A escola acaba por refletir uma realidade social revelando-se, por vezes, um local de conflitualidade diária.
Cada vez mais assistimos a comportamentos inadequados devido à sua desintegração na turma, na família e na comunidade e como consequência revelam na escola comportamentos inadequados perturbadores do ambiente propício à aprendizagem. Os professores, frequentemente, recorrem constantemente a advertências e a repreensões que, na maior parte das vezes, acabam por não dar resultado e, desta forma, não conseguem resolver as situações difíceis com que se deparam. A escola confronta-se, assim, com dificuldades que têm vindo a aumentar nos últimos anos e é urgente procurar soluções capazes de promover a integração de todos os alunos, sem exceção.
O não cumprimento dos deveres por parte dos alunos, e todos os comportamentos perturbadores que não permitam o funcionamento normal das atividades da escola ou das relações no âmbito da comunidade educativa, constitui infração disciplinar, a qual pode levar, mediante processo disciplinar, à aplicação de medida disciplinar. Artigo 23.º – Lei 30/ 2002 de 20 de dezembro. Ressalvamos que a alteração ao Estatuto do Aluno dos Ensinos Básico e Secundário, aprovado pela Lei n.º 30/2002, de 20 de dezembro, e alterado pela Lei n.º3/2008, de 18 de janeiro a Assembleia da República decreta, nos termos da alínea c) do artigo 161.º da Constituição, o seguinte: Artigo 1.º Alteração à Lei n.º 30/2002, de 20 de dezembro, o Artigo 23.º não foi alterado.
Assim, a resolução dos problemas disciplinares tem sido uma das principais preocupações quer do Ministério da Educação e Ciência, quer das escolas, individualmente. Os regulamentos internos são documentos que confinam todas as normas internas que regem os estabelecimentos de ensino, tendo estes sofrido constantes reformulações nestes últ imos anos, isto porque os organismos que tutelam a educação têm produzido nova legislação sobre as questões disciplinares, o que realmente demonstra e reforça o esforço em resolver estas situações pelas implicações que tal pode acarretar.
Se tivermos em consideração tudo o que é descrito sobre os conceitos de conflito e de indisciplina, percebemos que estes têm como denominador comum o facto de serem
identificados como comportamentos desviantes, fora do padrão habitual convencionado e que consistem em infrações que, conforme o grau, diferenciam os fenómenos entre si.
Os pesquisadores dos fenómenos de indisciplina, de atos violentos e dos múltiplos comportamentos desviantes são unânimes ao reconhecer como fundamental o papel da escola quer no desenvolvimento dos alunos quer na prevenção e solução do aparecimento de focos de indisciplina ou atos violentos. Desta organização não se espera, apenas, que se ensine aos alunos mestrias académicas mas também que ensine mestrias sócio-culturais e até morais. No entanto, eles defendem que o papel da escola deve ser coligado, num esforço conjunto, ao papel das famílias e dos próprios alunos. Diversos autores reforçam que “o diálogo, a comunicação e a melhoria do relacionamento entre pais, professores e alunos podem trazer muitas vantagens, contribuindo para eliminar numerosos casos e situações de indisciplina” (Estrela, 1996, p. 34).
Espera-se da escola, por isso, uma política de prevenção e de intervenção que seja válida e eficaz contra a indisciplina, para que de alguma forma coíba aquilo que observamos e previna a existência de comportamentos de risco e desviantes na idade adulta.
Existem regras de diversa natureza, segundo Domingues (1995), provenientes e fomentadas por diferentes órgãos. Essas regras são “regras formais” quando inclusas no Estatuto do Aluno e na Ética Escolar; são “regras não formais” quando o Regulamento Interno da Escola as expressa; e são “regras informais” ou sociais quando são vivências sociais, têm muitas vezes uma existência implícita na organização e o seu suporte é paliativo.
