II. ENQUADRAMENTO
2.1. A emergência de uma nova realidade territorial
Justifica o repensar e a reformulação das práticas, uma reavaliação de métodos e instrumentos, a tomada de consciência do impacte e natureza dos problemas territoriais, um novo enquadramento da intervenção da administração e distribuição de competências.
Se as dinâmicas territoriais se distinguem pela sua magnitude e velocidade, torna-se fundamental aprofundar a natureza do fenómeno, fazer um diagnóstico geral, de modo a se encontrarem as estratégias mais correctas, sabendo-se de antemão que as transformações estão e vão continuar a acontecer no terreno, sendo, em teoria, preferível agir por antecipação, evitando-se as consequências indesejáveis, sem se descurarem medidas de atenuação dos problemas instalados, ainda que conscientes das limitações de recursos, isto é, da disparidade entre os meios e as forças presentes, da disseminação e escala das transformações.
Dans ce contexte, considérer qu’il est impossible d’agir sur les formes de la globalisation et que les sociétés contemporaines doivent s’abandonner à ce qui serait leur destin, c’est-à-dire le marché, est une attitude non seulement peu productive mais aussi lourde de menaces, car en évacuant tout projet commun et volontaire pour la société, elle la prive de la possibilité de construire des compromis durables. À l’inverse, croire ou laisser croire qu’on peut s’opposer à la globalisation ou arrêter le processus de modernisation est une illusion tout aussi dangereuse car elle conduit à des actions inefficaces et à la multiplication des conflits. L’enjeau d’un projet moderne avancé est plutôt d’essayer d’agir sur le processus de modernisation à toutes les écheles du plus local au plus global, en suscitant, éventuellement par des movements et des conflits sociaux, des lieux où pourront se débattre et se négocier des compromis et où développeront au travers de ces pratiques une solidarité et une responsabilité reflexives. On en voit les germes tant avec les nouvelles dynamiques de gouvernance territoriale qu’avec l’emergenge de scènes politiques supranationales et d’organisations multinationales gouvernementales et non gouvernementales. Probablement, l’efficacité même de cette action, du point de vue pragmatique, moral et éthique, tiendra-t-elle aussi au fait que les acteurs «modernes» auront le sentiment qu’il peuvent maîtriser leur avenir. Aussi, même si les évenements semblent nous dépasser, nous devons pour agir, nous convaincre que nous pouvons en être les organisateurs…(21)
- O fenómeno generalizado da Urbanização.
Conhecido o carácter global da urbanização, a evolução das estatísticas, com cada vez mais pessoas a viver em cidades, é, porém, de se ter presente que o fenómeno não traduz apenas um crescimento e concentração, levando (em certos locais) à formação de megalópoles. É também um processo de indiferenciação entre o território rural e urbano, implicando, nomeadamente em certos países desenvolvidos, onde a distribuição populacional e os estilos de vida favorecem esse modelo de ocupação emergente, toda uma nova rede de conurbações e de distribuição de actividades.
Por conseguinte, o fenómeno não é meramente quantitativo, demográfico, porque tem também uma dimensão qualitativa, dir-se-ia organizacional, ou morfo-funcional, ao reflectir novos modos de vida e lógicas instaladas, como é o uso generalizado do transporte individual, ironicamente, causa e factor de expansão das grandes infra-estruturas, de nível metropolitano, regional, ou até transnacional.
- A transformação dos Modos de Vida.
(…) le processus de modernisation à l’ouver dans les sociétés occidentales se porsuit; il fait emerger une modernité nouvelle, plus avancée, caractérisée par plus d’individualisation, de rationalisation, et de différenciation sociale; il s’appuie sur une nouvelle forme de capitalisme, l’economie cognitive; il donne naissance à une société dans laquelle les individus, «pluriels», «multiappartenants», participent à des champs sociaux (le travail, la famille, le quartier, etc) de plus en plus distincts et dans lesquels ils agissent de façons différenciées. Ils forment ainsi une société à l’image des hypertextes informatiques(…). Dans la société hypertexte, les individus (mots) changent quotidiennement de champs (textes) don’t les structures et les règles (syntaxes) sont différentes, et où ils construisent des soi (sens) variés. La métaphore informatique est d’autant mieux adaptée que la société se constitue et se représente elle-même davantage à partir des réseaux de mobilités et de relations «réelles» et «virtuelles» qui la structurent.(22)
Atente-se à analogia, inesperada (com a singularidade de ser um produto da sociedade da informação), entre a lógica das ligações do ‘hipertexto’ da internet, caracterizado pela infinidade de opções, de composições não lineares de caminhos, e, por outro lado, o processamento do quotidiano individual, marcado pela mobilidade e diferenciação (individualização), pela multiplicação de contactos reais e virtuais, presenciais ou electrónicos, aos quais correspondem ‘saltos’ sucessivos de contextos, múltiplas experiências, ou rotinas individuais, que espelham na perfeição o mundo contemporâneo.
