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Se tivermos em conta o “pluralismo tipológico do contrato de trabalho” 299, existem

trabalhadores que estão sujeitos ao regime comum e outros adstritos a um regime especial.300301 Como bem refere MONTOYA MELGAR, “a ideia de um direito do trabalho

prestação laboral e que, salvo melhor opinião, se deveriam manter” (itálico do autor). Cf. GUILHERME DRAY

– Código do Trabalho Anotado. PEDRO ROMANO MARTINEZ [et al.]. Coimbra: Almedina. 9ª Edição. 2013, p. 416.

298 O regime jurídico dos trabalhadores do setor público encontrava-se amplamente disperso por inúmeros

diplomas e a Lei n.º 35/2014 reuniu num único diploma toda a disciplina jurídica desta matéria. Se bem que existem vozes na doutrina portuguesa que não concordam que se trate de uma verdadeira uniformização, uma vez que o setor público não funciona, nem poderá funcionar como uma empresa do setor privado. Cf. PAULO VEIGA E MOURA E CÁTIA ARRIMAR - Comentários à Lei Geral do Trabalho em Funções Públicas. 1.º Volume. Coimbra: Coimbra Editora. 2014. Para todos os efeitos, não revogou o regime jurídico dos acidentes em serviço e das doenças profissionais no âmbito da administração pública e o regime de proteção social na parentalidade dos trabalhadores que exercem funções públicas.

299 Cf. JOÃO LEAL AMADO - Contrato de trabalho prostitucional? Questões Laborais, n.º 20. Ano IX.

Coimbra: Coimbra Editora. 2002, pp. 236 e 237.

300 Por isso mesmo ANTÓNIO NUNES DE CARVALHO afirma que “o que está em causa é assumir que o Direito

do Trabalho que nos habituámos a conhecer não é o Direito do Trabalho, mas sim um Direito do Trabalho”. Cf. O Pluralismo do Direito do Trabalho. III Congresso Nacional de Direito do Trabalho. Coimbra: Almedina. 2001, p. 294.

301 De facto “a implementação de um regime de relações especiais é uma resposta do legislador face à

hegemonia da multiplicidade de relações laborais”. Cf. JESÚS CRUZ VILLALÓN – El Proceso Evolutivo de Delimitación del Trabajo Subordinado. In Trabajo Subordinado y Trabajo Autónomo en Delimitación de

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comum e único para todo tipo de atividade laboral choca com a pluralidade de modalidades sociais e trabalho e com a consequente diversidade de tratamento que essas

modalidades requerem”.302De facto, um contrato especial de trabalho necessita de regras

adequadas às suas particularidades e justifica-se para atividades que se distanciam do modelo de trabalho clássico. Não temos quaisquer dúvidas de que o recurso às tecnologias de informação e de comunicação, mas especialmente a distância ao local de trabalho “justificam a qualificação do contrato de teletrabalho como um contrato de trabalho especial”.303

Há quase meio século, BAYON CHANCON referiu que a especialidade dos contratos de

trabalho respeita à “inadequação ou insuficiência dos requisitos exigidos pela lei para certa classe de contrato de trabalho que por ser mais geral se considera como tipo”304. MONTOYA MELGAR considera que a distinção entre relações laborais comuns e especiais

“não é uma criação arbitrária do legislador, mas sim, uma resposta lógica à existência de realidades laborais distintas”305. De facto, a especificidade de um contrato especial de

trabalho deriva “da sua própria fattispecie” e encontram-se “fattispecies” muito diferentes, “nas quais a própria subordinação assume contornos muito diversos”.306

Em Espanha, o legislador, no artigo 2.º ET, faz uma enumeração taxativa das relações de trabalho consideradas de caráter especial. Há autores que criticam esta opção, uma vez que consideram que algumas destas relações especiais deveriam ser consideradas modalidades do contrato de trabalho, e que tal se deve a “razões de política legislativa e

fronteras del Derecho del Trabajo. Estudios en Homenaje al Professor José Cabrera Bazán. Edición preparada por Jesús Cruz Villalón. Colección Andaluza de Relaciones Laborales. Vol. II. Madrid: Technos. 1999, pp. 182 e 183.

302 Cf. ALFREDO MONTOYA MELGAR – Sobre el trabajo dependiente como categoría delimitadora del Derecho del Trabajo. In Trabajo Subordinado y Trabajo Autónomo en Delimitación de fronteras del Derecho del Trabajo. Estudios en Homenaje al Professor José Cabrera Bazán. Edición preparada por JESÚS CRUZ VILLALÓN. Colección Andaluza de Relaciones Laborales. Vol. II. Madrid: Technos. 1999, p. 71. 303 Cf. MARIA DO ROSÁRIO PALMA RAMALHO - Tratado de Direito do Trabalho. Parte II – Situações

Laborais Individuais. 4ª Edição. Coimbra: Almedina. 2012, p. 293.

