• Nenhum resultado encontrado

A fundação do Partido Republicano Liberal

2. A POLÍTICA GAÚCHA NA INTERVENTORIA FLORES DA CUNHA:

2.3 O PÓS-GUERRA CIVIL: O EXÍLIO, O PRL E AS ELEIÇÕES NO NOVO CONTEXTO

2.3.1 A fundação do Partido Republicano Liberal

A Guerra Civil causou dissidências na FUG. Muitos membros do PRR, e também alguns libertadores, discordaram do posicionamento das chefias dos partidos, e se mostraram solidários com o florismo115 e o varguismo. Mas Flores da Cunha ainda procurou manter a

112 ELIS JÚNIOR apud CARNEIRO, op. cit.

113 FONTOURA, op. cit., 1933, p. 176. Para conhecer melhor os ataques dos frenteunistas ao posicionamento de

Flores da Cunha, cf. o livro de FONTOURA, João Neves da. Accuso! Rio de Janeiro: [s. n.], 1933, assim como os depoimentos de Glycério Alves em DECISÃO do Tribunal de Honra. Porto Alegre: Oficinas Gráficas de A Federação, [1930], p. 93-106; e Correio do Povo, Porto Alegre, MCSHJC, 11.07.1958, onde 25 anos depois se repetem algumas das acusações feitas em 1932. A defesa de Flores da Cunha no Tribunal de Honra demonstra a tentativa de se resguardar dos ataques realizados pelos frenteunistas. Já a obra panfletária sobre Flores da Cunha é uma compilação de artigos originalmente publicados em A Federação. Cf. FLORES DA CUNHA na opinião de

seus contemporâneos. Porto Alegre: Livraria do Globo, 1933.

114 Correio do Povo, Porto Alegre, MCSHJC, 03.05.1935; AGV, 20.11.1932, CPDOC, GV c 1932.11.10; AGV,

07.03.1934, CPDOC, GV c 1934.03.07.

115 Florismo é entendido aqui como a junção de apoiadores e aliados de Flores da Cunha. Estes, os floristas,

Frente Única Gaúcha, e não fundar uma nova agremiação. Nesse sentido, João Neves da Fontoura relatou na Câmara Federal um encontro que teve com Maurício Cardoso, em Rivera, seis dias antes da fundação do PRL. Neste encontro, Cardoso, que tinha assumido a direção do PRR, relatou aos exilados que Flores da Cunha teria afirmado que considerava encerrado o incidente militar de 1932, e não desejava dispersar a política regional, sendo contrário à formação de uma nova agremiação, não querendo a quebra de quadros nos tradicionais partidos políticos. Para isso, convidou Maurício Cardoso para assumir a pasta de Secretário do Interior, com plenos poderes para controlar as eleições de 1933. Essa proposta não teria avançado devido ao retorno dele para Porto Alegre, sem procurar Flores da Cunha.116

Desta forma, Flores da Cunha se viu obrigado a fundar a nova sigla imediatamente após o fim do movimento armado. Surgia o Partido Republicano Liberal117, congregando os situacionistas, e composto majoritariamente por dissidentes do PRR, embora alguns libertadores também compusessem o partido. Seria o PRL a nova base política do quarteto Vargas, Flores, Antunes Maciel e Aranha, ou, como definiu Maria de Magalhães Castro, foi fruto de um trabalho a oito mãos. Ainda nesse sentido, segundo Luciano Aronne de Abreu, a criação do PRL trouxe de volta a velha polarização política rio-grandense, agora com um novo viés: a FUG, antigetulista e antiflorista, e o PRL, florista e varguista. Para ele, ainda, a criação do PRL visava a reorganizar o sistema político e partidário regional e nacional, objetivando garantir a sustentabilidade dos seus respectivos governos.118

governador do Rio Grande do Sul entre 1930-1937. Sua antítese será chamada aqui de antiflorismo. Ou seja, a união de pessoas que se opunham ao interventor e governador, bem como a seus atos e medidas, são os

antifloristas. É a partir da congregação destes que se forma o antiflorismo.

116 FONTOURA, João Neves da. Perfis Parlamentares. Seleção e introdução de Hélgio Trindade. Brasília:

Câmara dos Deputados, 1978. (Perfis parlamentares 8).

