LABORAIS
A maioria dos países da Europa não consagra um direito à reserva da intimidade da vida privada dos próprios trabalhadores, mas não é o caso de Espanha, nem de Portugal. O legislador português prevê o dever de respeito pelos direitos de personalidade das partes contratantes e preferiu a expressão “direito à reserva sobre a intimidade da vida privada”624; por sua vez, a lei espanhola optou pela designação “direito à intimidade”.625 De facto, “a proteção de intimidade da vida privada assume expressões ou dimensões relevantíssimas no âmbito das relações jurídico-laborais”.626O direito à reserva sobre a intimidade da vida privada protege a esfera íntima. A exclusão de determinados factos da
621 Cf. PEDRO PAIS DE VASCONCELOS – Direito de Personalidade. Coimbra: Almedina. 2006, p. 80.
Acrescenta ainda que “é inevitável o casuísmo, porque as pessoas e as circunstâncias não são iguais”.
622 Cf. GOMES CANOTILHO E VITAL MOREIRA – Constituição da República Portuguesa Anotada. Volume I.
4ª edição revista. Coimbra: Coimbra Editora. 2007, p. 467.
623 A título meramente exemplificativo, seguiram esta definição os Acórdãos do Tribunal Constitucional nº
368/02, n.º 355/97, nº 128/92 e n.º 319/95.
624 Cf. artigo 16.º CT. ANDRÉ PESTANA NASCIMENTO entende que o o legislador português “deveria ter ido
mais longe na proteção conferida, impondo ao empregador o dever de garantir o respeito pela intimidade da vida privada do trabalhador e não apenas o de o respeitar”, consagrando assim uma “verdadeira obrigação de facere, com conteúdo positivo”. Cf. O impacto das novas tecnologias no direito do trabalho e a tutela dos direitos de personalidade do trabalhador. Prontuário de Direito do Trabalho n.º 79-80-81. CEJ. 2008, p. 232.
625 O artigo 4.º ET expressa que os trabalhadores têm direito ao respeito da sua intimidade.
626 Cf. GOMES CANOTILHO E VITAL MOREIRA – Constituição da República Portuguesa Anotada. Volume I.
181 esfera íntima do trabalhador significa que não estão protegidos legalmente, como por exemplo “questões relacionadas com a experiência profissional do trabalhador, as suas habilitações literárias ou mesmo o seu domicílio”.627 Só que não se poderá confundir o conhecimento de determinados factos até pelo exercício de determinada atividade profissional, com a possibilidade da sua divulgação. Não obstante, o trabalhador terá sempre a possibilidade de escolher quais as informações da sua esfera íntima e privada que pretende divulgar ou não à entidade empregadora.628 Para todos os efeitos, há que ter em conta que existe uma esfera privada disponível e indisponível; nesta última, abrange- se “o conjunto das posições” que não podem “ser afetadas nem com a intromissão do próprio”.629
O direito à reserva da vida privada do trabalhador compreende variados aspetos: quer o acesso, quer a divulgação de aspetos relacionados com a esfera íntima e pessoal, em especial os que estejam conexionados com a vida familiar, afetiva e sexual; bem como os relacionados com o estado de saúde e com as crenças religiosas e políticas.630 Isto
significa que mesmo que o empregador tenha tido acesso a algumas informações face ao consentimento do trabalhador, o direito à reserva da vida privada abrange, de igual, modo, a divulgação dos factos que o empregador tenha tomado conhecimento por essa ou por outras vias, como já referenciado.
O Código do Trabalho português consagra uma regra no artigo 170.º CT, sem correspondência no Estatuto dos Trabalhadores, cujo âmbito de aplicação se restringe aos teletrabalhadores.631 Este artigo consagra o princípio da reserva da intimidade da vida
627 GUILHERME DRAY – Código do Trabalho Anotado. PEDRO ROMANO MARTINEZ [et al.]. Coimbra:
Almedina. 9ª Edição. 2013, p. 153.
628 Na verdade, “o que para uns é considerado dado íntimo, para outros não o será”. Cf. PAULA QUINTAS E
HÉLDER QUINTAS – Código do Trabalho: Anotado e Comentado. Coimbra. Almedina. 3ª Edição. 2012, p. 152. Como expressa ALIAGA CASANOVA “toda persona tiene derecho para decidir por sí misma de qué
datos puedem disponer otros y en qué condiciones pueden ser revelados, en la medida que forman parte de su intimidad”. Cf. El teletrabajo, la necesidad de su regulación legal y respeto a la intimidad. Madrid.
