II. Os conceitos convocados e o seu contexto de significação
1. A inimputabilidade por anomalia psíquica
1.3. A especificidade da imputabilidade diminuída
incapacidade de controlo28 - é a acção destrutiva que a anomalia psíquica tem na capacidade para o agente agir de outra maneira, afirmação cujo sentido desenvolveremos infra.
1.3. A especificidade da imputabilidade diminuída
Dispõe o artigo 20.º, n.º 2, do Código Penal, que pode ser declarado inimputável quem, por força de uma anomalia psíquica grave, não acidental e cujos efeitos não domina, sem que por isso possa ser censurado, tiver, no momento da prática do facto, a capacidade para avaliar a ilicitude deste ou para se determinar de acordo com essa avaliação sensivelmente diminuída.
Aquando da discussão da redacção do preceito congénere, que correspondia ao artigo 18.º no Projecto da Parte Geral, apresentado em 1963, Maia Gonçalves sugeriu que o vocábulo sensivelmente – que se reporta à possibilidade de captação pelos sentidos – fosse substituído pela expressão em grau elevado ou outra semelhante, por forma a que ficasse claro que a aplicação do artigo só teria cabimento em casos-limite29.
Porém, manteve-se o vocábulo sensivelmente, até aos dias de hoje, com prejuízo da uniformidade da sua interpretação. Cremos, contudo, que o sentido que lhe deve ser atribuído corresponde ao que já defendia Maia Gonçalves, pelo que a aplicação do n.º 2 do artigo 20.º do Código Penal só se encontra legitimada nos casos em que, verificados os restantes pressupostos aí previstos, se encontre demonstrada uma diminuição, em grau elevado, da capacidade de culpa do agente30.
28 ROXIN, apud Dias, J. de Figueiredo - Direito Penal: Parte Geral I, Questões Fundamentais, A Doutrina Geral
do Crime, p. 580. Refira-se que também Figueiredo Dias alerta para a circunstância de a avaliação e a determinação se entrecruzarem, frequentemente, de forma inextricável – idem, ibidem.
29 Acta da 8.ª Sessão, 24 de Janeiro de 1964 -Actas das Sessões da Comissão Revisora do Código Penal: Parte
Geral, p. 148.
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Vide, nesse sentido, Acórdão do Tribunal da Relação de Coimbra, de 3/12/2014, relatado por Luís Ramos, com o n.º convencional 858/12.0JACBR.S1.C1, disponível em www.dgsi.pt, onde pode ler-se o seguinte: “(…) partindo do princípio de que os pressupostos da imputabilidade diminuída são os mesmos que o art.º 20º do Código Penal prevê para a inimputabilidade, há que concluir que, enquanto nesta estamos perante a exclusão da capacidade de compreensão da acção ou da capacidade de determinação de acordo com a normal avaliação da mesma em virtude de perturbação psíquica, naquela, a capacidade de compreensão ou de determinação de acordo com a avaliação normal está sensivelmente diminuída (…). Temos assim que, para estarmos em face de uma imputabilidade diminuída, não basta que a capacidade de avaliação ou de determinação estejam reduzidas: é necessário que atinjam um elevado grau de incapacidade, ou seja, que estejam manifestamente, notoriamente,
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Originariamente, a consagração da norma congénere – plasmada no referido artigo 18.º - surgiu, na expressão de Ferrer Correia, como uma “válvula de segurança”31 de todo o sistema, respondendo àqueles casos em que o agente, tendo a sua capacidade de avaliação e determinação sensivelmente diminuída, por força de uma anomalia psíquica grave, não poderia ser censurado e responsabilizado pela sua personalidade. Como reconheceu Eduardo Correia32, para purificar o conceito de culpa, alargou-se o conceito de inimputabilidade. Assim, nas situações em que a perigosidade do agente não poderia ser imputada à não formação conveniente da personalidade – que assenta numa omissão do dever de correcção da personalidade, de forma a que não conflitue com os bens jurídicos criminalmente protegidos – , por ficar demonstrado que o agente “a despeito de todos os esforços que efectivamente fez”, na medida em que tal lhe era exigível, “para se sobrepor a uma tendência e conservar a sua liberdade de avaliação e decisão perante ela, não pôde dominá-la e foi por ela irresistivelmente conduzido ao crime”, deveria considerar-se que o agente não atingiria a “normalidade biológica e psíquica” pressuposta pela existência da “capacidade de agir de outra maneira” 33
. Assim, ficou consagrado que, quando por força de uma anomalia psíquica grave, não acidental e cujos efeitos o agente não domina, sem que por isso possa ser censurado, o mesmo tem a capacidade para avaliar a ilicitude do facto ou para se determinar de acordo com essa avaliação sensivelmente diminuída, pode ser declarado penalmente inimputável. A redacção do artigo 18.º deixou, desta forma, clara a ideia de que estávamos perante uma inimputabilidade jurídica e não forçosamente natural, como alertou José Osório34. Nestes termos, o preceito em análise permitiria a realização de um sistema de vicariato, como assume Eduardo Correia: o juiz remeteria o agente para o domínio das medidas de segurança, nos casos expostos em que o mesmo não dominasse nem pudesse dominar os efeitos da sua anomalia psíquica, e para o domínio das penas, nos casos em que a
claramente ou apreciavelmente diminuídas. Se não atingir este grau de incapacidade, deverá a redução na
capacidade de avaliação ser tomada em consideração em sede de operações para fixação da pena concreta.” (itálico nosso).
