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II. Os conceitos convocados e o seu contexto de significação

1. A inimputabilidade por anomalia psíquica

1.5. A (in)capacidade de agir de outra maneira

Já afirmámos que determinante para o juízo de inimputabilidade é a acção destrutiva que a anomalia psíquica tem na capacidade para o agente agir de outra maneira. É altura de explicarmos os exactos termos em que consideramos pertinente recuperar este conceito.

A censurabilidade do agente, pressuposta pela ideia de culpa, pode ser associada à liberdade de autodeterminação e decisão, centrando-se, desta forma, no conceito de evitabilidade subjectiva do evento criminalmente tipificado. Neste contexto, o agente é reputado culpado por ter praticado o ilícito de forma livre, tendo uma efectiva alternativa de decisão no sentido de não o praticar, ou seja, podendo ter actuado de outra maneira. A esta concepção de culpa pode opor-se uma outra, que faz assentar o juízo de censura na violação de um dever, consubstanciado numa vinculação a respeitar as normas da ordem jurídica, que o agente se deve esforçar por cumprir, residindo, assim, o fundamento da censura na circunstância de esse esforço não ter sido suficiente, de acordo com o que lhe era exigível56.

Quando, porém, a anomalia psíquica destrói a conexão de sentido da actuação do agente, podemos dizer que está afastada a possibilidade de lhe imputarmos o facto, a título de culpa, independentemente de associarmos este conceito à liberdade de acção ou à exigibilidade de um esforço de cumprimento do dever. Na maior parte destes casos, a acção

55 DIAS, J. de Figueiredo – ibidem, p. 460.

56 Vide, quanto à caracterização destes paradigmas, NEVES, J. Curado – A problemática da culpa nos crimes

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da anomalia psíquica transmuta o traço identitário do comportamento, enquanto atitude subjectivamente atribuível a um determinado indivíduo, por determinar um funcionamento perturbado ou anómalo dos processos psíquicos, prejudicando, por isso, a capacidade de culpa. O comportamento do agente inimputável é, nesse sentido, frequentemente, disruptivo, podendo surgir como um evento totalmente contrário ao padrão de atitudes que caracterizam a personalidade do agente.

Para melhor compreendermos a forma como, num estado de funcionamento não anómalo, a personalidade do agente se exprime no facto, convém retomarmos os ensinamentos de Janzarik. Este Autor57 expõe uma teoria de formação da personalidade, que torna especialmente impressiva a forma como um padrão tendencial de comportamentos, respostas a estímulos e visões do mundo, se vai moldando ao longo do percurso biográfico vivenciado pelo indivíduo. No início da vida, a actividade humana encontra-se limitada a comportamentos inatos, que predispõem a reagir em termos instintivos, para satisfação de necessidades básicas, traduzindo-se essa predisposição numa orientação biológica fundamental. Porém, o processo de crescimento envolve uma sucessão de situações de vida que trazem novos estímulos externos, motivando novos comportamentos, cuja adequação vai sendo testada pelos resultados, permitindo ao indivíduo aprender a forma de reagir, futuramente, a estímulos semelhantes. Desta forma, cada experiência significativa de vida é recolhida e revestida de contornos individualizadores, sendo a sua representação acompanhada de uma dinâmica específica, relacionada com a importância do evento na vida do indivíduo. Assim, constitui-se um conjunto crescente de impressões vivenciais significativas que são armazenadas, sendo-lhes associada uma certa orientação, quanto à forma de reacção adequada, o que significa que a sua posterior evocação conterá disposições para agir de determinado modo. Ao conjunto destas orientações e disposições, Janzarik chama

estrutura mental, sendo que o surgimento de uma disposição para agir, no campo psíquico ou

consciência, perante um estímulo semelhante ao já vivenciado, é referenciado, pelo Autor, como actualização.

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Desta forma, o desenvolvimento progressivo da estrutura psíquica conduz ao aumento de representações actualizáveis. Simultaneamente, este desenvolvimento, propiciado pela sucessão de experiências de vida, possibilita um crescente distanciamento entre estímulo e reacção, que favorece a intervenção da estrutura mental no campo psíquico. Tal intervenção ocorre através de fenómenos de activação – operação que aumenta as possibilidades de acção, potenciando o número de representações disponíveis no campo psíquico, que sejam pertinentes de acordo com o estímulo presente, nomeadamente reforçando a carga de representações menos dinâmicas – e de desactualização – operação de remoção das disposições que não constituem opções viáveis de comportamento.

