De acordo com a formação do Antigo Testamento, a história de Israel não começa com a criação ou com o chamado de Abraão. Dessa forma, embora o livro de Gênesis apareça no início da Bíblia, suas narrativas foram elaboradas muito tempo depois, já na terra de Israel. E provavelmente só por volta do ano 400 a.C.
é que o Gênesis alcançará a forma como encontramos na Bíblia atualmente. Da mesma maneira como nós contamos a história do nosso país de forma diferente da que era contada 20 ou 30 anos atrás, também o povo de Israel, a cada nova etapa da vida, alterava a forma de contar a própria história.
Muitas narrativas presentes no livro de Gênesis apresentam histórias de famílias, clãs, santuários ou instituições. Ora, as tribos se organizavam de forma autônoma e independente entre si, consequentemente, suas histórias também.
Lentamente, no conjunto de Israel, essas “historietas” particulares iam sendo reelaboradas e agrupadas tanto em tradições orais como escritas. Dessa forma, após três ou quatro séculos de monarquia, após muitas releituras na separação dos reinos (cerca de 930 a.C.) e nas tentativas de reunifi cação de Ezequias (por 700 a.C.) e de Josias (mais ou menos 620 a.C.), essas tradições serão integradas em escritos maiores como a história de um só povo. E tudo indica que o processo terá fi m com ampliações e releituras, somente quando o povo de Judá for levado para o exílio (598-530 a.C.), e quando os descendentes dos exilados retornarem e reconstituírem Judá (cerca de 400 a.C.). As duplicações e contradições são testemunhas do que encontramos no livro de Gênesis:
- Duas narrativas da criação (1,1-2,4a e 2,4b-24);
- Duas genealogias de Caim (4,17-26 e 5,12-31);
- Duas genealogias de Sem (10,21-25 e 11,1-17);
- Duas narrativas do dilúvio combinadas (6,5-9,17);
- Duas narrativas da aliança entre Deus e Abraão (15-17);
- Duas expulsões de Agar (16-21);
- Três narrativas sobre os patriarcas e suas mulheres no estrangeiro (12,10-20; (12,10-20; 26,1-11);
- Duas histórias combinadas de José (37-50).
ELEMENTOS E FUNDAMENTOS BÍBLICOS
As duplicações de uma mesma narrativa demonstram que foram escritas e/ou contadas em lugares e contextos diferentes. Por isso o estilo e o gênero literário não são os mesmos. Cada povo, no seu lugar de origem, possui um estilo próprio de contar e narrar as suas histórias. Por este motivo, não podemos analisar os textos duplicados de forma fundamentalista, pois perderiam a sua originalidade, e até incorreria em duvidarmos de sua autenticidade literária.
Fonte: Rodrigues (2004, p. 45).
O livro de Gênesis é dividido em duas grandes partes: Na primeira, Gn 1-11, onde estão as narrativas sobre a origem do mundo, da vida e dos diversos povos;
na segunda, Gn 12-50, onde encontramos as narrativas sobre os patriarcas e matriarcas das tribos de Israel; Abraão, Sara e Agar (12, 1-25,18); Isaac e Rebeca;
e principalmente Jacó, com a fi lha e os 12 fi lhos de Lia, Zaquel, Bala e Zelfa (25,19-36,43); por fi m, a história de José (37,1-50,26).
Ao abrirmos o livro do Gênesis encontramos os famosos relatos da Criação, a história de Adão e Eva, da serpente, de Caim e Abel, do Dilúvio e da Torre de Babel. Essas histórias nasceram ao longo da história do próprio povo de Israel infl uenciadas pela cultura dos povos do Antigo Oriente Próximo, especialmente da Mesopotâmia, do Egito e de Canaã, com os quais Israel conviveu.
