4.2 PROJEÇÕES IMAGINÁRIAS DE PSICANALISTAS NOS JORNAIS
4.2.3 As projeções imaginárias dos jornais em relação aos psicanalistas
4.2.3.2 O modo de significar o psicanalista nas entrevistas
4.2.3.2.1 Imagem do psicanalista “pensador” – IB‟‟ (A) 1
Assim como observado nas projeções do tipo IA (A), ou seja, nas que os psicanalistas têm de si mesmos, a partir de textos publicados na imprensa, é notável a imagem que os jornais têm e fazem circular desses “intelectuais”, como sujeitos capazes de produzir entendimentos, avaliações e análises sobre o mundo. É o que nos mostra, por exemplo, o seguinte segmento textual:
P8S1: Entrevistador: Você escreve que o amor não é natural, que é uma invenção, como a
roda, o fogo e o casamento. Diz ainda que ele é uma crença historicamente construída. Como um ideal pode ter persistido por tanto tempo na cultura?
Psicanalista: Quando eu digo que ele é uma invenção, forço um pouco a comparação para
poder chamar a atenção das pessoas. Ele é uma invenção assim como a invenção do religioso [...]. (COSTA, Folha de S. Paulo, 15/11/1998)
O que está em jogo neste tipo de discurso sobre o psicanalista é o reforço de uma imagem idealizada do intelectual. Como podemos ler no exemplo destacado, a discussão se dá em torno do amor, algo que poderia ser abordado de inúmeras formas – inclusive mais descontraídas ou lúdicas – mas que ao jornal interessa discutir a partir de uma reflexão teorizada, com foco na noção de construção histórica e cultural. A Folha de S. Paulo recorre, então, a pensamentos expressos em outro momento pelo entrevistado – possivelmente um livro já publicado, ao dizer “você escreve que...” – e busca confrontar essa ideia, a partir de um questionamento – “Como um ideal pode ter persistido por tanto tempo na cultura?” –, dando, assim, espaço para que o psicanalista exponha sua reflexão.
Este tipo de projeção não se dá apenas sobre sentimentos, mas também – e recorrentemente – sobre política, como podemos ver a partir dos exemplos:
P8S2: Entrevistador: Por onde passa a política atualmente? Pelas formas tradicionais de política de poder ou pelas micropolíticas do dia-a-dia, onde as pessoas conseguem manter uma certa autonomia? A política tradicional está morta?
Psicanalista: A política tradicional está morta. Não como realidade, pois sobrevivem os
Estados, os partidos, etc., embora com um apoio restrito entre as populações nacionais. Está morta porque dela não podemos esperar mais nada [...]. (CASTORIADIS, Folha de S. Paulo, 05/09/1982)
P8S3: Entrevistador: As proezas esportivas de Collor, ou o caso da ex-ministra Zélia,
representariam uma certa “erotização” do poder, não cercam a política de uma certa carga erótica?
Psicanalista: Não, ao contrário. Parece ter havido muito mais uma grande angústia, negada
através de mecanismos maníacos do tipo “eu sou o máximo”. (MEZAN, Folha de S. Paulo, 28/06/1992)
Os dois casos destacados acima foram escolhidos dentre diversos outros exemplos, por terem sido publicados em cenários políticos distintos, tanto mundial como nacionalmente, e proporem reflexões bastante diferentes. O primeiro, do início da década de 1980, direciona-se a um psicanalista europeu e questiona sobre “a política tradicional” com sentido de “política de poder”. O segundo, publicado dez anos depois, utiliza outro sentido para “poder” (sinônimo de “governo”), e busca focar-se em uma situação especificamente brasileira – “as proezas esportivas de Collor ou o caso da ex-ministra Zélia”. Apesar das diferenças, ambos colocam o psicanalista no lugar do “pensador”, capaz de compreender questões do campo da política, seja como intelectual conhecedor do conceito de “micropolítica” e capaz de discutir se a “política tradicional está morta” (como em P8S2), seja como avaliador da conduta de governantes brasileiros (conforme P8S3).
No exemplo P8S3, destacamos que a discussão acerca da “„erotização‟ do poder” ou daqueles que “cercam a política de uma certa carga erótica”, aponta para outra imagem do psicanalista, a de quem deve reconhecer comportamentos sexuais “desviantes” de certa norma. Assim, o entrevistador, ao realizar a pergunta destacada, parece propor que o psicanalista empreenda uma análise do comportamento dos personagens políticos mencionados.
Este mesmo tipo de pergunta, que já direciona a resposta do entrevistado, quase que a antecipando através de uma afirmação do entrevistador, acontece também em outros casos, como no destacado a seguir:
P8S4: Entrevistador: o sr. concorda que Freud era autoritário?
Psicanalista: Eu acho que era um liberal conservador, com um toque autoritário...
(RODRIGUÉ, Folha de S. Paulo, 17/09/1995)
No entanto, no que diz respeito ao sentido, ocorre aqui uma inversão em relação ao que vimos no exemplo anterior. Em P8S3, a pergunta direcionada ao psicanalista o leva a
analisar o comportamento de determinados sujeitos, com base no saber psicanalítico sobre sexualidade (erotização). Em P8S4, a questão leva uma figura de importância para a psicanálise a ser analisada por um saber externo ao psicanalítico, quando menciona a noção de autoritarismo – que, embora possa estar presente também na teoria psicanalítica, está mais comumente associada à política (o que é reforçado, inclusive, pela resposta do psicanalista).
