A MOBILIDADE NA CULTURA DIGITAL
4.2 ASPECTOS DA MOBILIDADE
4.2.1 A mobilidade e suas dimensões
A mobilidade, ainda que não defina uma realidade totalmente nova, é uma palavra-chave para que as dinâmicas vividas na cultura digital sejam compreendidas. Se observarmos o surgimento dos meios de comunicação anteriores a internet, perceberemos que já contávamos com aspectos da mobilidade: andar pelas ruas, parques e à beira do mar, acompanhados do rádio de pilha ou até mesmo do walkman, eram práticas que possibilitavam que carregássemos o som ao nosso corpo para além do som controlado nos aparelhos fixos de nossos lares. Se retornarmos um pouco mais na História, podemos citar os livros e outras mídias – tais como jornais e revistas – como exemplo de meios móveis. O que muda no cenário atual, especialmente, com a cultura digital, é que mais do que a portabilidade
(elemento fundamental da mobilidade), temos a nosso favor a conectividade com o ciberespaço e, deste com as nossas práticas sociais.
O que percebemos é que a mobilidade ganhou forte impulso com a eletricidade, atingindo a revolução industrial e penetrando no cotidiano e espaços onde as pessoas circulam, criam, produzem, trabalham, estudam e se divertem. Entretanto, outras dimensões se fazem perceber a partir da mobilidade, principalmente, sob o aspecto comunicacional, potencializado pela presença dos dispositivos móveis. É nesse sentido que Lemos (2009c) nos apresenta pelo menos três dimensões fundamentais da mobilidade: a física (transporte, de pessoas, objetos), do pensamento (cognitiva/imaginária) e a informacional (sistemas de comunicação e fluxo de informação).
Reconhecemos que cada dimensão da mobilidade sugerida por Lemos (2009c) não pode ser compreendida sob uma perspectiva isolada; ao contrário, uma dimensão influencia e é influenciada por outra, na medida em que a informação pode desterritorializar33 (DELEUZE;
GUATARRI, 2012) um pensamento ou pode provocar outra mobilidade. Da mesma forma, não é possível dissociar comunicação, mobilidade, espaço e lugar. Lemos (2009c) ao refletir sobre a mobilidade, declara que ela deve ser politizada e não deve ser vista apenas como um percurso entre pontos ou acesso à determinada informação. Para o autor, “ela não é neutra e revela formas de poder, controle, monitoramento e vigilância.” (p. 29).
Nesse sentido, com a cultura digital e as possibilidades da convergência – que integram em um mesmo ambiente elementos de linguagem de duas ou mais mídias interligadas –, ganha notoriedade a mobilidade física, que se refere aos deslocamentos do corpo, bem como dos objetos, mercadorias ou serviços. Para Cordeiro, (2014) nós nos deslocamos pelo espaço físico, caminhando ou sendo transportados por meios de locomoção, carregamos objetos pessoais, entre eles, os dispositivos que nos possibilitam a comunicação e a interação. Tudo isso, segundo a autora, “cria uma dinâmica potente de nossa relação com o ambiente, com as coisas, com os acontecimentos e com as pessoas.” (p. 148).
Podemos dizer que essa dinâmica passou a ser mais fortemente vivenciada com a emergência das tecnologias portáteis que, de forma direta, contribuiu para a possibilidade de se estar “constantemente conectado a espaços digitais e de, literalmente, se ‘carregar’ a internet aonde quer que se vá” (SOUZA E SILVA, 2006, p. 27). Para a autora, com essas
33 Entendemos que essa influência acontece apoiada nas ideias de multiplicidade de Deleuze e Guatarri (2012), ao afirmarem que “as multiplicidades se definem por fora: pela linha abstrata, linha de fuga ou de desterritorialização segundo a qual elas mudam de natureza ao se conectarem com as outras” (p. 17).
168 tecnologias portáteis, também vimos surgir interfaces sociais coletivas, uma vez que os dispositivos móveis criaram uma “relação mais dinâmica com a internet, incluindo-se em práticas cotidianas que ocorrem em espaços urbanos” (p. 24)
Ao pensar no contexto dos dias atuais e relacionarmos com nosso objeto de estudo, perceberemos, principalmente, entre as crianças e jovens, o surgimento dessas interfaces sociais coletivas, que provocam uma relação mais estreita com os lugares, com as pessoas e com os objetos, tais como a presença dos “jogos de realidade aumentada” (LEMOS, 2013) ou “jogos de realidade híbrida” (SOUZA E SILVA, 2006). Tais jogos podem ser entendidos como múltiplos interagentes nos quais um celular inteligente, equipado com um sistema de posicionamento ou geolocalização e conexão à internet, permite aos jogadores usar os lugares (espaços físicos) como interface do jogo. Nos últimos tempos, um forte indício de jogo com essas características e que tem fascinado as crianças é o “Pokémon Go”. Esse game – disponível para smarthphone –, que integra elementos da realidade aumentada34 com
geolocalização, popularizou-se rapidamente. Na tela do celular, o mapa da cidade exibe a localização do jogador, obtida pelo GPS, e, para “caçar” os personagens, as pessoas precisam caminhar pelos espaços (sejam eles públicos e/ou privados). O jogo foi pensado para mesclar a fantasia e o mundo real, de forma que o jogador, ao transitar por esses espaços com sua câmera de celular, busca os personagens que, antes, somente eram vistos em desenhos animados.