De acordo com a concepção de mundo dos povos do Antigo Oriente Próximo, a terra tinha a forma de um disco plano, rodeada por águas e sustentada por colunas. As águas de baixo eram chamadas de águas inferiores, onde fi cavam o abismo e o xeol, a morada dos mortos. Sobre a terra se estendia o fi rmamento, numa espécie de arco ou uma tigela virada para baixo. Nesse fi rmamento estavam pendurados o Sol, a Lua e as estrelas. Acima do fi rmamento fi cavam as águas superiores, que saíam através das comportas, e mais acima estava a morada de Deus. Veja a fi gura a seguir:
O ANTIGO TESTAMENTO E SUA HISTÓRIA Capítulo 2
Figura 3 – A concepção de mundo dos povos do antigo oriente próximo
Fonte: Disponível em: <http://leituraorante.comunidades.net/65279-2-aula-o-povo-de-isra-el-e-a-criacao-do-mundo3>. Acesso em: 6 out. 2017.
Essa visão de mundo infl uenciou os autores de Gênesis 1 a 11. Além da cultura daquela época, é importante lembrar os principais acontecimentos da história de Israel, nos quais surgiram as páginas iniciais do livro do Gênesis.
Vamos fazer esse percurso juntos?
a) Os principais acontecimentos históricos
A partir das diferentes redações apresentadas, fi ca claro que o relato de Gênesis 1-11 é fruto de um longo processo histórico e recolhe histórias de várias gerações. A redação fi nal do livro de Gênesis aconteceu por volta dos anos 400 a.C. As histórias narradas nesse livro passaram por um longo processo, foram contadas, escritas, reescritas e relidas durante as diferentes etapas da história de Israel. Vamos recordar os vários períodos dessa história?
• O período tribal: O período entre os anos 1250 e 1030 a.C. é conhecido como o período das aldeias comunitárias. O período das tribos. Nesse tempo em que não havia rei, o poder era descentralizado e as decisões eram tomadas em assembleias. A maioria da terra era propriedade coletiva.
Nos primeiros tempos, o trabalho e seu fruto eram partilhados entre todos.
ELEMENTOS E FUNDAMENTOS BÍBLICOS
Um tempo marcado pela igualdade e solidariedade. Algumas memórias desse período, por exemplo, a integração com a terra, foram preservadas em Gênesis 2.
• A monarquia: A monarquia em Israel ocorreu entre os anos 1030 a 586 a.C. Apesar dos protestos de vários grupos do interior, surge a monarquia em Israel. O povo é governado por um rei, existe uma corte, e um templo.
Aumentam a opressão, o endividamento e a escravidão, essa realidade está refl etida em Gênesis 3. Em 586 a.C. os babilônios dão fi m à monarquia de Israel e algumas lideranças são exiladas para a Babilônia (VASCONCELOS; SILVA, 2003).
• O exílio da Babilônia: O exílio da Babilônia ocorreu provavelmente entre os anos 586 a 539 a.C. O povo de Israel vivia um momento de profunda crise de identidade. Nesse período, a história de Israel e suas tradições, que já haviam sido escritas, são revistas e reelaboradas. Tanto em Jerusalém, como nos arredores da cidade e na Babilônia surgiram muitos escritos que hoje fazem parte da Bíblia. Por exemplo, na Babilônia surge o conhecido poema da Criação (1,1–2,4a) e a tradição da torre de Babel (Gn 11,1-9). (VASCONCELOS; SILVA, 2003).
• O período persa: O domínio persa ocorreu entre os anos de 539 a 333 a.C. O império persa favorece a reorganização dos povos dominados a partir da religião, exigindo em troca submissão política e pesados tributos.
Alguns grupos de judeus exilados voltam para Jerusalém e reorganizam o povo a partir do Templo e da Lei, sob o governo de sacerdotes ofi ciais.
Nesse período, conhecido como teocracia, multiplicam-se os sacrifícios e as exigências da Lei, especialmente das leis referentes à pureza e ao sábado (8,20-21) (KONINGS, 1997).
