A homofobia deve ser compreendida para além de uma origem psíquica das fobias (BORRILLO, 2010). Ela deve ser entendida como uma forma de dispositivo que (re)atualiza, que naturaliza, que normaliza práticas preconceituosas, discriminatórias e a violência física ou psicológica contra as pessoas LGBTIs.
Borrillo (2010) afirma que a homofobia ultrapassa o caráter psíquico intrínseco a determinados indivíduos ou grupos, para o autor, ela é institucional, jurídica e social.
O termo homofobia foi descrito pela primeira vez em 1971, segundo Borrillo (2010, p. 10) como “medo expresso por heterossexuais de estarem em presença de homossexuais”, porém, vem sofrendo constantes ressignificações e, somente em 1998 que o termo homofobia aparece pela primeira vez, segundo Borrillo (2010), em um dicionário de língua francesa.
Para Rios (2006, 2007a, 2007b, 2012a, 2012b), Rodrigues (2007), Borrillo (2010) e Rago (2016), a homofobia não deve ser entendida e ser tratada como uma fobia. Ela, a
homofobia, desumaniza, inferioriza, exclui, torna anormal o outro, e isso, muitas vezes por meio de violência física.
Ainda para os autores supramencionados, Rios (2006, 2007a, 2007b, 2012a, 2012b), Rodrigues (2007), Borrillo (2010) e Rago (2016), ela é compartilhada socialmente pelo senso comum, porém, nem todas as pessoas refletiriam sobre ela, nem todas a debateriam, nem todas a problematizariam, pelo contrário, algumas tentariam banalizá-la a associando apenas a interesses específicos dos LGBTIs e a uma certa vitimização deles (BORRILLO, 2010 e RIOS, 2007a, 2007b). Essa tentativa de banalização e de desqualificação do conceito foi muito recorrente nos enunciados da proposição 122/06 (cf. capítulo 6, seção 6.4.3).
Nesse ponto, a homofobia seria apenas uma ficção para tentar se criar uma casta social diferenciada, respaldada juridicamente e acima de todos os outros cidadãos de direito e com direito – os heterossexuais – na sociedade. Essa tática de banalização ou de inversão do que é realmente a homofobia objetiva naturalizar e normalizar aquilo que não é normal e nem natural (BORRILLO, 2010).
A noção de homofobia deve ser considerada como mecanismo de diversos dispositivos, inserida em correlações de força enunciativo-discursivas e, ainda, deve ser considerada como práticas discriminatórias e preconceituosas. Muitas vezes ela é disseminada de forma sub-reptícia por discursos que incentivam a essas práticas contra as pessoas LGBTIs.
Deve ser vista e entendida como constituição de diversos saberes que normalizam condutas impondo um modelo hegemônico e valorizado de sexualidade pautada pelo padrão heterossexista. Para Borrillo (2010), no que se refere ao termo homofobia, ele seria insuficiente para dar conta de tantos fenômenos sem uma única ideia, nesse sentido, para Borrillo (2010, p. 23):
Para exprimir a complexidade do fenômeno, de maneira mais satisfatória, deveríamos utilizar, em vez de homofobia específica, os seguintes termos: “gayfobia”, para a homofobia em relação aos homossexuais masculinos, “lesbofobia”, no caso das mulheres homossexuais [...], “bifobia”, ao se tratar de bissexuais, ou, ainda, “travestifobia” ou “transfobia”, em relação aos travestis ou transexuais que sofrem tal hostilidade. Por razões de economia de linguagem, adotamos “homofobia” para o conjunto desses fenômenos.
Borrillo (2010) divide a ideia de homofobia em dois tipos específicos: irracional e cognitiva. A primeira seria aquela que tem o medo, a aversão, a repulsa e, a segunda estaria intrínseca nas relações sociais, por intermédio das práticas enunciativo-discursivas, como,
por exemplo, o uso de palavras pejorativas. Quando os dois tipos de homofobia ocorrem juntas forma-se a injúria. Para Borrillo (2010, p. 24-25):
As expressões “veado nojento”, “sapatão sem vergonha” estão longe de ser simples palavras lançadas ao vento, mas agressões verbais que deixam marcas na consciência, traumas que se inscrevem na memória e no corpo (de fato a timidez, o constrangimento e a vergonha são atitudes corporais resultantes da hostilidade do mundo exterior). E uma das consequências da injúria consiste em modelar a relação com os outros e com o mundo, portanto, em modelar a personalidade, a subjetividade e o próprio ser de um indivíduo.
A homofobia somente pode ser pensada e analisada dentro de sistemas normativos e hierarquizantes das sexualidades. Eles instituem e organizam as práticas sociais em uma ordem binária, em uma ordem lógica e em uma ordem natural, balizada pelas diferenças sexuais entre os dois sexos. Nessa ordem, o masculino tem sempre a primazia sobre o feminino e a heterossexualidade tem primazia sobre a homossexualidade (BORRILLO, 2010).
