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Imagem do psicanalista “clínico” IA (A) 5

No documento iarabastoscampos (páginas 141-145)

4.2 PROJEÇÕES IMAGINÁRIAS DE PSICANALISTAS NOS JORNAIS

4.2.1 As projeções imaginárias de/sobre psicanalistas nos jornais

4.2.1.5 Imagem do psicanalista “clínico” IA (A) 5

A projeção imaginária do psicanalista clínico corresponde àquela em que o especialista analisa e, por vezes, diagnostica um sujeito. Esta imagem é a mais frequente entre as colunas de “consultório sentimental”, no entanto, está presente também em textos outros, como exemplifica o segmento P5S1, a seguir:

P5S1: “Mal te vi a minha vida foi só tua e chego a ter prazer em sacrificá-la”. Então,

também se trata de um prazer. O que nós, outras, conhecemos disso? Muito ainda, mas

não o confessamos aos nossos amantes: confessamos, culpadas e ansiosas pela cura, aos

nossos psicanalistas. (KEHL, Folha de S. Paulo, 06/12/1992)

No enunciado destacado acima, a psicanalista procura entender e analisar um comportamento, a partir de uma frase: “Mal te vi a minha vida foi só tua e chego a ter prazer em sacrificá-la”. A seguir, a autora discute, questionando este “prazer”. Neste momento, o texto segue o estilo de uma coluna de consultório sentimental, em que se fragmenta a carta de um leitor em frases, a fim de tentar compreender suas questões e comentá-las, com frequência propondo questionamentos ao leitor, como feito em: “O que nós, outras, conhecemos disso?”.

Importante atentarmo-nos que se projeta uma leitora que teria “prazer em sacrificar a vida” – o que está evidenciado pela demarcação de gênero em “outras”, bem como em “culpadas e ansiosas” – enquanto que “aos nossos psicanalistas”, considera a possibilidade de estes serem do gênero masculino. Ressalta-se também que em textos desse tipo, “os nomes dos leitores são fictícios para garantir o anonimato dos remetentes” e, deste modo, “estabelece-se no jornal uma região de sentido em que o relato do leitor é transformado em ficção” (NUNES, 2003, p.51), produzindo efeitos de identificação não com o leitor, mas com o personagem criado pelo jornal, juntamente com o colunista.

Outra questão que nos chama a atenção na referência aos psicanalistas é a utilização do verbo “confessar”, que, como um atravessamento do discurso religioso, posiciona este especialista na posição de alguém que ouve passivamente, como um padre, por exemplo, durante a confissão. Como já discutido anteriormente, está em Foucault (2012) a crítica à psicanálise como uma atividade de confissão da sexualidade, algo que pode também constituir a memória do discurso ao qual remete a colunista.

De modo mais direto, a figura do psicanalista clínico aparece, como exemplifica P5S2, a seguir, quando há identificação de características que apontam para diagnósticos:

P5S2: Drummond era um homem na linha esquizotímica, retraído, brioso – e também

orgulhoso, no bom sentido. Não penso que fosse um caso de orgulho às avessas, não. Era

tímido e – curiosamente – tinha um problema de autoestima apesar de toda a importância

que teve como poeta genial. (PELLEGRINO, O Globo, 23/09/1990)

Em enunciados como os destacados acima, o autor utiliza do conhecimento clínico de analista para construir um diagnóstico e o expõe publicamente, nos jornais. Aqui, o “analisando” é o escritor Carlos Drummond de Andrade, quem o colunista afirma, em outra parte do texto, ter conhecido pessoalmente e, por isso, se autoriza a diagnosticá-lo, afirmando que “tinha um problema de autoestima” e era “um homem na linha esquizotímica, retraído, brioso – e também orgulhoso”.

Em sequência, o psicanalista acrescenta: “no bom sentido”. Este elemento discursivo indica a função-autor, de tentativa de explicar – neste caso, corrigir – o sentido sugerido anteriormente, o que nos remete à fórmula “X, não no sentido de q” que, embora não seja exatamente reproduzida, denuncia, da mesma maneira, a “realidade enunciativa do não-

um do sentido”, enquanto que há a necessidade do autor de uma “especificação de um

sentido”. É ao reconhecer a possibilidade de compreensão de um outro sentido de “q” (neste caso, de uma leitura demasiadamente negativa de Drummond) que o enunciador “coloca „seu‟ sentido” (AUTHIER-REVUZ, 1998, p.32).

