Coisas de São Paulo
1. Do burgo de estudantes à metrópole do café
Nos relatos de viajantes e memorialistas, a São Paulo da metade do século XIX aparece retratada como a acanhada cidade dos estudantes. Augusto Emílio Zaluar, em sua Peregrinação pela Província de São Paulo (1860), propõe que a cidade era monótona, mesmo em seus dias de festa: em lugar do sorriso jovial, a tez taciturna e reservada “como uma beata que vai à missa das almas com o rosto escondido na mantilha e as contas do rosário a aparecerem por baixo das rendas de um mantelete de seda.”(p. 196).
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Entendemos paulistanidade conforme definido por Cerri (1998, p. 24): “ideologia produzida pela oligarquia paulista que consiste na criação de uma identidade de ordem regional, valorizando a condição de pertencente ao estado (numa operação de homogeneização, ao nível das ideias, de seus habitantes, e consequentemente excluindo outras identificações primordiais que não a regional), ao mesmo tempo em que institui uma série de valores e características como próprias da condição de paulista e, para sacramentar essa construção, oferece uma explicação para essa situação através do recurso à história
Para Zaluar, essa beata pobre e sonolenta tinha dupla fisionomia: a capital da província e a faculdade de direito; o burguês e o estudante; a sombra e a luz; a estacionalidade e a ação; a desconfiança de uns e a expansão de outros; e para concluir, uma certa monotonia personificada na população permanente e as audaciosas tentativas de progresso na população flutuante.
A impressão do viajante, portanto, era a de que a São Paulo tradicionalmente desconfiada e triste, mantinha-se viva pela Faculdade de Direito:
A mocidade acadêmica imprimi à povoação, durante a sua residência nella, uma espécie de vida fictícia, que, apenas interrompida [por ocasião das férias], a faz recahir, por assim dizer, no seu estado de habitual somnolencia (op. cit., p. 195).
E mais adiante, acrescenta:
Os habitantes da cidade e os cursistas da academia são dous corpos que se não combinão senão produzindo um precipitado monstruoso. Formão uma mistura; porém, continuando a servir-nos de uma comparação chimica, nunca poderão realizar uma verdadeira combinação. No em tanto, a pezar de toda esta diversidade de pensamentos, de hábitos e costumes que caracterisa os dous ramos da população da capital, é esta uma das condições infalliveis da sua prosperidade. Tirem a academia de S. Paulo, e esse grande centro morrerá inanido. Sem lavoura, sem industrias montadas em grande escala, a capital da província, deixando de ser o que é, deixará de existir (op. cit., p. 204).
Dessa forma, Zaluar fixa a noção de que São Paulo não era maior que a Academia, com seus estudantes incluídos. A ideia vai se firmando nos estudos historiográficos. Ernani Bruno, quase um século depois, ao caracterizar a cidade, define o lapso do tempo que vai de 1828 a 1872 como burgo de estudantes. Nisso o historiador recupera as impressões não somente de Zaluar, mas também de John Codman, em Ten Months in Brazil, Hadfield, em Brazil and the River Plate in 1868, entre outros, para defender o argumento central de que a Academia e seus estudantes formaram o motor
que animou o burgo, afastando-o do estado de dormência. A imagem concebida e cultivada se forma principalmente com base no valor social atribuído ao grupo, todos reconhecidos pela inteligência e muitos pelo nome de família. Em presença dos (futuros) bacharéis, se descarta ou minimiza o papel desempenhado pelos outros sujeitos que também habitavam a cidade, ou seja, a imagem do “burgo de estudantes” recobre a memória sobre os demais.
Do paulista, a historiografia tradicional traça o caráter desconfiado, pouco sociável, ameno, franco; delineia a fala descansada e marcada por um sotaque muito particular; denuncia os hábitos reclusos, a falta de ambição, o apego aos costumes rotineiros3. Mas é preciso indagar-se a respeito das ações desses outros sujeitos, numericamente mais expressivos do que a população transitória de estudantes. O modo de ser paulista – suas tradições, língua, cultura – chocava-se com o ritmo dos acadêmicos?
