2.3 INTELECTUAIS, PODER E IMPRENSA
2.3.2 A intelligentsia e os psicanalistas
Outra abordagem possível é a de Pierre Bourdieu (1968), que pensa sociologicamente o intelectual como situado na história e na sociedade, de forma que suas preferências intelectuais e seus gostos (artísticos, por exemplo) dependam de sua cultura e daquilo que foi introjetado de acordo com a época ou com a classe de origem do indivíduo. No caso dos psicanalistas, enquanto intelectuais convocados pela imprensa, esta questão fica evidente nos temas de cada momento da história – como, por exemplo, a discussão sobre a reformulação da lei do divórcio, em 1988, que atraiu a atenção de vários psicanalistas; ou a inflação, no início da década de 1990.
Além da cultura de seu tempo, Bourdieu chama a atenção para aqueles intelectuais que se formam em escolas, segundo um mesmo “modelo” de pensamentos. Segundo o autor, estes têm entre si um “espírito” em comum e uma predisposição em pensar sobre determinados problemas e abordá-los de maneira semelhante, ainda que discordem entre si. É neste sentido que o sociólogo francês explica que “os homens cultos de uma época determinada podem estar em desacordo quanto aos objetos que disputam, mas estão pelo menos de acordo em disputar certos objetos” (BOURDIEU, 1968, p.140), o que serve de explicação para a recorrência de determinados temas, em colunas assinadas por psicanalistas.
Outro ponto importante sobre intelectualidade é trabalhado por Bourdieu, que corresponde ao conceito de campo intelectual. O autor o entende como um “sistema de linhas de força” que “se dispondo, opondo e compondo, lhe conferem sua estrutura específica num dado momento do tempo” (BOURDIEU, 1968, p.105), comparável ao que ocorre com as forças em um campo magnético. É importante ter em mente que este campo intelectual pode ser entendido como um sistema que tem leis de funcionamento próprias e que os indivíduos que o compõem e que com ele se relacionam possuem autonomia relativa, uma vez que há interações que dependem de fatores outros, como a sociedade e a época. Assim,
lembrar que o campo intelectual como sistema autônomo ou pretendente à autonomia é o produto de um processo histórico de autonomização metodológica, autorizando a pesquisa da lógica específica das relações que se instauram no interior desse sistema e o constituem enquanto tal é também dissipar as ilusões nascidas da familiaridade mostrando que, produto de uma história, esse sistema não pode ser dissociado das condições históricas e sociais de sua constituição e, com isso, condenar toda tentativa de considerar as proposições depreendidas do estudo sincrônico de um estado do campo como verdades essenciais, trans-históricas e transculturais (BOURDIEU, 1968, p.113).
Em sua obra, o sociólogo parte da noção de “projeto criador” e, portanto, da figura do artista para discutir o campo intelectual. Detalha, então, que tal campo cultural é um tipo
de inconsciente cultural no qual seu poder ou sua autoridade interna ao campo depende da posição que ocupa nele (BOURDIEU, 1968, p.106). Embora o pensamento de Bourdieu remeta com frequência a exemplos de intelectuais do campo artístico, buscamos aqui fazer uma aproximação dos conceitos para pensar outra figura que corresponde a do intelectual, a do psicanalista.
Os psicanalistas não só são pensadores que se formam em escolas, organizando-se em sociedades e instituições, apropriando-se das teorias freudianas, lacanianas, entre outras, como também podem ser entendidos como intelectuais por serem, muitos deles, escritores, autores de inúmeros livros, além de textos como artigos e colunas publicados em jornais. Sendo assim, psicanalistas podem ser considerados também “criadores”. Por outro lado, por vezes, os psicanalistas convocados a opinarem nos jornais exercem o papel de “críticos”, ocupando uma função de mediador entre o “criador” e o público.
Bourdieu destaca que a “objetivação da intenção criadora”, em outras palavras, a “publicação”, depende de uma série de relações sociais ocorrerem, envolvendo diversos agentes que constituem o campo intelectual em um determinado momento – editores, autores, críticos, público, por exemplo. “Em cada uma dessas relações, cada um dos agentes empenha não só a representação socialmente constituída que tem do outro termo da relação [...], mas também a representação da representação que o outro termo da relação tem dele” (BOURDIEU, 1968, p. 125). Dessa forma, o intelectual depende da definição social de si e do valor que lhe é dado como resultado do conjunto de relações entre os que compõem o campo
intelectual.
