O longo período pré-histórico da humanidade foi, possivelmente, uma época marcada por grupos menores e por bandos. Eram caçadores e coletores. Somente a partir do 10º milênio a.C. se conhecem, no antigo Oriente, processos de transição para a agricultura. Segundo Gerstenberger (2007, p. 29), “o tamanho ideal de grupos errantes na busca por alimentos era em torno de dez e trinta pessoas.
Se considerar um grupo consanguíneo, logo se chega a um número desses, em analogia a grupos de primatas”.
A partir dessas hordas humanas é que surgem no antigo Oriente famílias ampliadas, com uma estrutura de cunho patriarcal rigidamente genealógica.
De acordo com o que sabemos, essas famílias se caracterizavam por serem econômica, jurídica e religiosamente autônomas. Suas casas, segundo os arqueólogos, nas cidades de Israel, não eram muito grandes. Havia um espaço para umas cincos até dez pessoas, não sendo possível abrigar uma família ampliada de até 30 ou 50 pessoas, como talvez fosse mais comum no interior.
Por se tratar de um grupo limitado, preocupado em conseguir alimentos comunitariamente, um grupo que partilhava todos os bens adquiridos, a comunidade clâmica desenvolveu ideias teológicas específi cas, relacionadas ao respeito, à sobrevivência do grupo e de seus integrantes, à sua saúde, sorte e procriação.
Expressão típica da religiosidade desses grupos menores eram, por exemplo, os lamentos individuais no Antigo Testamento hebraico e no entorno de Israel.
O sistema tribal marca a sociedade das montanhas nos séculos XII e XI a.C.
Durante este período, as planícies ainda continuavam sob o controle dos reis cananeus e sob o jugo das cidades-estado. Foi um período antimonárquico.
Dessa forma, no decorrer dos séculos XII e XI a.C. coexistiam na Palestina dois modelos sociais: na planície, as cidades-estado e suas monarquias; nas montanhas, o tribalismo camponês. Este último carregava a experiência dolorosa de séculos de espoliação por reis e faraós, que, por meio de suas expedições, muitas vezes anuais, arrasavam aldeias e plantações. Levavam o senso e a prática da contestação contra as cidades-estado da planície (VILLAC; SCARDELAI, 2007).
O ANTIGO TESTAMENTO E SUA HISTÓRIA Capítulo 2
O vídeo indicado nos ajuda a adentrarmos na caminhada do povo de Israel, de uma maneira popular, relacionando a história de hoje com a do povo antigo.
Primeira parte:
<https://www.youtube.com/watch?v=sdEm2K5Ue4E& feature
=youtu.be>.
Segunda parte:
<https://www.youtube.com/ watch?v=Z9Uux51qDes&feature
=youtu.be>.
O PoVo Que CaminHa: de Moisés a Josué
O projeto exodal expõe tensões vividas pelo povo de Israel durante a travessia do deserto. Além da realidade humana, o deserto na Bíblia simboliza o começo de um longo e penoso processo de libertação, que terá seu desfecho na entrada do povo na Terra Prometida. O caminho do Êxodo tem um sentido profundamente pedagógico (VILLAC; SCARDELAI, 2007), ou seja, sua história quer ensinar e manter viva na memória do povo uma grande lição de vida.
No projeto do êxodo está implícita uma busca contínua por libertação, que após ser contada oralmente é redigida por escritores que tinham interesse em preservar sua memória no meio popular da sociedade de Israel. É um projeto que vai se realizando aos poucos, mediante gestos concretos assumidos pelo povo, quando decidem não mais ser escravos. Recusam servir ao faraó e ao Egito, e daí um grupo de escravos (hebreus) decide traçar seu próprio destino. Esse povo vive uma experiência profunda ao caminhar pelo deserto com o seu Deus. O Deus que caminha com o seu povo é peregrino, habita em cabanas junto aos seus, e faz aliança com eles.