A redação fi nal dos livros de Gn, Ex, Lv, Nm e Dt, e a reunião dos livros que formam a Torah, conforme a tradição judaica, e Pentateuco, conforme a tradição cristã, são concluídas por volta do ano 400 a.C.
A partir de sua história e de sua cultura, os autores de Gênesis 1 a 11 deram suas respostas às necessidades de sua época, em contextos e lugares diferentes, porém essa história é tecida com a sabedoria acumulada de geração em geração.
É preciso ler, deixar se envolver por essas narrativas e descobrir a riqueza dessa história.
O ANTIGO TESTAMENTO E SUA HISTÓRIA Capítulo 2
b) Em busca da mensagem de Gênesis 1-11
Os relatos de Gênesis 1 a 11 procuram nos ajudar a entender mais sobre as origens da vida, a partir da religiosidade do povo de Israel, da sua crença no Deus único e criador de todas as coisas. Na tentativa de auxiliar o seu aprendizado, apresentamos algumas chaves para você ler as páginas iniciais desse livro:
• Você deve saber que os relatos sobre a criação do mundo e da humanidade não são exclusividades de Israel, do Egito e do Oriente Próximo. Também povos mais distantes, como Índia, China e África, produziram suas histórias sobre a origem do universo. Todas as culturas antigas produziram relatos da criação, inclusive no Brasil há vários contos indígenas da criação (MARQUES; NAKANOSE, 2007).
• As narrativas de Gênesis 1-11 afi rmam que o Deus de Israel é o criador.
Na região da Mesopotâmia, Canaã e Egito havia a crença na existência de divindades criadoras. Os relatos de Gênesis 1 a 11, mesmo de épocas diferentes e utilizando diversos nomes para Deus, atestam que o Deus de Israel é o criador do céu e da terra (Gn 1; Sl 121,2; 124,8; 134,3).
• Um Deus humano e próximo. Algumas narrativas do livro do Gênesis apresentam a imagem de um Deus presente na vida do ser humano. Um Deus oleiro: ele modela o 'adam e os animais a partir do solo; exerce também a função de construtor: da costela de Adão, ele constrói a mulher (Gn 2,21-22). Ele é agricultor: planta um jardim (2,7-8.19). Deus faz justiça aos oprimidos e não abandona o pecador à sua própria sorte (4,10.15).
Um Deus libertador que não compactua com o projeto opressor (11,1-9).
• A petulância do ser humano. No jardim, mulher e o homem possuem liberdade e se relacionam com Deus e com todos os seres criados. A única proibição é não comer da árvore do conhecimento do bem e do mal. A serpente não convida à desobediência, mas sua argumentação atinge o ponto central do ser humano: "vós sereis como deuses, versados no bem e no mal"
(3,5). A petulância do ser humano, especialmente dos reis e dos governantes que se colocam no lugar de Deus, provoca a destruição do paraíso.
• A agressividade interrompe a fraternidade. A história de Caim e Abel é a primeira de uma série de histórias que apresentam confl itos entre irmãos. Caim é apresentado como agricultor e Abel como pastor. Essa história retrata os confl itos existentes entre agricultores e pastores. E nesse confl ito, Deus opta pelo mais fraco. A história exemplifi ca a ruptura da fraternidade como a raiz da violência.
ELEMENTOS E FUNDAMENTOS BÍBLICOS
• A realidade de injustiça provoca a aniquilação da natureza. A crescente realidade de injustiça e a concentração de poder provocam a destruição de toda a natureza: o Dilúvio. Na Babilônia, os judeus exilados entram em contato com histórias de inundações próprias da região. Os autores de Gênesis 6-7 fazem uma releitura dessas histórias, apresentando uma explicação para a sua realidade de destruição, com a intenção de provocar mudanças de comportamento na sociedade.
• Graciosidade de Deus. À medida que aumentam a violência e a maldade do ser humano, cresce a graça de Deus. A pessoa se distancia, mas Deus continua se aproximando e cuidando amorosamente de sua criação. A opção do Senhor é pela vida. Ele faz uma aliança com Noé e, por meio dele, com toda a humanidade: "Não haverá mais dilúvio para devastar a terra". (9,11).