Ainda segundo o autor, a complexidade da estrutura deste campo pode variar de acordo com o tempo e com as sociedades em que se encontram. Deve-se reconhecer também que a autonomia e o poder que cada agente possui extrapola o campo intelectual e depende de uma realidade social exterior a ele, como, por exemplo, a posição que ocupa em relação às autoridades culturais e aos poderes econômicos (BOURDIEU, 1968, p. 132).
Também pelo viés sociológico, Karl Mannheim (2001) toma como objeto a intelectualidade, a partir da história da intelligentsia e da origem social destes “provedores de ideologias para certas classes”. A princípio, é importante destacar que, para esta linha de pensamento, a intelligentsia não é em si uma classe, um grupo unificado, nem um partido político específico, já que os indivíduos dessa não possuem interesses comuns. Sobre isso, o autor afirma que “nada poderia ser mais alheio a esse estrato que a mentalidade monolítica e a coesão” (MANNHEIM, 2001, p. 80).
Ainda assim, por mais que não formem uma unidade ideológica, os intelectuais assumem, ao longo da história, o papel de “feiticeiros de conceitos e reis do domínio de ideias”, capazes, muitas vezes, de ditar o Welgeist, ou seja, o “espírito da época”. Mannheim atenta-se à arrogância que, por vezes, aparece como marca da intelligentsia, já que os intelectuais – sacerdotes, profetas, poetas do Humanismo e filósofos do Iluminismo, lembra o autor – atribuíam a si uma enorme importância, como os únicos indivíduos capazes de interpretar o mundo. No entanto, “a fé do erudito em sua própria missão só dura enquanto ele detém a chave dos segredos do universo, enquanto ele é o órgão pensante de outros grupos. Sua presunção se esvai diante da imperativa visão do mundo de outro grupo” (MANNHEIM, 2001, p. 79).
Ainda segundo Mannheim (2001, p. 81), os intelectuais, então, não formam uma casta que se coloca acima das classes, mas as permeiam. Podem integrar organizações institucionais ou filiar-se a partidos políticos (como ocorreu, entre os psicanalistas, com Eduardo Mascarenhas, em 1990, e Marta Suplicy, em 1981), mas, ao contrário daqueles que não compõem a intelligentsia, são capazes de enxergar um problema por mais de uma perspectiva e de mudar de ponto de vista com mais facilidade.
Se os intelectuais não se organizam por classe ou por unidade ideológica e com frequência “mudam” de lado quanto a uma questão, o que os identifica, diante de outros indivíduos da sociedade? Ainda com base no pensamento de Mannheim (2001, p. 86), “o principal atributo comum dos intelectuais é seu contrato, em graus diferenciados, com a cultura”. Uma vez entendida quem forma a intelligentsia, o autor indica algumas maneiras de diferenciação na organização dos intelectuais que, segundo ele, surgiram em momentos distintos da história e não se substituíram com os anos, mas passaram a coexistir na sociedade (2001, p. 89).
Esquematicamente, são elas: a) a que diferencia a partir daqueles que exercem atividades manuais e intelectuais (MANNHEIM, 2001, p. 86); b) a que, levando em conta o status social, distingue entre profissionais liberais e ofícios (2001, p. 87); c) a que separa entre cultos (Gebildeten) – o autor exemplifica com as figuras dos doutores, advogados, professoras, pastores, comerciantes e outros habituados a reunir-se nas tavernas – e incultos. (Até aqui, funcionam três “princípios intercambiáveis de seleção, ou seja: educação, posição social e renda. Uma renda substancial pode compensar alguma falta de cultura e vice-versa” [2001, p. 88]); d) como consequência do último tipo de distinção enumerado, a distinção de “culto” passa a levar em conta critérios burocráticos de distinção, como possuir certificados e
diplomas para assumir cargos de administração pública. Assim, os homens “formados” passam a ser diferenciados dos que não possuem “educação acadêmica”.
Após estudar essas transformações no entendimento do que é intelligentsia, Mannheim detalha que o conhecimento do intelectual “contemporâneo” pode se desenvolver de duas maneiras: ou na experiência de vida, que são adquiridos de forma “espontânea, casual ou imitativa”, sem um “método consciente”; ou como resultado de “esforços dedicados e de uma tradição cultivada” (MANNHEIM, 2001, p. 91), como aprendizado adquirido através de algum processo de educação. Nem é preciso dizer que é neste segundo tipo que se enquadram os saberes teóricos, acadêmicos, filosóficos e psicanalíticos. Entretanto, é a partir de um conhecimento elaborado que se discutem questões de experiências de vida, ou seja, o primeiro tipo de conhecimento encontra-se como objeto de discussão, por exemplo, quando o tema é comportamento humano e ações inconscientes e imitativas.
