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2.5 De corpo penitente a corpo confessional

2.5.4 A desqualificação, o grotesco e o ubuesco

Foucault (2014) nos fala a respeito dos discursos de verdade. Existem muitos em nossa sociedade, mas especificamente, ele trabalhou bastante aqueles que tinham o poder de vida e de morte sobre as pessoas. Nos mostrou como nos relatórios médico-legais esses enunciados prevaleciam sobre a vida dos relatados, no caso, dos réus em processos penais. O exame, com o seu relatório médico-legal, decidia a imputabilidade penal ou não e, ainda, se os acusados já apresentavam um certo DNA criminal em suas condutas pregressas.

O relatório médico era uma dissecação do indivíduo, dito de outra forma, era uma arqueologização, uma genealogização e uma eticalização das condutas, dos corpos, das sexualidades, em suma, da carne dos réus.

Uma arqueologização, pois relatava a vida pregressa deles, uma genealogização, pois demonstrava e descrevia uma criminalidade e uma delinquência sempre possível, sempre presente, imanente aos indivíduos e, ainda, uma eticalização, pois, uma vez arqueológico-genealogicamente fundamentada, prognosticava as condutas e a

periculosidade deles para a sociedade. Enfim, a prática do exame e o relatório dele era o que transmutava a “condição de réu ao estatuto de condenado” (FOUCAULT, 2014, p. 20), assim:

Não é mais o sujeito jurídico que os magistrados, os jurados, têm diante de si, mas um objeto: o objeto de uma tecnologia e de um saber de reparação, de readaptação, de reinserção, de correção. Em suma, o exame tem por função dobrar o autor, responsável ou não, do crime, com um sujeito delinquente que será objeto de uma tecnologia específica. [...] o exame psiquiátrico tem muitas vezes, para não dizer regularmente, um valor de demonstração ou de elemento demonstrador da criminalidade possível, ou antes, da eventual infração de que se acusa o indivíduo. Descrever seu caráter delinquente, descrever o fundo das condutas criminosas ou paracriminosas que ele vem trazendo consigo desde a infância, é evidentemente contribuir para fazê-lo passar da condição de réu ao estatuto de condenado.

A prática do exame e o relatório que dele surgia foram fundamentais para a constituição de saberes, e somente foram possíveis devido aos discursos de verdade ou, no mínimo, de pretensão a ela que neles emergiam e as faziam circular.

Foucault (2004) aponta entre esses discursos os que, de determinada forma, obedecem a um tipo de ritual para validar enunciados e ocupar a ordem discursiva. É o caso de proposições científicas e da maior parte dos enunciados ligados à formação do sistema de pensamento, estando entre eles, o político (FOUCAULT, 2004).

Muitos deles, apesar de terem sido validados em um dado momento e lugar, são grotescos ou ubuescos (FOUCAULT, 2014). O problema desses enunciados é que, por ocupar uma ordem discursiva, maximizam seus efeitos de poder a partir da desqualificação enunciativo-discursiva daqueles que os produzem. Mesmo esses discursos tendo ou sendo irrisórios, pueris, vazios de argumentos ou embasados por argumentos falaciosos, eles têm consequências.

Ainda que grotescos e ubuescos, esses discursos de saberes e de verdades, têm o poder de constituir, reconstituir ou instituir a normalização jurídico-político-religioso- social (FOUCAULT, 2014), como, por exemplo, o poder de destituir um presidente legitimamente eleito para o cargo.

Podemos demonstrar esses enunciados por intermédio do que ocorreu em 17 de abril de 2016, quando deputados federais votaram pela admissibilidade do pedido de impedimento da então presidenta, Dilma Rousseff. Assim, copiosos discursos grotescos, foram constituídos durante o processo de impedimento de Dilma, vazios, sem nexo, falaciosos, pueris e sem teor jurídico, como o da sequência seguinte pronunciado em 17 de abril de 2016 na Câmara dos Deputados em Brasília:

Sr. Presidente, o meu voto é em homenagem às vítimas da BR-251. O meu voto é para dizer que o Brasil tem jeito, e o Prefeito de Montes Claros mostra isso para todos nós com a sua gestão. O meu voto é por Tiago, David, Gabriel, Mateus, minha neta Júlia, minha mãe, Elza. Meu voto é pelo norte de Minas, é por Montes Claros, é por Minas Gerais, é pelo Brasil. “Sim”, “sim”, “sim”, “sim”, “sim”, “sim”! (CONGRESSO NACIONAL, 2016, grifos nossos).

O que era esperado em uma votação dessa magnitude, de admissibilidade de abertura de processo de impedimento contra um presidente, era, no mínimo, que fosse trazido à baila os motivos pelos quais se estaria votando a favor ou contra esse processo.

