Notas sobre os corpora
5. A imprensa imigrantista
Os dados referentes à escrita de portugueses – que entram na análise não somente para por em contraste os usos linguísticos dos paulistas, mas também para evidenciar os diferentes usos da língua portuguesa em São Paulo e, desse modo, expor as condições sociais de produção e reprodução linguísticas –, foram coletados dos jornais A Bandeira Portugueza e O Lusitano, essencialmente. Alguns dados extraídos dos periódicos Echo Portuguez e A Pátria são somados à amostra, com o fim alcançar uma visão mais geral da escrita do grupo58.
Desses jornais, recolhemos somente cartas e artigos completos, sem atentar para autoria, pois, além do grande número de artigos não assinados, é sempre difícil rastrear e reconstituir com segurança a biografia de boa parte desses imigrantes portugueses. Esse problema, todavia, nos parece diminuto, uma vez que esses periódicos têm em
58
comum a intenção de fomentar a socialização e, ao mesmo tempo, preservar a identidade social e cultural do grupo a que se destina.
Essa característica fundamental coopera para demarcação, nessas publicações, de uma agenda ambivalente e ambígua, criando um ponto de vista que, a um só tempo, reforça a inscrição do grupo (incluindo os produtores do jornal e seu público leitor) como imigrante, e minimiza sua inscrição como estrangeiro59.
Cánovas (2007, p. 427), ao focalizar os imigrantes espanhóis na cidade de São Paulo, chama a atenção para esse ponto. A autora observa que a participação do imigrante em instituições étnicas, entidades sociais e sindicais, movimentos culturais, entre outros, coopera para inseri-lo na vida política da sociedade acolhedora. O que se propõe, portanto, é que as ações sociais e políticas movem o imigrante e, ao estender suas experiências, tiram-no do confinamento. Dessa perspectiva, as publicações das colônias, assim como as demais instituições, têm função social e política definida.
É certo que esses conceitos são perpassados por questões muito mais densas do que deixamos transparecer aqui. Na verdade, ficam sempre pendentes de discussão as relações entre imigração e poder – em suas diversas formas –, relações que passam por questões de classes sociais, de etnicidade etc.
No caso específico da imprensa destinada à colônia portuguesa, em que as experiências do grupo imigrado se estendem de forma singular entre Brasil e Portugal, estão em causa questões ainda mais complexas. Conforme fizemos notar anteriormente, a conservação e difusão das memórias (reais ou reinventadas) nas quais constroem suas identidades individuais e coletivas desencadeiam uma luta política e social, travada com o fim de fazer valer no plano real o que se esboça como representação do real (nos
termos de Bourdieu, 2008, p. 108); nesse sentido, a luta em torno da identidade é sempre orientada para imposição de uma determinada percepção do mundo social60.
Os jornais que tomamos para análise, publicados entre o final do século XIX e início do XX, não escapam a nenhuma dessas questões, porque, de um modo ou de outro, concretizam discursos ideológicos que cooperam para assentar a visão de mundo comum ao grupo dos portugueses.
Observe-se que o semanário “O Lusitano”, jornal de feição conservadora e cujo dístico é Órgão dedicado à colônia portuguesa no Brasil, apresenta, em seu primeiro número, publicado em 10/04/1908, o compromisso de tratar exclusivamente de pessoas e coisas de Portugal, mantendo-se dentro de uma esfera de ação livre de dominação política. Nesse concerto, compromete-se a exaltar a pátria mãe, caracterizando seus interesses mais elevados – de ordem material, intelectual e moral – e ocultando “o que nela se fere de desagradável”:
[...] o que nella se agita de apaixonado ou violento, o que se passa de tumultuoso ou desordenado pertence à sua vida íntima, interessa à sua existência interna, é da essência da sua administração privada: não é forçoso que estejamos a expor, em terra alheia, posto que amiga, mas onde superabunda o elemento estrangeiro, essa outra feição da nacionalidade a que pertencemos [...]. (O Lusitano, 10/04/1908; editorial).
Com isso o jornal estabelece o compromisso de manter a relação cordial com o Brasil, sustentando em paz “os doces e fortes laços” com o “povo irmão” que o hospeda. Compromete-se, ainda, a “chamar ao bom caminho os que dele se houverem desviado”. Com esse posicionamento, o editor assenta o objetivo de expor somente o que engrandece Portugal, contribuindo, assim, para manter e solidificar, no Brasil, entre portugueses e brasileiros, o discurso mítico, cujo núcleo contém, cristalizadas, as
60
imagens da velha pátria imperialista. O Brasil, “terra alheia e amiga”, é apresentado nesse discurso como “terra outra”, estrangeira, na qual se deve semear, pela supressão dos conflitos, a memória imaginária, nostálgica e sentimental61.
O jornal “A Bandeira Portuguesa” (BP) também se manifesta como Órgão de interesse da colônia portuguesa no Brasil. Contudo, diferentemente d’ O Lusitano, volta-se, ao menos nesse momento, aos problemas políticos, posicionando-se em defesa da monarquia e deixando visível, por meio de seu discurso (editorial, artigos, notícias, etc.) algumas questões que vicejam a luta entre Republicanos e Monarquistas, conforme se observa no trecho dessa carta dirigida ao seu editor:
[...] Lembrei-me como abreviatura empregar o termo buiça (não é meu o baptismo), pelo seguinte facto: tendo há dias chegado do Brasil um respeitável número de compatriotas nossos, deu-se o caso de um dos grupos, que havia desembarcado, onde vinham alguns dos nossos bons camponezes, trazerem ainda, talvez como única recordação da terra quando daqui partiram, seu clássico chapéu desabado, e ao dirigirem-se a alguns carregadores para lhes transportarem as bagagens, por estes foi pronunciada, mas não sem que elles ouvissem a phrase – Olha que Thalassas vêm ahi, à qual subitamente um daquelles respondeu em tom grave e azedo – sim, nós somos o Thalassas, mas com a consciência limpa, ao passo que vocês são os taes buiças republicanos, que queriam assassinar a Família Real fazendo-lhe montaria como na nossa terra se faz aos lobos. (Jornal Bandeira Portugueza, 19/04/1908; carta de leitor,).
A Bandeira Portuguesa, imiscuindo-se nas questões políticas de lá, reforça a ideia de que esses sujeitos – desterritorializados (ver Feldman-Bianco, 1992) – mantêm forte relação com Portugal.
Não discutiremos aqui os fundamentos ideológicos desses jornais, nossa intenção é somente evidenciar o vínculo social e/ou político dessa imprensa com sua pátria de origem. Com base nos dados, podemos dizer que esses jornais – aqui apreendidos como representações sociais - se entregam ao trabalho de inventar e/ou
construir uma realidade social distante da que se desenha no Brasil. Recuperam, por meio de ideias-imagens, o passado glorioso, a imponência da família real, as benesses da terra, o cotidiano (com seus conflitos políticos), de modo que os imigrantes portugueses possam permanecer ligados a Portugal.
Assim, acreditamos que essas características gerais formam o condutor necessário para observação dessas publicações enquanto produções de um grupo, cujos integrantes, apesar das divergências (bom exemplo são as dissensões entre republicanos e monarquistas), sustentam objetivos comuns.