ELEMENTOS E FUNDAMENTOS BÍBLICOS
Do ponto de vista histórico, a saída do Egito e a entrada em Canaã estão notoriamente entre as narrativas mais complexas de todo o corpus de tradições que confl uíram no Antigo Testamento (MCDONALD, 2013). Há muito existe um substancial acordo em considerar que o percurso do êxodo e a ambientação topográfi ca da entrega da Lei sejam elementos muito tardios (do período pós-exílico) inseridos na narrativa com o fi m de realizar uma ligação lógica entre os dois elementos da promessa: saída do Egito e tomada de posse da terra.
(LIVERANI, 2008).
A imagem do deserto, no conjunto Êxodo-Números, não é de tipo pastoril, em que as tribos vivem à vontade; é, porém, do tipo “zona de refúgio” ou “terra de exílio”, numa perspectiva citadina de profundo mal-estar.
O caminho é muito complicado e perigoso, conforme Dt 8,15: “Deserto grande e terrível, povoado de serpentes abrasadoras e de escorpiões, terra de sede, onde não se encontra água”. Essa passagem é semelhante às preocupações logísticas para a travessia do deserto por parte dos exércitos assírios, como na expedição de Esarhaddon em Baza: um distrito remoto, uma extensão desértica e de terra salina, uma região de sede, com serpentes e escorpiões que cobrem a terra como formigas (LIVERANI, 2008).
Também os exércitos da monarquia de Judá tinham atravessado o deserto, por exemplo, na expedição contra Mo’ab e à procura de água por parte de Moisés, que a faz brotar da rocha (Ex 17,1-6), corresponde à procura da água por parte dos “profetas” juntados ao exército naquela ocasião: “Cavai um grande número de fossos neste vale! Assim fala o Senhor: Não vereis vento nem chuva, todavia este vale se encherá de água e bebereis vós, vossos rebanhos e vossos animais de carga!” (2Rs 3,16-17). O milagre de Moisés, que purifi ca a água salobra (Ex 15,22-25), corresponde ao análogo milagre de Eliseu (2Rs 2,19-22).
As enormes difi culdades encontradas na travessia do deserto centram-se no motivo das murmurações sediciosas do povo contra Moisés (Ex 15,24;16,2;17,3;
Nm 11,4-5;14,2-3;20,2-3). E de modo semelhante, as dúvidas sobre a possibilidade de ocupar Canaã concentram-se no motivo dos exploradores que em geral (salvo Josué e Caleb) dão informações não muito animadoras (Nm 13). Em ambas as situações, o povo se pergunta se não teria sido um grande erro dar ouvidos a Moisés (igual aos sacerdotes), abandonar o Egito (igual a Babilônia), para procurar por uma terra mais difícil, habitada por populações hostis e violentas.
Os dois motivos, da sedição e dos exploradores, refl etem debates que devem ter acontecido entre quem propugnava o retorno e quem manifestava perplexidade ou sem dúvida preferia fi car numa terra de exílio que se mostrava habitável e próspera (LIVERANI, 2008).
O ANTIGO TESTAMENTO E SUA HISTÓRIA Capítulo 2
Quando se descreve a travessia como uma realidade estranha e substancialmente desconhecida, foram utilizadas rotas de itinerários que deviam ser de uso de rotas militares ou comerciais, ou, em parte, talvez de percursos de peregrinação a lugares santos do deserto. Esses percursos não podiam deixar de utilizar velhas direções de transumância pastoril, levando em conta o condicionamento viário que no deserto é ditado pela presença de poços, de passagens montanhosas, de vaus (local raso no mar ou no rio, em que seja possível fazer a passagem a pé).
Contudo, os estudos dos itinerários do êxodo são difíceis de serem atestados, pois a maior parte dos topônimos – designação de um lugar, de uma região geográfi ca –, não aparece em outro lugar, e até a localização do Sinai é debatida.
Alguns traçados fundamentais parecem reconhecíveis: a via sul-norte, do golfo de Aqaba à planície de Moab, através do deserto de Edom e o deserto de Moab, estão localizadas nas margens do deserto não tanto porque moabitas e edomitas neguem a passagem quanto porque ali passava a grande via das caravanas, onde o planalto não é mais cortado (como acontece mais a oeste) por profundos vales de difícil travessia (LIVERANI, 2008).