Bem sabemos que quando os constituintes de 1823 se perguntaram se era adequada a instalação da faculdade de direito em São Paulo, houve objeção à língua desse povo, de tal modo acoimada de ruim e incorreta, que se temiam seus efeitos sobre a fala dos estudantes. Assim, há motivos para questionarmos, inclusive, o lugar dessa língua ruim nesse burgo de estudantes. Se, conforme propõe Amadeu Amaral (1920), o dialeto caipira estava espalhado pela província, influenciando até mesmo a minoria culta, resta indagar se os futuros bacharéis, vindos das mais diversas regiões do Brasil, teriam sofrido a influência dessa variante do português brasileiro, assim como das rotinas sonolentas dessa cidade, ou se, contrariamente, somente os bacharéis produziram
efeito sobre o burgo, forçando, desde cedo, o acantonamento daquela fala considerada ruim.4
Ora, o fato de a historiografia privilegiar a ação de alguns grupos, como o de estudantes, frente aos “caipiras”5, tem como consequência cabal a valorização, ainda que indireta, das experiências vividas pelas classes dominantes, frente às parcelas escravizadas, empobrecidas, não escolarizadas. Assim, não é exagero propor que a ênfase nas ações dos estudantes, bacharéis e intelectuais paulistas, e a visibilidade conferida à produção escrita desses sujeitos, sem a explicitação dos mecanismos sociais e políticos que lhe conferem valor, operam como instrumentos de reprodução (nos termos de Bourdieu, 2008), contribuindo para constância e difusão da norma linguística e para consequente desvalorização das demais variedades, minoradas nos estudos científicos, assim como são menosprezados os sujeitos que as utilizam6.
Voltando às questões relativas à cidade, é preciso dizer que a velha São Paulo, traçada nos estudos historiográficos (Taunay, 1953; Bruno 1953; Morse, 1970, entre outros), é, além de parva, essencialmente pobre. Tal interpretação tem como postulado a oposição entre a cidade crescida e opulenta construída pelo café e a pobreza paulistana nos idos do ciclo do açúcar. No recorte proposto, a cidade de meados do oitocentos ficara estacionada no modelo colonial.
Na direção contrária, alguns estudos como o de Lucília Araújo (2006), ao compor o panorama das atividades econômicas em São Paulo, evidenciam que algumas famílias paulistas vinham acumulando riquezas desde o século anterior, a partir de
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Voltaremos à questão da língua na última parte deste capítulo.
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Aqui observados como indivíduos naturais ou habitantes de São Paulo, especialmente os de origem rural.
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Consideramos, aqui, a grande quantidade de estudos historiográficos e sociológicos que tratam direta ou indiretamente desse grupo.
atividades ligadas à produção de açúcar, ao comércio, ao estabelecimento de créditos, empréstimos, etc. De acordo com a análise dessa historiadora, concentrada no período entre 1800 e 1850, os paulistas construíram desde cedo uma infra-estrutura agrária e urbana, incluindo abertura de estradas, calçamento, construção de prédios e etc. Nessa esteira, a autora vai traçando o adensamento da cidade ainda no século XVIII:
Uma das primeiras medidas do governador Morgado de Mateus (1765-1777) foi normalizar o abastecimento de gêneros na cidade. Para isso, determinou a instalação de um mercado local vinculado à Câmara, denominado “Casinhas”. Este esquema funcionou com poucas alterações até meados do século XIX, época da criação do mercado municipal. Várias obras do governador Lorena, do fim do século XVIII, dariam novo perfil urbano à cidade de São Paulo: a construção do quartel, o calçamento de ruas, o chafariz do Largo da Misericórdia, a reconstrução da ponte do Anhangabaú e a construção da ponte do Lorena. Na gestão anterior, o capitão-general Francisco Cunha Meneses (1782-1786) fizera o calçamento das ruas da cidade, aterrara a várzea do Carmo, para acesso ao Brás, abrira a Rua da Constituição e construíra a Câmara e Cadeia. O governador seguinte, Antonio Manuel de Mello Castro e Mendonça criou o Jardim Botânico, na Luz; instituiu uma grande feira anual conhecida como Feira de Pilatos; construiu o Hospital Militar e organizou o sistema de correios entre Santos e a capital. No limiar do século XIX, a cidade de São Paulo já possuía um princípio de organização urbanística (Araujo, 2006, p. 31-32).
O estudo de Araujo se alinha, dessa forma, a outras pesquisas produzidas nas últimas décadas, como o de Maria Luiza Marcílio (1974), que sinaliza o aumento da demografia e da renda per capita entre o 1765 e 1836, e de Elizabeth Darwiche Rabello (1972), que dá conta do crescimento do comércio e da ascensão dos comerciantes na sociedade paulista ainda na primeira metade do XIX.
