• Nenhum resultado encontrado

A manipulação da vida e o tema dos “limites”

No documento IniciaçãoaBioética-LivroInteiro (páginas 101-103)

A questão da “manipulação da vida” pode ser contemplada a partir de variados ângulos: biotecnocientífico, político, econômico, social, jurídico, moral... Em respeito à liberdade indivi- dual e coletiva conquistada pela huma- nidade através dos tempos, a pluralidade constatada neste final do século XX re- quer que o estudo bioético do assunto contemple, na medida do possível e de forma multidisciplinar, todas estas pos- sibilidades.

Com relação à vida futura do pla- neta, não deverão ser regras rígidas ou “limites” exatos que estabelecerão até onde o ser humano poderá ou deverá chegar. Para justificar esta posição, vale a pena levar em consideração al- guns argumentos de Morin sobre os sistemas dinâmicos complexos. Para ele, o paradigma clássico baseado na suposição de que a complexidade do mundo dos fenômenos devia ser resol- vida a partir de princípios simples e leis gerais não é mais suficiente para con- siderar, por exemplo, a complexidade da partícula subatômica, a realidade cósmica ou os progressos técnicos e científicos da área biológica (15). En- quanto a ciência clássica dissolvia a complexidade aparente dos fenômenos e fixava-se na simplicidade das leis imutáveis da natureza, o pensamento complexo surgiu para enfrentar a

complexidade do real, confrontando- se com os paradoxos da ordem e de- sordem, do singular e do geral, da parte e do todo. De certa forma, in- corpora o acaso e o particular como componentes da análise científica e coloca-se diante do tempo e dos fe- nômenos.

Segundo Hans Jonas, o tema da “liberdade da ciência” ocupa posição única no contexto da humanidade, não limitada pelo possível conflito com outros direitos (16). Para ele, no en- tanto, o observador mais atento perce- be uma contradição secreta entre as duas metades dessa afirmação, porque a posição especial alcançada no mun- do graças à liberdade da ciência signi- fica uma posição exterior de poder e de posse, enquanto a pretensão de incondicionalidade da liberdade da in- vestigação tem que apoiar-se precisa- mente em que a atividade de investi- gar, juntamente com o conhecimento, esteja separada da esfera da ação. Por- que, naturalmente, na hora da ação toda liberdade tem suas barreiras na responsabilidade, nas leis e conside- rações sociais. De qualquer maneira, ainda de acordo com Jonas, sendo útil ou inútil a liberdade da ciência é um direito supremo em si, inclusive uma obrigação, estando livre de toda e qual- quer barreira.

Abordando o tema da “ética para a era tecnológica”, Casals diz que “tra- ta-se de atingir o equilíbrio entre o extremo poder da tecnologia e a consciência de cada um, bem como da sociedade em seu conjunto: “Os avanços tecnológicos nos remetem sempre à responsabilidade individual, bem como ao questionamento ético dos envolvidos no debate, especialmente

104

aqueles que protagonizam as tomadas de decisões”(16).

De acordo com o que já foi colo- cado anteriormente, para as pessoas que defendem o desenvolvimento livre da ciência, embora de forma respon- sável e participativa, é difícil conviver pacificamente com expressões que es- tabeleçam ou signifiquem “limites” para a mesma. O tema, contudo, é de difícil abordagem e solução. Por isso, enquanto não encontrar uma expres- são (ou iluminação moral suficiente...) que se adeque mais às minhas exatas intenções prefiro utilizar a palavra “li- mites” entre aspas, procurando, com esse artifício, certamente frágil, expres- sar minha dificuldade sem abdicar de minhas posições.

Assim sendo, é necessário que se passe a discutir sobre princípios mais amplos que, sem serem quantitativos ou “limítrofes” na sua essência, pos- sam proporcionar contribuições conceituais e também práticas no que se refere ao respeito ao equilíbrio multicultural e ao bem-estar futuro da espécie. Nesse sentido, parece-nos in- dispensável agregar à discussão alguns temas que tangenciam as fronteiras do desenvolvimento, sem limitá-lo: a pluralidade e a tolerância, a participa- ção e a responsabilidade; a eqüidade e a justiça distributiva dos benefícios (18, 19).

