Livro da origem de Jesus Cristo, fi lho de Davi, fi lho de Abraão (Mt 1,1).
A comunidade de Mateus é constituída na sua maioria por judeu-cristãos, pessoas empobrecidas, e em muitos momentos e situações se apossa de referências do Primeiro Testamento para mostrar que a vida e a missão de Jesus têm profundas raízes no chamado povo eleito.
As elites da época esperavam por um messias que reunisse traços de nacionalismo, legalismo, dominação sobre os outros povos e triunfalismo.
Anunciavam uma divindade, portanto, violenta e castigadora. A justiça que era ensinada pelas lideranças, entre as quais se incluíam os fariseus, consistia em uma observância mecânica da lei. Para isso se utilizava do rigoroso pagamento de taxas e impostos ao Templo; práticas ritualistas que se resumiam às aparências;
a lei do puro e do impuro; a teologia da retribuição à luz da qual as pessoas ricas
SEGUNDO TESTAMENTO Capítulo 4
e saudáveis eram vistas como justas e recompensadas por Deus e as pessoas pobres eram consideradas como culpadas por suas desgraças. Com isso, a maioria das pessoas, que era muito empobrecida, não tinha condições para estar de acordo com as exigências religiosas.
Jesus faz uma interpretação da lei bem diferente e acusa escribas e fariseus de transformá-la em mandamentos humanos a serviço dos grupos dirigentes.
Ele afi rma que não veio mudar a lei, mas dar-lhe pleno cumprimento, e que a justiça a ser praticada precisaria superar a noção de justiça dos doutores da lei (Mt 5,17-20). Ele não enfatiza os detalhes, o legalismo e as aparências, mas diz que é necessária a misericórdia (23,23); seu critério fundamental para a justiça é a solidariedade com os pobres, como mostra a cena do Juízo Final (25,31-46). Ele fez uma inversão no que os escribas pregavam e proclamou os pobres, então considerados "malditos", como bem-aventurados. Jesus também ultrapassa as expectativas messiânicas reféns da forma distorcida de interpretação das promessas do Antigo Testamento. Por essas razões, foi condenado à cruz.
A narrativa de Mateus tem sido, ao longo da história, o Evangelho mais citado e lido. Sempre foi prestigiado e ocupou o primeiro lugar em todas as listas dos evangelistas. Possui 28 capítulos, o mais longo dos Evangelhos, por causa disso foi chamado de “longo Evangelho” (PAGOLA, 2013b, p. 11).
Assim como os outros Evangelhos, a narrativa de Mateus é fruto de um longo processo redacional. A comunidade teve a função de juntar, organizar, e até mesmo acrescentar as várias tradições orais e escritas das palavras e da prática de Jesus para responder aos seus questionamentos e animar a fé em Jesus.
É provável que o Evangelho de Mateus tenha sido escrito por volta do ano 85 d.C., o que pode ser comprovado a partir dos seguintes fatos:
• Mateus usou como fonte o Evangelho de Marcos, composto por volta do ano 70. Mateus relê e reescreve Marcos, abreviando ou acrescentando out-ros escritos (Mc 6,30-44; Mt 14,13-21).
• Em 21,41; 22,7; 27,25; Mateus alude a pormenores concretos da destruição de Jerusalém, a cidade santa, acontecida no ano 70, pelo exército romano.
• No decorrer dos anos, a partir da experiência e da vivência da comunidade, o Evangelho de Mateus refl ete, desenvolve e interpreta o desastre nacional como castigo de Deus, causado pelos governantes por rejeitar Jesus como fi lho de Deus (Mt 24,1-31).
• O capítulo 23 do Evangelho de Mateus evidencia o confl ito dessa comu-nidade com os judeus fariseus (Mt 5,11-12; 10,17-23; 24,9-14), mas o Evangelho não chega a mencionar a expulsão dos judeus cristãos da sina-goga, que pode ter ocorrido por volta do ano 85 (Lc 6,22; Jo 9).
