A discussão que gira em torno do advento da súmula vinculante, principalmente no que se refere às possíveis violações de princípios constitucionais, fez surgir dúvidas quanto à sua própria constitucionalidade.
Nesse sentido, cumpre destacar que setores da doutrina sinalizam a inconstitucionalidade da Emenda Constitucional nº 45/2004, por afronta direta ao §4º do art. 60 , bem como o art. 2º da Constituição Federal de 1988.
De fato, analisando sumariamente os argumentos contrários à adoção da súmula vinculante, vislumbra-se as ofensas e possíveis desequilíbrios causados por esse instituto, no Estado Democrático de Direito, como situam o Brasil.
Contudo, a referida EC não pode ser reputada inconstitucional em sua completude, sob pena de não se reconhecer os seus pontos favoráveis e de grande avanço para o Judiciário brasileiro, tal como a criação do festejado CNJ, um dos marcos importantes para a tentativa de se reestruturar o âmbito judicial no país.
Nessa senda, observa-se que o ponto crucial de enfrentamento no que tange à súmula vinculante reside no novel art. 103-A, porquanto o mesmo comportaria os elementos combatidos pela doutrina contrária ao referido instituto, dotado, desta forma, de expressa inconstitucionalidade.
Registre-se a possibilidade de existência de normas constitucionais inconstitucionais, tal como defendida pela teoria de Otto Bachof, o qual lecionava que:
Uma norma jurídica que porventura infrinja o direito constitucional assim positivado, caracteriza-se como contrário ao direito natural, sendo, portanto, inconstitucional. Ainda que a norma violadora seja constitucional, esta também será reputada como inconstitucional.235
235
Bachof, Otto. Normas Constitucionais Inconstitucionais? Trad. José Manuel M. Cardoso da Costa. São Paulo: Almedina, 2009, p.62-63.
E nesse caso, principalmente quando a norma é emitida pelo legislador derivado, através das reformas constitucionais promovidas pelas Emendas. Assim, não há como negar a possibilidade de uma norma constitucional ser considera inconstitucional por afrontar outras normas dentro da própria Carta Magna.
O art. 103-A é contestado por autorizar o STF a criar as súmulas vinculantes, normas de caráter geral e abstrato, com força para impor ou proibir condutas, tratando-se de atributos reservados de forma absoluta pela Constituição à lei, que é a materialização da vontade do povo. Ou seja, em razão do princípio democrático insculpido na Constituição, a validade das normas, a priori, depende substancialmente da participação de todos os que potencialmente podem ser afetados por elas, mediante a votação de seus representantes eleitos, no âmbito da manifestação da democrática.236
Segundo José de Albuquerque Rocha, essa seria a fundamentação do inciso II, do art. 5º da Constituição, concluindo que:
(...) Como a lei, em uma democracia representativa como a nossa, é produzida pelos representantes do povo com a participação do Senado e do Poder Executivo, o significado da disposição do indicado artigo 5º, II, da Lei Maior é que o povo só está obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa em virtude de norma de cuja formulação tenha participado ou podia participar como seu autor.237
E ainda assevera o supracitado autor:
Obrigando a todos, entidades públicas e sujeitos privados, como resulta da literalidade das disposições do referido artigo 103-A, as súmulas vinculantes configuram verdadeiras normas jurídicas gerais e abstratas, de hierarquia superior à própria lei, uma vez que ditam o sentido em que as disposições legislativas (leis) devem ser entendidas, o que dá aos 11 juízes do Supremo Tribunal Federal, escolhidos e nomeados pelo Presidente da República, ratificada a escolha pelo Senado Federal, mais poder do que o conferido ao legislador democrático, pois quem tem autoridade absoluta para atribuir sentido à lei, é sob todos os aspectos, o verdadeiro legislador, e não quem escreve o texto de lei(...).238
236
ROCHA, José de Albuquerque. Op. Cit., p.91. 237
Ibidem, p. 91. 238
Nota-se que a discussão acerca da inconstitucionalidade do art. 103-A, passa antes, pela análise do art. 60, §, 4º, que trata da proteção das cláusulas pétreas, em relação à proposta de emenda. Deste modo, dispõe este último que “não será objeto de deliberação a proposta de emenda tendente a abolir a separação dos Poderes e os direitos e garantias individuais, respectivamente, nos seus incisos III e IV.
O enquadramento do art. 103-A como inconstitucional parte da interpretação que se dá aos seus efeitos práticos, posto que a referida norma em si, não tem o condão de abolir outra norma, princípio ou cláusula pétrea, mas pelos seus efeitos, como nos exemplos de afronta direta ao art. 2º e art. 5º, incisos II e XXXV.239
Corrobora com esse entendimento a Ministra do Supremo Tribunal Federal, Carmen Lúcia Antunes Rocha, ao entender que:
(...) a doção de súmula vinculante rompe a tradição constitucional republicana brasileira e os princípios constitucionais atuais brasileiros, tolhe direitos dos cidadãos, compromete o princípio da legitimidade democrática e o princípio da separação de poderes, segundo o modelo adotado na Lei Fundamental da República, afronta o princípio da independência do juiz, sem o qual o direito fundamental à jurisdição vê-se restringido, e não é dada como certo para a correção de rumos na eficiente e tempestiva prestação jurisdicional que é buscada.240
Deste modo, o art. 103-A reputa-se inconstitucional por sua afronta expressa a princípios estabelecidos na Constituição, estando incompatível com dispositivos que defendem, principalmente, a democracia, bem como por afrontar,
239
Nesse contexto, José de Albuquerque Rocha conclui que o art. 103-A da Constituição Federal é inconstitucional ”por sua manifesta incompatibilidade com vários dispositivos constitucionais de proteção da democracia em geral, entre os quais,os artigos 2º, e 95, I a III, parágrafo único, I a V, que preveem, respectivamente, a independência dos poderes e as garantias da independência dos juízes; 5º, II, que tutela a liberdade das pessoas, entendida como autonomia privada e pública, reservando à lei de modo absoluto sua limitação; 60, § 4º, incisos III e IV, que proíbe emendas constitucionais tendo por objeto abolir a ‘separação de poderes’ e os direitos e garantias individuais. Além disso, falamos sobre o procedimento da inconstitucionalidade, que é um instrumento jurisdicional de defesa da democracia, bem como da desobediência civil e direito de resistência, que são garantias políticas da democracia em geral” ROCHA, José de Albuquerque. Op. Cit., p.101.
240
ROCHA,Carmem Lúcia Antunes. Sobre a súmula vinculante. Revista de Direito Administrativo, Rio de Janeiro, n.210,1997, p. 146.
direitos e garantias constitucionais tão valorizados pela sociedade brasileira pós- redemocratização.
3.4 EFEITOS DA SÚMULA VINCULANTE NO ORDENAMENTO JURÍDICO