O acontecido evidencia que esses discursos, mesmo sendo irrisórios, pueris, vazios de conteúdo ou argumentos validadores plausíveis, têm o poder de decidir a vida de toda a sociedade, têm o poder, segundo Foucault (2014), de vida ou de morte, como nos relatórios médico-legais.

Eles, igualmente, estiveram presentes nos pronunciamentos do PLC 122/06. Mesmo sendo grotescos e ubuescos, tiveram a chancela da verdade, ocuparam a ordem do discurso, constituíram verdades e saberes a partir da desqualificação enunciativo-discursiva daqueles que os produziram, mas conseguiram, no entanto, uma maximização do poder.

Como na sequência de 25 de maio de 2007 realizada na Câmara dos Deputados, sessão 122.1.53.O, em que o corpo, a sexualidade e a intimidade das pessoas LGBTIs são expostos de forma desqualificadora (cf. capítulo 6, seção 6.4.7):

Sr. Presidente, vou dar um recado a essa Senadora [...], absurdo são 2 homens quererem gerar filhos juntos. Absurdo são 2 mulheres viverem juntas e quererem gerar filhos. Usem os argumentos que quiserem. Se quiserem argumentos biológicos: não há como um homem biologicamente fazer sexo com outro homem. Se quiserem os argumentos da Medicina: os próprios médicos dizem que a película dos órgãos do intestino e do reto não tem elasticidade suficiente para a prática sexual. Por isso, existem muitas doenças

provocados por ela.

Temos argumentos psicossomáticos, biológicos; enfim, da própria vida. Falando de forma exagerada, se as mulheres do país casarem-se entre si e todos os homens também, ao final de uma geração não teremos mais a procriação de seres humanos. Defendo os direitos da família e o direito da livre expressão não por desamor aos homossexuais. Pelo contrário, amo o homossexual, mas não amo o homossexualismo. Muito obrigado, Sr. Presidente. (CONGRESSO NACIONAL, 2007, grifos nossos).

Em nossos corpora de estudo, os pronunciamentos políticos durante o período de tramitação do 122/06, entre os anos de 2001 a 2014, a desqualificação é recorrente na maioria dos enunciados analisados. Para Foucault (2014), desqualificar o outro e o inferiorizar é uma técnica e uma estratégia de diversos dispositivos em nossa sociedade.

Foucault (2014) cita como exemplo discursos de desqualificação e inferiorização que se baseavam nas descrições físicas dos indivíduos, incluindo as psicopatológicas, psicológicas e as psiquiátricas.

Outro jeito de desqualificar citado por Foucault (2014) é o princípio da discriminação político-histórica pautadas pelo biodeterminismo, bastante difundida na Itália do século XIX e início do século XX. Esse tipo de desqualificação é voltado para todos os indivíduos que de alguma forma enfrentam ou tentam destituir a “normalidade” e “naturalidade” das questões político-jurídico-sociais, ou seja, para aqueles que questionam o status quo em qualquer situação.

Destarte, por esse tipo de desqualificação por discriminação política era possível classificar em legítimas ou ilegítimas as revoluções e os integrantes dos movimentos sociais. Dessa maneira, eles poderiam ser validados, distinguidos, criticados, excluídos ou punidos. Foucault (2014, p. 131-132) assevera que:

Se for possível provar que os movimentos atuais são obra de homens pertencentes a uma classe biologicamente, anatomicamente, psicologicamente, psiquiatricamente desviante, então ter-se-á o princípio da discriminação. E a ciência biológica, anatômica, psicológica, psiquiátrica, permitirá logo que se reconheça num movimento político, o que pode ser efetivamente validado e o que deve ser desqualificado. Era o que Lombroso dizia em suas aplicações da antropologia. Dizia ele: a antropologia parece nos dar os meios de diferenciar a verdadeira revolução, sempre fecunda e útil, da sublevação, da rebelião, que é estéril. Os grandes revolucionários – continuava ele -, a saber, Paoli, Mazzini, Garibaldi, Gambetta, Charlotte Corday e Karl Marx eram quase todos santos e gênios, e aliás tinham uma fisionomia maravilhosamente harmoniosa. Em compensação, tomando-se as fotos de 41 anarquistas de Paris, percebe-se que 31% desses 41 tinham estigmas físicos graves. Em cem anarquistas detidos em Turim, 34% não tinham a fisionomia maravilhosamente harmoniosa de Charlotte Corday e de Karl Marx (o que é um sinal de que o movimento político que eles representam é um movimento que merece ser histórica e politicamente desqualificado, pois que já é fisiológica e psiquiatricamente desqualificado). É do mesmo modo que, na França, depois de 1871 até o fim do século, a psiquiatria vai ser utilizada com base nesse modelo do princípio da discriminação política.

