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Imagem do psicanalista “militante” IA (A) 3

No documento iarabastoscampos (páginas 135-138)

4.2 PROJEÇÕES IMAGINÁRIAS DE PSICANALISTAS NOS JORNAIS

4.2.1 As projeções imaginárias de/sobre psicanalistas nos jornais

4.2.1.3 Imagem do psicanalista “militante” IA (A) 3

A imagem de psicanalistas militantes aparece, dentre as textualidades analisadas, centrada, principalmente, em duas causas: a político-partidária e a feminista. A primeira confunde-se com a projeção de um “ator político”, uma vez que o psicanalista encontra-se envolvido diretamente com as ações políticas. Nestes casos, utiliza o espaço do jornal para promover as ideias de seu partido, em tom persuasivo, atuando como militante, como é observável no exemplo P3S1, a seguir:

P3S1: A luta contra a sociedade se fará, não através da criminalidade, mas em nome de altos valores reverenciados pela cultura: a liberdade, a igualdade, a fraternidade, a dignidade do trabalho, o pleno respeito à pessoa humana e aos seus direitos fundamentais. No caso brasileiro, esta é, por exemplo, a nobre perspectiva aberta ao povo pelo partido a que

bandeira transformadora da sociedade, no sentido do socialismo democrático e libertário. (PELLEGRINO, Folha de S. Paulo, 07/10/1984)

No enunciado destacado em P3S1, o autor se desloca da posição do psicanalista especialista, teórico ou clínico para a de ativista político, que fala em nome do partido a que pertence. Neste caso, profere o elogio abertamente, referindo-se à “nobre perspectiva” do Partido dos Trabalhadores e ao lema da Revolução Francesa – “liberdade, igualdade e fraternidade” –, recuperando uma memória discursiva de mudança e transformação por meio revolucionário. Além disso, reforça o sentido militante ao defender que “O PT, diante do desastre brasileiro, levanta a bandeira transformadora da sociedade, no sentido do socialismo democrático e libertário”.

A respeito da expressão “no sentido do socialismo democrático...”, podemos compreendê-la como modo de caracterização ou determinação do “socialismo” ao qual se refere o autor. Isso porque, na forma “X, no sentido de p”, segundo Authier-Revuz (1998), a expressão em itálico tem a função de determinar ou caracterizar o que é dito em seguida. Assim, discursivamente, podemos dizer que “X” é o que antecede a expressão e “p” é o que caracteriza/determina “X”, ou seja, “o socialismo democrático e libertário” caracteriza/determina “O PT... levanta a bandeira transformadora da sociedade”. E então, o detalhamento posterior busca especificar o sentido de “p” até sua saturação (AUTHIER- REVUZ, 1998, p.36), evitando deixar lacunas de entendimento.

É notável que a projeção imaginária aqui identificada fica restrita a psicanalistas filiados a partidos políticos, como Hélio Pellegrino, Eduardo Mascarenhas e Marta Suplicy. Pode-se observar que, no texto do qual recortamos o segmento textual P3S1, o autor da coluna assina como “psiquiatra, psicanalista e escritor”; também Eduardo Mascarenhas, quando articulista de O Globo (16/06/1990), foi apresentado como “psicanalista e Diretor Científico da Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro”. Marta Suplicy, no entanto, é a única que aparece como militante política e deixa clara, já na assinatura da coluna – “psicanalista e deputada federal pelo PT de São Paulo” – sua atuação partidária.

A outra figura recorrente – mais do que essa primeira, inclusive – é a da psicanalista militante feminista. Servem-nos de exemplo para esta projeção imaginária, os segmentos de texto a seguir:

P3S2: Vamos fazer desse 8 de março um ritual de passagem para a democracia paritária no Brasil, com o reconhecimento às nossas precursoras e em respeito a todas as mulheres

P3S3: Vai ver que os sem-terra têm razão: se não pressionarem para lembrar que existem, nada acontece... Sem pressão, as coisas não mudam. E, para fazer pressão, é preciso organização política. Nós, mulheres, somos 52% da população. Quando vamos acordar? (SUPLICY, Folha de S. Paulo, 14/02/1997)

