• Nenhum resultado encontrado

V. Estudo empírico sobre a execução da medida de segurança de internamento

8. Objectivo e metodologia do estudo empírico

O estudo, que nos propusemos fazer, é de carácter primordialmente descritivo, exploratório e transversal.

O objectivo geral correspondia a, primeiramente, aferir as características dos reclusos inimputáveis internados na Clínica de Santa Cruz do Bispo e na Unidade de Psiquiatria Forense do Pólo Hospitalar Sobral Cid, por forma a apurar da eventual existência de diferenças significativas.

O objectivo mais específico, porém, subordinava-se à finalidade de responder a uma hipótese de investigação, que previamente colocámos e que poderemos designar, doravante, por Q.1, sintetizando-se na formulação seguinte:

Q.1) Os inimputáveis internados, em enfermaria prisional, apresentam níveis de perigosidade criminal superior aos inimputáveis internados, em enfermaria não prisional.

147

Num primeiro momento, extraímos uma amostra aleatória, composta por trinta e quatro inimputáveis internados em Santa Cruz do Bispo e trinta e dois inimputáveis internados no Pólo Sobral Cid.

Uma vez que nos interessava comparar, num segundo momento do estudo, a perigosidade criminal dos inimputáveis internados nos dois tipos diferenciados de enfermaria, os critérios de inclusão na amostra foram orientados pelo desiderato de reduzir, na medida do possível, a intervenção de variáveis que, estando directamente relacionadas com a perigosidade, não iríamos analisar. Assim, afastámos a influência da variável género do indivíduo, optando por integrar, na amostra, apenas internados do sexo masculino, cientes de que o género masculino corresponde, de acordo com os estudos científicos realizados, a um factor de risco de violência. Igualmente afastámos os indivíduos declarados inimputáveis, por força de uma capacidade de avaliação da ilicitude do facto ou de determinação de acordo com essa avaliação sensivelmente diminuída, nos termos do artigo 20.º, n.º 2, do Código Penal – uma vez que tal realidade acarreta problemas e reflexões específicos - restringindo, assim, a amostra aos indivíduos declarados inimputáveis, nos termos do n.º 1 do mesmo preceito. Finalmente, optámos por integrar, na amostra, apenas os indivíduos que cometeram factos mais graves, ou seja, os internados em virtude da prática de factos correspondentes a crime punível com pena de prisão superior a oito anos, cujas medidas de segurança são, por essa razão, susceptíveis de prorrogação por períodos sucessivos de dois anos, após atingido o limite máximo da pena correspondente ao tipo de crime envolvido, nos termos do n.º 3 do artigo 92.º, do Código Penal.

Pelo exposto e em síntese, foram eleitos, como critérios de inclusão, na amostra, os seguintes:

- declaração judicial de inimputabilidade, em virtude de anomalia psíquica, nos termos e para os efeitos do artigo 20.º, n.º 1, do Código Penal;

- situação de internamento efectivo, em execução de medida de segurança de internamento de inimputável;

- prática de facto, determinante da sanção, correspondente a crime punível com pena de prisão superior a oito anos;

148

Por exigências de uniformidade metodológica, foram excluídos os indivíduos que, apesar de preencherem os critérios de inclusão, por razões de impedimentos vários ou recusa, não foram sujeitos a entrevista.

Foi construído um guião de recolha de dados, para orientar a selecção de informação relevante, que foi, posteriormente, utilizada, quer na descrição das características sócio- demográficas e clínicas do internado, quer na análise de aspectos relativos ao facto praticado e à medida de internamento aplicada. Tal informação foi ainda alvo de tratamento posterior, no âmbito da avaliação do insight e dos restantes factores de avaliação do risco de violência, face à importância na determinação da perigosidade criminal.

Para recolha da referida informação relevante, foram analisados os processos judiciais relativos à execução das medidas de segurança de internamento aplicadas. Foram entrevistados 34 inimputáveis internados em Santa Cruz do Bispo e 32 internados do Pólo Sobral Cid, bem como pessoal técnico das duas instituições, nomeadamente médicos psiquiatras, enfermeiros, responsáveis pelo tratamento penitenciário, técnicos de reeducação, guardas prisionais.

Complementarmente, foram recolhidas informações junto da Direcção de Serviços de Execução de Medidas Privativas da Liberdade, unidade orgânica da DGRSP responsável pelo acompanhamento dos regimes de execução das medidas privativas da liberdade.