Ao longo do processo de crescimento, sobretudo a partir da adolescência, forma-se uma espécie de edifício valorativo, integrado por um sistema de hierarquias que confere primazia a orientações mais duradouras e de maior alcance, de entre as várias disposições comportamentais, moldando a coerência e rumo da actividade do indivíduo, de acordo com as suas intenções e aspirações. A intervenção desta área estrutural central ou edifício valorativo intensifica-se, em processos de funcionamento psíquico normal, perante situações de vida de maior relevo, que apelam a um processo de decisão complexo. O relevo da situação é aferido por uma consciência do risco – que se desenvolve nos indivíduos, à medida que experienciam a possibilidade de a interacção com o mundo exterior trazer consequências subjectivamente desagradáveis, e que se encontra solidamente presente nos adultos –, estrutura que se actualiza quando os processos mentais se defrontam com a resistência da realidade. Face à natureza gregária dos indivíduos humanos e à inerente importância que a interiorização de normas de convivência detém na edificação da estrutura psíquica, esta consciência do risco é, desde cedo, orientada para os contactos sociais. Assim, a prática de acções, que desencadeiam juízos de censura social ou jurídica, desperta facilmente a consciência do risco, determinando prestações de activação e desactualização específicas, nomeadamente a disponibilização, no campo psíquico, de orientações de comportamento menos dinâmicas – como as que apontam para formas de resolução de um conflito, através dos tribunais e não através do uso imediato de violência – e a remoção de alternativas de comportamento violadoras de normas sociais interiorizadas pelo indivíduo.

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Para Janzarik, a perturbação mental traduz-se, essencialmente, no funcionamento defeituoso das prestações de activação e de desactualização, pelo que o elemento fundamental da inimputabilidade reside na incapacidade de orientação, ou seja, na impossibilidade de o agente conduzir o processo de motivação da decisão – e a inerente capacidade de inibição -, incluindo a inserção das operações de activação e de desactualização, nos momentos determinantes.

Esta conclusão de Janzarik, se poderá revelar-se adequada nos casos de traumatismos cranianos ou de outras causas orgânicas de patologias neuro-psiquiátricas, que determinam a afectação dos circuitos fronto-límbicos, resultando numa acção não precedida da verificação da sua conformidade com o sistema central valorativo do indivíduo, já não detém virtualidade explicativa perante quadros psicóticos ou mesmo perante perturbações cognitivas estritas, características das deficiências mentais e dos quadros demenciais. Com efeito, quanto aos primeiros – cujo paradigma é a esquizofrenia – o que origina a inimputabilidade é, na maioria dos casos, a alteração global da consciência de significação, que já analisámos. Quanto aos segundos – cujo paradigma é a deficiência intelectual ou a demência de Alzheimer – o que se encontra comprometido é, na maioria das vezes, de uma forma mais pura, a própria capacidade de avaliar/processar o estímulo.

Nestes termos, desprendendo a noção da capacidade de agir de outra maneira do seu contexto genético explicativo, ligado à liberdade de acção inerente ao juízo de culpa, parece- nos que a expressão pode continuar a ser utilizada para descrever a possibilidade de o agente modelar o seu comportamento, optando por respeitar a norma incriminadora. Assim, a inimputabilidade decorrerá da inexistência dessa possibilidade, em razão de disfunção neuro- psiquiátrica.

Na ausência dessa disfunção, os seres humanos detêm uma capacidade interna de se autodeterminarem, que pode ser condicionada por várias circunstâncias, juridicamente atendíveis no âmbito de ponderação do juízo de culpa, nomeadamente excluindo-a. Porém, independentemente desse condicionamento, ao contrário do que os sectores mais determinísticos, em vários momentos históricos, têm apregoado, os nossos conhecimentos sobre o funcionamento do cérebro não infirmam a existência da capacidade de

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autodeterminação, em indivíduos não afectados, em momentos concretos, por disfunções neuro-psiquiátricas.

É certo que os estudos recentes sobre o funcionamento do cérebro têm servido de motivação para recolocar a questão sobre a efectiva existência desta capacidade de autodeterminação ou, pelo menos, sobre os seus limites. Porém, como veremos, a dúvida prende-se mais com uma deficiente interpretação dos resultados dos estudos do que com o conteúdo científico dos mesmos.

Várias experiências assumiram especial importância, neste específico contexto, merecendo, por isso, que sobre elas nos debrucemos, brevemente58.

Em 1965, Hans Kornhuber, através de exames electroencefalográficos, conseguiu individualizar a área cerebral activada no contexto de movimentos voluntários, identificando o potencial de preparação ou de prontidão, com surgimento cerca de oitocentos milissegundos antes do início do movimento.

Na sequência de tal descoberta, a comunidade científica interessou-se em responder à interrogação sobre qual o período de tempo que medeia entre a vontade de executar o movimento e a activação do potencial de prontidão.

No início dos anos 80, Benjamin Libet e a sua equipa levaram a cabo uma experiência, envolvendo vários participantes, a quem era solicitado que premissem uma tecla com um dedo, num momento livremente escolhido, incumbindo a cada um dos participantes sinalizar o momento em que tomava consciência da decisão de efectuar esse movimento, por referência à posição de um cursor luminoso, que efectuava uma rotação circular num mostrador colocado em frente a cada um deles. A actividade cerebral dos participantes era constantemente registada através de um sistema de eléctrodos, de modo a permitir a determinação precisa do momento da activação do potencial de prontidão e o confronto com o dado sinalizado, reportado ao momento em que emergia, na mente de cada um, a consciência da decisão de agir. Verificou-se que o potencial de prontidão motora era activado, no cérebro, cerca de oitocentos milissegundosantes do movimento e que a decisão de executar a acção se tornava consciente somente duzentos milissegundos antes da mesma.

