Para compreender discursos de/sobre o psicanalista, na imprensa, precisamos antes reconhecer que os sentidos não estão dados em uma determinada textualidade (seja verbal ou não verbal, como o gesto, a voz, e a imagem), mas são resultados do posicionamento dos sujeitos no discurso – ou seja, na relação do sujeito com a história (ideologia) e a linguagem, uma vez que “o discurso é o lugar em que se pode observar [a] relação entre língua e ideologia, compreendendo-se como a língua produz sentidos por/para os sujeitos” (ORLANDI, 2005, p.17).
O discurso é também definido como “efeito de sentido entre interlocutores” (ORLANDI, 2005, p.21), de forma que, para a AD, o processo da comunicação não se realiza simplesmente como transmissão de informação de um indivíduo a outro. Em outras palavras, “não há sentidos em si. Eles são „relação a‟ e não são gerais, mas se determinam pelas condições em que são produzidos, em formações imaginárias: imagem de quem fala, de quem ouve, do próprio objeto de que se fala, das circunstâncias em que irrompem” (ORLANDI, 2001, p.164).
Além disso, a perspectiva discursiva concebe textualidades como formas de materialização do discurso, questionando os efeitos de transparência e de literalidade da língua (ORLANDI, 2007a, p.21).
Outra questão conceitual importante diz respeito às etapas dos processos de produção do discurso. São elas: “sua constituição, a partir da memória do dizer”, “sua formulação” e “sua circulação que se dá em certa conjuntura e segundo certas condições” (ORLANDI, 2001, p.9). Nesta pesquisa, levaremos em conta as três etapas, atentando-nos mais para a formulação e a circulação, a partir dos discursos de psicanalistas materializados em textos de colunas e entrevistas publicadas nos jornais.
Para problematizar a relação entre Análise de Discurso e comunicação, entendemos que “a AD trabalha o lugar da mídia nesse processo de produção e constituição político-simbólicas, diferentemente das teorias sociais, nas suas múltiplas linhas, que buscam os processos de manutenção e transformação social” (ALVES, 2007, p.28).
Com base nisso, e uma vez que a mídia assume uma responsabilidade “pela circulação, no espaço público, de palavras e fórmulas cujos efeitos são altamente simbólicos” (KRIEG-PLANQUE, 2010, p.117), consideramos o papel dos meios de comunicação – inseridos em um jogo de disputas de saberes e capazes de estabelecer, entre eles, relações de força – em eleger determinadas vozes e acabar, portanto, promovendo, amplificando e fazendo circular certos sentidos em detrimento de outros.
Dessa forma, as palavras e os sentidos não estão “soltos”, mas são
administrados por relações de poder, por determinações históricas, por injunções institucionais. Na análise de discurso dizemos isso falando que há uma divisão social do trabalho da interpretação: mesmo que os sentidos (e as palavras) estejam soltos, os gestos de interpretação sempre se dão em posições ideológicas que podem ser analisadas e, assim, compreendidas, em seu funcionamento. Isto porque os sujeitos (se) significam a realidade social e natural em determinadas condições e a partir de um saber discursivo, uma memória que se faz pela filiação a uma rede de sentidos, historicamente determinados e politicamente significados (ORLANDI, 2001, p.141-142, grifo nosso).
Segundo esta concepção, os sentidos são construídos e propagados de forma atrelada à ideologia (à história) e interpelam (ao mesmo tempo em que são interpelados por) a linguagem, o político, o sujeito. Por isso, não é possível haver “unicidade de sentidos” e, diante disso, Orlandi (2001, p.144) afirma que “o sentido claro é aquele que se estabiliza, o sentido dominante”. Assim, alguns discursos propagam-se e fixam-se mais do que outros, pois “faz parte da encenação retórica do poder advogar a clareza, a transparência, praticando assim o apagamento, o silenciamento dos outros sentidos possíveis” (ORLANDI, 2001, p.144). A demarcação das relações de poder passam, portanto, pela linguagem ou, como explicita Orlandi (2001, p.144), há um “poder de linguagem” que “se exerce pela força dos lugares de interpretação”.
Nesta pesquisa, a elaboração da análise se dará em duas etapas consecutivas que correspondem à identificação de: 1) Famílias Temáticas e, em seguida, de Trajetos Temáticos, ao longo do período de 1980 a 1998; e 2) identificação de Projeções Imaginárias, o que nos remete, consequentemente, às Formações Discursivas (FDs) e Memória Discursiva.