Passamos, então, aos exemplos de colunas do tipo “consultório sentimental”, em que predomina a imagem do psicanalista “clínico”. É neste espaço em que o psicanalista “defronta-se com essa imagem pré-construída e socialmente aceita sobre seu saber: um saber voltado para a divulgação de explicações e soluções de problemas” (MARIANI, 2003, p.9), como podemos ver nos enunciados a seguir.

P5S3: A sua sexualidade era como um aparelho complicado, que chega sem o manual de instruções para fazê-lo funcionar. Ela não conseguia gozar com o marido porque

desconhecia o conteúdo de suas fantasias eróticas. Fazer sexo sem fantasias é como comer sem fome. [...] L. tem parceiro, mas como faltam as fantasias, não tem prazer.

(GOLDIN, O Globo, 25/01/1998)

O percurso da análise do psicanalista, nesta coluna, comumente repete a seguinte estratégia: começa por apresentar o problema, resumindo a queixa descrita na carta da leitora – “ela não conseguia gozar com o marido” –, em seguida, explica o problema,

reinterpretando-o psicanaliticamente – “porque desconhecia o conteúdo de suas fantasias eróticas” – e, por fim, detalha, como que contando para terceiros: “L. tem parceiros, mas como faltam as fantasias, não tem prazer”. Nota-se, portanto, que o colunista não direciona sua resposta à leitora que o consultou, mas aos demais leitores do jornal.

Além disso, o psicanalista parece se preocupar em fazer com que estes leitores, que são, sobretudo, projeções imaginárias do colunista, compreendam não só o que ele explica como também pelo que passa a pessoa que lhe escreveu. Isso é sugerido a partir da utilização de frases explicativas como “fazer sexo sem fantasias é como comer sem fome”.

Às vezes anônimas, como “L.”, às vezes apresentadas pelo primeiro nome, é possível considerar que a estratégia de utilização de um nome – ainda que fictício – pode significar, caso provoque a identificação com a leitora que se consulta através do jornal. No exemplo a seguir, “Simone” é analisada pelo psicanalista.

P5S4: Simone é uma mulher perfeitamente normal, muito mais do que imagina, ainda que seja mais magra ou mais alta que as outras. Seu problema é que, por rivalidade com o sexo masculino, na hora de fazer amor não tira só a roupa do corpo, mas também se desnuda da fantasia e fica limitada a sua mais crônica condição anatômica. Ninguém consegue um orgasmo com um cilindro de veias cobertas de pele, ela diz: “Nem se ele ficasse duas horas „socando‟ eu não conseguiria gozar”. Um dia, não muito distante, se conseguir reverter

sua posição de rivalidade, seu homem deixará de “ejacular dentro dela” ou de “socar” seu

interior como se fosse a preparação de uma caipirinha. (GOLDIN, O Globo, 13/09/1998) A personagem Simone recebe um diagnóstico após sua consulta, o de “uma mulher perfeitamente normal, muito mais do que imagina”. É perceptível, neste caso, a ênfase que o autor confere ao texto, a partir do uso dos sintagmas que destacamos, no entanto, logo em seguida, é escrita a expressão “seu problema é que...”, o que contradiz – ou, pelo menos, põe em dúvida – a normalidade que o mesmo psicanalista afirmou.

Na sequência, o autor, como nos demais textos, explica a questão central da carta (às vezes relendo-os através de conceitos psicanalíticos, às vezes não), e, então, apresenta a solução do “problema” em tom condicional: “Um dia, não muito distante, se conseguir

reverter sua posição de rivalidade...”. Embora mencione esta condição e afirme que ela pode

resolver o problema “um dia, não muito distante”, o autor não esclarece de que forma “Simone” deve agir para enfrentar sua questão. Assim, ele não assume, portanto, o papel de “conselheiro”, mas apenas de especialista capaz de compreendê-la.