As entrevistas dos internados foram precedidas de autorização médica, de forma a garantir que a respectiva realização não traria prejuízo clínico para a saúde dos internados. Informámos cada um dos entrevistados da natureza e dos objectivos do presente trabalho, deixando clara a insusceptibilidade de qualquer influência da eventual colaboração dos internados na situação jurídica dos mesmos, bem como reafirmando a garantia de sigilo dos seus dados identificativos.

A diferença do número de elementos componentes da amostra prende-se, exactamente, com a inviabilidade da entrevista de todos os internados, cujos processos judiciais foram previamente consultados.

A maior parte das entrevistas foi realizada com a colaboração de médico psiquiatra, o que permitiu a recolha concomitante de informação directamente vocacionada para posterior processamento, de acordo com a cheklist HCR- 20.

149

Salienta-se que, em nenhum caso, a entrevista foi inviabilizada por razões de segurança, que nunca foram apresentadas ou sentidas como obstativas ao contacto com os internados. Estes corresponderam, sempre, ao diálogo de forma socialmente adequada.

Num segundo momento, face ao carácter técnico, não jurídico, da avaliação do risco de violência, contámos com a colaboração de uma equipa multidisciplinar200, com formação em psiquiatria ou psicologia, que, utilizando os dados recolhidos, nos ajudou a responder à questão sobre se os inimputáveis internados, em enfermaria prisional, apresentam níveis de perigosidade criminal superior aos inimputáveis internados, em enfermaria não prisional, quer através do preenchimento da aludida checklist HCR- 20, quer no tratamento estatístico dos dados.

Uma vez que o nosso objectivo primordial se prendia com o apuramento comparativo da perigosidade criminal, revelou-se importante avaliar a consciência crítica dos reclusos internados -categoria a que, em termos médico-legais, se alude geralmente através do vocábulo insight – relativamente à anomalia psíquica; ao acto ilícito praticado; à circunstância de a anomalia psíquica ter sido determinante no cometimento do ilícito; ao facto de, no momento actual, ainda serem portadores de uma anomalia psíquica, que implica seguimento psiquiátrico, cujo abandono pode propiciar nova prática de ilícitos e, por inerência, nova privação da liberdade.

De facto, a avaliação do risco de violência - indispensável a uma decisão fundada sobre a adequação da decisão de restituição à liberdade - pressupõe uma indagação criteriosa da evolução do insight, que funciona como indicador do sucesso reabilitativo do recluso inimputável.

Para trabalhar, terapeuticamente, o insight, é, por um lado, necessário garantir que, na medida do possível201, o agente reconheça ou adquira a consciência de que se encontrava

200

Integraram essa equipa os psiquiatras Fernando Vieira, Sofia Brissos, Marco Duarte, Beatriz Lourenço, André Ponte e a psicóloga Sandra Bernandes.

Agradecemos, aqui, reconhecidamente, toda a disponibilidade e colaboração prestadas, nomeadamente os ensinamentos de análise estatística, que foram imprescindíveis para a formulação das conclusões deste trabalho.

201

Muitas vezes, o resultado de aquisição de insight, pelo recluso inimputável, corresponderá a um objectivo utópico, em razão da patologia. Porém, as finalidades do direito criminal bastam-se com uma intervenção (re)ssocializadora, que propicie, nos casos em que um verdadeiro insight não é atingível, a consciência da associação entre o abandono do tratamento e o perigo de repetição de factos ilícitos típicos ou, de forma mais

150

afectado de uma anomalia psíquica, no momento da prática do ilícito, e que tal anomalia foi determinante do seu cometimento e da consequente privação da liberdade.

Por outro lado, na maior parte dos casos, a perigosidade criminal, que determina a aplicação e manutenção da medida de segurança de internamento, relaciona-se – embora não isoladamente, mas de forma integrada ou contextual, como já vimos – com a circunstância de a anomalia psíquica ser crónica ou tendencialmente permanente, sendo, frequentemente, acompanhada por uma falta de consciência crítica da patologia e da necessidade de tratamento, nomeadamente farmacológico202. Encontrando-se o abandono do tratamento, frequentemente, ligado a episódios agudos da patologia – v.g. no caso de esquizofrenia - ou à falta ou dificuldade de contenção de actos impulsivos ou agressivos – v.g. no caso de portadores de perturbação de personalidade do cluster B – e, por inerência, ao aumento exponencial de perigo de cometimento de novos actos ilícitos graves, é importante que o processo reabilitativo inclua uma vertente destinada a favorecer a consciência, por parte do agente, da manutenção de uma situação psicopatológica, que carece de tratamento.

