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O exercício de determinadas atividades não se compatibiliza com o regime do teletrabalho, uma vez que o objeto de infindos contratos de trabalho é o exercício de

194 Cf. EL LIBRO BLANCO DEL TELETRABAJO EN ESPAÑA. Madrid. Fundación MásFamilia. 2012, p. 88. 195 Importa trazer à colação o acordo de empresa celebrado entre a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa e

o STFPSSRA – Sindicato dos Trabalhadores em Funções Públicas e Sociais do Sul e Regiões Autónomas e o STFPSN - Sindicato dos Trabalhadores em Funções Públicas e Sociais do Norte. Este acordo estatui um direito de preferência para o exercício de funções em regime de teletrabalho para determinados grupos de trabalhadores, entre outros, os trabalhadores portadores de deficiência ou com familiares portadores de deficiência a seu cargo. Esta é, sem dúvida, a concretização de uma verdadeira responsabilidade social por parte dos empregadores.

196 Neste sentido a STSJ DE LA COMUNIDAD VALENCIANA, de 28 de janeiro de 2014, ao considerar que as

sequelas crónicas de um trabalhador não o impediam de desempenhar as suas atividades, tendo em conta as novas tecnologias, através do teletrabalho “que permite maiores possibilidades laborais”. No mesmo sentido a STSJ DE LA COMUNIDAD VALENCIANA, de 19 de dezembro de 2000, relativamente a um trabalhador ao qual foi diagnosticado transtorno de ansiedade com agorafobia, de evolução crónica, a qual ressaltou o teletrabalho como compatível com as doenças do trabalhador.

197 No que se refere ao caso particular da (in)compatibilidade da pensão por incapacidade permanente

absoluta e trabalho remunerado em jornada completa, ainda recentemente a decisão do STSJ DE CATALUÑA, de 18 de julho de 2014, sustentando a jurisprudência mais recente do TRIBUNAL SUPREMO, estatui que “la idea de la actividad laboral compatible con la IPA como actividad marginal ya no es sostenible (…) y que atiende a la actual realidad social desatada por las nuevas tecnologías (particularmente informáticas y de teletrabajo). No mesmo sentido vide STSJ DE MADRID, de 20 de janeiro de 2015, bem como a de 9 de dezembro de 2014, inter alia.

63 funções a executar nas instalações do empregador. 198199 De forma singela, pense-se como é que um operário fabril, numa linha de produção, poderia cumprir o seu contrato de trabalho à distância e com o recurso às tecnologias de informação e de comunicação. De facto, há funções que exigem a manipulação direta ou a presença física do trabalhador e não poderá o teletrabalho “invadir a criação corpórea do produto industrial: a montagem, a embalagem, o transporte de mercadorias”.200 Daí que possa assentar que existe um “grande número de organizações empresariais em que, pela índole dos seus processos produtivos, esta modalidade de trabalho não aparece, nem é pensável que apareça no futuro”.201 Contudo, em diferentes setores de atividade, o trabalhador, acompanhado pelas respetivas tecnologias, pode desempenhar todas as atividades a que está obrigado, fora das instalações do empregador. Aliás, com tantos softwares e aplicações disponíveis no mercado para que se possam fazer chamadas com vídeo e voz, trocar mensagens e partilhar arquivos, não existem barreiras à comunicação entre os colegas de trabalho e entre trabalhador e empregador, seja qual for e onde for o local de trabalho.

Desta forma, muito embora os teletrabalhadores façam parte, em regra, do setor terciário, esta realidade “manifesta, no domínio do trabalho, os efeitos da pujança do (…) setor quaternário da economia”.202 203 A implementação do teletrabalho tem tido lugar em

inúmeros domínios, com especial relevância na área das telecomunicações, informática,

198 Mesmo assim, de acordo com as pesquisas de JACK NILLES sobre os empregos norte-americanos, 40%

do emprego poderia ser claramente prestado sob a forma de teletrabalho. Cf. JACK NILLES in http://www.jalahq.com/blog/.