Os psicanalistas clínicos, nos jornais, oscilam entre estas posições – analista e conselheiro – apresentando-se ora mais próximos, ora mais distantes daquele que os escreve, como nos mostram também os exemplos a seguir:

P5S5: Ela é teimosa e rema contra a maré; como foi vítima de abusos, quer agora abusar e

transgredir as normas sociais. Não existe imoralidade em seu comportamento, apenas uma inversão sistemática de valores. Se ensinaram a uma menina de 5 anos a se comportar

como mulher, aos 60, ela é uma menina ressentida que só deseja o que não pode ter. A norma diz: “não desejarás a mulher do teu vizinho”. Isto faz com que ela se apaixone pelo marido da vizinha. (GOLDIN, O Globo, 29/03/1998)

P5S6: Creio que estas duas jovens estão vivendo assim um processo de luto, de perda dos bons momentos passados juntas naquele grupo, e a esta perda vem sobrepor-se uma série

de outras relacionadas mesmo à etapa existencial que atravessam. Ou melhor, o sentimento de perda em relação àquele grupo seria uma experiência deslocada de outras situações originais, por exemplo, a perda do grupo familiar [...]. (SALAS, O Globo,

16/11/1986)

Em P5S5, ao invés de apresentar um diagnóstico psicanalítico (como em P5S2) ou de realçar que a leitora é “perfeitamente normal” (como em P5S4), o psicanalista qualifica a pessoa que a ele escreve como “teimosa”. Atravessado por uma FD que poderíamos chamar de “determinista”, uma vez que ressalta as relações de causalidade, do tipo “se p, logo q” – “como foi vítima de abusos, quer agora abusar e transgredir as normas sociais” – o autor parece justificar as atitudes da “analisanda” através da história que ela conta na carta. Em meio às justificativas comportamentais, ele afirma que “não existe imoralidade em seu comportamento, apenas uma inversão sistemática de valores” e, ao fazê-lo, não utiliza nenhum marcador textual de “opinião”.

Ao contrário disso, em P5S6 o autor afirma, em primeira pessoa, crer que as “duas jovens estão vivendo assim um processo de luto”. Aqui, a marca opinativa, está presente, além do diagnóstico “clínico” (de luto) seguido da análise e apresentação de outro sentido para a situação de “perda” que as jovens enfrentam. Cabe ressaltar o uso da expressão “ou melhor” que, com efeito de retificação, pode ser considerada como “elemento exterior em relação ao discurso” que, segundo Authier-Revuz (1990, p.30), “interfere na cadeia do discurso em enunciação sob a forma de um ponto de heterogeneidade”.

Por vezes, os psicanalistas “clínicos” buscam definir sentimentos, emoções, sensações e explicá-los de forma didática, por vezes simplificada. Percebe-se que não estão agindo como “pensadores”, pois não lhes interessa refletir ou produzir conhecimento, mas

esclarecer um objeto de inquietação do sujeito, sem passar pela teoria, como nos serve de exemplo P5S7, a seguir:

P5S7: [...] podemos fazer uma comparação com um computador. Quando nos aproximamos a primeira vez de um computador, ficamos encantados com a tela. Porém, os comandos e os dados podem estar a dois metros ou 200 mil km. Nós ficamos apenas no

teclado e nos esquecemos dos chips, que são o cérebro do computador. Da mesma forma, homens e mulheres olham primeiro para o pênis ou o clitóris, mas os chips do organismo estão muito acima, no cérebro. (KUSNETZOFF, O Globo, 11/09/1994)

No segmento textual acima, extraído de uma entrevista, o psicanalista compara o corpo humano com um computador, a fim de explicar ao leitor como funciona o prazer na relação sexual. Para isso, ele não busca explicação na teoria psicanalítica, nem reflete sobre o prazer nos tempos atuais, mas mobiliza conhecimentos e utiliza o mesmo tom explicativo que teria a resposta de uma carta para a coluna de “consultório sentimental”, em “nós ficamos apenas no teclado e nos esquecemos dos chips, que são o cérebro do computador. Da mesma forma, homens e mulheres olham primeiro para o pênis ou o clitóris, mas os chips do organismo estão muito acima, no cérebro”. Além disso, há neste enunciado um sentido implícito, que é o de alerta de “como não fazer” em uma relação sexual, o que também aponta para a semelhança ao discurso do psicanalista consultado através do jornal.

No documento iarabastoscampos (páginas 141-145)