Assim, com base num inquérito exploratório203, procurou-se apurar se as várias dimensões do insight se encontravam presentes, de forma mais expressiva, em enfermaria prisional ou não prisional.

Como indicador prognóstico de reintegração social, igualmente se considerou pertinente analisar da existência de planos de vida realistas para o futuro.

Por último, reputou-se relevante verificar se os reclusos detinham consciência da natureza da medida de segurança que cumpriam, conhecendo, com rigor ou aproximação, a sua duração definida na decisão do tribunal de julgamento.

linear, a exponenciação do risco de sujeição a nova privação de liberdade decorrente do não seguimento da terapêutica.

202 No caso da esquizofrenia e de outros quadros psicopatológicos do mesmo espectro, a falta de consciência

crítica da situação mórbida e os frequentes sentimentos de desconfiança em relação aos outros e às suas intenções conduzem a que o doente não tome, motu proprio, a medicação e que, muitas vezes, interprete as diligências dos familiares ou cuidadores, tendentes a controlar a toma efectiva dos fármacos medicamente prescritos, como tentativas de envenenamento ou outros actos malévolos.

203 Igualmente contámos com a colaboração da equipa multidisciplinar, a que já fizemos referência, na recolha e

tratamento destes dados, que envolvem experiência clínica, nomeadamente quanto ao apuramento da consciência crítica relativamente à patologia e à necessidade de tratamento, que não pode ser confundida com uma mera verbalização positiva por parte do doente que, muitas vezes, admite a doença e a necessidade de tratamento por razões de desejabilidade social e não por verdadeiro insight, distinção que, obviamente, não seríamos capazes de fazer, por envolver conhecimentos técnicos.

151

Com os objectivos assinalados, foram formuladas várias hipóteses, posteriormente testadas, que sintetizamos, nos termos seguintes:

Q.2) Os inimputáveis internados, em execução de medida de segurança prorrogável, nos termos do n.º 3 do artigo 92.º, do Código Penal, têm consciência de que se encontram privados da liberdade, na sequência de um ilícito típico praticado.

Q.3) Os mesmos têm consciência de que padeciam de uma anomalia psíquica, aquando da prática do ilícito típico.

Q.4) Relacionam a prática do ilícito com a anomalia psíquica, identificando o respectivo nexo causal.

Q.5) Têm consciência de que sofrem, no presente momento, de uma anomalia psíquica204.

Q.6) Têm consciência de que necessitarão, previsivelmente, de seguimento psiquiátrico, após a libertação.

Q.7) Demonstram conhecimento da duração da sanção penal que lhes foi aplicada.

Q.8) Têm expectativas e planos realistas para o futuro205.

Como já referimos, o nosso objectivo principal era aferir se existiam diferenças significativas na perigosidade criminal dos inimputáveis internados em enfermaria prisional e em enfermaria não prisional, pelo que, para aumentarmos a possibilidade de obter resultados

204 Quanto a este aspecto, pretendia-se apurar um conhecimento mínimo da natureza ou efeitos da situação

psicopatológica diagnosticada.

205 O que se pretendia averiguar era se os internados projectavam a sua vida futura, de forma congruente com o

esperado de um indivíduo medianamente razoável, colocado nas mesmas circunstâncias de vida, apuradas de acordo com os dados objectivos coligidos no processo judicial e no processo clínico.

152

com relevância estatística, e, concomitantemente, evitarmos a possibilidade de a nossa análise ser enviesada por especificidades próprias da enfermaria não prisional do Pólo Hospitalar Sobral Cid, decidimos igualmente utilizar os dados que já tínhamos recolhido na enfermaria não prisional do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa206, no âmbito de trabalho anterior, actualizando-os207, na parte necessária. Assim, adicionámos os dados relativos a vinte indivíduos internados nesta última enfermaria, em execução de medida de segurança aplicada pela prática de factos correspondentes a crime punível com pena de prisão superior a oito anos.

Pelo exposto, após a descrição e caracterização da população de inimputáveis internados na Clínica de Santa Cruz do Bispo e na Unidade de Psiquiatria Forense do Pólo Hospitalar Sobral Cid, apresentaremos os dados respectivos integrados numa análise global das três referidas enfermarias.