A etapa primeira, de identificação das Famílias Temáticas (FT), implica na categorização das colunas e entrevistas de forma a permitir traçar, posteriormente, o Trajeto Temático das FTs mais recorrentes nos jornais. Ressaltamos que, para extrair o tema das materialidades, observamos elementos textuais e discursivos, não realizando, portanto, uma Análise de Conteúdo, que se atentaria apenas aos primeiros. Importante destacar também que nossa análise centra-se em elementos verbais, desconsiderando imagens, fotos e design da página do jornal.
Conceitualmente, a noção de Trajeto Temático mobiliza a história do discurso ao organizar, ao longo de um período de tempo, mecanismos para a observação de sentidos materializados nos textos. Assim,
com a descrição de um trajeto temático, nós estamos no centro de múltiplas redes de enunciados, articulados cronologicamente em torno de atos configuradores. Como tal, e para o grande benefício do pesquisador, os recursos textuais mais diversos são mobilizáveis: atos de linguagem, apontamentos sociopolíticos, normas politico- linguísticas explícitas, noções-conceitos, etc.9 (GUILHAMOU, 1993, p.11-12, tradução nossa).
Neste caso, interessam-nos noções-conceito apropriadas pela Análise do Discurso, principalmente as “projeções imaginárias” (que serão apresentadas mais detalhadamente na seção seguinte), que constituem nosso “ponto de ataque” desta análise.
Segundo Guilhamou (1993), determinadas expressões permitem a identificação de um Trajeto Temático, pois regulam um campo discursivo, devido à vasta produção e emissão de enunciados. A fim de captar estes sentidos propagados ao longo do tempo, devemos observar a regularidade enunciativa de um enunciado situado na proximidade de outro, pois “ao encontro de toda interrogação sobre a origem ou a originalidade lexical de um enunciado, sua regularidade é um recurso inédito, uma riqueza incomparável que manifesta as regras de
9 Avec la description d'un trajet thématique, nous sommes au coeur de multiples réseaux d'énoncés, articulés chronologiquement autour d'actes configurants. A ce titre, et au plus grand profit du chercheur, les ressources textuelles les plus diverses sont mobilisables : actes de langage, désignants socio-politiques, normes politico- linguistiques explicites, notions-concepts, etc. (GUILHAMOU, 1993, p.11-12).
funcionamento do trajeto temático em que ele se atualiza”10
(GUILHAMOU, 1993, p.11, tradução nossa).
É preciso mencionar também que ao abordarmos o conceito de Trajeto Temático, estaremos atentos à relação entre AD e história – ou melhor, uma “análise de discurso do lado da história” (GUILHAMOU, 2007) – o que nos exige uma atenção redobrada sobre o arquivo que compõe nosso corpus, pois estão em jogo “noções de acontecimentos, de tópicos emergentes, de trajetos temáticos, de objetos discursivos, etc.” 11
, que demonstram as possibilidades, na língua, que se abrem e fornecem ao analista do discurso uma “maneira específica de abordar a materialidade da língua na discursividade do arquivo” 12 (GUILHAMOU, 2007, p.10, tradução nossa). Por isso nossa preocupação em expor, no capítulo anterior, questões da história da psicanálise no país, entre crises e cisões institucionais que constituem discursos sobre o psicanalista.
Tendo em vista tais cuidados metodológicos referentes à identificação de um Trajeto Temático, partimos, então, à análise discursiva, sendo que,
para analisar a superfície linguística de um discurso, faz-se necessário examinar os mecanismos sintáticos e o funcionamento enunciativo em questão, de- superficializando esses mecanismos e buscando estabelecer suas matrizes de sentido. Somente após essa etapa, é possível buscar a dessintagmatização discursiva, com vista a atingir o processo discursivo que lhe subjaz e, através dele, a FD [Formação Discursiva] que afeta o sujeito do discurso. (INDURSKY, 2013, p.42)
Então, depois de identificar as regularidades de sentido a respeito das imagens dos psicanalistas nas textualidades submetidas à análise, será possível reconhecer a que projeções imaginárias elas remetem.
A fim de exemplificar os resultados da análise, no capítulo seguinte indicaremos segmentos textuais extraídos das colunas e entrevistas com psicanalistas nos quais destacaremos, em negrito, os enunciados recortados. Destacamos que, segundo Pêcheux (2008, p.53), o enunciado ou a sequência de enunciados é “linguisticamente descritível como uma série (léxico sintaticamente determinada) de pontos de deriva possíveis, oferecendo lugar à interpretação”. São estes pontos de deriva que exemplificaremos ao apontar os discursos materializados nos textos dos jornais.