117 O surgimento do PRL está concatenado com aquilo que Berstein, op. cit., p. 67-68 definiu acerca do

surgimento de novos partidos. Segundo este autor, “para que nasça um novo partido, é necessário além disso que, no interior do movimento evolutivo constatado, se produza uma crise, uma ruptura bastante profunda para justificar a emergência de organizações que, diante dela, traduzam uma tendência de opinião suficientemente fundamental para durar e criar uma tradição capaz de atravessar o tempo”. Entretanto, vimos que o surgimento do PRL se caracteriza justamente por nascer do seio de uma intensa convulsão política, oriunda de uma guerra civil e da intransigência dos partidos tradicionais em recomporem com o situacionismo estadual. Todavia, contraponto a assertiva de Berstein, o PRL não conseguirá formar uma tradição duradoura. Após seu fechamento pelo Estado Novo, não se arregimentará em uma nova força política, como aconteceria com o Partido Libertador, tendo seus membros ingressado, sobretudo, na UDN e no PSD. Ou seja, se enquadra naquilo que o mesmo autor chamou de “fogo de palha”: não foi capaz de criar uma cultura política transmitida através de gerações. O PRL, assim como a FUG, se enquadram naquilo que esse autor chamou de “partidos de quadros”, ou seja, são agremiações mais fortes por suas personalidades representativas do que pela massa de seus filiados. Entretanto, isso não impossibilita, segundo Berstein, op. cit., p. 65, atrair um eleitorado de massa: “caracterizado por estruturas frouxas que dão aos eleitos uma grande liberdade, indiferente ao número de seus filiados e ao montante das cotizações que possa receber, praticamente desinteressado em recrutar a população fora das eleições”.

118 CASTRO, Maria Helena de Magalhães. O Rio Grande do Sul no pós-30: de protagonista a coadjuvante. In:

A formação oficial da nova agremiação tem na presidência Oswaldo Aranha, durante a convenção de fundação, em 15 de novembro de 1932, e conta “com a maciça participação dos prefeitos, dos chefes políticos e dos comandantes dos corpos militares do estado”. No discurso de Aranha, ficou clara a ressalva de que a liderança da política regional seria Flores da Cunha. Aranha alertou que servir ao Rio Grande seria auxiliar ao seu interventor, e vice versa. Ou seja, procurando legitimá-lo como líder do novo partido. Outros destaques foram o pronunciamento de Flores da Cunha e o telegrama enviado por Vargas. O primeiro evocou sua fidelidade partidária, desde a revolta de 1923, assim como atacava o posicionamento atual dos libertadores, que chamavam Borges de Medeiros de tirano e saíram em armas para derrubada de seu governo e, agora, estavam ao seu lado contra a interventoria e o governo provisório. Já Vargas enfatizaria que o partido surgiria como fênix das cinzas dos velhos partidos, que, segundo o presidente, estariam perdidos em seus princípios básicos, sendo o Rio Grande do Sul “salvo” por aquilo que chamava de “braço vigoroso” do interventor gaúcho.119

Aquilo que podemos concluir analisando os discursos de fundação do PRL é a tentativa de mudança na postura política dentro do cenário regional, abandonando a postura intransigente da FUG, que agora estaria na oposição. Também é a primeira vez desde a ascensão de Julio de Castilhos pós-guerra federalista que o PRR seria afastado das instâncias de poder na república. Junto com a queda do PRR do comando do estado, a nova conjuntura também marcou o início do ostracismo político de Borges de Medeiros. É inegável que, alertando para os erros dos partidos tradicionais no estado, o PRL buscava legitimar-se como uma nova força política, que nascia controlando toda a máquina burocrático-administrativa do estado, onde até mesmo o tradicional jornal do PRR, A Federação120, passaria a ser administrado pelo florismo.

A fundação do partido contou com o intenso trabalho de Antunes Maciel e Oswaldo Aranha, que buscaram cooptar apoios no interior do estado para a nova agremiação, antes e

Rio de Janeiro: Fronteira, 1980, p. 59; ABREU, Luciano Aronne de. Um olhar regional sobre o Estado Novo. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2007, p. 84-85.

119 CASTRO, op. cit., p. 61; O PARTIDO Republicano Liberal e seu programa. Porto Alegre: Oficinas Gráficas

da Livraria do Globo, 1933.