O Ministério da Educação e Ciência parece estar empenhado na prevenção e no combate à indisciplina no meio escolar, bem como na solução célere e eficaz das situações que possam pôr em causa a segurança e o bem-estar de toda a comunidade escolar. O seu trabalho desenvolve-se nas mais variadas frentes, tal como verificamos no enquadramento do Estatuto do Aluno e Ética Escolar, como no Regulamento Interno da Escola. No que diz respeito à formação dos alunos, dos professores e das assistentes operacionais há uma preocupação na formação contínua dos mesmos de forma a colmatar falhas verificadas. Nesse sentido, o Ministério da Educação e Ciência entende que a sensibilização e a formação de alunos, professores e assistentes operacionais são muito importantes na deteção de situações problemáticas, na prevenção e na resolução de situações de indisciplina. São várias as ações que se realizam neste âmbito, promoção de ações de formação de professores no âmbito da
segurança escolar, que têm como objetivo sensibilizar os elementos que tomam as decisões das escolas para a urgência de uniformizar a forma como são relatadas as ocorrências de indisciplina e violência nos estabelecimentos de ensino; abordar estratégias de intervenção para fazer face às ocorrências registadas, consoante o tipo e sua gravidade. É, ainda, realizada uma formação contínua em mediação e gestão de conflitos. Quanto à formação de assistentes operacionais, na área comportamental, o Gabinete Coordenador da Segurança Escolar organiza, em parceria com o Instituto Nacional da Administração e com o Instituto de Estudos da Criança da Universidade do Minho, uma formação na área do chamado bullying, que tem como objetivos formar assistentes operacionais, no que diz respeito a questões relativas a esta problemática e habilitá-los para uma deteção precoce de eventuais situações de indisciplina e bullying nos recreios e nos restantes espaços exteriores à sala de aula.
Uma outra medida implementada pelo então Ministério da Educação foi o sistema eletrónico de registo de ocorrências através do qual, sempre que ocorra um caso de indisciplina ou violência, as escolas registam a ocorrência num formulário eletrónico que, posteriormente, é enviado ao Gabinete Coordenador de Segurança Escolar. Assim sendo, este gabinete está informado em todos os momentos, da situação vivenciada em cada escola do país no que diz respeito à segurança. Todas as situações são acompanhadas, permitindo desta forma uma atuação conveniente mesmo a nível preventivo, alertando sempre os parceiros para situações ou fenómenos específicos. Com base na informação recolhida por esta via, o Observatório de Segurança Escolar estuda, examina e cria programas de prevenção da indisciplina e de manutenção da segurança na escola, adaptada a cada tipo de situação.
Num estudo realizado por Veiga (2007) acerca dos efeitos de uma intervenção, utilizando o “Modelo Comunicacional Eclético”, constataram-se grandes benefícios a nível comportamental nos alunos, mais concretamente numa diminuição da distração-transgressão e um aumento de sentimentos de felicidade e de participação nas tarefas escolares. Outro estudo, também efetuado por Veiga (2007), mas desta vez sobre os efeitos da utilização do “Modelo de Intervenção Psicodinâmica” na indisciplina escolar, modelo criado por Dreikurs e explorado por Veiga, (2007), mostrou efeitos relevantes no que diz respeito à melhoria das relações entre pares, na diminuição de comportamentos de violência e, ainda, no aumento do estatuto inteletual dos alunos. Num estudo assente nos efeitos de uma intervenção na indisciplina, com recurso ao “Modelo Humanista”, Veiga (2007) notou uma diminuição da
agressão entre pares, bem como um acréscimo na motivação e na confiança das capacidades individuais. O “Modelo Transaccional” permitiu verificar que os alunos passaram a apresentar menos comportamentos violentos, a ser apreciados pelos pares, a incluir-se mais na execução das tarefas escolares e a ter mais confiança nas suas próprias capacidades.
Os estudos efetuados e apoiados nos diferentes modelos, permitem aferir que as intervenções mais eficazes em contexto escolar têm sido aquelas que colocam a sua focagem na intervenção da comunidade educativa na sua totalidade e nas mais variadas expressões, mas que se adequaram, nas suas propostas e programas, às especificidades e necessidades singulares de cada estabelecimento de ensino. Tem-se verificado que a existência de uma política na escola que vá contra a indisciplina e a violência, revela ser fundamental para o sucesso relativamente ao seu combate ou minimização destas práticas indisciplinares.