Diversos setores da sociedade, principalmente aqueles religiosos e mais dogmáticos, têm traçado uma visão perturbadora, pessimista e apocalíptica da relação entre a ciên- cia e a vida humana neste final de sé- culo. Um dos documentos mais respei- táveis surgidos nos últimos anos e que contempla a discussão bioética – a

Encíclica Evangelium Vitae, do Papa João Paulo II – desenvolve esta linha de pensamento (20). A relação de te- mas abordados pela Encíclica papal abrange tudo aquilo que se opõe de forma direta à vida, como a fome e as doenças endêmicas, guerras, homicí- dios, genocídios, aborto, eutanásia; tudo aquilo que viole a integridade da pessoa, como as mutilações e torturas; tudo aquilo que ofenda a dignidade humana, como as condições subhu- manas de vida, prisões arbitrárias, es- cravidão, deportação, prostituição, trá- fico de mulheres e menores, condições indignas de trabalho. A partir desta realidade incontestável o Papa chega a definir o século XX como uma épo- ca de ataques massivos contra a vida, como o reino do culto à morte. A ve- racidade destes fatos, no entanto, é maculada pela unilateralidade do jul- gamento sobre o presente e pela es- curidão apontada para o futuro.

A insistência nos aspectos nega- tivos da realidade obstaculiza uma vi- são mais precisa e articulada deste século. Sem cair na posição oposta, deve-se reconhecer que o século XX, apesar das guerras e crimes e de estar se encaminhando para seu final em clima de incerteza, foi também o sé- culo da vida. Foi o século no qual aprofundou-se o conhecimento cientí- fico sobre a própria vida que, sem dú- vida, melhorou em termos de qualida- de para a maioria da espécie huma- na. Foi o século no qual, pela primeira vez na história, a duração média da vida aproximou-se aos anos indicados como destino “normal” da nossa es- pécie; no qual a saúde dos trabalha- dores foi defendida e sua dignidade reconhecida em muitos países; onde

105

vimos emergir os direitos vitais, jurídi- cos e culturais das mulheres, que nos séculos anteriores foram sempre des- prezados; em que existiu uma substan- cial valorização do corpo; onde as ci- ências biológicas e a medicina chega- ram a descobertas fantásticas, benefi- ciando indivíduos e populações. O grande desafio de hoje, portanto, é construir o processo de inclusão de todas as pessoas e povos como beneficiários deste progresso.

A força da ciência e da técnica está, exatamente, em apresentar-se como uma lógica utópica de liberta- ção que pode levar-nos a sonhar para o futuro inclusive com a imortalidade. Tudo isso deveria, pois, desaconselhar as tentativas de impor uma ética auto- ritária, alheia ao progresso técnico-ci- entífico. Deveria, além disso, induzir- nos a evitar formulações de regras ju- rídicas estabelecidas sobre proibições. É preferível que os vínculos e os “limi- tes” das leis sejam declinados positi- vamente e que seja estimulada uma moral autógena, não imposta mas ine- rente. Em outras palavras, é necessá- rio que entre os sujeitos ético-jurídicos não seja desprezada a contribuição daqueles que vivem a dinâmica pró- pria da ciência e da técnica (os cien- tistas), sem chegar, todavia, a delegar somente a estes decisões que dizem respeito a todos.

Nesse sentido, é necessário que ocorram mudanças nos antigos paradigmas biotecnocientíficos, o que não significa obrigatoriamente a dis- solução dos valores já existentes, mas sua transformação: “deve-se avançar de uma ciência eticamente livre para outra eticamente responsável; de uma tecnocracia que domine o homem

para uma tecnologia a serviço da hu- manidade do próprio homem (...) de uma democracia jurídico-formal a uma democracia real, que concilie li- berdade e justiça (21). Trata-se, por- tanto, de estimular o desenvolvimento da ciência dentro de suas fronteiras humanas e, ao mesmo tempo, de desestimulá-lo quando essa passa a avançar na direção de “limites” desu- manos.

“Endeusamento” versus

No documento IniciaçãoaBioética-LivroInteiro (páginas 101-103)