Em P3S2, como P3S3, estão presentes marcas da militância tanto discursivas – como o tom persuasivo – quanto textuais – como a inclusão do sujeito autor na questão sobre a qual fala, no caso, o uso da segunda pessoa do plural – “vamos” – como forma de convocação. Olhando mais especificamente para o caso de P3S3, além de mencionar outro discurso de militância – o do movimento sem-terra – a psicanalista utiliza a expressão “nós, mulheres”, ao mesmo tempo chamando atenção das leitoras e se incluindo entre elas. Também a indagação “quando vamos acordar?” remete ao discurso militante e aponta para a projeção imaginária não só da psicanalista sobre si, mas sobre as leitoras que pretende atingir com seu texto.

A mesma imagem está presente em P3S3, com a diferença de que este segmento contém enunciados que indicam que a psicanalista não pretende apenas a organização política para valorização das mulheres, mas a igualdade de gênero.

P3S3: Queremos cumprir nossa parte para que se possa conseguir que homens e mulheres

tenham suas necessidades atendidas, com respeito às suas especificidades, sem que nós, mulheres, tenhamos que ouvir novamente esta frase, dita por um jornalista de maneira

simpática e buscando ser muito cooperativo: “Esta reunião é realmente interessante: vamos falar com a editora do caderno feminino!” (SUPLICY, Folha de S. Paulo, 25/07/1995)

No entanto, da mesma forma que em P3S2, a psicanalista utiliza a expressão “nós, mulheres”, endereçando o dizer a certa parcela dos leitores e projetando-se diante do “público” feminino. Há ainda o sentido presente em P3S4.

P3S4: Os dois sexos livres do ódio recíproco é o que desejamos, 365 dias para recuperar o

tempo perdido e aceitar a diferença entre eles, deixa-la mesmo imperar: DIFEROCRACIA, para que todo dia seja enfim o do homem e da mulher (MILAN, Folha de S. Paulo, 08/03/1983)

Por este segmento textual, podemos ler que a psicanalista aponta para a existência de um “ódio recíproco” entre os “dois sexos” – o que sugere o posicionamento em uma Formação Discursiva que compreende os gêneros de forma binária (ou homem ou mulher). Neste caso, não há desejo de igualdade, mas de “recuperar o tempo perdido e aceitar a diferença” entre homens e mulheres, o que é representado pelo neologismo grafado, pelo

jornal, em caixa alta: a “diferocracia” – ou seja, a soberania das diferenças, em contraste com a busca pela igualdade que, ainda que acompanhada da ressalva “com respeito às suas especificidades”, é defendida em P3S3.

A imagem da psicanalista militante que se fundamenta na ideologia feminista aparece também na crítica ao pensamento de que há um “modo feminino de amar”, que implica, por natureza, em sofrimento. P3S5, a seguir, exemplifica esta questão:

P3S5: Nós não queremos mais saber do masoquismo – nem falo daquele, perverso e fetichista, taco de bota e correntes (ao gosto dos homens, aliás), mas do outro, tão integrante da entrega amorosa que se diz feminino por natureza, masoquismo feminino, desde

Freud, o modo feminino de amar. (KEHL, Folha de S. Paulo, 06/12/1992)

Ao mesmo tempo em que a autora atua como feminista, por criticar a imposição de um comportamento da mulher submissa ao homem – não só que satisfaz fetiches sexuais, mas que obedece a um modo de entregar-se no amor – ela retoma o “lugar de psicanalista”, ao lembrar que o pensamento que critica é antigo, vem “desde Freud” (ainda que tal questão possa ser muito anterior ao criador da psicanálise). Chamamos a atenção para a repetição, em discursos correspondentes a este tipo de projeção imaginária, da inclusão da autora entre os leitores, com a utilização de “nós não queremos mais saber”. Para entender melhor, podemos substituir, a fim de apreender o sentido deste enunciado: “eu não quero mais saber” ou então “vocês não querem mais saber”, mas, ao invés dessas opções, escolheu-se “nós não queremos mais saber” e esta escolha significa.

No documento iarabastoscampos (páginas 135-138)