Por fim, faremos uma ultima observação acerca da intelligentsia em Mannheim. Trata-se da noção de habitat social dos intelectuais (MANNHEIM, 2001, p.126-127), a partir de três tipos: o local – constituído pelas comunidades pequenas e médias, mantidas pela tradição e por laços sociais de proximidade como os de amizade –; o institucional ou organizacional – como é o caso, por exemplo, dos partidos políticos e das sociedades psicanalíticas – e o desvinculado, que podem até ter preferências político-ideológicas, mas não se associam a nenhum partido e não participam de nenhuma organização.
Seguindo este pensamento, os psicanalistas se enquadram como parte da
intelligentsia por serem indivíduos dispersos entre as classes sociais, as instituições e as
muitas ideologias as quais, ora defendem, ora atacam, mostrando a mobilidade de pontos de vista e, na palavra de Mannheim, uma certa “empatia”, que é típica dos intelectuais modernos (MANNHEIM, 2001, p.92).
Do ponto de vista discursivo, o psicanalista sobre o qual a imprensa projeta a imagem do intelectual, ocupa posições-sujeito de acordo com discursos com os quais se identifica e, portanto, propaga. A relação do sujeito com o imaginário se estende, então, para além da projeção dos jornais e dos leitores sobre o psicanalista, tornando-se também o que vamos chamar de uma “ilusão discursiva” sobre si. Isso significa que o sujeito tem a ilusão “não apenas de ser a fonte do sentido („esquecimento número 1‟), mas também de ter o domínio daquilo que diz, de ser o mestre absoluto do seu próprio processo de enunciação, dominando as estratégias discursivas necessárias para dizer o que pretende („esquecimento ideológico número 2‟)” (INDURSKY, 1992, p.23). Em outras palavras, ainda segundo Indursky (1992, p.24), o sujeito no discurso é “interpelado, mas acredita-se livre”.
É possível dizer ainda que os jornais, ao convocarem especialistas para redigirem colunas ou fornecerem entrevistas, talvez projetem sobre estes intelectuais a imagem de representantes de grupos, de comunidades, com determinados pensamentos, como se houvesse uma unidade discursiva entre psicanalistas. No entanto, conforme afirma, ironicamente, Mezan (1988, p.15), “os psicanalistas não falam a mesma língua”.
Neste caso, Renato Mezan referia-se a um quadro de teorias psicanalíticas que, sob o mesmo vocabulário, entende as concepções de maneiras muito distintas. Contudo, do ponto de vista discursivo, esse fenômeno pode ser explicado a partir da noção de polissemia, que se constitui na incompletude fundamental do dizer. Assim, segundo Orlandi (2007, p.47), “é a incompletude que produz a possibilidade do múltiplo, base da polissemia. E é o silêncio que preside essa possibilidade [...]. Quanto mais falta, mais silêncio se instala e mais possibilidades de sentidos se apresentam”. Esta polissemia discursiva está presente nos textos de colunas e entrevistas com psicanalistas, nos jornais Folha de S. Paulo e O Globo.
3 ANÁLISE DO DISCURSO, MÍDIA E SABER
Neste capítulo apontaremos as bases conceitual-metodológicas da Análise de Discurso (doravante AD) e indicaremos noções e princípios desta disciplina que possam servir tanto para compreender a relação entre “mídia e discurso”, diante de relações de poder – seja institucional, seja ideológico – como “discurso e saber psicanalítico”, tecendo assim as bases teóricas do nosso objeto.
Apresentaremos primeiro as questões conceituais da disciplina da AD e os modos de funcionamento do discurso – através, principalmente, dos conceitos de “Projeção Imaginária”, “Formação Discursiva” e “Memória Discursiva” – recorrendo a Pêcheux (1990; 1999) e Orlandi (2001; 2005; 2007). Utilizaremos noções da teoria dos discursos para olhar para o campo das práticas da comunicação, conforme apontamentos de Alves (2007; 2010) e explicaremos as etapas de análise do corpus de pesquisa, desde a elaboração de um Trajeto Temático (GUILHAMOU, 1993) até a análise propriamente discursiva.