10
A l'encontre de toute interrogation sur l'origine ou l'originalité lexicale d'un énoncé, sa régularité est une ressource inédite, une richesse incomparable manifestant les règles de fonctionnement du trajet thématique où il s'actualise (GUILHAMOU, 1993, p.11).
11 notions d'événements, de sujets émergents, de trajets thématiques, d'objets discursifs, etc. (GUILHAMOU, 2007, p.10).
12 une manière spécifique d'aborder la matérialité de la langue dans la discursivité de l’archive, qui fournit du travail au linguiste (GUILHAMOU, 2007, p.10).
Além disso, levamos em consideração, ao longo da análise, que discursos são mobilizados pelos psicanalistas em colunas e entrevistas, identificando algumas Formações Discursivas (FD). Estas podem ser conceituadas como “regiões historicamente determinadas de relações de força e de sentidos”, ou ainda, “pontos do dizer em que se reúnem as diferentes formulações de enunciados” (ORLANDI, 2007a, p.20).
Dessa forma, as FDs são do nível do discurso e não do texto; apenas é possível identificá-las ao pensarmos nas textualidades como materializações discursivas. Segundo Courtine (2013, p.59), “as formações discursivas não são jamais dispositivos locais, mas atravessam e religam uma pluralidade heterogênea e disseminada de campos do saber e de regimes de práticas”.
Embora não apontemos as Formações Imaginárias (FI) referentes às FDs identificadas é preciso estar atento à existência delas, pois são do nível da ideologia e, por isso, interferem nas projeções imaginárias. Aqui, um adendo sobre este conceito para a AD se faz necessário. Esta disciplina considera que “não há discurso sem sujeito nem sujeito sem ideologia” (ORLANDI, 2005, p.17). Desse modo, uma vez que o sujeito é interpelado pela língua e pela história, estes dois elementos são também constitutivos do discurso. “A ideologia se produz, assim, justamente no ponto de encontro da materialidade da língua com a materialidade da história” (ORLANDI, 2007a, p.20).
Além disso, a ideologia é percebida, pela Análise de Discurso, não como o convencionado para as ciências sociais e humanas – com sentido de “ocultação”, de “verdadeiros sentidos do discurso, que estariam escondidos” –, mas como um processo de produção “de uma interpretação particular” (ORLANDI, 2007a, p.96), produzindo efeitos de “evidência” que se sustentam sobre sentidos já institucionalizados e admitidos por todos como “natural” (ORLANDI, 2007a, p.96).
É possível também compreender que a ideologia representa um “efeito de completude” de sentidos já estabelecidos. No entanto, “o discurso é sempre incompleto assim como são incompletos os sujeitos e os sentidos” (ORLANDI, 2001, p.113) e a incompletude faz parte do processo de produção de sentidos – sentidos estes que podem ser considerados como “trajetos simbólicos e históricos não terminados” (ORLANDI, 2001, p.114).
A incompletude é marcada, na linguagem, pelo equívoco, que significa não o erro, mas aquilo que falta, o furo da linguagem. O “furo” existe também na ideologia, que é a contradição, e na psicanálise, que é o inconsciente (FERREIRA, 2005, p.71). Esta falta, a impossibilidade de completude, resulta na incapacidade de totalização dos sentidos tanto por aqueles que fazem circular dizeres (neste caso, os jornais e os psicanalistas) como por aqueles
que desejam capturar esses sentidos (os leitores ou analistas do discurso). Por isso, destacamos que “em Análise do Discurso, não existe um modelo que se aplique automática e indiferenciadamente a todo e qualquer discurso” (INDURSKY, 2013, p.59).
É preciso ressaltar também outro princípio da AD, que é o da heterogeneidade como marca do discurso, o que permite que um enunciado possa se identificar com mais de uma FD (ORLANDI, 2005). Segundo Orlandi (2001, p.115), “todo texto é heterogêneo do ponto de vista de sua constituição discursiva: ele é atravessado por diferentes Formações Discursivas, ele é afetado por diferentes posições do sujeito, em sua relação desigual e contraditória com os sentidos, com o político, com a ideologia”. Além disso, “todo texto, oral ou escrito, traz consigo um conjunto de versões possíveis que o rodeiam” (ORLANDI, 2001, p. 142). Por isso, um mesmo segmento textual pode apontar para mais de um tipo de projeção imaginária, o que buscaremos apontar quando identificado.
Observar isso é importante na medida em que o trabalho de análise não pode silenciar discursos concorrentes. Mesmo que possamos perceber um ou outro discurso predominante, é justamente o funcionamento da heterogeneidade que é preciso mapear. Neste caso, portanto, tomaremos o cuidado de não fazer leituras unívocas, que só confirmem hipóteses.