente trabalho. Opta-se, portanto, por uma conceituação ligeira, da mesma forma que feito por Ingo Sarlet. Ver: SARLET, 1998, p. 149-150. Ainda, vale conferir: CANOTILHO, 2003, p. 459.

3.3.2 A perspectiva objetiva

Sob o pálio da perspectiva objetiva é possível constatar uma visão do direito fundamental como norma jurídica. Trata-se de uma acepção institucional dos direitos fundamentais, que se mostra como uma norma jurídica objetiva, a qual orienta a interpretação e a aplicação de todo o ordenamento jurídico, impondo-se perante todos os atores jurídicos.

Com isto, busca-se a interferência estatal na realidade mediante prestações. Tais prestações podem ser fáticas, destinadas a assegurar um direito subjetivo; ou ainda por prestações normativas, que obrigam o legislador na criação de condições materiais e institucionais para o exercício de direitos82

. Acaba-se falando, de tal maneira, num dever de proteção por parte do poder público83

, ou ainda em direitos a programas de ação dos órgãos estatais84

.

Tal prisma objetivo revela ainda que os direitos fundamentais, enquanto valores positivados sob a forma jurídica integram o sistema de direitos, irradiando-se por todo o ordenamento jurídico. Deste modo conformam a totalidade dos atos do poder público, determinando uma atuação estatal positiva85. Assim, a eficácia dos

direitos fundamentais incide sobre todo o ordenamento jurídico, fornecendo diretrizes às funções do poder público em geral, ou seja, ao Legislativo, ao Executivo e ao Judiciário. Funda-se aí a característica de irradiação dos direitos fundamentais responsáveis pela constitucionalização do direito infraconstitucional.

Semelhantemente, a partir desta perspectiva se defende a irradiação dos direitos fundamentais também sobre as relações privadas. Diante disto, fala-se numa eficácia vertical dos direitos fundamentais, que atinge imediatamente o Estado; bem como numa eficácia horizontal que abrange, mediatamente, os particulares86.

Em tal sentido geram os direitos fundamentais um dever ao Estado de instituir meios que garantam a participação dos cidadãos na formação da vontade e da opinião pública87

. Daí se falar em direitos fundamentais à organização e procedimentos, mediante os quais serão criadas e interpretadas as normas jurídicas,

82 CANOTILHO, 2003, p. 476. 83 SARLET, 1998, p. 147. 84 CANOTILHO, 2005, passim. 85 MARINONI, 2008, p. 69-73. 86

Ibidem, p. 73-89. SARLET, op. cit., p. 335. Ainda, cf. item 4.3.3. 87

inclusive as de natureza procedimental, responsáveis pela atuação prática dos próprios direitos tidos por fundamentais88, como se verá adiante.

Em suma, a perspectiva em questão possui vastas implicações como, à guisa de ilustração, a força dirigente aos poderes públicos; o fundamento para controle de constitucionalidade material; a sua irradiação para restante do ordenamento jurídico; a eficácia horizontal sobre as relações privadas; a concepção de garantias institucionais constitucionalmente protegidas; o dever de prestação fática e normativa por parte do ente estatal; o dever de proteção oponível em face do Estado contra atos praticados por terceiros; o parâmetro para a organização de procedimentos; a orientação de interpretação e aplicação de normas procedimentais89

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Da mesma maneira, permite enxergar os direitos fundamentais ao contraditório e à fundamentação das decisões não apenas como direitos subjetivos, mas também como deveres institucionais do Estado90

. Assim, tais direitos podem realçar os valores que resguardam, como a liberdade, a igualdade, a democracia e o pluralismo.