Tendo em conta a linha de prevenção e intervenção foi criado o Programa Escola Segura em 1992, através de um protocolo celebrado entre o Ministério da Educação e o Ministério dos Assuntos Internos, o Programa Escola Segura coordenado pelo Gabinete de Segurança do Ministério da Educação e Ciência. O programa, que começou por abranger apenas as escolas consideradas prioritárias, atualmente engloba todas as escolas públicas sob a tutela do Ministério da Educação e Ciência. Foram também criados os projetos: escol@segura (MEC); segur@net que e um projeto relacionado com a segurança na Internet.
Atualmente vigora em Portugal a Lei n.º 51/2012 de 5 de setembro que aprova o Estatuto do Aluno e Ética Escolar, que estabelece os direitos e os deveres do aluno dos ensinos básico e secundário e o compromisso dos pais ou encarregados de educação e dos restantes membros da comunidade educativa na sua educação e formação, revogando a Lei n.º 30/2002, de 20 de dezembro.
Da análise realizada à referida Lei são nítidas as intenções por parte do governo ao realizar esta alteração legislativa, pois o novo Estatuto do Aluno e Ética Escolar parecem querer fortificar as condições que garantam o normal funcionamento da escola pública e o bom relacionamento entre os membros da comunidade escolar, criando condições de maior segurança, tranquilidade e disciplina na escola.
No que se refere à autoridade do professor, do diretor de turma ou do agrupamento o estatuto promove um maior poder de intervenção por parte dos mesmos. Este regime obriga
todos os membros da escola a denunciar as demonstrações indisciplinares como podemos verificar no artigo 23.º que refere que
“1- O professor ou membro do pessoal não docente que presencie ou tenha conhecimento de comportamentos suscetíveis de constituir infração disciplinar deve participá-los imediatamente ao diretor do agrupamento de escolas ou escola não agrupada. 2- O aluno que presencie comportamentos suscetíveis de constituir infração disciplinar deve comunicá-los imediatamente ao professor titular de turma, ao diretor de turma ou equivalente, o qual, no caso de os considerar graves ou muito graves, os participa, no prazo de um dia útil, ao diretor do agrupamento de escolas ou escola não agrupada” (Diário da República, 1.ª série — N.º 172 — 5 de setembro de 2012, pp. 5109- 5110).
No artigo 24.º verifica-se a importância das medidas corretivas e disciplinares sancionatórias, dado que estas visam o bom funcionamento da escola e a boa relação entre os diferentes atores educativos intervenientes no processo pedagógico
“1- Todas as medidas disciplinares corretivas e sancionatórias prosseguem finalidades pedagógicas, preventivas, dissuasoras e de integração, visando, de forma sustentada, o cumprimento dos deveres do aluno, o respeito pela autoridade dos professores no exercício da sua atividade profissional e dos demais funcionários, bem como a segurança de toda a comunidade educativa. 2- As medidas corretivas e disciplinares sancionatórias visam ainda garantir o normal prosseguimento das atividades da escola, a correção do comportamento perturbador e o reforço da formação cívica do aluno, com vista ao desenvolvimento equilibrado da sua personalidade, da sua capacidade de se relacionar com os outros, da sua plena integração na comunidade educativa, do seu sentido de responsabilidade e da sua aprendizagem. 3- As medidas disciplinares sancionatórias, tendo em conta a especial relevância do dever violado e a gravidade da infração praticada, prosseguem igualmente finalidades punitivas. 4 - As medidas corretivas e as medidas disciplinares sancionatórias devem ser aplicadas em coerência com as necessidades educativas do aluno e com os objetivos da sua educação e formação, no âmbito do desenvolvimento do plano de trabalho da turma e do projeto educativo da escola, nos termos do respetivo regulamento interno” (Diário da República, 1.ª série — N.º 172 — 5 de setembro de 2012, p. 5110).
Com este estatuto verifica-se uma maior preocupação pelo poder e pelo modo de atuação por parte de todos os membros da escola, visto que eles devem denunciar todas as situações que prejudiquem o normal funcionamento da escola, (como já foi referido anteriormente) ou que afetem ou sejam suscetíveis de afetar o bem-estar dos membros da comunidade escolar. Como refere o artigo 26.º no ponto 4 “Na sala de aula a advertência é da exclusiva competência do professor, cabendo, fora dela, a qualquer professor ou membro do pessoal não docente” (Diário da República, 1.ª série — N.º 172 — 5 de setembro de 2012, p. 5110).