Há de mais importante na tese de Araujo o apontamento de três grupos “detentores de riqueza” em São Paulo formados por: A - indivíduos muito ricos que, tendo acumulado riqueza mercantil, reinvestiam em engenhos das novas áreas agrícolas; B- negociantes, agricultores e funcionários bem sucedidos, “um misto de elite
para o terceiro grupo; C- camadas médias, responsáveis pelas lojas de secos e molhados, agricultores e artesãos, burocratas da cidade e profissionais liberais.
Mas a infra-estrutura e a acumulação e produção de riqueza até as primeiras décadas do XIX não equivalem às mudanças processadas na segunda metade do século, especialmente nas duas últimas décadas.
A produção cafeeira, iniciada ainda na terceira década do XIX, se expandiu e, na década de 1850, dividindo espaço com a produção de açúcar, já despontava na pauta de exportação pelo porto de Santos (cf. Ellis Junior, 1979). Na década de 1860, com o auxílio do capital inglês, a região produtora do Oeste Paulista, por meio da ferrovia, foi ligada ao litoral. Em 1867, com a inauguração do trecho Santos-Jundiaí, resolvia-se o problema do transporte, anteriormente realizado em lombos de burros, pelas tropas de muares. A partir daí os fazendeiros paulistas passaram a investir na modernização da lavoura, procurando mecanizar os processos de beneficiamento, assumindo os empreendimentos ferroviários.
O sucesso da economia cafeeira desencadeou uma série de mudanças na província. A cidade de São Paulo vai se transformando, consolidando-se como ponto central no trânsito das importações e exportações. Pelas palavras de Ernani Bruno, a cidade ascende à posição de metrópole do café. Essa nova imagem se forma com base na ideia de que a riqueza gerada pelo café foi suficiente para provocar profundas alterações na cidade. Desse modo, a imagem-síntese não somente exprime as mudanças operadas na cidade, como também prenuncia sua principal causa. Contudo, de certa forma, promove o obscurecimento de iniciativas de menor porte e, por vezes, o total apagamento do papel desempenhado por alguns grupos sociais menos ligados ao café.
Novamente sobra lugar para as indagações a respeito dos caipiras mornos e retraídos, falantes do português ruim, na São Paulo transmudada.
Apesar das divergências quanto à datação dos apontamentos de mudanças operadas na cidade em períodos anteriores, a historiografia vem evidenciando que as transformações econômicas, sociais, políticas e culturais que incidiram sobre São Paulo tiveram seu ponto de inflexão em 1870, quando a transição da sociedade rural e provinciana à sociedade urbana adquire maior visibilidade. Trata-se de um momento realmente singular, como enfatiza Eurípedes Simões de Paula (1958), em seu clássico artigo Segunda Fundação de São Paulo: da pequena cidade à metrópole de hoje. Nessa conhecida periodização, o ano de 1872 constitui-se em linha limítrofe entre a pequena urbe e a cidade transformada. É nesse ano, no início do governo de João Teodoro, que o processo de urbanização caminha acelerado, com a inauguração da estrada de ferro Jundiaí-Campinas, instalação de lampiões a gás, formação da Companhia Cantareira de Água e Esgoto, linhas de bondes etc. A partir daí, e entrando pelo século XX, a cidade vive sua efetiva modernização. Os olhares reflexivos de memorialistas e viajantes, tocados pelas mudanças, denotam o contraste entre o velho e o novo. Neles, a cidade se mostra transmudada pelo imperativo do progresso sem limites, materializado e internalizado no espaço urbano (Brefe, 1993, p. 12). Não é sem motivo que Afonso Schmidt, em São Paulo dos meus amores, formula a nova cidade a partir de uma antítese:
Em 1897, São Paulo já não era a cidade descrita por Álvares de Azevedo: ‘Aqui o céu tem névoas, a terra não tem verdura, as tardes não têm perfume. [...] em 1897, São Paulo já era uma bela cidade. Os trens do Rio de Janeiro chegavam à Estação do Norte, os de Santos e do interior à Estação da Luz, os bondinhos de burros tragavam pelas ruas principais. (Schmidt, 1954, p. 13)7.
A ensaiada metáfora da nova “fundação” de São Paulo, geradora de diversos debates, não é, portanto, gratuita, mas motivada pelas sensíveis distinções entre a velha e a nova urbe. Assim, ainda que a transformação da cidade de São Paulo seja um processo contínuo e permanente, na década de 1870 essas mudanças adquiriram outra visibilidade.8
Ainda sobre as mudanças da cidade, Saes (2004) evidencia que, ao final da década de 1880, São Paulo contava com diversas atividades econômicas. O comércio somava mais de quinhentos armazéns de secos e molhados, mais de cem açougues, diversas padarias, restaurantes, hotéis, botequins e estabelecimentos atacadistas. Havia, ainda, oito bancos, fábricas de algodão, fósforos, chapéus, olarias, serrarias, além da Companhia Antarctica Paulista, especializada em banhas e suínos. Multiplicam-se, por esse tempo, os advogados (58), médicos (40), engenheiros (8), dentistas (10) e redatores de jornais (14).