O livro de Josué retrata com intensa vivacidade a realização de uma primeira etapa da promessa de Deus: entrar na terra prometida. Além de ser o sexto livro da Bíblia, Josué é o primeiro dos livros que a Bíblia hebraica identifi ca como profetas anteriores. A Josué se juntam Jz, 1-2Sm e 1-2Rs, para formar o conjunto da historiografi a deuteronômica.
A narrativa de Josué fala de acontecimentos ocorridos entre os séculos XIII e XI a.C. Provavelmente essa conquista ocorreu de forma lenta e gradual, compreendendo um processo que incluía guerras violentas, porém intercaladas por momentos de relativa paz e estabilidade. Essa fase chegou ao fi m durante um período de transição política, que corresponde às primeiras tentativas de instalação da monarquia, com Saul. A história das tribos forma o conteúdo básico do livro de Josué, o qual pode ser dividido em três partes:
a) Js 1-12, que corresponde às narrativas sobre os acontecimentos da conquista propriamente dita, e traz como pano de fundo religioso o santuário de Guilgal;
b) Js 13-21, fala da distribuição, partilha e ocupação da terra entre as tribos;
c) Js 22-24, é dedicada ao personagem Josué até sua morte.
ELEMENTOS E FUNDAMENTOS BÍBLICOS
A ideia de sincronizar a história das 12 tribos faz parte de um programa do escritor, visando preparar um esquema que irá desaguar na confederação político-nacional de Israel. Por isso, a história das tribos antecipa uma nova ordem social, um novo modelo baseado na partilha igualitária das propriedades. Dessa forma, o sistema tribal procura mostrar o estágio político que antecipa a monarquia, planejando um entrelaçamento entre as tribos e monarquia, ambos envolvem o contexto social, político e religioso da Aliança (VILLAC; SCARDELAI, 2007).
A narrativa bíblica da conquista fundante é notoriamente, de acordo com Liverani (2008, p. 347):
Uma construção artifi cial, com a intenção de enfatizar a unidade de ação de todas as doze tribos. São evidentes numerosas contradições internas, devidas à inábil utilização de diferentes tradições estratifi cadas no tempo. Algumas tradições de raio nitidamente local (por exemplo, a tradição sobre os calebitas em Js 15,13-19) tinham por trás uma respeitabilidade que tornava impossível eliminá-las. Essas tradições relacionadas com percursos de transumância entre Negev e planaltos centrais podiam confi gurar muito melhor um ingresso na Palestina pelo sul (segundo a via “normal” para quem vem do Egito), o qual, porém, foi eliminado em favor de um ingresso de todo o povo pelo leste.
A narrativa que forma Js 6-8 se refere à conquista somente do território de Benjamim e de Efraim, depois de passado o Jordão. As narrativas da vitória sobre os reis dos amorreus do Sul são nitidamente separadas (Js 10) da vitória sobre Hasor no norte (Js 11). Essa justaposição de três vagas diferentes serve para conferir um sentido de conquista total. A distribuição dos territórios que é feita por sorteio (Nm 33,50-34,15) é totalmente artifi cial e não pode corresponder a nenhum processo de assentamento que seja historicamente plausível (pode, quando muito, servir de modelo operativo para os sobreviventes do período persa). A própria descrição dos territórios tribais (Js 13-19), diferente entre sul e norte, não pode ser compreendida senão à luz de eventos posteriores à época à qual pretende se referir.
São tantas as incongruências e as estilizações que a narrativa do livro de Josué não pode, senão, ser lida em relação às intenções de um redator (de tradição deuteronomista) que tinha em mente os problemas de sua época e substancialmente o problema de retomada de posse da terra de Canaã por parte dos sobreviventes do exílio babilônio. Esse redator decidiu narrar a conquista-modelo segundo os caracteres da unidade de ação e do forte confl ito em relação aos residentes.
O ANTIGO TESTAMENTO E SUA HISTÓRIA Capítulo 2
Essas escolhas de fundo não eram nada esperadas: os sobreviventes da Babilônia eram (Esd 1,5) e não podiam deixar de ser de Judá e de Benjamim, ou seja, do núcleo fi nal do ex-reino de Judá conquistado por Nabucodonosor, portanto, duas tribos em doze. E o país hospedava uma pluralidade de povos nem todos igualmente estranhos, pois havia inclusive israelitas (javistas) não deportados, seja no Sul, seja no Norte, com os quais uma política de compromisso podia ser razoavelmente perseguida. O fato é que a narrativa parece refl etir uma política extremista, que era uma das opções (mas não a única possível) para os grupos dirigentes que pretendiam reconstruir um novo Israel.
