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A formação integral do aluno: do bom aluno ao aluno bom

No documento Escola católica, liderança e ethos (páginas 132-137)

PARTE III: ESTUDO EMPÍRICO

1. A educação integral: uma janela, donde se vê muita coisa

1.1. A formação integral do aluno: do bom aluno ao aluno bom

As ofertas educativas do Colégio A e do Colégio B, no âmbito das atividades extracurriculares são suficientemente amplas e diversificadas, testemunhando uma educação integral que desenvolve competências em termos de consciência, de pensamento crítico, de ação criadora e transformadora” (CEC, 2014, 3.1.e). A título de exemplo, “um outro cartaz sugestivo tem como título «Globalização da indiferença:

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Informação recolhida a partir de uma publicação elaborada pelo Colégio e distribuída aos pais e encarregados de educação.

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Onde está o teu irmão?». Trata-se de uma temática, a ser trabalhada durante o ano, com várias iniciativas levadas a cabo por um grupo de voluntariado social” (NTA1). Na entrada principal do Colégio A,

“está uma publicação sobre as atividades extracurriculares: teatro, oficina de pintura, judo, natação, ténis, ballet clássico, dança rítmica, dança contemporânea; piano, viola, vozes CLF, orquestra ORFF, xadrez, bateria, ginástica acrobática e mandarim. São oferta do colégio «Vozes [A]» e «Orquestra ORFF». Nos corredores há também divulgação de uma atividade de enriquecimento curricular «ConheSer» e as Olimpíadas da leitura. Não faltam propostas educativas. Na sala dos professores vi também referências a uma atividade da Banda do Colégio. Num dos acessos ao campo do Colégio A, participando, como observador, na reunião do Conselho Pedagógico, verifico que “outras atividades como a feira do livro e a feira das artes são avaliadas, advertindo alguns [professores] que a feira do livro deve ter uma finalidade mais pedagógica (promoção de leitura) do que comercial, mesmo se os alunos contam com descontos de 10% e os lucros obtidos revertem a favor do Departamento de línguas” (NTA6).

O mesmo Conselho Pedagógico,

“detém-se sobre atividades a realizar, previstas no Plano Anual de Atividades, falando- se de um flashmob, de uma dança da ressurreição, de uma formação prática com a PSP, de visitas de estudo, de olimpíadas, de caminhada quaresmal, de conferência sobre a «Indiferença e a globalização», de ida ao teatro, de torneios de basquete e futebol. Uma panóplia de atividades, que relevam para uma educação integral” (NTA6).

O Plano Anual de Atividades do Colégio A refere-se a uma demonstração, no final do ano, dos grupos de Natação, Judo, Ténis, Orquestra e Coro Infantil, Teatro e Expressão Corporal. Durante o ano, o mesmo documento refere várias atividades, tais como a feira das artes, a oficina da escrita, o ciclo de cinema, o apoio ao Banco Alimentar contra a Fome, as Olimpíadas do Ambiente, da Matemática, da Biologia Júnior, da Biologia, da Biotecnologia, entre outras. Mas nada é dito, por exemplo, no plano curricular, sobre pedagogias de acompanhamento personalizado, planos de recuperação, metodologias de apoio, em ordem à promoção do sucesso de cada aluno.

Como pude verificar, no Colégio B, “no átrio de entrada há publicidade a «aulas de preparação para o exame» e a outras atividades no campo do «Criarte», como Kinn

ball, coro, vólei, ginástica, artes… sugerindo propostas de desenvolvimento integral” (NTB1) que só um exame atento da lecionação, me permitiria concluir, mas que, de algum modo, se pode inferir do testemunho dos alunos, como adiante veremos. No Regulamento e no Plano de Atividade de Acompanhamento Pedagógico do Colégio B estão elencados os diversos clubes, tais como clube das artes, clube das ciências, clube dos artistas, clube do desporto escolar (Voleibol. Kin-ball), clube da ginástica, coro, Criarte, para além da oferta do serviço de Catequese, aos que a pedem (cf. art. 6º do Regulamento do Colégio A13).