Empresas nacionais, como a Companhia dos Fazendeiros de São Paulo e a Prado, Chaves & Cia, de grande peso no comércio varejista e atacadista de bens de consumo, passam a dividir espaço com estrangeiros de várias partes do mundo. Já no final do século os ingleses instalaram a fábrica da Casa Clark no bairro da Mooca, os franceses trouxeram a Livraria Genoud, os suecos, a casa Holmerg, Bech & Cia., entre outros (cf. Deaecto, 2002). De acordo com os apontamentos de Flavio Saes (1986), desde a década de 1850, São Paulo contava com a Caixa Filial do Banco do Brasil. No decorrer do século, surgem diversos outros bancos, inclusive estrangeiros.
Isso, sem dúvida, são os símbolos de modernização muitas vezes erguidos na historiografia, apagando os outros lados da cidade modernizada. Ora, São Paulo
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Conforme propôs a Profa. Dra. Esmeralda Blanco Bolsanaro de Moura, em aula do curso de História Econômica (FFLCH/USP), ministrado no segundo semestre de 2007.
também abrigava becos, cortiços, casebres, bem como as populações que os habitavam. Conforme propõe Ferreira dos Santos (1998), as constantes mudanças vivenciadas pela pauliceia, evidenciadas por memorialistas e viajantes, muitas vezes refletem apenas um lado de uma transformação que é, essencialmente, dual: reflete o objetivo de remodelação da cidade nos padrões europeus – questão relacionada ao ideário de trabalho “civilizado” e “branqueamento” – e manifesta a existência, por vezes resistência, daqueles que, por se diferenciar do modelo urbanístico e sociocultural a ser implantado, foram descritos como desqualificados (op. cit., p.69).
Os olhares dos memorialistas, viajantes e fotógrafos se fixaram nos bairros elegantes da cidade, considerados o coração de São Paulo, isso porque os registros, ou parte deles, buscaram notar semelhanças entre São Paulo e a Europa, aspecto muito enfatizado em alguns relatos (cf. Ferreira dos Santos, 1998). Nesta linha, os que descreveram os cortiços, por exemplo, o fizeram somente para desqualificá-los, requerendo sua destruição, em nome da “reputação” da “querida cidade”. Nesse caso, “palavras como civilização, progresso, prosperidade, modernização, europeização confundem-se com especialização dos espaços e exclusão...” (Ferreira dos Santos, 1998, p. 73-74, grifo nosso). Para esse historiador, houve um movimento consciente para o apagamento dos traços identificadores dos nacionais pobres que subsistiram em São Paulo – em suas edificações, ruas, árvores, casas, praças, igrejas, costumes, hábitos.
Fraya Frehse (2005) também indica que a cidade de fins do Império carrega em si o encontro desencontrado entre o passado e o presente escravista e patriarcal: no espaço da cidade coexistem atividades sociais modernas, tais como novos serviços de infraestrutura urbana, e antigas, como o depósito de dejetos fecais nas vias públicas, os
Está claro que o processo de transformação da cidade não implicou somente o espaço construído. Envolveu, sobretudo, o conjunto de atores que, direta e indiretamente, foi responsável pela produção desse espaço (cf. P. Pereira, 2002, entre outros).
É importante o fato de que, para além da “alvenaria burguesa”9, diversas formas de sociabilidades configuraram a fisionomia citadina (Kogurana, 1999). O grande fluxo de imigrantes provocou expressivo crescimento populacional da cidade, sobretudo na virada do século, momento decisivo, em que a população ultrapassa 260.000 pessoas.
São, portanto, sujeitos diversos que ocupam esse quadro transformado – quer o espaço tangível e contíguo, destinado a uma diversificada população, quer os espaços criados a partir da lógica rentista (P. Pereira, 2002), quer o espaço social. Nas palavras de Maria Izilda Santos de Matos:
[...] a expansão urbana e capitalista dos finais do século XIX trouxe o aparecimento da noção de rentabilidade, eficácia do trabalho em todos os domínios, inclusive no espaço interior, destacando a importância da limpeza e da higiene para a saúde e bem estar da família. Nesse foco, a casa aparece como o centro do mundo, a partir do qual a cidade cresce e se constrói em várias direções: o quintal, o terreiro, a rua, o bairro, o rio e a várzea (espaço de secar a roupa, de jogar futebol, de acampar, de pescar lambari com peneira). (Matos, 2002, p. 44-45)
No embaraço das múltiplas sociabilidades, se vêem, à janela, mulheres sentadas para costurar, descascar legumes e conversar; crianças bulindo com os passantes, moças flertando nas soleiras. Através da janela, a casa e a rua se misturam, o público e o privado se interpenetram (Matos, op. cit.).