ELEMENTOS E FUNDAMENTOS BÍBLICOS
Foi ao fi nal do século I que surgiu a narrativa de Mateus. Nesse período o judaísmo sinagogal começou a fortifi car sua perseguição contra os grupos de judeus que possuíam tradições e tendências diferentes, em especial os grupos da diáspora. Os destinatários da narrativa de Mateus possivelmente tenham sido pessoas que viviam na Síria, em Antioquia. A seguir mostraremos alguns motivos que podem justifi car essa realidade:
• Na narrativa de Mateus 4,24, o autor faz uma releitura de Mc 1,28.39 e cor-rige “por toda a Síria” ao invés de “por toda a Galileia”.
• As citações de alguns textos exclusivos de Mateus se encontram nos escri-tos oriundos da Síria. Por exemplo, Inácio, bispo de Antioquia martirizado por volta do ano 107 d.C., cita os textos de Mateus em suas cartas (cf. a carta a Policarpo: 2,2 e Mt 10,16b).
• Ainda não existem provas da existência de sinagogas na Galileia no primeiro século e nem antes desse período. As sinagogas surgiram na diáspora.
• A narrativa de Mateus delega um papel relevante a Pedro (Mt 14,28-31;
15,15; 16,22-23; 17,24-27; 18,21; 19,27), que trabalhou na igreja de Antio-quia (Gl 2,11-14).
A narrativa de Mateus abre o Segundo Testamento. Ele não é o primeiro livro do Segundo Testamento a ser escrito, mas anuncia que Jesus é a realização das promessas do Primeiro Testamento. Esse Evangelho constitui a base das comunidades cristãs até o fi m do século II.
No movimento de Jesus existia um discípulo chamado Mateus. Esse nome signifi ca “dom de Javé” em hebraico: “Indo adiante, viu Jesus um homem chamado Mateus, sentado na coletoria de impostos, e disse-lhe: ‘Segue-me’.
Este levantando-se, o seguiu” (9,9; cf. 10,3). Papia, bispo de Gerápole, na Frígia, afi rma que foi esse discípulo que escreveu o Evangelho que leva o seu nome.
A questão do autor não é o fato mais importante, isso porque, antes da sua redação fi nal, os Evangelhos eram ensinamentos catequéticos, orais ou escritos, sobre palavras e atos de Jesus, com o intuito de apresentá-lo de maneira mais próxima à comunidade. A maneira como o Evangelho chegou até nós é obra de um redator que organizou os documentos que com certeza já existiam anteriormente.
O Evangelho foi escrito para a comunidade em que vivia o autor, provavelmente em Antioquia da Síria, no fi m do século I. Para entender melhor os antecedentes desta comunidade, é importante relembrar alguns fatos históricos desse período.
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Por volta do ano 70 d.C., na Guerra Judaica, os romanos devastaram a cidade de Jerusalém junto com o Templo. Os grupos judaicos foram massacrados e torturados. Os judeus que restaram tiveram que ir embora como fugitivos. As poucas comunidades cristãs foram para Pela, no lado oriental do rio Jordão, outras migraram para a Fenícia, as regiões da Síria, chegando até Antioquia. Nesses locais as comunidades foram se ajeitando e se constituíram como os judeus da diáspora, ou seja, um pequeno grupo de gentios convertidos. Foi em Antioquia da Síria que os seguidores do movimento de Jesus foram chamados, pela primeira vez, de cristãos (At 11,26).
Nesse momento surgiu o Evangelho de Mateus para animar essas comunidades que desde a Palestina seguiam Jesus.
Por volta do ano 66 d.C., os romanos tentaram tomar posse das riquezas que havia no Templo de Jerusalém. Os vários grupos de judeus, mesmo com ideais diferentes, uniram-se para lutar contra o Império. Essa revolta foi chamada de Guerra Judaica (66-73 d.C.). As consequências foram desastrosas: o Templo e a cidade de Jerusalém foram destruídos; saduceus, zelotas, sicários e herodianos, grupos infl uentes na vida das pessoas, desapareceram. Dois grupos de judeus não assumiram a guerra até o fi m e sobreviveram: os judeus fariseus e os judeus cristãos.