• A identidade do clã e a compaixão/misericórdia entre todos os povos. As histórias que estão em Gênesis 1-11 nasceram em lugares e épocas diferentes, mas foram unidas umas às outras por meio das genealogias.
A intenção teológica dessas listas genealógicas é garantir a identidade do povo de Israel e a importância de desenvolver relações solidárias com todos os povos, uma vez que todos descendem de um único tronco.
• Dissipação e heterogeneidade: No episódio da Torre de Babel (Gn 11,1-9), a dispersão e a diversidade de línguas impedem o projeto dos dominadores. Portanto, é castigo de Deus para os opressores, mas para os pobres e exilados é libertação. É a realização da bênção recebida em Gênesis 1,28 e renovada em Gn 9,1: "Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra".
• Prefácio à história de Israel. A lista dos descendentes de Sem nos faz chegar até Taré e seus fi lhos, entre os quais está Abraão. Dessa forma, a lista faz a passagem da história das origens para o tempo dos patriarcas.
A bênção, renovada com Noé (9,1), terá continuidade com Abraão (12,1-3). Deus lhe faz a promessa de que, por meio dele, todas as nações serão abençoadas.
• Transgressão, admoestação e Nova Aliança. Nos relatos de Gênesis 1-11 é possível perceber o esquema teológico de pecado, castigo e salvação. A situação de pecado provoca o castigo: o dilúvio e a morte, mas a partir de um resto, representado por Noé e seus descendentes, Deus renova a sua aliança e recria nova humanidade (9,9-10). Essa aliança será renovada com o povo de Israel e, a partir de Jesus, chegará a todos os povos.
O ANTIGO TESTAMENTO E SUA HISTÓRIA Capítulo 2
Atividade de Estudos:
1) A harmonia acaba e aparecem as ambiguidades da vida. A narrativa de Gn 3, 1-24 está ligada a 2,4b-25, esta é uma das narrativas criadas na história de Israel para tentar explicar a origem do mal, da morte e do sofrimento. Apresenta comportamentos e instituições que auxiliam os povos a se organizarem, a fi m de viverem, superando o mal e a morte.
Leia Gn 3, 1-24 a partir da compreensão das características de Gn 1-11 acima mencionadas, e procure identifi car as instituições que perpassam a narrativa e o possível contexto e simbologia em que essa narrativa foi escrita.
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c) Localizando o texto: Na tribulação nasce outra vez a esperança O exílio da Babilônia é um marco na história de Israel. Os exilados fi caram sem terra, sem rei e sem templo. Eles perdem suas principais referências. A partir dessa situação de crise e perda de identidade, nasce a preocupação de explicar as razões da derrota e do exílio. Os sacerdotes, profetas e sábios procuravam dar uma resposta para aquele momento de profunda intranquilidade. As lideranças religiosas retomaram a história do povo, fazendo uma releitura e apontando novas possibilidades. Vamos relembrar outros fatos da história de Israel ocorridos um pouco antes do exílio.
ELEMENTOS E FUNDAMENTOS BÍBLICOS
Em 609 a.C. o faraó do Egito colocou Joaquim no trono de Judá e em troca exigiu pesados tributos. Em 605 a.C. o exército de Nabucodonosor, da Babilônia, derrotou o Egito, se apoderou da Síria e da Palestina. O rei Joaquim, em 602 a.C., deixou de pagar tributos para a Babilônia, e por causa disso provocou um grave confl ito (2Rs 24,1). O exército babilônico marchou contra Judá e cercou a cidade de Jerusalém (VASCONCELOS; SILVA, 2003).
Em 597 a.C. Jerusalém é invadida e a elite foi deportada para a Babilônia.