199 A Comissão Europeia, na decisão de 18 de dezembro de 2009, relativa à implementação do teletrabalho

nos seus departamentos, refere que as “tarefas que exigem a presença física no escritório são inadequadas para o teletrabalho” e exemplifica com o atendimento ao público, funções de motorista e de segurança. Cf. http://ec.europa.eu/civil_service/docs/equal_opp/strategie_1554_en.pdf.

200 Cf. MARIA REGINA REDINHA – O teletrabalho. Questões Laborais, n.º 17. Ano VIII. Coimbra: Coimbra

Editora. 2001, p. 93. Como refere JEAN EMMANUEL-RAY “dificilmente se pode imaginar uma telecabeleireira (…)”. Cf. Nouvelles technologies et nouvelles formes de subordination. Droit Social. 1992, p. 527.

201 Cf. FERMÍN RODRÍGUEZ-SAÑUDO– La Integración del Teletrabajo en el Ámbito de la Relación Laboral.

In Trabajo Subordinado y Trabajo Autónomo en Delimitación de fronteras del Derecho del Trabajo.

Estudios en Homenaje al Professor José Cabrera Bazán. Edición preparada por JESÚS CRUZ VILLALÓN. Colección Andaluza de Relaciones Laborales. Vol. II. Madrid: Technos. 1999, p. 105.

202 Cf. MARIA DO ROSÁRIO PALMA RAMALHO - Novas formas da realidade laboral: o teletrabalho. Estudos

de direito do trabalho. Coimbra: Almedina. 2003, p. 197.

203 Há quem proponha quatro tipos de trabalhadores que poderão teletrabalhar: os que produzem

informação, os que gerem informação, os que mantêm relações com clientela e o que trasladam informação. Cf. ANDRÉS GILS [et al.]– Perspectiva internacional del teletrabajo: nuevas formas de trabajo en la sociedad de la información. Ministerio de Trabajo y Asuntos Sociales. 2001, p. 77.

64 seguros, marketing e formação. Muitas das fontes consultadas revelam que as empresas com mais teletrabalhadores são as ligadas às tecnologias, por força da sua natural propensão para o trabalho à distância. Podemos ainda destacar como mais “teletrabalháveis” as seguintes atividades: programação, engenharia e análise de

software, gestão, planeamento financeiro, contabilidade, auditoria, recursos humanos,

secretariado, atendimento telefónico, design gráfico, realização de inquéritos e sondagens, vendas, marketing204, publicidade, ensino à distância, jornalismo, tradução, arquitetura, advocacia e solicitadoria, inter alia.205 Além do mais, o teletrabalho poderá penetrar em distintos ramos de atividade, impensáveis há uns anos, como é o caso da telemedicina206. Quanto à possibilidade de alargar esta lista, a evolução tecnológica, as necessidades do mercado laboral aberto, flexível e mutável farão emergir novas e diferentes atividades; a título ilustrativo refira-se a função de “peritos avaliadores locais”.207

Não se pense que os teletrabalhadores apenas desempenham atividades qualificadas. De facto, estas atividades não podem ser consubstanciadas num só género; abrangem “desde o mais sofisticado e autónomo que realiza um trabalho criativo, até ao mais dependente,

204 Não obstante existir pouca jurisprudência portuguesa sobre o teletrabalho, temos uma decisão de um

tribunal superior sobre um “trabalhador” cuja função se resumia a “operador de telemarketing”. No ACÓRDÃO DO TRC, de 21 de outubro de 2014 (SERRA LEITÃO) a questão in casu centrava-se na qualificação do contrato, em que nas alegações do trabalhador, recorrente, argumentava-se que a prestação de trabalho como “operador de telemarketing” naquela situação em particular se enquadraria na figura do teletrabalho. Na decisão o facto de se estar ou não perante um teletrabalhador não teve qualquer relevância, apenas referindo o Tribunal ad quem que o Código do Trabalho prevê efetivamente a “celebração de contratos de teletrabalho”.

205 JOEL TIMÓTEO RAMOS PEREIRA ressalta que, no caso de Portugal, “o teletrabalho tem crescido na

precariedade, ainda que dissimulado pelos “recibos verdes” e pelo outsourcing, com especial relevo nas áreas da informática, consultoria, comércio, comunicação social, contabilidade e telecomunicações”. Cf. Compêndio Jurídico da Sociedade da Informação. Lisboa. Quid Juris?. 2004, p. 945.

