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Um ethos, que marca e distingue

No documento Escola católica, liderança e ethos (páginas 198-200)

PARTE III: ESTUDO EMPÍRICO

6. Um ethos, que marca e distingue

Segundo Nóvoa (1992), os estudos centrados nas caraterísticas organizacionais das escolas, tendem a construir-se com base em três grandes áreas: a) a estrutura física da escola, que atende à sua dimensão, recursos materiais, número de turmas, edifício escolar, organização de espaços, e a que já me referi, quando fiz a análise de conteúdo a partir da categoria “ambiente educativo” e, dentro dela, da subcategoria relativa ao “ambiente físico” de cada um dos Colégios, destacando, em ambos, a presença dominante da capela no edifício escolar, as diferenças de estrutura de construção (parte velha e parte nova) no Colégio A e a insuficiência de espaços interiores (no Colégio A) e exteriores (no Colégio B), sem que isso afete grandemente o ambiente familiar da escola; b) a estrutura administrativa da escola, patente na gestão, direção, controle, tomada de decisão, pessoa docente, auxiliar, participação das comunidades, relação com as autoridades centrais e locais, etc., temáticas que desenvolvemos na análise das categorias de liderança e de ambiente de escola, onde ressaltámos uma abertura positiva ao meio (social, cultural e eclesial) e uma cultura de corresponsabilidade, entre professores e entre estes e as lideranças diretivas, sendo esta mais informal que formal; c) a estrutura social da escola, que tem em conta a relação entre alunos, professores e funcionários, responsabilização e participação dos pais, democracia interna, cultura organizacional da escola, clima social, etc., que nos ocuparam na análise de várias

subcategorias, mas em que sobressai um ambiente familiar, onde todos se sentem conhecidos e reconhecidos e se evidencia um défice de participação dos pais na construção do colégio como comunidade educativa e eclesial.

Nóvoa (1992) procura evidenciar como as organizações tendem a ser consideradas como culturas. Esta ideia origina um conceito relativamente novo: o de cultura organizacional, que foi transportado para os estudos na área da educação, a partir da década de 70. Brunet (1988 citado por idem, p.4) dirá mesmo que “as organizações escolares, ainda que estejam integradas num contexto cultural mais amplo, produzem uma cultura interna que lhes é própria e que exprime os valores e as crenças que os membros da organização partilham”. Adaptando um esquema de Hedley Beare (1989 citado por idem, p.30) diz que “é possível visualizar alguns elementos da cultura organizacional da escola, sistematizados numa zona de invisibilidade (manifestações verbais e concetuais) e numa zona de visibilidade (manifestações verbais e conceptuais, manifestações visuais e simbólicas, manifestações comportamentais)”. O seu esquema de leitura da cultura organizacional de escola é bastante claro e ajuda -nos “a arrumar a casa”, a analisar as instituições escolares, dentro deste prisma. Assim, dentro das bases concetuais e pressupostos invisíveis, agrupam-se um conjunto de elementos como os valores, as crenças e as ideologias dos membros da organização, que, de algum modo, analisámos ao referirmo-nos ao ensino religioso e à dimensão religiosa do ensino, à bolsa de valores de cada um dos colégios, às convicções pessoais e à autoridade moral da liderança e dos professores. Do conjunto das manifestações verbais e concetuais, fazem parte os fins, objetivos, curriculum, linguagem, metáforas, histórias, heróis, etc. As manifestações visuais e simbólicas são patentes na arquitetura e equipamentos, artefactos e logótipos, lemas e divisas, uniformes, imagem exterior, etc. No grupo das manifestações comportamentais, incluem-se os rituais, cerimónias, ensino e aprendizagens, normas e regulamentos, procedimentos operacionais etc, donde destacámos a disciplina e a segurança, como valores muito presentes e assumidos e motivos de orgulho e de preferência de cada um dos Colégios.

Partindo desta grelha, irei dedicar a análise às manifestações visuais e simbólicas mais evidentes, na minha observação, como sejam os logótipos, lemas e uniformes, sem esquecer os rituais e cerimónias, que marcam a cultura, sobretudo religiosa, de cada um dos colégios, uma vez que alguns aspetos mais importantes do regulamento interno dos colégios já foram analisados.

6.1. O logótipo e o lema: a imagem e a mensagem

No corredor de acesso à sala dos professores, no Colégio A, pode admirar-se um belo quadro de cerca de um metro quadrado, com o lema ou divisa do Colégio bem assinalado. O lema está escrito em latim e é comum a todos os centros educativos pertencentes à Congregação religiosa titular do Colégio. Nos documentos relativos à visão e a missão dos colégios da congregação (uma espécie de ideário) e No Projeto Educativo do Colégio, objeto desta investigação, aparece sempre a mesma tríade dos valores, sem qualquer tradução, o que dificulta a sua apreensão e compreensão, por parte de quem acede ao Colégio ou aos seus documentos e no site. Mas, nas entrevistas aos alunos, dou-me conta de que sabem o que significam as três palavras. Traduzem-nas rapidamente e justificam a relação: “Porque é basicamente aquilo que este Colégio consegue conjugar num só” (PS: EAA1). “São as três palavras do Colégio, é o lema do Colégio” (J e S: EAA2). Quando tomo na mão um emblema do Colégio, pergunto: “Conhecem isto?” A resposta é muito célere: “É o que nos identifica, basicamente (…) É o símbolo” (S e todas as alunas: EAA2). Percebemos porque é que conhecem tão bem o lema. E a explicação é-nos dada por um professor:

“sinceramente, uma das primeiras, e quando eu falo mais, em termos de transmissão, é quando eu faço entrevista aos alunos novos, agora faço entrevista aos novos alunos que vêm para a casa, um dos assuntos que mais conversamos é: o que os leva a vir para o Colégio, e o que é que essas três palavras lhes dizem. Portanto, uma auscultação aos pais porque escolherem uma instituição é por alguma razão, e aquelas três palavras dizem muito ao Colégio desde a sua formação” (IM: EPA).

Este lema está gravado nos uniformes e em vários lugares e produtos do Colégio, pelo que é amplamente conhecido e torna-se verdadeiramente simbólico na medida em que, literalmente, une e galvaniza a comunidade educativa, como uma espécie de divisa comum.

No Colégio B, o logótipo tem uma frase e uma imagem com vários elementos. Mas o lema do Colégio, dizem os alunos, e por muitas vezes, é a hospitalidade (RM: EAB1). “Esta acolhida que é sempre generosamente oferecida aos alunos e que eles possam usar naquele espaço, desta tranquilidade, desta harmonia, deste acolhimento – condições imprescindíveis parque possa acontecer o ato educativo” (EDAB). É uma ideia muito enraizada no discurso e, em boa verdade, também muito patente na atitude

No documento Escola católica, liderança e ethos (páginas 198-200)