O rei, a nobreza e os sacerdotes ofi ciais, entre eles o profeta Ezequiel, foram exilados. No lugar do rei Joaquim, os babilônios colocaram Sedecias. Alguns anos depois, o novo rei, movido por sua ambição, deixou de pagar tributos para a Babilônia. Desta vez a repressão é muito pior. Em 587 a.C. a cidade de Jerusalém foi invadida e destruída. A família do rei foi executada, sendo que o rei foi preso, torturado e levado para a Babilônia (2Rs 25,6-7; Jr 52,9-11). O templo foi saqueado e incendiado (Lm 2).
A tomada de uma cidade e a deportação são realidades acompanhadas de gestos brutais. Em geral, as mulheres foram violentadas, muitas crianças atiradas contra as pedras, os guerreiros tiveram suas cabeças cortadas ou esfolados vivos (Lm 5). São cenas que não se apagam da memória daqueles que as vivenciaram.
A segunda deportação atingiu pessoas ligadas à corte, grupos de cantores do templo, artesãos, comerciantes, agricultores e viticultores (2Rs 25,11-12).
Na Babilônia, esse grupo é tratado como escravo, utilizado como mão de obra nas construções públicas, nas lavouras, na reconstrução de cidades destruídas e em outros trabalhos forçados: "Este povo foi despojado e saqueado, todos eles estão presos em cavernas, estão retidos em calabouços. Foram submetidos ao saque e não há quem os liberte; foram levados como despojo, e não há quem reclame a sua devolução" (Is 42,22). Muitos não enxergavam mais sentido na vida nem perspectivas quanto ao futuro.
Em terra estrangeira, sem provisões ou condições de sustento, o povo entra em contato com a religião do império e se sentiu confuso em sua crença. Na Babilônia havia muitas divindades, Marduk, representado pelo Sol, era a mais importante, pois ele era considerado o criador do mundo e do ser humano.
Segundo a crença ofi cial, essa divindade garantiria a vitória aos exércitos de Nabucodonosor. Entre as práticas religiosas mais populares na Babilônia, se destacava o culto à deusa Sin, representada pela Lua, e à deusa-planeta Ishtar. Muitas pessoas exiladas assumiram as divindades do império invasor.
(VASCONCELOS; SILVA, 2003).
O ANTIGO TESTAMENTO E SUA HISTÓRIA Capítulo 2
Por conta de todo o sofrimento experienciado, o povo exilado na Babilônia começa a questionar: Onde está o nosso Deus, Javé? Por que ele está nos castigando? A crise de fé e de identidade exige uma resposta. Nesse momento de muita dor e sofrimento, surgiram salmos, poesias, narrativas e outros escritos que recordavam as maravilhas que Deus realizou na vida do povo de Israel, desde as suas origens. As orações renovam a fé em Javé como o único criador de todas as coisas. Assim reza o povo: "Quão numerosas são tuas obras, Javé, e todas fi zeste com sabedoria! A terra está repleta das suas criaturas" (Sl 104,24).
Um dos textos mais conhecidos no exílio da Babilônia é o poema litúrgico de Gênesis 1,1–2,4a, provavelmente escrito por sacerdotes exilados. Eles estruturaram o poema da criação com o refrão: "E Deus viu que era bom" (Gn 1,4;
10.12.18.20.24). E depois de ter criado o ser humano, numa visão panorâmica de sua obra, dizem: "Deus viu tudo o que tinha feito: e era muito bom" (1,31).
Numa realidade desordenada e devastada pela violência, os autores recordavam que o mundo criado por Deus é belo, ordenado, perfeito e bom. Os autores recordavam ao povo exilado que a sua condição não era a de escravo, mas de pessoas criadas à imagem e semelhança de Deus. Gênesis 1,1-2,4a é um convite aos exilados, de ontem e hoje, para rezar e renovar sua fé e sua esperança em Deus criador.
d) Interpretando o texto: Gn 1,1 a 2,4a
Atividade de Estudos:
1) Leia Gn 1,1 a 2,4a e escreva o que é criado em cada dia. Essa atividade será importante para você ter uma ideia de como cada elemento da criação se estrutura dentro da narrativa, bem como a descoberta do estilo literário. Boa sorte!