206 A telemedicina poderá ser definida como um conjunto de tecnologias e aplicações que permite realizar

consultas e diagnósticos à distância, inclusive a possibilidade de cirurgias.

207 No âmbito da avaliação geral de imóveis, uma medida constante do memorando assinado entre o Estado

Português e a Troika, cada um dos Serviços de Finanças portugueses escolheu uma série de “peritos avaliadores locais”, a fim de se fazer a avaliação de mais de cinco milhões de imóveis em Portugal, até ao final de 2012. A decisão do Tribunal Central Administrativo do Norte de 08.07.2011 (CARLOS DE

CARVALHO), não obstante estar em causa uma situação de teletrabalho privada independente (a questão centrava-se na possibilidade de acumulação de funções públicas com funções privadas), o tribunal ad quem refere expressamente que “os peritos avaliadores prestam, em regra, o seu serviço através da realização de teletrabalho, mediante acesso direto ao sistema informático referente ao sistema de avaliações que lhes estão distribuídas”, já que eram raras as vezes em que o perito se deslocava ao imóvel, objeto de avaliação.

65 que realiza um trabalho repetitivo e entediante”.208 Existem funções administrativas e comerciais rotineiras e menos qualificadas, tais como “a mecanografia, a reserva de bilhetes, as televendas, a atenção ao cliente”.209 É certo que o trabalhador para ser teletrabalhador necessita de saber manusear as tecnologias de informação e de comunicação, mas isso não significa necessariamente que tenha de ser um perito informático.

Relativamente às características intrínsecas do teletrabalhador, podemos afirmar que o teletrabalho deverá ser evitado pelos comummente designados por workaholic; o trabalhador deverá ter capacidades para lidar facilmente com as tecnologias; e deverá ser disciplinado e responsável a gerir o seu tempo.210 De facto, “o teletrabalho exige pessoas metódicas e organizadas para que o tempo despendido seja o ideal, assim como uma personalidade que suporte o isolamento sem angústia ou depressão”.211 Talvez a motivação e a autodisciplina sejam as características mais relevantes na personalidade de um teletrabalhador, especialmente no domiciliário, pela eventual confusão entre trabalho e lazer. Mesmo estando em causa uma prestação subordinada de trabalho, o teletrabalhador deverá, de preferência, apresentar resultados, a fim de administrar as horas de trabalho sem interferências com o plano familiar. Quanto ao perfil de um “chefe” de um teletrabalhador terá que ter atributos específicos: postura de confiança, relacionamento empático e contacto frequente com o teletrabalhador. Por um lado, poder- se-á atenuar o sentimento de isolamento do trabalhador e, por outro, uma forma de controlar o seu desempenho, ao solicitar-lhe amiúde explicações sobre o trabalho desenvolvido. Como veremos, o sucesso ou insucesso do teletrabalho tem várias

208 Cf. Prólogo de FRANCISCO PÉREZ DE LOS COBOS ORIHUEL, in JAVIER THIBAULT ARANDA - El

teletrabajo: análisis jurídico-laboral. Madrid: Consejo Economico y Social, 2000, p. 14.

209 Cf. ANGEL BELZUNEGUI ERASO – Teletrabajo: Estrategias de Flexibilidad. Madrid: Consejo Económico

y Social. 2002, p. 56.

210 De acordo com o gráfico apresentado por ANTONIO PADILLA MELÉNDEZ sobre as características

necessárias para se ser um teletrabalhador, a capacidade de organizar o seu próprio tempo de trabalho atinge os 94%. Cf. Teletrabajo, Dirección y organización. Madrid: RA-MA Editorial. 1998, p. 144.

211 Cf. JOEL TIMÓTEO RAMOS PEREIRA – Compêndio Jurídico da Sociedade da Informação. Lisboa. Quid

66 componentes e começa, em nosso entender, precisamente por se escolher o trabalhador certo para teletrabalhar e o superior hierárquico certo para o supervisionar.212

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