Para entender o que é a obra deuteronomista:
Para o Deuteronômio, mais que para qualquer outro livro bíblico, a interpretação depende do contexto hermenêutico que se supõe. De fato, esse escrito pode ser lido quer no contexto do pentateuco (os primeiros cinco livros da Bíblia), como o último livro da Torá, quer como a abertura programática da historiografi a deuteronomista.
Figura 2 - Os livros que fazem parte da historiografi a deuteronomista
Fonte: Adaptado de Römer (2010, p. 260).
O paradigma adotado no livro de Josué é o da guerra santa, de clara matriz deuteronomista, mas dotada de profundas raízes na ideologia siro-palestina desde os séculos da pressão assíria. A historiografi a deuteronomista o aplicou retrospectivamente a toda a história das relações entre Israel e os outros povos, não apenas na época da conquista, mas também na época dos juízes e depois no primeiro período monárquico.
Os princípios fundamentais da guerra santa: Deus está conosco, combate ao nosso lado e garante a vitória; os inimigos, embora aparentemente mais fortes, não podem contar com igual apoio e estão destinados à derrota; as ações bélicas, porém, devem ser procedidas por adequada preparação votivo-cultural;
todo erro ou falta nesse sentido seria punido com o insucesso; o fruto da vitória
ELEMENTOS E FUNDAMENTOS BÍBLICOS
deve ser atribuído a Deus (que é seu artífi ce) e, portanto, deve ser ritualmente destruído sem dele tirar vantagem material. Como conclusão, se o povo for fi el a Deus, seguramente vencerá. E, ao contrário, se for derrotado, deverá procurar as causas do insucesso numa infi delidade sua (LIVERANI, 2008, p. 349).
Os povos estranhos serão substituídos pelo povo eleito, que pode tomar posse de um território já preparado – com cidades, casas e campos – desde que elimine sem piedade os habitantes anteriores e garanta a total devoção a Yahweh de todos os membros da nova comunidade que se pretende construir:
Depois, vocês atravessaram o Jordão e chegaram a Jericó, mas a classe poderosa de Jericó fez guerra contra vocês: os amorreus, os fereseus, os cananeus, os heteus, os gergeseus, os heveus e os jebuseus, mas eu os entreguei em suas mãos.
Eu enviei grandes vespas diante de vocês, o que tirou de sua frente os dois reis amorreus; não foi com a espada de vocês, nem com seu arco. Dei para vocês uma terra pela qual vocês não se esforçaram, cidades que vocês não construíram, e nas quais vocês habitam; vinhas e olivais que vocês não plantaram, e dos quais vocês comem. (Js 24,11-13).
Na versão sacerdotal, a ideia de uma terra já preparada na qual se implanta prévia eliminação dos habitantes anteriores está analogamente presente, embora a ênfase seja posta na purifi cação cultual:
Quando vocês atravessarem o rio Jordão e entrarem na terra de Canaã, expulsem todos os habitantes da terra da presença de vocês. Façam desaparecer todas as suas imagens esculpidas.
Façam desaparecer todas as suas imagens fundidas, e eliminem todos os seus lugares altos. Tomem posse da terra e habitem nela, pois eu lhes dei essa terra, para que vocês a possuam (Nm 33,51-53).
No fundo, a ideia da conquista como total substituição de uma população anterior – exterminada – por uma que fosse importada, com o intuito de substituí-la, não pode ter sido concebida antes que difundissem as deportações imperiais.
Mas nos termos em que essa ideia foi formulada, ela se torna uma visão totalmente utópica, em sua implacável rigidez, e nem pode pertencer nem à época da primeira etnogenia, nem à do regresso do exílio: põe-se no plano do projeto ideal mais que da prática realização, fornece informações sobre a ideologia de quem o tinha formulado, mais que sobre os acontecimentos que se produziram.
O ANTIGO TESTAMENTO E SUA HISTÓRIA Capítulo 2