Com esse pensamento, Borrillo (2010) associa a homofobia ao heterossexismo – crença em uma supremacia heterossexual – pois o “heterossexismo é para a homofobia aquilo que o sexismo é para a misoginia, apesar de esses serem distintos, um não pode ser concebido sem o outro” (BORRILLO, 2010, p. 34).
Destarte, para Borrillo (2010, p. 43-44):
Os elementos precursores de uma hostilidade contra lésbicas e gays emanam da tradição judaico-cristã. Para o pensamento pagão, a sexualidade entre pessoas do mesmo sexo era considerada um elemento constitutivo, até mesmo, indispensável, da vida do indivíduo (sobretudo, masculino). Por sua vez, o cristianismo, ao acentuar a hostilidade da lei judaica, começou a situar os atos homossexuais – e, em seguida, as pessoas que o cometem – não só fora da Salvação, mas também e, sobretudo, à margem da natureza. O cristianismo triunfante transformará essa exclusão da natureza no elemento precursor e capital da ideologia homofóbica. Mais tarde, se o sodomita é condenado à fogueira, se o homossexual é considerado um doente suscetível de ser encarcerado ou se o perverso acaba seus dias em um campo de extermínio, é porque deixam de participar da natureza humana. A desumanização foi, assim, a
conditio sine qua non da inferiorização, da segregação e da eliminação
dos “marginais em matéria de sexo”. Desde os Padres da Igreja até à teologia moderna, passando pela Escolástica e pela tradição canônica, as fontes do heterossexismo e da homofobia encontram-se, sem qualquer dúvida, na concepção sexual do pensamento judaico-cristão. [...] as elites judaico-cristãs, assim como as do universo greco-romano, acreditavam na superioridade do masculino e na ordem patriarcal que é sua consequência.
A desumanização do outro, a redução do outro a abjeto, a anormal, é o que a homofobia faz.
A origem de muitas práticas preconceituosas, discriminatórias e de violência contra as pessoas LGBTIs podem ser vinculadas, mas não somente, aos discursos judaico-cristão, segundo apontam os estudos de Rios (2006, 2007a, 2007b, 2012a, 2012b) Borrillo (2010), Rago (2016) e Foucault (2012b, 2012c, 2012d, 2014). Esses discursos constituíram práticas enunciativo-discursivas contra aquilo que consideravam “anormal” para os padrões que determinavam.
A constituição da homofobia, segundo Borrillo (2010), se divide em vários processos e percursos históricos, cada qual instituindo um tipo específico de homofobia por intermédio de políticas características desses sistemas:
✓ homofobia clínica: ligada aos saberes e às práticas médicas do século XIX e início do XX que buscavam a explicação para a homossexualidade. Para Borrillo (2010), a mínima atitude de se tentar explicar ou entender para a homossexualidade já é, em si mesma, nessa intencionalidade, uma prática racista e homofóbica;
✓ homofobia antropológica: ligada a uma ideologia diferencialista, baseada no evolucionismo, e que tomou força com a teoria da degenerescência. Essa vertente da antropologia moderna se baseia em uma evidência antropológica na diferença entre os sexos masculino / feminino. Para essa vertente, segundo Borrillo (2010, p. 73), a homossexualidade é “não só tolerada, mas também reconhecida, com a condição de que ela não elimine a divisão entre masculino e feminino”;
✓ homofobia liberal: ligada às dicotomias privado/público, interior/exterior, vida privada/vida pública. É reconhecida por liberal, pois garante o respeito à intimidade, desde que seja, literalmente, na intimidade (BORRILLO, 2010). Nessa visão, a homossexualidade deve ser experenciada nos limites do privado, encerradas dentro de casa. Essa perspectiva se pauta na ideia de tolerância. Dessa maneira, políticas públicas são aceitáveis, mas não o reconhecimento de direitos igualitários (BORRILLO, 2010);
✓ homofobia burocrática: ligada ao stalinismo e aos saberes médicos do final do século XIX e início do XX, por essa perspectiva, a homossexualidade deveria ser tratada como fenômeno político que, como o capitalismo decadente, desapareceria e daria lugar a uma sociedade saudável pautada pelo comunismo (BORRILLO, p. 2010);
✓ homofobia paroxística: para Borrillo (2010), é a mais triste da história. Ligada ao nazismo que exterminou milhares de homossexuais nos campos de concentração da Alemanha, única e exclusivamente por não serem reprodutivos sexualmente (BORRILLO, 2010). Borrillo (2010) designará esse episódio de holocausto gay.
No próximo segmento traçaremos o que consideramos ser um caminho para entendermos como as práticas preconceituosas e as discriminatórias contra os/as LGBTIs chegaram aos dias atuais. Tais práticas atravessaram os tempos constituindo, reconstituindo e instituindo saberes e, ainda hoje, continuam a tomar as sexualidades como domínios discursivos.