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O resultado da experiência foi confirmado em repetições, por outros cientistas, com meios técnicos que permitiam maior acuidade metodológica.

John-Dylan Haynes e a sua equipa reelaboraram a experiência, ambicionando, não apenas localizar a cronologia da actividade cerebral, mas sobretudo o conteúdo da decisão, relativamente à escolha de premir uma tecla de um conjunto de duas. Os participantes foram sujeitos a um exame de ressonância magnética funcional, durante a experiência, tendo sido possível, desta forma, concluir que o lapso temporal entre a activação do potencial de prontidão e a consciência da vontade de executar a acção abrangia, não apenas milissegundos, como concluíra Libet, mas vários segundos. Mais concluíram que, entre sete a dez segundos antes da acção, era possível prever, com uma baixa margem de erro, se o participante iria premir a tecla da direita ou da esquerda.

Os resultados destas experiências impulsionaram uma reflexão profunda, nomeadamente entre os criminalistas, formando-se correntes de pensamento mais moderadas e mais extremistas, entre os dois pólos opostos do reducionismo neurocientífico e do absoluto indeterminismo.

Segundo a corrente moderada, o contributo da evolução das neurociências, designadamente das técnicas de brain imaging, no âmbito forense, deveria ser utilizado, restritivamente, para melhorar a cientificidade das perícias, nomeadamente relativas à averiguação de pressupostos médico-legais de inimputabilidade.

Em oposição, a corrente extremista vaticinava que a evolução das neurociências e a alegada demonstração da inexistência de livre arbítrio implicavam uma reformulação integral das bases do direito criminal, por infirmarem a existência de uma possibilidade efectiva de agir de outra maneira, abalando assim a natureza do juízo de culpa. A emergência de um novo modelo determinístico de acção ameaçava fazer ruir o próprio binómio imputabilidade/inimputabilidade.

Ora, as teses mais radicais - que pretendem extrair, das experiências neurocientíficas, conclusões no sentido de que o comportamento de todos os indivíduos, ainda que sem qualquer anomalia psíquica, é determinado por mecanismos inconscientes resultantes da acção combinada dos genes e dos estímulos exteriores, com consequente total negação de escolhas livres e conscientes – são, claramente, de afastar. De facto, os resultados das

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experiências supra descritas são insuficientes para demonstrar a inexistência da liberdade da acção humana e para, consequentemente, infirmar a solidez do modelo tradicional de responsabilidade em que assenta o direito criminal.

Mesmo dentro da comunidade científica, as interpretações reducionistas das novas descobertas neurológicas foram fortemente criticadas.

O próprio Libet relativizou o sentido atribuído à sua experiência – como negação de

free will - formulando a teoria de free won`t ou livre veto, referindo que, nos duzentos

milissegundos que medeiam entre a consciência da decisão de praticar o acto e a acção, o indivíduo pode decidir não executar a conduta, interrompendo assim o processo cerebral que fora activado inconscientemente.

Acresce que as experiências de Libet e Haynes se baseavam no estudo de um simples e inofensivo movimento de premir uma tecla, conduta desprovida do complexo contexto motivacional e emocional que acompanha grande parte das acções humanas, nomeadamente daquelas que têm relevo criminal.

Na verdade, as descobertas das neurociências podem suportar interpretações completamente opostas às extraídas pelos deterministas reducionistas.

Nesse sentido, Patrick Haggard chamou a atenção para o facto de as mais avançadas técnicas permitirem identificar uma diferença qualitativa entre acções reflexas e acções voluntárias. Explica este Autor que os processos neuronais, que presidem às acções voluntárias, correspondem a um envolvimento de um maior número de áreas cerebrais e de áreas diferentes das que são accionadas pelos movimentos reflexos. Todas as áreas cerebrais envolvidas no procedimento decisional (sistema límbico, nódulos basais, hipotálamo) interagem sob o domínio dos lobos frontais, que dirimem o conflito potencial entre impulsos de sentido contrário, até à definição da escolha sobre a existência e o momento da acção e à consequente transmissão dessa decisão ao sistema muscular. A reconstituição a que Haggard procede, sobre o processo decisório que antecede a acção, permite localizar uma decisão final de controlo sobre a acção, que precede a conduta e determina se a mesma irá ou não ocorrer, confirmando assim a eficácia causal da vontade consciente.

Na esteira de Haggard, tem sido salientado que entre acções voluntárias simples – como premir um botão, sem qualquer consequência – e acções voluntárias complexas – como

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os comportamentos tipificados na lei como crime – existem diferenças consideráveis, que obstam a que os resultados das experiências de Libet e de Haynes possam ter transpostos para um contexto diferente daquele em que tiveram a sua génese.

Em síntese, poderemos dizer que a evolução das neurociências - conferindo-nos a possibilidade de visualizar as conexões sinápticas, no interior do nosso cérebro, e de, consequentemente, identificar as áreas envolvidas em vários tipos de actividade mental - não destruiu o paradigma da culpa como base do direito criminal, mas veio chamar a atenção para a necessidade de reequacionar alguns dados problemáticos, trazendo nova luz sobre a compreensão dos condicionamentos do comportamento humano.