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A dimensão religiosa da vida e do trabalho escolares

No documento Escola católica, liderança e ethos (páginas 163-166)

PARTE III: ESTUDO EMPÍRICO

3. Uma lufada de ar fresco na religião: uma missão possível

3.3. A dimensão religiosa da vida e do trabalho escolares

Do exposto, se percebe que a simpatia de que goza a disciplina de EMRC, em ambos os colégios, se deve também ao facto de que o domínio do religioso, na Escola Católica, não se esgote na oferta e na obrigatoriedade de frequência da disciplina de EMRC, mas seja transversal ao ensino, à vida e à cultura escolar, com as necessárias pontes de diálogo e de colaboração interdisciplinar, que cabe sobretudo aos professor de EMRC promover. Uma vez que não fizemos nenhuma observação em contexto de aula, não nos é possível verificar como se concretiza essa transversalidade da dimensão religiosa do ensino, na lecionação (CEC, 1988, nº 47), de modo que, aos alunos, seja proposta uma visão cristã da pessoa, do pensamento, da cultura, da história, da arte, na perspetiva de uma educação integral (idem, nº 63). Mas as diversas iniciativas e atividades, de um e outro colégio, indiciam, pelo menos, essa preocupação de síntese entre a fé e a ciência, entre a fé e a cultura, que é missão peculiar do ensino na Escola Católica (GE, 1965, nº 8; CEP, 1978, nº 9-10).

“Numa das salas [do pré-escolar do Colégio A] o quadro «A família é amiga» irá ser substituído pelo «Presépio», pela «Sagrada Família». «De manhã» - pergunta a Diretora - «os meninos dão os bons dias a quem?» Os meninos respondem «A Jesus».” (NTA1).

Em todas as salas [do pré-escolar] há “«o cantinho de Jesus» com orações, atividades, textos, imagens” (NTA1). Vejo, assim, nesta visita acompanhada pela Diretora, que a dimensão religiosa é trabalhada, desde o pré-escolar. No corredor, encontro duas professoras a conversar e “uma das professoras de história, fala com orgulho, da sua aula sobre o cristianismo, em que falou de Pedro e de Paulo, «dois santos, tão diferentes que levaram a Igreja por diante»” (NTA1).

Aliás, todos os professores estão envolvidos nas dinâmicas propostas no âmbito da animação pastoral, liderada pelo grupo de EMRC:

“No cacife de cada professor, está uma folha A4 dobrada em A5, explicando a dinâmica. Todos os professores estão a par e envolvidos, pois, em todos os dias de Advento, (no período escolar) os dez primeiros minutos da aula serão dedicados a essa tarefa” (NTA2).

Na entrevista há um dos professores que justifica o bom aproveitamento da disciplina de Moral, com o argumento de que “os conteúdos da disciplina de religião também são trabalhados um bocadinho verticalmente e horizontalmente, transversalmente ao nível das disciplinas, não só pelas atividades que se realizam esporadicamente nas comemorações e no próprio calendário, eu acho que sim” (APC: EPA). Essa interdisciplinaridade é atestada por um aluno do Colégio A:

“Eu acho que um ponto fulcral [da disciplina de Moral] é a interdisciplinaridade. (…) É que nos falamos dos mais variados assuntos. (…) Nós, por exemplo, numa semana estamos a dar as posições ateístas definidas, as mais importantes, e na semana a seguir podemos estar a falar disso em história, e que foram personalidades realmente muito importantes. E até nos ajuda mais a compreender a ligação entre as diferentes matérias” (M: EAA1).

Deste modo, “os alunos ficarão com uma boa impressão da cooperação fraterna entre os diferentes professores. Descobrirão que estes se prestam à mútua colaboração, com a única finalidade de os ajudar a crescer no plano do conhecimento e no plano das convicções” (CEC, 2007, nº 65). Esta interdisciplinaridade e as propostas do grupo de

EMRC vai “formatando” a visão cristã do trabalho que exercem ou, como confessa um deles: “Eu diria da seguinte forma: é preciso lutar, e nós não desistimos disso, e a pouco e pouco as coisas vão entrando” (FM: EPA).

No Colégio B não é tão notória a dimensão religiosa do ensino e a transversalidade do ensino religioso, uma vez que o grupo de professores de EMRC não é tão qualificado, como o do Colégio B e a aposta na animação pastoral está praticamente confinada à oferta da catequese. Todavia, perscrutam-se alguns sinais de melhoria e empenhamento nesta área. Por exemplo, o facto de todos os professores estarem envolvidos nas práticas religiosas do Colégio: “na mesma sala de professores, uma folha A5 contém uma oração diferente, para os cinco dias úteis da semana, que os professores levam consigo, para fazerem na primeira aula da manhã” (NTB4). O Diretor Pedagógico do Colégio B reconhece a “pobreza” do grupo de EMRC e a insuficiente influência na dimensão religiosa do ensino e da vida escolar e procura remediar e melhorar a situação:

“Em contrapartida, eu fiz um esforço pessoal para que a dimensão cristã esteja presente nos diferentes momentos da nossa escola. Não há nenhuma reunião de Direção, e estou a falar do Conselho Pedagógico, da reunião com os Diretores de Turma, estou a falar com uma reunião geral, estou a falar das diferentes reuniões que vão aparecendo, que se inicie com um momento, um texto, uma partilha, uma pequena reflexão [de cariz mais religioso e cristão] (…) Mas também queria acrescentar que nessas reuniões com os encarregados de educação nós temos sempre algum momento em que os desafiamos a olhar para o tempo e para as circunstâncias com a lupa do cristianismo, de uma Escola Católica. Nós desafiamos sempre” (EDPB).

“As nossas aulas, às oito e vinte, iniciam também com uma oração” (EDPB), acrescenta. “De vez em quando convidamos alguém que vem trazer uma palavra, outras vezes convidamos mesmo os professores a irem a outros espaços onde essa oferta, essa proposta de educação espiritual, de promoção duma inteligência espiritual acontece” (EDPB). E o mesmo Diretor Pedagógico acredita na importância da experiência e vivência cristã dos professores, para o desenvolvimento da dimensão religiosa do ensino e da cultura escolar: “sei que tenho aqui gente que trabalha nas paróquias, que tem responsabilidades a nível de coordenação de catequese, coordenação de coro, gente muitíssimo envolvida nas suas comunidades locais. Tenho catequistas” (EDPB). A

Diretora do Colégio B acredita também na influência que a dimensão da fé tem na vida escolar:

“Agora, a dimensão da fé, se é que quer assim um enquadramento, até que ponto fortalece, estimula ou não os nossos alunos, na medida em que, de modo implícito ou explícito, procuramos que seja uma realidade no nosso ambiente escolar. Eu penso que sim, é sempre uma força tão positiva, tão inspiradora, tão motivadora que puxa sempre os nossos alunos, que os eleva, que os faz procurar mais esta abertura para o transcendente” (EDAB).

No documento Escola católica, liderança e ethos (páginas 163-166)