Boletín de información. Ano 55, n.º 1902. Outubro de 2001, p. 3020.
629 Cf. ANTÓNIO MENEZES CORDEIRO – O respeito pela esfera privada do trabalhador. I Congresso Nacional
de Direito do Trabalho. Coimbra: Almedina. 1998, p. 19.
630 Cf. artigo 16.º CT. Na verdade, a lei não define o conceito de "vida privada" e o legislador laboral limita-
se a exemplificar os principais aspetos que incluí no conceito “reserva da intimidade da vida privada”.
631 Para todos os efeitos, mantem-se a aplicação dos direitos de personalidade consagrados nos artigos 15.º
182 privada, impondo ao empregador o dever de respeitar a privacidade do teletrabalhador, bem como os tempos de descanso dele e da própria família; e ainda facultar-lhe boas condições de trabalho, quer físicas, quer psíquicas.
No caso de estarmos perante a modalidade de teletrabalho domiciliário, a lei portuguesa restringe as visitas ao local de trabalho ao controlo da atividade laboral e dos instrumentos de trabalho, podendo ser realizadas dentro de determinado intervalo de tempo, entre as 9h e as 19 horas, e apenas com a presença do trabalhador ou de outra pessoa designada por aquele.632 Em primeiro lugar, o empregador deveria ter que agendar com o trabalhador a sua visita, nunca podendo ser feita de forma inesperada, em jeito de “teste surpresa”, que a nosso ver deveria ter pelo menos dois dias de antecedência, como já sustentado, a não ser em casos prementes.633 Esta visita deverá concentrar-se no local onde o teletrabalhador executa a sua atividade. Mais ainda, em nosso entender, o horário de visita previsto na lei é demasiado alargado: não tanto no que respeita à hora de entrada, mas no que diz respeito à possibilidade de visita até às 19h. Por último, sendo o contrato de trabalho um contrato de natureza pessoal, em que as obrigações assumidas pelo trabalhador são pessoais e intransmissíveis, parece-nos que a delegação prevista na lei “com a assistência do trabalhador ou de pessoa por ele designada” será fortemente censurável; na verdade, o trabalhador tem disponibilidade para receber o empregador ou então não será outra pessoa que, em vez do trabalhador, justificará perante aquele os comportamentos profissionais do teletrabalhador.
Ainda sobre o teletrabalho domiciliário, como expressa o artigo 18.º n.º 2 CE “o domicílio é inviolável” e “nenhuma entrada ou registo poderá fazer-se sem o consentimento do titular ou decisão judicial, salvo em caso de flagrante delito”. Assim sendo, não será um paradoxo falar em trabalho no domicílio? De facto, “a ligação da privacidade ao domicílio é óbvia e transparece até no plano etimológico”.634 A violação do domicílio representa
632 Note-se que a violação deste preceito constituiu contraordenação grave.
633 O regime jurídico previsto para o trabalhador autónomo no domicílio, mas com dependência económica,
estabelece exatamente o mesmo horário de visitas, mas obriga a uma comunicação prévia não inferior a 24 horas. Cf. artigo 4.º n.º 3 da Lei n.º 101/2009, de 8 de setembro.
634 CARNELUTTI apud PAULO MOTA PINTO - O direito à reserva sobre a intimidade da vida privada, Boletim
da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Vol. LXIX. Coimbra. 1993, p. 546, nota de rodapé 161.
183 uma violação da privacidade e do direito à reserva da intimidade da vida privada. Nestes casos de teletrabalho no domicílio e tendo por base a expressão “my home is my castle”, será sempre um acesso lícito por parte do empregador ou de um seu representante, no sentido de que estaremos perante o consentimento do lesado, em especial, por força da convenção entre as partes de que a prestação da atividade será realizada no domicílio do trabalhador. Se bem que se poderá colocar em causa a integridade do consentimento, tendo em conta a situação de debilidade do trabalhador, mesmo sabendo do caráter voluntário do teletrabalho, será que ele é levado “a permitir atuações ofensivas da sua intimidade por temer as consequências (…)”635? A questão não é despicienda, se bem que, em nosso entender, será uma discussão sem interesse prático, tendo em conta o elevado nível de satisfação pessoal e profissional demonstrado pelos teletrabalhadores domiciliários.