- A ambivalência da relação Global x Local.
Paralelamente ao fenómeno de urbanização, à globalização de valores – que tendem a seguir os mesmos padrões, ditados pela hegemonia do mercado –, ocorre a democratização, ou universalização do uso dos meios tecnológicos que, e exactamente por se basearem numa escala planetária, na instantaneidade dos fluxos, permitem estabeler um sistema intricado de redes de informação, com destaque para as redes digitais e de tele-comunicações, a partir das quais, se desenvolvem hoje as relações comerciais, e, sublinhe-se, a divulgação do conhecimento. Fluxos que, pela sua importância, por envolverem enormes quantidades de informação, justificam que se chame a esta nova era, pós Industrial, de ‘Sociedade da Informação’, reflexo de uma ‘Economia do Conhecimento’.
Com especial interesse, e por conter em si mesma uma expressão territorial, é o fenómeno de ‘glocalização’ ao traduzir a relação dupla (por vezes antagónica e contraditória), entre o factor localização, associado a certas limitações geográficas, as quais, afinal, não desapareceram completamente - contradizendo as previsões mais radicais dos adeptos da tecnologia - e, o factor de
integração nas redes internacionais, que permite aceder em igualdade (teórica) de circunstâncias
aos fluxos de informação e, assim, fazer parte do mesmo mercado global.
Fig. 17: Antevisão do Ambiente Urbano “Aterro da Boa Vista – Proposta de Norman Foster”; Fonte: Revista LXF – Lisboa Futura n.º 05, Setembro 2005, p.95
De nombreux auteurs utilisent la notion de «glocalisation» pour rendre compte de double processus qui produit à la fois du global et du local. Ce mot apparaît un peu glauque en français, mais il rend bien compte de la nature dialogique du phénomène, comme dirait Edgar Morin, c’est-à-dire de la coexistance durable et productive entre deux contraires (et non de leur dépassement dans une synthèse dialectique). De plus, nous n’avons pas d’autre mot plus adéquat.(23)
- O repensar dos modelos territoriais.
Étymologiquement, la «métapole» «dépasse et englobe» la «polis». Nous aurions dû, pour être plus précis, parler de «métamétropole» car ce dont nous voulons rendre compte ce sont bien des espaces «métropolisés» dont l’ensemble dépasse et englobe les zones métropolitaines stricto sensu. Par commodité nous avons retenu l’expression «métapole» ou «metapolis» qui a le mérite aussi de s’inscrire dans la filiation de «Metropolis» et de «Megalopolis». Provisoirement, nous donnerons donc la définition suivante: une métapole est l’ensemble des espaces dont tout ou partie des habitants, des activités économiques ou des territoires sont intégrés dans le fonctionnement quotidien (ordinaire) d’une métropole. Une métapole constitue généralement un seul bassin d’emploi, d’habitat et d’activités. Les espaces qui composent une métapole sont profondément hétérogènes et pas nécessairement contigus. Une métapole comprend au moins quelques centaines de milliers d’habitants.(24)
Traduz a mudança de paradigma, de modelo de cidade, que não é mais a tradicional, fechada, delimitável e quase consolidada, em contraste com a envolvente rural, com poucas ou nenhumas construções, relativamente à qual se estabeleciam relações de complementaridade, ambientais e de produção, de consumo de recursos, num equilíbrio sustentável de fluxos e matérias primas.
De facto, no presente, e à escala mundial, assiste-se à ‘emergência’ das meta-metrópoles, resultantes de novas áreas funcionais, de novas soluções de mobilidade e de centralidades, que ultrapassam e englobam as zonas metropolitanas, imensas no alcance territorial, pelo seu ritmo e extensão, pela inevitável degradação paisagística, pelo consumo indiferenciado do solo (que é um recurso escasso, pondo em risco a produção de bens alimentares e de outros recursos), obrigando a um enorme esforço, por quantificar, de infra-estruturação urbana.
Uma fenómeno imparável, cuja lógica é similar com o disperso e/ou indiferenciado, as estruturas difusas, e as redes polinucleadas, quase sempre de difícil legibilidade, atendendo à fragmentação e dinâmica (quase) caótica das transformações.
Ao qual se associa a tendência de termos uma população urbana, com hábitos e estilos de vida urbanos, cujo modelo territorial que não será mais o do passado, mesmo se em redor de cidades tradicionais, sendo antes os padrões da cidade-alargada, por vezes com uma dimensão metropolitana ou regional, sendo certo que, num futuro próximo(?) a maioria da população irá ‘viver’ em periferias, as chamadas zonas ‘suburbanas’ – cuja especificidade e problemas serão o grande desafio do futuro.
2.2. Paradigmas de desenvolvimento.