Como nos relatórios médico-legais a desqualificação por discriminação política mediante aspectos físicos é útil à constituição de saberes, de verdades e de poder. E engana-se quem pensa que essas estratégias, essas técnicas e esses mecanismos pertençam somente a séculos passados. Estratégias e mecanismos de desqualificação política muito parecidos aos que Foucault (2014) descreveu ocorreram nos enunciados do 122/06. Como, por exemplo, na sequência de 13 de março de 2013 enunciada na Câmara dos Deputados na sessão 030.3.54.O, em que o dado estatístico sobre a violência contra as pessoas

LGBTIs é colocado em dúvida a partir da tentativa de desqualificação de quem o produziu (cf. capítulo 6, seção 6.4.4), neste caso, o professor e antropólogo Luiz Mott:

A estatística, produzida pelo Grupo Gay da Bahia, é um contraste total com os cerca de 50 mil brasileiros assassinados a cada ano. As políticas socialistas de desarmamento têm deixado a população brasileira à mercê de criminosos e assassinos. Os homossexuais, que muitas vezes vivem em áreas infestadas de prostituição e drogas, não são mais vulneráveis do que a população em geral. Além disso, a fonte da "elevada violência" contra os homossexuais é questionável. O Grupo Gay da Bahia foi fundado por Luiz Mott, um ativista gay cuja defesa da pedofilia é pública. (CONGRESSO NACIONAL, 2013, grifos nossos).

Foucault (2014) escreveu sobre a desqualificação por discriminação política que sofriam os integrantes de movimentos sociais tidos como não legítimos na Itália, na França, na Inglaterra, na Alemanha, na Rússia e etc‥

Aos discursos grotescos e ubuescos, segundo Foucault (2014), imanentemente, está o infame, o odioso, o ridículo, que são engrenagens ou mecânicas deles. São, da mesma maneira, a personificação quase teatral da desqualificação (FOUCAULT, 2014). Por isso, o grotesco, como maximização do efeito de poder, é corporificado. Tem um étos que legitima a quem o possui governar ou, no mínimo dominar, mesmo que ubuescamente. Para Foucault (2014, p. 12), essa desqualificação:

Faz aquele que é o detentor da majestas – desse algo a mais de poder em relação a todo poder, qualquer que seja ele – ser ao mesmo tempo, em sua pessoa, em sua personagem, em sua realidade física, em seus trajes, em seu gesto, em seu corpo, em sua sexualidade, em sua maneira de ser, um personagem infame, grotesco, ridículo. De Nero a Heliogábolo, o funcionamento, a engrenagem do poder grotesco, da soberania infame, foi perpetuamente aplicada no funcionamento do Império romano. O grotesco é um dos procedimentos essenciais à soberania arbitrária. [...] o grotesco é um procedimento inerente à burocracia aplicada. Que a máquina administrativa, com seus efeitos de poder incontornáveis, passa pelo funcionário medíocre, nulo, imbecil, cheio de caspa, ridículo, puído, pobre, impotente, tudo isso foi um dos traços essenciais das grandes burocracias ocidentais, desde o século XIX. [...] o que digo da burocracia moderna, poderia perfeitamente ser dito de outras mecânicas de poder, do nazismo ou do fascismo. O grotesco de alguém como Mussolini estava absolutamente inscrito na mecânica do poder. O poder se dava essa imagem de provir de alguém que estava teatralmente disfarçado, desenhado como palhaço, como bufão de feira. Parece-me que encontramos aí, da soberania infame à autoridade ridícula, todos os graus do que poderíamos chamar de indignidade do poder.

Foucault (2014) cita figuras históricas, da soberania infame à autoridade ridícula, que materializaram o terror grotesco e ubuesco. Apreender o grotesco, efetivamente nas múltiplas materializações, requer transmutá-lo de uma aparente irrisoridade, puerilidade,

nulidade, mediocridade, ridicularidade e etc‥ É necessário redimensioná-lo ao real poder que tem de constituir, instituir, reconstituir saberes e verdades sobre os direitos, a liberdade, as condutas, os corpos, as sexualidades e, tudo aquilo que, de uma maneira ou de outra, tangencia a vida de todos nós.

Enfim, não há nada de irrisório e pueril no grotesco e ubuesco.

O próximo capítulo é dedicado a descrição do referencial teórico ao qual se filia esta pesquisa, ou seja, os estudos enunciativo-discursivos de Maingueneau (1997, 2005, 2008a, 2008b, 2008c, 2008d, 2010, 2014, 2015) e as contribuições foucaultianas para os estudos de linguagem (FOUCAULT, 2002, 2004, 2008a, 2009, 2011, 2012a, 2014, 2015, 2016).