31 Acta da 1.ª Sessão, 5 de Dezembro de 1963 -Actas das Sessões da Comissão Revisora do Código Penal: Parte
Geral, p. 23.
32
Vide CORREIA, Eduardo – Código Penal: Projecto da Parte Geral, p. 81.
33 Vide CORREIA, Eduardo – Direito Criminal I, p. 359.
34 Acta da 10.ª Sessão, 31 de Janeiro de 1964 -Actas das Sessões da Comissão Revisora do Código Penal: Parte
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diminuição da capacidade de avaliação ou decisão não ficasse a dever-se a uma anomalia psíquica grave cujos efeitos não poderiam ser dominados pelo agente, admitindo-se, porém, a possibilidade de a pena ser atenuada se não fosse revelada culpa na preparação da sua personalidade35.
Ainda que desligado da ideia de culpa na formação conveniente da sua
personalidade36, o legislador manteve a consagração da possibilidade de ser declarado inimputável o agente que tenha uma capacidade de avaliação ou determinação sensivelmente diminuída, nos termos do actual n.º 2 do artigo 20.º do Código Penal.
Cremos que o accionamento de tal preceito deverá ser reservado aos casos em que a diminuição da capacidade de culpa atinja, comprovadamente, um tal grau – elevado – que coloque o agente numa situação próxima da inimputabilidade.
Discordamos, assim, da compreensão da imputabilidade diminuída como uma
imputabilidade duvidosa, no sentido de este conceito abranger os casos em que “se comprova
a existência de uma anomalia psíquica, mas sem que se tornem claras as consequências que daí devem fazer-se derivar (…) casos pois (…) em que é duvidosa ou pouco clara a compreensibilidade das conexões objectivas de sentido que ligam o facto à pessoa do agente”37
.
Entendemos que os casos de dúvida sobre a capacidade de culpa não podem ser resolvidos através do recurso à figura da imputabilidade diminuída, mas antes pela utilização das regras gerais de valoração da prova, que redundam na consideração dos factos, cuja
35 Acta da 8.ª Sessão, 24 de Janeiro de 1964 -Actas das Sessões da Comissão Revisora do Código Penal: Parte
Geral, pp. 150-153.
36 A especificidade da teoria de Eduardo Correia, relativamente à doutrina clássica da culpa na formação da
personalidade, conceitualizada por Mezger como uma culpa na condução da vida e por Bockelmann como uma
resolução directamente dirigida à modelação da sua personalidade, decorre da circunstância de o Autor centrar
o juízo de culpa na omissão, por parte do agente, do dever de correcção, educação ou tratamento das tendências, originárias ou adquiridas, que são susceptíveis de o conduzir ao crime ou, dito de outra forma, do incumprimento do dever de modelar a sua personalidade, de forma a torná-la apta a mover-se dentro do respeito pelos valores jurídico-criminais, com apelo ao seu sentido de responsabilidade e à sua liberdade. Tal é o sentido da culpa pela
não formação conveniente da personalidade. Para maiores desenvolvimentos, vide CORREIA, Eduardo – A
doutrina da culpa na formação da personalidade, pp. 24-35.
37 Vide DIAS, J. de Figueiredo - Direito Penal: Parte Geral I, Questões Fundamentais, A Doutrina Geral do
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ocorrência não se encontra demonstrada - e que não constituem, nomeadamente, causas excludentes de consequências sancionatórias38 - como factos não provados.