120 Há apenas um trabalho que analisa A Federação sob o comando florista, o de JUNGMANN, Cristina. A

ideologia política do Partido Republicano Liberal através de ‘A Federação’ (1932-1937) Dissertação (Mestrado

em Ciência Política) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 1985. No entanto, esta dissertação, além de ser antiga, estava inacessível na biblioteca da UFRGS. Isso porque o acervo da universidade sofreu uma inundação e este trabalho foi um dos atingidos. Pesquisamos sobre a autora nas redes sociais, mas não encontramos nenhum dado para fazer com ela um contato. Ela não possui currículo cadastrado no sistema Lattes. Se a cópia existente na UFRGS era a única disponível para acesso, pode-se concluir que este trabalho, infelizmente, se “perdeu”.

depois de sua fundação. O historiador Antônio Elíbio Jr., por exemplo, localizou 23 telegramas de Maciel e 13 telegramas de Aranha buscando correligionários para a nova agremiação, tanto na capital quanto interior. Ainda, o PRL contou com o apoio de setores importantes da economia regional: além de apelar para a pacificação do estado visando à realização de obras infraestruturais, como frigoríficos e ferrovias, o partido teve o apoio do setor industrial gaúcho, que, recusando o convite de um ‘Partido Econômico’, optou por aderir à nova agremiação florista e varguista.121 Essas adesões seriam importantes, sobretudo porque a partir de 1935 a Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul teria vagas para deputados representantes classistas, o mesmo ocorrendo para o nível federal, em 1934.

De acordo com Loiva Otero Félix, o estado castilhista-borgista moldou sua estrutura de poder através de duas diretrizes: cooptação e a coerção, sendo a primeira através da integração de coronéis na estrutura partidária municipal, nos postos que implicavam contato/obediência. Na segunda diretriz, o controle se dava através de um bem montado aparato policial repressivo.122 Nesse sentido, acreditamos que as cisões da guerra civil de 1932 dariam origem, através do PRL, a um modelo de sustentação e legitimação alicerçado também na estrutura de cooptação e coerção contra republicanos e libertadores, apesar de se tratar de outro contexto.

Os primeiros anos pós-1932 levaram Flores da Cunha a ser o garantidor da ordem e da fidelidade ao governo provisório no Rio Grande do Sul, que, enquanto estivesse sob seu controle, estaria distante de hostilidades ao governo central. Sua fidelidade a Vargas lhe daria projeção política nacional, e, em contrapartida, passaria a ter maior poder de barganha junto ao governo federal. Se Flores da Cunha, de 1930 a 1932, era um interventor que controlava a administração estadual, mas não controlava a política local, a partir desse momento passou a ser a figura principal da política do Rio Grande do Sul, controlando soberanamente o PRL, que passou a ser o partido dominante no estado.

Em nível nacional, o PRL contou com o ex-libertador Antunes Maciel Jr. no Ministério da Justiça, que, segundo Hélgio Trindade, seria uma “prova do bom andamento das relações de Vargas com o Rio Grande do Sul”.123 Essa pasta teria muita relevância política, pois seria através deste ministério que se daria a elaboração legal da regulamentação do Código Eleitoral, assim como do Regimento Interno da Assembleia Constituinte e a cassação dos direitos políticos de sediciosos em 1932. Desta forma, grande parte dos entraves

121 Idem; PESAVENTO, op. cit.; ELÍBIO JR., op. cit., p. 101.

122 FÉLIX, Loiva Otero. Coronelismo, Borgismo e cooptação política. Porto Alegre: Editora da Universidade,

1996.

encontrados por Maciel Jr. na pasta era sempre debatida com o interventor gaúcho, fato que lhe garantia uma nova situação de poder, podendo controlar a formação do novo regime político que adviria no processo de constitucionalização.124

Outro exemplo dessa aproximação nos traz Ângela de Castro Gomes. Pesquisando a Assembleia Nacional Constituinte de 1933, a autora destacou a proximidade de Antunes Maciel e Flores da Cunha, aquele atuando como um informante do interventor. Segundo Ângela de Castro Gomes, de todo material presente no Arquivo Antunes Maciel do CPDOC neste período, 70% dos telegramas e das cartas eram dirigidos a Flores da Cunha. No momento da eleição presidencial, Antunes Maciel chegou a enviar de três a cinco telegramas por dia a Flores da Cunha.125 Ou seja, ele era uma espécie de olhos e ouvidos de Flores da Cunha na capital federal, repassando ao interventor aquilo que acontecia de relevante na política nacional.