Numa entrevista, aos professores do Colégio A interrogo-os: “Para vocês, é uma nota distintiva da Escola Católica a questão da educação integral?”. Um deles responde: “Acho que isso é o fundamental. Aliás não nos interessa pôr meninos na rua com média de vinte e que sejam uns delinquentes. Interessa-nos gente com capacidade de resposta para atos de solidariedade, para atos de caridade, para serem educados, enfim, para terem valores familiares” (IM: EPA14). No mesmo sentido, “um professor de EMRC do 1º e 2º ciclo, no Bar, diz, que «o Colégio não pode querer apenas alunos de 20, mas que deve preocupar-se com a formação integral»” (NTA1).

Interessante, ainda nesta mesma linha de pensamento, o testemunho de um professor do Colégio B:

“Eu acho que há uma preocupação não só pela formação académica dos alunos mas também pela sua formação mais pessoal, digamos assim. E eu acho que isso é uma marca aqui. Nós procuramos que o aluno tenha bons resultados, que evolua enquanto aluno na sua aprendizagem mas também que se forme como pessoa, que tenha em atenção às vezes até pequenas coisas, com a questão do respeito, uma série de aspetos. Acho que é uma coisa que aqui valorizamos para além da aprendizagem por si só” (AJ: EPB).

Outro professor acrescenta:

“Eu ainda não conheci nenhuma escola, sei que as há, mas eu ainda não conheci nenhuma escola que no seu projeto educativo e nos projetos que os professores fora dos currículos escolares promovem, trabalhasse tantas competências diversas como aqui. Portanto, a diferença que eu noto, por exemplo, entre a escola pública onde estive, em que todo o currículo estava focado na inteligência racional, nas metas, nas

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Informação obtida a partir do site do Colégio. 14

Nas entrevistas de tipo focus group a identificação dos entrevistados também foi codificada e será referenciada sempre antes do código da entrevista.

percentagens a atingir no fim do ano letivo, e portanto isso desumaniza muito, tira a componente afetiva porque os professores têm de trabalhar por metas, por percentagens, são obrigados a atingi-las”(AT: EPB).

E prossegue:

“Aqui para além desse objetivo estar muito focado, e é muito exigido, até porque os alunos têm que ter médias para entrar no ensino superior, não é perdida a outra componente. Os professores fazem trinta por uma linha e trabalham horas e horas para fora do contexto de sala de aula para poderem desenvolver as outras competências. E isso é uma riqueza muito grande” (AT: EPB).

Também, ao nível do discurso, a liderança diretiva de um e outro Colégio Afirmam e confirmam a aposta numa educação integral. Diz a Diretora do Colégio A, que a educação deve ser:

“integral, porque nós não podemos estar a afunilar e ser só mesmo direcionados. Gostamos que os nossos alunos realmente sejam, e sentimos que quando saem daqui se integram perfeitamente, e que são desafiados. Claro que há sempre aqueles que respondem aos desafios e há aqueles que não. E nós temos alunos que já de cá saíram e vêm às vezes falar aos que estão cá, e que dizem: «meus amigos não façam só o estudo. Metam-se noutros projetos, que isso vai fazer a vossa diferença»” (EDA).

E acrescenta: “Desenvolvemos a curiosidade” (EDA), exemplificando alguns frutos desse esforço:

“Temos um grupo que concorreu, já o ano passado ficou em segundo lugar, de empreendedorismo. Este ano, concorreu outra equipa que a nível de Inglês conseguiu ficar em 1.º lugar e vai do dia 1 ao dia 5 de Abril representar Portugal em Israel. Criaram uma pulseira eletrónica para substituir os cartões de entrada e saída. Temos agora um grupo, que concorreu ao prémio Ilídio Pinho, foi o primeiro ano que concorreram e foram selecionados para fase nacional. Procuramos entusiasmar os alunos a participar nas Olimpíadas da Física, agora vão fazer as provas. Um aluno está nas de Física, nas de Química e Astronomia. Metem-se e gostam” (EDA).