Na verdade, frequentemente, a capacidade de culpa não se encontra totalmente excluída ou integralmente conservada, podendo sofrer uma diminuição de grau suficiente para justificar o apelo a uma terceira categoria conceitual, que pressupõe uma base fáctica que, não obstante se traduzir quantitativamente numa diferença de grau, corresponde a um quid
specificum, qualitativamente diferente daquele que subjaz ao juízo de imputabilidade ou
inimputabilidade, com mero recurso ao artigo 20.º, n.º 1, do Código Penal39.
Assim, defendemos que a imputabilidade diminuída será a categoria apta a traduzir aquelas situações em que, positivamente, – e não duvidosamente - por força de uma anomalia psíquica, se encontra demonstrada uma diminuição da capacidade de culpa do agente. Este conceito não traduz o resultado de um juízo subsuntivo decorrente do accionamento do artigo 20.º, n.º 2, do Código Penal, porquanto este preceito convoca um tratamento específico de apenas alguns casos de imputabilidade diminuída: aqueles em que se encontra demonstrada uma diminuição elevada da capacidade de culpa do agente, por força de uma anomalia psíquica grave, não acidental e cujos efeitos o mesmo não domina.
38 De acordo com Figueiredo Dias, “[a] persistência da dúvida razoável após a produção da prova tem de actuar
em sentido favorável ao arguido e, por conseguinte, conduzir à consequência imposta no caso de se ter logrado a prova completa da circunstância favorável ao arguido”, vide DIAS, J. de Figueiredo – Direito Processual Penal I, p. 215.
39 Neste ponto, parece-nos mais correcta a abordagem conceitual, a que Figueiredo Dias chama “tradicional”,
que localiza o problema da imputabilidade diminuída no contexto da verificação de uma capacidade “ainda subsistente, mas em grau sensivelmente diminuído” de o agente avaliar a ilicitude do facto ou de se determinar de acordo com essa avaliação. Quanto a nós, não é decisivo o argumento de que esta concepção se depara com uma “aporia insuportável em perspectiva político-criminal”, por conduzir a uma atenuação da pena, por diminuição da culpa, em casos em que a anomalia psíquica que afecta o agente o torna especialmente perigoso, exigindo, por isso, em defesa da comunidade, uma reacção criminal mais forte e, em regra, mais longa, como alerta Figueiredo Dias. Na verdade, considerando-se o arguido ainda imputável, mas diminuída a sua capacidade de culpa, necessariamente a pena concreta terá um limite inultrapassável - fixado pela medida da culpa - mais baixo do que teria na ausência dessa diminuição. Assim, dentro da moldura concreta da pena, definida pelas necessidades de prevenção geral, que fornecem a referência da medida óptima de tutela dos bens jurídicos e o ponto abaixo do qual já não é comunitariamente suportável a fixação da pena sem prejuízo irremediável da sua função de protecção desses bens, o quantum respectivo poderá ficar aquém da satisfação integral das exigências de prevenção especial, distanciando-se mais do ponto óptimo de tutela dos bens jurídicos. Tal resultado, porém, é imposto pelo respeito pelo princípio da culpa, no contexto de um direito penal do facto (e não do agente), por razões inerentes, desde logo, à dignidade da pessoa humana. Vide, quanto à posição de DIAS, J. de Figueiredo - Direito Penal: Parte Geral I, Questões Fundamentais, A Doutrina Geral do Crime, pp. 583 e ss.. Vide, ainda, quanto à moldura concreta da pena, RODRIGUES, A. Miranda - A determinação da medida da pena privativa de liberdade, pp. 545 a 576, e ANTUNES, M. João – Consequências Jurídicas do Crime, p. 44.
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Pelo exposto, a denominação de imputabilidade diminuída será, por nós, utilizada com o objectivo de traduzir uma realidade fáctica, consubstanciada numa diminuição da capacidade de culpa, que – dependendo do seu específico grau – poderá determinar diferentes consequências ao nível da qualificação e tratamento jurídico. Desde logo, poderá determinar a subsunção dos factos num tipo legal diverso (v.g. homicídio simples em vez de qualificado); uma atenuação especial da pena ou, independentemente desta, uma redução do limite fixado pelo grau de culpa, operante no interior da moldura concreta da pena. Poderá, porém, ser tão ligeira que não seja significativa para evitar uma agravação da medida da pena concreta, sobretudo decorrente de fortes necessidades de prevenção especial40.