Além disso, ainda que não estejamos analisando nesta seção as respostas dadas pelos psicanalistas, cabe-nos uma observação especificamente sobre este exemplo. Diante de uma pergunta que demandava apenas “sim” ou “não” do entrevistado, este escapa à simplicidade e se reposiciona como “pensador” – sujeito que reflete no momento em que responde – ao dizer “Eu acho que era um liberal conservador, com um toque autoritário...”. São as reticências grafadas, pelo jornal, ao final da resposta que funcionam como marca de uma reflexão continuada, levando-nos a ver a imagem do psicanalista “pensador” neste enunciado.
Assim como nas projeções de psicanalistas sobre si mesmos, a imagem do “pensador” da teoria e da prática psicanalíticas é bastante forte nas perguntas realizadas pelos jornais a estes “detentores do saber”, como podemos ver em:
P8S5: Entrevistador: O senhor diz que a psicanálise permanece um saber vivo, um outro
modo de produção do saber fora da universidade. Será que ela ficou de fora por causa de
suas características ou contra a própria vontade dos psicanalistas e dos universitários?
Psicanalista: Pode-se considerar a universidade como uma espécie de túmulo do saber. Mas
em cima desse túmulo há uma série de coisas que podem ser feitas com os cadáveres: pode-se dissecar, desenvolver, articular etc. [...] (MILLER, Folha de S. Paulo, 29/11/1981)
P8S6: Entrevistador: Falando em moda, gostaria de saber como o senhor vê a psicanálise
em países como a Argentina e o Brasil, onde o discurso psicanalítico foi exacerbado até as últimas consequências, disseminando-se por todas as instâncias da sociedade, como um lugar-comum. O que resta da psicanálise em sociedades como estas?
Psicanalista: Quando existe um fenômeno sociológico, compreende-se que ele contém uma
moda e uma considerável potência de erosão sobre o próprio fenômeno. Se a psicanálise é vulgarizada por toda parte e se ela constitui uma espécie de corrente no discurso cotidiano é porque já acabou. (FÉDIDA, Folha de S. Paulo, 20/08/1987)
Em P8S5, o jornal projeta sobre o psicanalista – possivelmente embasado nas palavras ditas anteriormente por este, uma vez que o entrevistador inicia a pergunta com “o senhor diz que...” – a imagem de um sujeito identificado com uma FD que questiona o lugar do saber psicanalítico, que, segundo ele, estaria “de fora” da universidade. Ao mesmo tempo, ao estabelecer a associação entre psicanálise e saberes institucionalizados pela universidade, o jornal materializa um discurso que abrange questões como ciência e produção de
conhecimento. Assim, mesmo que a psicanálise esteja sendo tratada como “excluída” dos saberes que poderiam ser considerados “universitários”, estes discursos tocam a mesma região da memória discursiva.
Em P8S6, os discursos sobre o lugar da psicanálise também estão presentes neste enunciado – entre outras leituras, afinal, como já dito anteriormente, “em Análise do Discurso, o princípio da heterogeneidade nos diz que os discursos estão sempre constituídos por outros discursos que lhes antecedem e que intervêm neles” (NUNES, 2001, p. 39). Assim como em P8S6, parece haver uma busca por qualificar (ou desqualificar) a psicanálise, mas, enquanto no primeiro isto é efeito da comparação com os saberes legitimados pela universidade, no segundo, há uma afirmação de que a psicanálise se tornou “moda” ou “lugar comum”.
Além disso, o entrevistador em P8S5 utiliza o tom mais sugestivo, ao perguntar “será que...?”, ao passo que em P8S6, o jornal encaminha a questão como “gostaria de saber como o senhor vê...”. Em seguida, apresenta afirmações como a de que o “discurso psicanalítico foi exacerbado até as últimas consequências, disseminando-se por todas as instâncias da sociedade”, o que aponta para a imagem de um saber desagastado. E ainda finaliza com a pergunta: “O que resta da psicanálise...?”, ou seja, o jornal desvalida, assim, o saber psicanalítico.
A ideia de que um saber é ameaçado por uma “moda” aparece também em outro enunciado, mas que não se refere à psicanálise.
P8S7: Entrevistador: Como a psicanálise vê a moda da PNL, que promete cura rápida de
fobias, além da prosperidade material?
Psicanalista: São discursos diametralmente opostos. A psicanálise não pretende nada do que
promete a neurolinguística. A psicanálise é um método de investigação e se o resultado dessa investigação melhora a vida de alguém, é um mero efeito. Numa época de imediatismo, a psicanálise só pode ser vista como longa. A psicanálise não tem cura para o mal-estar da condição humana. (CALMON, O Globo, 08/05/1994)
Neste caso, a “moda” que tem por efeito vulgarizar um saber, não diz respeito à psicanálise, mas a outra técnica do campo da saúde mental, a Programação Neurolinguística (PNL), colocando em debate a relação de poder entre saberes. Destaca-se que a pergunta é introduzida pelo jornal de modo a colocar o entrevistado na posição de “representante” do saber, como “aquele que fala em nome da psicanálise” – o que pode ser entendido a partir da colocação “como a psicanálise vê...?”. Assim, a questão não foi posta ao sujeito psicanalista como nos demais exemplos que se dirigem nas formas de “você” ou “o senhor”, mas de maneira a fundir o sujeito com o saber que constitui.