Ao longo dos tempos, professores e diretores têm vindo a perder o seu poder de atuação face a situações de indisciplina. Este estatuto, de certa forma, parece promover a celeridade e o poder de prevenção, de atuação e de resolução de situações que prejudiquem o funcionamento normal da escola. Como já referimos os diretores passam a ter mais poder de atuação e ação como consta no artigo 26.º no ponto 8:
“A aplicação das medidas corretivas previstas nas alíneas c), d) e e) do n.º 2 é da competência do diretor do agrupamento de escolas ou escola não agrupada que, para o efeito, procede sempre à audição do diretor de turma ou do professor titular da turma a que o aluno pertença, bem como do professor tutor ou da equipa multidisciplinar, caso existam” (Diário da República, 1.ª série — N.º 172 — 5 de setembro de 2012, p. 5110).
O que se tem verificado nos últimos anos, relativamente às práticas disciplinares e face ao bom funcionamento, não eram de fácil aplicação uma vez que para se aplicar uma medida sancionatória demorava muito tempo. O que prejudicava a forma de agilização e a simplificação dos procedimentos disciplinares. Face a esta situação o Ministério de Educação e Ciência tem vindo a demonstrar interesse pela eficácia e rapidez na resolução dos problemas com que as escolas se deparam, dando-lhes, desta feita, mais autoridade como expresso no artigo 31.º onde se lê que
“1 - A instrução do procedimento disciplinar prevista nos n.os 5 a 8 do artigo anterior pode ser substituída pelo reconhecimento individual, consciente e livre dos factos, por parte do aluno maior de 12 anos e a seu pedido, em audiência a promover pelo instrutor, nos dois dias úteis subsequentes à sua nomeação, mas nunca antes de decorridas vinte e quatro horas sobre o momento previsível da prática dos factos imputados ao aluno. 2 -Na
audiência referida no número anterior, estão presentes, além do instrutor, o aluno, o encarregado de educação do aluno menor de idade e, ainda: a) O diretor de turma ou o professor -tutor do aluno, quando exista, ou, em caso de impedimento e em sua substituição, um professor da turma designado pelo diretor; b) Um professor da escola livremente escolhido pelo aluno. 3- A não comparência do encarregado de educação, quando devidamente convocado, não obsta à realização da audiência. 4- Os participantes referidos no n.º 2 têm como missão exclusiva assegurar e testemunhar, através da assinatura do auto a que se referem os números seguintes, a total consciência do aluno quanto aos factos que lhe são imputados e às suas consequências, bem como a sua total liberdade no momento da respetiva declaração de reconhecimento. 5- Na audiência é elaborado auto, no qual constam, entre outros, os elementos previstos nas alíneas a) e b) do n.º 9 do artigo anterior, o qual, previamente a qualquer assinatura, é lido em voz alta e explicado ao aluno pelo instrutor, com a informação clara e expressa de que não está obrigado a assiná-lo. 6- O facto ou factos imputados ao aluno só são considerados validamente reconhecidos com a assinatura do auto por parte de todos os presentes, sendo que, querendo assinar, o aluno o faz antes de qualquer outro elemento presente. 7- O reconhecimento dos factos por parte do aluno é considerado circunstância atenuante, nos termos e para os efeitos previstos no n.º 2 do artigo 25.º, encerrando a fase da instrução e seguindo -se -lhe os procedimentos previstos no artigo anterior. 8 - A recusa do reconhecimento por parte do aluno implica a necessidade da realização da instrução, podendo o instrutor aproveitar a presença dos intervenientes para a realização da audiência oral prevista no artigo anterior” (Diário da República, 1.ª série — N.º 172 — 5 de setembro de 2012, p. 5112).