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ELEMENTOS E FUNDAMENTOS BÍBLICOS
No início do poema da criação há um título: "No princípio, Deus criou o céu e a terra". Esta frase é uma síntese de todo o bloco e apresenta o tema principal: Deus cria o mundo. No Primeiro Testamento, tradicionalmente chamado de Antigo Testamento, o verbo criar, bara' em hebraico, é usado somente para a ação criativa de Deus. O nome de Deus aparece por 35 vezes apenas nesse poema, a terra e o fi rmamento aparecem por 21 vezes. Os autores insistem que o verdadeiro Deus não é Marduk, nem a deusa Sin, mas o Deus de Israel. Ele é o criador da terra e do céu, que signifi ca a totalidade do universo (Sl 89,11).
O versículo 2 informa o que existia antes da criação: terra vazia e vaga, trevas, abismo e águas. No princípio era o caos. É a partir do caos que Deus fará surgir a criação. A desordem e o caos representam a situação do povo no exílio da Babilônia. De acordo com o poema babilônico, no princípio da criação só existiam as águas primordiais: o caos. O povo de Israel assimila a visão de mundo dos babilônios, porém, adaptando-a à sua realidade, declara a sua fé em Deus: o caos não surge de Deus, mas ele coloca ordem. Em Gênesis 1, o sopro de Deus paira sobre as águas. Não se trata de um vento destruidor, mas de um sopro que prepara e anuncia a palavra criadora de Deus: a vida (Sl 33,6).
"Deus disse: 'Haja luz', e houve luz" (Gn 1, 14). No primeiro dia, Deus cria a luz e a separa das trevas. O tema da separação dos elementos opostos aparece em várias narrativas de povos vizinhos. No Gênesis, os três primeiros dias são dias de separação. No relato bíblico, a separação não acontece por meio de um combate entre as divindades, conforme o relato da Babilônia, mas é um gesto de Deus. Após esse gesto, Deus dá nome à sua criação, confi rmando sua relação e responsabilidade com ela.
À luz ele chama dia, e à treva, noite (Gn 1,3-5). No relato babilônico, a luz vem em primeiro lugar e pertence à divindade. Para os autores de Gênesis, a luz não é mais propriedade dos deuses. O abismo e a luz não são sagrados, são apenas criaturas de Deus.
No segundo dia, Deus faz o fi rmamento (Gn 1,6-8). A ideia de que o céu separa as águas de cima e as de baixo está presente em outras culturas. O céu é pensado como uma placa de metal, que Deus pode abrir e fazer cair a chuva:
"abriram-se as comportas do céu" (Gn 7,11; Jó 37,18). Dizer que Deus faz não se trata simplesmente de um chamado à existência, mas de uma fabricação. Ele não avalia esta obra.
O ANTIGO TESTAMENTO E SUA HISTÓRIA Capítulo 2
No terceiro dia, cria a terra fi rme (Gn 1,9-13). As águas são recolhidas e aparece a terra fi rme. Está no coração e na boca do povo: "O céu foi feito com a palavra de Javé, e seu exército com o sopro de sua boca. Ele represa num dique as águas do mar, coloca os oceanos em reservatórios" (Sl 33,6-7). Os babilônios acreditam que Marduk mora no meio do oceano. No poema bíblico, o mar e a terra
No terceiro dia, cria a terra fi rme (Gn 1,9-13). As águas são recolhidas e aparece a terra fi rme. Está no coração e na boca do povo: "O céu foi feito com a palavra de Javé, e seu exército com o sopro de sua boca. Ele represa num dique as águas do mar, coloca os oceanos em reservatórios" (Sl 33,6-7). Os babilônios acreditam que Marduk mora no meio do oceano. No poema bíblico, o mar e a terra