Nesse momento de crise profunda, o judaísmo necessitava se organizar para sobreviver. Liderados pelo rabi Johanan ben Zakai, os judeus fariseus se empenharam na reorganização dos valores e da crença do judaísmo, aderindo como instituição central a Sinagoga. Esse grupo conseguiu o apoio do Império Romano, que estava interessado na organização dos judeus fariseus, sua lei e suas sinagogas para controlar o povo judeu. Após a morte de Johanan ben Zakai, as autoridades farisaicas se enrijeceram em torno da lei e os grupos que não aceitaram a linha ofi cial foram perseguidos e fi nalmente expulsos da Sinagoga, por volta do ano 85.
Nesse período pairava uma série de dúvidas e divisão. De um lado, estavam os judeus fariseus que se consideravam o verdadeiro Israel e os intérpretes legítimos da lei. De outro, o grupo dos judeus cristãos que também se consideravam o verdadeiro Israel. O grupo de judeus fariseus exercia suas atividades nas sinagogas, de onde controlava o cotidiano do povo, através da função de explicar, interpretar e impor a lei.
O grupo de judeus fariseus acreditava que a libertação do povo só aconteceria com a estrita observância da lei do puro e impuro (Lv 11-15).
As pessoas que não tinham as mínimas condições de cumprir com todas as exigências da lei eram consideradas impuras e malditas. O número de pessoas excluídas e marginalizadas – doentes, pobres, estrangeiros, defi cientes – era desproporcionalmente alarmante.
ELEMENTOS E FUNDAMENTOS BÍBLICOS
O movimento que está por trás da narrativa de Mateus faz a sua opção de interpretar de forma diferente a lei: “Ide, pois, e aprendei o que signifi ca:
‘Misericórdia quero, e não o sacrifício” (Mt 9,13; cf. 12,7). Essa narrativa é a única que cita o profeta Oseias 6,6 duas vezes. Jesus é apresentado como o mestre de uma lei baseada na misericórdia. É necessário entendermos que a palavra misericórdia, para a comunidade de Mateus, tem a ver com compaixão, ou seja, os seguidores do movimento de Jesus sentem a dor do outro e com isso buscam ajudá-los a sair desta situação de sofrimento.
Esses grupos judaicos estavam buscando defi nir e garantir sua identidade. Nesse contexto, algumas perguntas pairavam na cabeça de muitos judeus: Quem estava falando verdadeiramente pelo Deus de Israel? Quem de fato compreendia e interpretava com mais exatidão a Torá? Quem estava capacitado para interpretar o passado e conduzir o povo de Deus ao futuro?
Foi então por meio desses questionamentos que as comunidades que inspiraram a narrativa de Mateus acolheram e reinterpretaram os principais fatos e palavras de Jesus a partir de seu contexto e produziram suas próprias refl exões para reanimar seus membros a perseverarem no seguimento de Jesus.
O momento era muito delicado, pois o movimento de Jesus atravessava uma forte crise, pois estava em via de separação do judaísmo. Era um grupo minoritário, frágil, oprimido pelo Império e pelas autoridades judaicas.
As inúmeras brigas externas com os judeus fariseus, apoiados pelo Império Romano, não eram o único obstáculo que as comunidades que inspiraram a narrativa de Mateus enfrentavam. Existiam também os confl itos internos. Eles eram constituídos em sua maioria por judeus cristãos, apegados à lei e às tradições judaicas. Nas comunidades havia também os “gentios” e judeus cristãos helenistas, ou seja, os judeus que tinham forte infl uência da cultura grega e não eram apegados à lei judaica. Na vida comunitária do dia a dia, os confl itos eram quase inevitáveis. Ao interpretar e seguir as palavras e a prática de Jesus surgiram as divergências: a observância rigorosa da lei e a tradição judaica, a adaptação ao modo de vida dos “gentios”, a superioridade dos judeus cristãos em relação aos gentios convertidos, a disputa pela liderança (18,1-11) etc. Nas intrigas com os judeus fariseus e com o Império Romano, as comunidades que inspiraram a narrativa de Mateus tiveram de fortalecer sua identidade e unidade, enfrentando as divergências internas e entrando em diálogo abrangente e fraterno.
Nessa realidade, o Evangelho de Mateus foi escrito como um ponto de referência em forma de catequese para suas comunidades. De modo especial, os textos exclusivos do Evangelho de Mateus são uma resposta a essa realidade.
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