304 Cf.GASPAR BAYON CHANCON - Contratos Especiales de Trabajo. In Catorce lecciones sobre contratos

especiales de trabajo. Madrid: Universidad de Madrid, Facultad de Derecho, Sección de Publicaciones e Intercambio. 1965, p. 19.

305 Cf. ALFREDO MONTOYA MELGAR - Sobre las relaciones especiales de trabajo y su marco regulador.

Revista Española de Derecho del Trabajo, n.º 109, 2002, p. 5.

306 Cf. ANTÓNIO NUNES DE CARVALHO – O Pluralismo do Direito do Trabalho. III Congresso Nacional de

92 falta de planificação coerente na classificação e regulação de todas estas relações”.307 O teletrabalho, ou como o designou o legislador espanhol, o trabalho à distância, não consta daquele artigo, à semelhança do sucedido anteriormente com o trabalho no domicílio. Este facto não nos impede de considerar estas relações de trabalho como especiais, até porque as relações previstas naquele artigo têm por base um critério profissional; na verdade, o trabalho no domicílio pode ser executado por um trabalhador de qualquer categoria profissional 308, o mesmo acontecendo com o teletrabalhador. Com a reforma laboral de 2012, a escolha do legislador espanhol foi no sentido de considerar o trabalho à distância como uma modalidade do contrato de trabalho, assumindo assim a existência de modalidades contratuais distintas do tradicional contrato de trabalho e atendendo a algumas das suas especificidades.

O Código de Trabalho português em vigor, na secção IX denominada como “modalidades de contrato de trabalho”, agrupou na mesma secção várias modalidades que se encontravam dispersas pelo CT de 2003: contrato de trabalho a termo, trabalho a tempo parcial, comissão de serviço, teletrabalho e trabalho temporário. Sabendo que cada vez mais surgem formas contratuais que se afastam do contrato de trabalho clássico ou padrão, o legislador decidiu, e bem, consagrar um regime jurídico específico para cada uma daqueles institutos. O CT de 2009 “assume a realidade dos contratos de trabalho especiais”.309 O legislador português ao considerar o contrato de teletrabalho como uma

modalidade do contrato, está a atender ao facto de ser um contrato de trabalho em regime especial. Assim, este contrato regular-se-á pelo disposto nos artigos 165.º a 171.º CT de 2009 e subsidiariamente aplicar-se-ão as regras gerais deste código que sejam compatíveis com a sua especificidade, conforme se estatui no artigo 9.º CT. Na hipótese de ainda subsistirem lacunas, poderão ainda ser colmatadas através das regras civis,

307 Cf. JESÚS CRUZ VILLALÓN – El Proceso Evolutivo de Delimitación del Trabajo Subordinado. In Trabajo Subordinado y Trabajo Autónomo en Delimitación de fronteras del Derecho del Trabajo. Estudios en Homenaje al Professor José Cabrera Bazán. Edición preparada por JESÚS CRUZ VILLALÓN. Colección Andaluza de Relaciones Laborales. Vol. II. Madrid: Technos. 1999, pp. 183 e 184. No mesmo sentido vide MORENO VIDA - Comentário al Estatuto de los Trabajadores. Granada. Comares, 1998, p. 80.

308 Cf. ROSARIO GALLARDO MOYA – El viejo e el nuevo trabajo a domicilio – de la máquina de hilar al

ordenador. Ibidem ediciones. 1998, p. 25.

309 Cf. MARIA DO ROSÁRIO PALMA RAMALHO - Tratado de Direito do Trabalho. Parte II – Situações

Laborais Individuais. 4ª Edição. Coimbra: Almedina. 2012, p. 221. O mesmo não acontecia no CT de 2003, uma vez que “continuava a assentar globalmente o regime do contrato de trabalho sobre o paradigma da relação de trabalho típica (…)”.

93 “desde que não incompatíveis com as especificidades do contrato em questão nem com princípios próprios do Direito do Trabalho”.310

Em jeito de conclusão, reconhecendo a hodierna multiplicidade morfológica dos contratos de trabalho, quer o legislador espanhol, quer o legislador português, assumiram o contrato de teletrabalho como uma modalidade contratual, distinta da do contrato de trabalho clássico e atendem à sua qualidade constitutiva especial. O regime jurídico português consagrado no Código do Trabalho é bem mais completo do que o regime espanhol estipulado no Estatuto dos Trabalhadores; se bem que a contratação coletiva espanhola nem sequer poderá ser comparada à paupérrima negociação coletiva portuguesa sobre o tema.

310 Cf. MARIA DO ROSÁRIO PALMA RAMALHO - Tratado de Direito do Trabalho. Parte II – Situações

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CAPÍTULO V:

TRILOGIA DO TELETRABALHO

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