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Comunicação e poder

No documento iarabastoscampos (páginas 30-33)

2.1 COMUNICAÇÃO, PODER E SABER

2.1.3 Comunicação e poder

Embora Michel Foucault e Pierre Bourdieu apresentem abordagens distintas acerca do poder – uma histórica e, a outra, sociológica –, ambos nos permitem expandir a compreensão das relações de força e de poder. Neste subcapítulo, nossa intenção é pensar as práticas da comunicação por meio das noções conceituais fornecidas pelos autores.

Primeiramente, podemos dizer que a concepção foucaultiana de redes capilares de poder, que transitam em múltiplos sentidos na sociedade, leva-nos a compreender a comunicação não como detentora de um poder único em uma dada hierarquia, mas como área repleta de mecanismos, instrumentos e dispositivos de força. É importante ressaltar que os micropoderes são exercidos tanto nas relações internas – como no interior das instituições jornalísticas e nas estruturas de produção midiática, de forma geral – como também na relação da comunicação, enquanto campo de práticas relacionadas à imprensa, com os demais campos.

Neste sentido, há regimes de verdade que selecionam e controlam a produção e a circulação de discursos, determinando quais deles podem ser (mais ou menos) ou não ser divulgados. Segundo esclarece Gregolin (2007, p.15), para Foucault, “a produção do discurso é controlada, selecionada, organizada e redistribuída por procedimentos que visam a determinar aquilo que pode ser dito em um certo momento histórico”. Dessa forma, fica evidente a força da comunicação – mais especificamente da imprensa – na seleção de

discursos, vozes ou saberes tomados como “autorizados” ou “verdadeiros”, conforme regimes de verdade que funcionam social e historicamente.

Este “regime de verdades”, que é construído historicamente, parte de instituições produtoras de discursos, como as universidades (com o saber científico), as forças armadas e policiais e todo o aparato jurídico, o exército, as escolas, a religião, as instituições do estado, etc. e perpassa instâncias da sociedade, dentre as quais se encontram os meios de comunicação. É importante ressaltar que, neste cenário, a mídia não é mera ferramenta de propagação de discursos, controlada por instituições que produzem saberes dominantes. Ela participa ativamente da produção de discursos, além da escolha de que dizeres devem ser propagados e quais especialistas, possivelmente entendidos como intelectuais, devem ser ouvidos. Pelo viés da Análise de Discurso, é possível entender que “o poder está sempre rodeando os sentidos que produzem com uma grande quantidade de discursos que teria a finalidade de explicá-los, desambiguizá-los, para nos dar a certeza do (seu) sentido (verdadeiro)” (ORLANDI, 2001, p.144).

Apontadas as aplicações conceituais de poder em Foucault para a imprensa, passamos à reflexão acerca das contribuições do pensamento de Bourdieu, que nos fornece aparato teórico para perceber socialmente as relações de comunicação como relações de poder que produzem efeitos essencialmente simbólicos. Entretanto, o sociólogo defende que

não basta notar que as relações de comunicação são, de modo inseparável, sempre, relações de poder que dependem, na forma e no conteúdo, do poder material ou simbólico acumulado pelos agentes (ou pelas instituições) envolvidos nessas relações e que, como o dom ou o potlatch, podem permitir acumular poder simbólico (BOURDIEU, 1989, p. 11).

Sendo mais complexo do que isso, é preciso compreender que os sistemas simbólicos enquanto instrumentos – estruturados e também estruturantes – de comunicação e de conhecimento exercem a sua “função política de instrumentos de imposição ou de legitimação da dominação, que contribuem para assegurar a dominação de uma classe sobre outra (violência simbólica)” (BOURDIEU, 1989, p. 11).

Neste sentido, há um efeito ideológico no funcionamento das produções simbólicas como instrumentos de dominação que produz a cultura dominante,

dissimulando a função de divisão na função de comunicação: a cultura que une (intermediário de comunicação) é também a cultura que separa (instrumento de distinção) e que legitima as distinções compelindo todas as culturas (designadas como subculturas) a definirem-se pela sua distância em relação à cultura dominante (BOURDIEU, 1989, p.10-11).

Além disso, se para o autor a apropriação do senso comum pelos profissionais do

poder simbólico – ou seja, não só por aqueles que exercem essa forma de poder diretamente,

mas também pelos que são cúmplices, ainda que sem o reconhecer, do exercício de tais relações de poder – é uma das mais importantes estratégias para atingir determinado grupo pelos instrumentos de dominação simbólica, é possível compreender os meios de comunicação de massa, nesse processo, como um destes instrumentos. Isso se dá porque é a partir deles que a mídia define comportamentos, modos de pensar e de agir correspondentes às culturas “dominantes”.

Os media funcionam, neste cenário, como “instâncias significativas de fixação do

habitus e criação de sistemas simbólicos de poder” (OLIVEIRA, p.5, 2009). Isso é

consequência de um mecanismo de validação de imagens e discursos que circulam de forma a massificar o que é considerado cultura popular e mantendo restrito o que seria elitizado. É neste sentido que Bourdieu traz a afirmação de que “a distribuição das opiniões em uma população determinada depende do estado dos instrumentos de percepção e de expressão disponíveis e do acesso que os diferentes grupos têm a esses instrumentos” (BOURDIEU, 1989, p.64).

Ainda em relação ao poder simbólico, mas de forma a funcionar no domínio de

campos simbólicos, é importante destacar que “há tantos campos quantas são as formas de

interesse: leis de mercado, jogo de risco e interesse capital” que se estabelecem pela força do

habitus (OLIVEIRA, p.7, 2009). Portanto, uma leitura dos campos simbólicos dos meios de

comunicação de massa nos leva à compreensão de que os media não exercem poder independentemente, mas estabelecem a condição de dominação diante de um jogo complexo de interesses. Neste sentido, aplicamos a concepção de habitus, de forma a identificar, na imprensa, o poder de agir na

construção de um novo agente social portador de um habitus alinhado às pressões modernas. No caso específico dos indivíduos da atualidade, grande parte deles precocemente socializados pela mídia, a realidade da cultura de massa parece ser inexorável. Pulverizando e tornando visível uma série de experiências biográficas, modelos identitários distintos dos apreendidos nos contextos locais da família e da escola, a mídia opera como agente socializador descontextualizado (SETTON, 2002, p.69).

Dessa forma, o papel dos meios de comunicação em fazer circular discursos – produzindo efeitos de evidência e de sentidos5 – funciona de maneira semelhante ao de chefes

5 Fazemos aqui uma remissão à Análise do Discurso, que entende efeito de evidência a partir da ilusão referencial e do conceito de transparência da linguagem (ORLANDI, 2007b, p.32). Esta noção está ligada à zona de esquecimento número dois, ou seja, à ilusão do tipo “eu sei o que eu digo” e efeito de sentido entre interlocutores como a definição conceitual de “discurso” (ORLANDI, 2005).

e líderes religiosos ou políticos, que se portam como emissores de mensagens supostamente legítimas, falando, pelas imagens validadas simbólica e socialmente, em nome de um grupo. Assim, estruturam e sustentam os processos de comunicação e de hierarquização de valores e normas no âmbito da sociedade.

No documento iarabastoscampos (páginas 30-33)