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No sentido de que a imputabilidade diminuída pode não determinar uma atenuação da pena, embora signifique uma diminuição da culpa, vide Acórdão do Supremo Tribunal de Justiça, de 21/06/2012, relatado por Isabel Pais Martins, com o n.º convencional 525/11.2PBFAR.S1, disponível em www.dgsi.pt, em cujo sumário se refere que “[o] estado psíquico que afectava o recorrente no momento da prática do facto (“delírio crónico passional de ciúme”) não era adequado, na compreensão conjugada com os restantes factos provados, a conformar uma imagem global do facto especialmente atenuada, motivo pelo qual é de arredar a atenuação especial da pena, nos termos do art. 72.º do CP. (…) [O] delírio crónico passional de ciúme que afectava o recorrente, diminuindo-lhe a capacidade de dominar a vontade e atenuando a consciência do carácter proibido da sua conduta, releva num sentido atenuativo da sua culpa, mas num grau que não se pode ter por excepcional.”
Em sentido não coincidente, defendendo que a imputabilidade diminuída pode conduzir a uma agravação da pena, não por razões de elevação das necessidades de prevenção especial, mas por razões atinentes à culpa, vide Acórdão do Supremo Tribunal de Justiça, de 3/07/2014, relatado por Maia Costa, com o n.º convencional 354/12.6GASXL.L1.S1, disponível em www.dgsi.pt, onde se refere que “os casos de “diminuição sensível da capacidade de avaliação” podem ser tratados como de inimputabilidade ou antes de imputabilidade (diminuída), de acordo com o juízo que o tribunal faça sobre os pressupostos referidos nos nºs 2 e 3 do art. 20º do CP. No caso de o tribunal considerar o agente imputável, estaremos então perante um caso de imputabilidade diminuída, mas o legislador não determina nem sequer prevê a atenuação da pena, como se imporia caso a imputabilidade diminuída se fundasse numa presumida diminuição da culpa. É que, na determinação do grau de culpa, na imputabilidade diminuída há que levar em conta as qualidades pessoais do agente, reflectidas no facto; quando estas se revelarem especialmente desvaliosas do ponto de vista do direito, estaremos perante uma culpa
agravada, a que corresponderá uma pena necessariamente mais grave.”
Refere Figueiredo Dias que “pode haver casos em que a diminuição da imputabilidade conduza à não atenuação ou até mesmo à agravação da pena. Isso sucederá (…) quando as qualidades pessoais do agente que fundamentam o facto se revelem, apesar da diminuição da imputabilidade, particularmente desvaliosas e censuráveis, v.g. em casos como os da brutalidade e da crueldade que acompanham muitos factos dos psicopatas insensíveis, os da inconstância dos lábeis ou os da pertinácia dos fanáticos.” Vide Dias, J. de Figueiredo – Pressupostos da punição e causas que excluem a ilicitude e a culpa, p. 77.
Não discordando da possibilidade de os agentes, a quem é reconhecida uma diminuição da imputabilidade ou da capacidade de culpa, poderem sofrer uma agravação da pena, continuamos a afirmar que tal resultado se deverá, em regra, a fortes necessidades de prevenção especial, a que o grau de culpa ainda permite dar resposta. Salientamos que, nos casos – absolutamente excepcionais - em que a diminuição da imputabilidade se deve à presença de determinada perturbação de personalidade, será, por vezes, difícil distinguir os aspectos do facto, que se devem à influência da anomalia, daqueles que correspondem a uma manifestação das características desvaliosas da personalidade do agente. Esta dificuldade prende-se, exactamente, com a circunstância de a diminuição da capacidade de culpa ser devida ao efeito parcialmente destrutivo da anomalia psíquica na conexão real e objectiva de sentido da actuação do agente, que não pode deixar de se reflectir num efeito perturbador da
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É exactamente para deixarmos mais clara a diversidade de tratamento jurídico, que a imputabilidade diminuída pode suscitar, que preferirmos isolar tal conceito numa categoria específica, introduzindo assim uma ruptura ou solução de continuidade – conceitual e não naturalística – na gradação que separa o extremo do estado de sanidade mental, com conservação íntegra das capacidades cognitiva e volitiva, do extremo do estado em que tais dimensões da capacidade se encontram excluídas, por força de anomalia psíquica.