A Diretora Administrativa do Colégio B deixa transparecer que “o paradigma da competência, interpretada segundo uma visão humanista, supera a aquisição de conhecimentos específicos e habilidades” (CEC, 2014, 3.1.e) quando afirma:

“Há que nos perguntarmos que tipo de Homem, que tipo de cidadão queremos ajudar a formar-se. Que tipo de cidadão queremos colocar aí um dia, amanhã, que vão ser os nossos políticos, os nossos médicos, os nossos etc e etc. E de acordo com esta conceção e esta leitura antropológica do Homem, todo o trabalho pedagógico há de convergir para aí, e então sim, vão entroncar-se um conjunto de valores, de práticas, de pedagogias que vão ajudar a construir aquela imagem, de modo aproximado, de Homem que temos e, para nós, de um Homem cristão, obviamente” (EDAB).

E explica:

“O colégio [B] está preocupado em preparar os seus alunos para a vida, independentemente de rankings. Os rankings vêm de fora, estão aí, não os vamos ignorar nem fechar os olhos a isso, mas a nós interessa-nos preparar o aluno na sua integridade pessoal, enquanto pessoa, e sendo que então não é mesurável só numa pauta. Excede-se. Há outras dimensões a ter em conta que não só as curriculares. Obviamente que uma escola, e a minha também, quer levar a bom porto os seus alunos, a uma elevação intelectiva da ordem da excelência. Obviamente também não abdicamos disto (…) Mas simultaneamente há que atender à qualidade do Homem que estamos a ajudar a construir, e então temos que evocar outras ordens. À ordem do ser e não só do saber. Do ser e do saber, e do saber fazer. Depois há assuntos, e em determinadas faixas etárias que são muito nobres e que devem ser tratadas seja no âmbito das relações, dos afetos, ou seja, preparar o aluno, preparar-lhe a cabeça e o coração” (EDAB).

Diz o Diretor Pedagógico do Colégio B, com apurada convicção: “A dimensão de uma educação integral é muito, para nós, valiosa. Mesmo muito valiosa. Não queremos descuidar nenhuma das inteligências do ser humano por outra. Entendemos que todas elas fazem parte e que todos podem enriquecer o trabalho” (EDPB). A mesma visão é afirmada pela Diretora Administrativa. Interrogo-a se a educação integral é uma marca distintiva daquela Escola Católica, e a resposta sai muito pronta:

“É. Quero que seja. Fazemos tudo para isso. Trabalhamos muito curricularmente, muito mesmo. E os professores são absolutamente dedicados a todos os alunos. Não só aos bons. Nenhum aluno pode ficar para trás, por assim dizer. Mas há esta preocupação de que o aluno cresça como pessoa de um modo harmonizado, harmonioso, nas suas diferentes expressões. Física, psicológica, afetiva, sexual, todas elas. Relacional, social” (EDAB).

“Nós temos de ser exigentes com os alunos, temos de ajudá-los a crescer, não é na facilidade que se cresce. É preciso ter as regras bem definidas, e procurar que sejam assumidas. Mas por outro lado fazer com que eles sejam felizes porque, eu pelo menos, penso que ter só pessoas com uma cabeça assim muito grande, mas que não sejam felizes e que não sejam humanamente ricas não tem interesse” (EDAB).

Na verdade, já a Comissão Internacional sobre Educação para o século XXI considerara que a educação se devia organizar à volta de quatro aprendizagens fundamentais, intimamente correlacionadas, às quais chama pilares da educação: aprender a conhecer, isto é adquirir os instrumentos da compreensão, de forma a aprender a aprender; aprender a fazer, para poder agir com eficiência sobre o meio envolvente; aprender a viver juntos, a fim de participar e cooperar com os outros na construção de uma sociedade mais plural e pacífica; aprender a ser, como síntese das aprendizagens anteriores, com vista a desenvolver o ser humano na sua pluridimensionalidade (Delors, 1996).

No documento Escola católica, liderança e ethos (páginas 132-137)