Na rua, principal refletora desse amplo quadro de mudanças e consequentes tensões, o burburinho que se ouve é plurilíngue. Vem de homens, mulheres e crianças
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de nacionalidades diversas, de grupos distintos; vem do comércio, dos bondes, dos animais, dos pregões, das cançonetas, etc. A cidade transformada é, portanto, a cidade dobrada, assentada sobre si mesma (cf. Bresciani, 1996), recortada e preenchida em suas brechas, recoberta por personagens variadas – o novo e o velho – entre elites, grupos intermediários, trabalhadores, desempregados, transeuntes, passantes, moradores, etc. É esse redimensionamento social que leva Moreira Pinto (1979[1900]) a dizer surpreso:
São Paulo, quem te viu e quem te vê! Não passavas naqueles tempos de uma pobre aldeia, completamente segregada do Rio de Janeiro. Fazia-se a viagem por mar até Santos e daí pela estrada de ferro até o alto da Serra do Cubatão. Tinhas então em tuas ruas sem calçamento, iluminadas pela luz bala e amortecida de uns lampiões de azeite, suspensos a postes de madeira; tuas casas, quase todas térreas, tinham nas janelas umas rótulas através das quais conversavam os estudantes com as namoradas; os carros de bois guinchavam pelas ruas, sopesando enormes cargas e guiados por míseros cativos, que empunhavam compridas varas com um ferrão na ponta [...]. (Moreira Pinto, 1979 [1900], p.7, grifo nosso).
E encaminhando essa descrição singular, o autor apresenta uma nova São Paulo:
Está V. Ex. completamente transformada, com proporções agigantadas, possuindo opulentos e lindíssimos prédios, praças vastas e arborisadas, ruas todas calçadas, percorridas por centenares de pessoas, por faustosos e ricos trens tirados por soberbas parelhas de cavallos de raça e cortadas por diversas linhas de bonds; bellas avenidas, como a denominada Paulista [...], com uma população alegre e animada, commercio activissimo, luxuosos estabelecimentos bancários, centenares de casas de negócios e as locomotivas soltando seus sibilos progressisas, diminuindo as distancias e estreitando em fraternal amplexo as povoações do interior (Moreira Pinto, 1979 [1900], p.10, grifo nosso).
Entre os “ruídos” da cidade depreende-se facilmente a voz da imprensa, muito estabelecida no interstício do público e privado. As folhas diárias ou domingueiras, os almanaques, as revistas, produzidas no espaço público, tornam-se mais presentes, reproduzindo suas ideologias próprias, difundindo seu discurso.
demandas de diferentes grupos sociais, tornando mais visível o processo acelerado de ocupação/invenção dos espaços públicos da metrópole em formação. Nesse processo, a imprensa em expansão, apresentando-se como importante suporte documental, mostrava-se, ela mesma, como faceta cultural importante da formação/transformação da vida urbana.
Isso certamente não significa que o jornal estava face a face com a população da época. Heloisa Cruz (op. cit.) já mencionou que, apesar da expansão da imprensa entre o final do XIX e início do XX, é sempre difícil apreender, nessa complexa rede de sociabilidades, os circuitos de difusão dos periódicos. O que reiteramos, embora desnecessariamente, é que essa imprensa tem face dupla, porque não é passiva. Ela altera o curso da cidade, e a cidade, nas suas múltiplas facetas, altera seu curso.
Paradoxalmente, considerando o fato de que a imprensa sempre esteve nas mãos de uma elite cultural, poderíamos acusar, nesse duplo, uma via de mão única. Contudo, a transformação da cidade inclui também a popularização da cultura letrada. No início do século XX, São Paulo conta com periódicos endereçados a todos os públicos. A imprensa deixa de ser espaço exclusivo da elite masculina-branca-letrada e passa a englobar, ainda que de forma esparsa, os jornais destinados aos negros, e às mulheres, e aos operários etc. (cf. Sodré, 1983; Cruz, 1994), além, evidentemente, da importante imprensa imigrantista.
Nesse caso, é necessário dar importância para o fato de que essa imprensa