Importa referir a criação de equipas multidisciplinares que intervêm nas diversas áreas. É importante ter equipas especializadas, constituídas por profissionais para que, desta forma, se possam solucionar as diversas situações que surjam de forma mais eficaz e eficiente. Como refere o artigo 35.º e no que se refere às equipas disciplinares
“1 -Todos os agrupamentos de escolas ou escolas não agrupadas podem, se necessário, constituir uma equipa multidisciplinar destinada a acompanhar em permanência os alunos, designadamente aqueles que revelem maiores dificuldades de aprendizagem, risco de abandono escolar, comportamentos de risco ou gravemente violadores dos deveres do aluno ou se encontrem na iminência de ultrapassar os limites de faltas previstos no presente Estatuto (…) 3 – As equipas a que se refere o presente artigo têm uma
constituição diversificada, prevista no regulamento interno, na qual participam docentes e técnicos detentores de formação especializada e ou de experiência e vocação para o exercício da função, integrando, sempre que possível ou a situação o justifique, os diretores de turma, os professores -tutores, psicólogos e ou outros técnicos e serviços especializados, médicos escolares ou que prestem apoio à escola, os serviços de ação social escolar, os responsáveis pelas diferentes áreas e projetos de natureza extracurricular, equipas ou gabinetes escolares de promoção da saúde, bem como voluntários cujo contributo seja relevante face aos objetivos a prosseguir. 4 - As equipas são constituídas por membros escolhidos em função do seu perfil, competência técnica, sentido de liderança e motivação para o exercício da missão e coordenadas por um dos seus elementos designado pelo diretor, em condições de assegurar a referida coordenação com caráter de permanência e continuidade, preferencialmente, um psicólogo” (Diário da República, 1.ª série — N.º 172 — 5 de setembro de 2012, p. 5114).
Todas as escolas devem ter um programa de intervenção que deve incidir sobre os valores, as competências sociais e a capacidade de partilhar e discutir ideias de forma a conseguir resolver os problemas detetados.
Todas nós, ao longo do nosso percurso escolar, acabamos por assistir a comportamentos indisciplinados que, na sua maioria, são casuais, o que não significa que devemos ter uma atitude passiva e indiferente. Pelo contrário, devemos tentar combater estas situações, para que as mesmas deixem de ocorrer ou, pelo menos, sucedam com menos frequência. No entanto, julgamos ser importante ter em conta que estes comportamentos ocorrem numa fase da vida em que as competências sociais para a resolução dos mesmos (comportamentos indisciplinares e conflitos) ainda estão a ser adquiridas. Não podemos deixar de referir o sistema de ensino ambíguo e pouco claro no que ao controlo disciplinar se refere, em que nem sempre se configura como fácil constituir regras claras e ponderadas que tenham crédito e exerçam alguma influência sobre o comportamento dos alunos. É evidente e claro que estas regras têm como objetivo patentear comportamentos padrão indispensáveis ao funcionamento normal das atividades letivas e da organização escolar. No entanto, por vezes as “regras” são incompletas, ambíguas e não são cumpridas integralmente.
As escolas são diferentes, bem como os professores, os alunos e os seus pais/encarregados de educação. Em cada escola os alunos, os professores e toda a comunidade
educativa agem de forma diferente e, muitas vezes, mais em conformidade com os seus próprios valores do que com as regras deliberadas. Os professores têm experiência, idade e valores culturais diferentes. Veja-se, a título de exemplo, o uso do boné por parte do aluno na sala de aula, a atitude pode ser encarada como um comportamento desviante para alguns professores mas para outros não, ou seja, a mesma situação vivida em contexto de sala de aula pode ser encarada de forma diferente pelos mesmos atores educativos. Deste modo, não existe unanimidade no entendimento de cada professor quanto ao que deve ser considerado como indisciplina. A mesma situação também se verifica nas famílias que revelam algumas incongruências relativamente às regras estabelecidas. Verifica-se que nas classes sociais menos favorecidas é recorrente uma maior utilização dos castigos físicos para fazer prevalecer as regras, enquanto que as classes mais favorecidas, genericamente, usam o diálogo para as fundamentar e explicar (Pinto, 1995). A mesma autora verificou que a integração escolar é mais complicada para os alunos que não estão familiarizados com o uso de um código elaborado.
Para Estrela (1996), a capacidade de prevenir, impedir ou, pelo menos, limitar possíveis e naturais situações de indisciplina está diretamente relacionada com a formação relacional do professor. Nesta perspetiva, a autora sugere que na formação inicial e contínua de professores a prevenção da indisciplina assuma uma prioridade evidente, pois é fundamental “preparar o professor para encontrar por si as respostas aos problemas relacionais que lhe são postos na sua prática lectiva” (Estrela, 1996, p. 36).