Apesar de todas as críticas imputadas ao jogo – entre elas, a questão do acesso às informações pessoais dos jogadores e as notícias ruins relacionando-o a perigos como acidentes, sequestro, assalto –, o que se destaca é que a dinâmica deste jogo não fica restrita ao celular. Na verdade, existe uma interação constante da interface desse game com os espaços públicos, criando, assim, integração de ambientes urbanos conectados, além de favorecer uma prática social coletiva. Com a proposta do jogo, temos visto grupos de crianças jogando online por meio de seus dispositivos móveis (smartphone), saindo dos “confinamentos” dos seus quartos e casas para interagir, por vezes entre pares, e unidos no mesmo espaço físico. Isto é, o que observamos é que a dinâmica proporcionada por esse jogo está trazendo este público para fora de suas casas, proporcionando outros espaços de brincadeiras, que mesclam o digital e o físico, em um movimento cíclico.
34 Termo utilizado para designar a integração de elementos do “mundo real” com informações virtuais em um processo interativo e em tempo real.
A partir das práticas desenvolvidas com o “Pokémon Go”, percebemos que os lugares e os objetos passam a agregar uma relação com o digital. As crianças têm a possibilidade de acessar às informações produzidas por esse tipo de jogo, por elas mesmo ou por outros interagentes. Com isso, qualquer um deles pode ter sua presença localizada ou localizar outros jogadores, e, assim, estabelecer outras relações entre pares ou com o próprio espaço. Dessa forma, a nosso ver, o jogo pode ser um exemplo da mobilidade física, que integra corpo e objeto. No momento em que as crianças estão em movimento pelo espaço físico (praças, parques, shopping center, livrarias, etc.), interagindo com esse jogo ou com seus dispositivos móveis, em paralelo também podem estar realizando outras ações – fotografando, filmando, sentindo e percebendo situações, paisagens e fatos. Ou seja, ainda que o objetivo seja o jogo, do mesmo modo estão conectados, recebendo, produzindo e emitindo informações e conteúdos de diversas naturezas.
É a partir dessas práticas sociais que emerge a segunda dimensão da mobilidade – A informacional. Segundo Lemos (2010, p. 161), trata-se da mobilidade por fluxo de informações em rede, por territórios informacionais, que altera e modifica a mobilidade por espaços físicos, assim como a possibilidade de acesso, produção e circulação de informação em tempo real. Cordeiro (2014) aponta como característica dessa dimensão a presença dos sistemas informacionais com base digital e móveis, em que “o acesso às informações e conteúdos depende da possibilidade de acesso às redes (wireless, bluetooth, 3G, 4G), onde, além de consumir informações, os interagentes podem estar produzindo e disponibilizando conteúdos.” (p. 149).
Concordamos com a autora na ideia de que, com a mobilidade física, a mobilidade informacional se potencializa. Isso nos é possibilitado, principalmente, quando estamos em locais onde se desenrola um fato ou acontecimento, e a partir dos nossos dispositivos móveis, fazemos postagens, vídeos, imagens e compartilhamos esses conteúdos em ambientes diversos, como redes sociais, microblogs, aplicativos de mensagens instantâneas, trocando informações em uma dinâmica que acontece no nosso cotidiano. Ou, ainda, podemos também, com o celular, obter informações, em tempo real, sobre a intensidade do trânsito em um determinado trajeto, podendo alterar o percurso que planejamos, e, ao mesmo tempo, socializar outros dados sobre o trânsito em aplicativos destinados para esse fim – a exemplo do Wase35. Essas e outras dinâmicas nos permitem escolher rotas alternativas sugeridas por 35 Aplicação de navegação GPS totalmente móvel que, em sua dinâmica de funcionamento, mistura uma rede social e geolocalização – permite ao interagente, em tempo real, ter uma visão geral do tráfego de veículos
170 diferentes pessoas que integram essa rede, aumentando a potencialidade do deslocamento físico, e criando, assim, “novas dinâmicas de movimento no espaço físico ao redor de uma atividade social.” (LEMOS, 2010, p. 161).
O que percebemos é que, com o avanço das tecnologias digitais móveis em rede, a câmera do celular não se limita mais, simplesmente, à função de tirar fotos, tornando-se, além disso, um dispositivo de publicação instantânea. Fotos e vídeos são compartilhados, nos diversos ambientes online, o tempo todo. Assim, nessa dimensão da mobilidade, os lugares e os objetos passam a estar interligados com os dispositivos informacionais, resultando em uma relação estreita entre informação digital, localização e dispositivos digitais móveis. A essa intersecção entre o espaço físico e o eletrônico, Lemos (2010) chama de territórios informacionais.
Por territórios informacionais compreendemos área de controle do fluxo informacional digital em uma zona de intersecção entre ciberespaço e espaço urbano. O acesso e o controle informacional realizam-se a partir de dispositivos móveis e redes sem fio. O território informacional não é o ciberespaço, mas o espaço movente, híbrido, formado pela relação entre o espaço eletrônico e o espaço físico. (LEMOS, 2007a, p. 14)
Não podemos deixar de considerar a importância da rede móvel para construção desses territórios informacionais, pois, enquanto na internet fixa os servidores e roteadores representavam e representam os nós fixos da rede digital, e as dinâmicas favorecidas eram através de equipamentos estáticos – nas quais os interagentes precisavam estar parados para “entrar” na internet –, com a rede móvel esse cenário é alterado. Portanto, precisamos considerar que de posse de tecnologias móveis, em uma rede móvel, os celulares se tornam tais nós, carregados por interagentes que se deslocam por espaços físicos (SOUZA E SILVA, 2006). Com as interfaces móveis ampliou-se a possibilidade de, ao mesmo tempo que nos movemos por espaços físicos, podermos estar conectados, “carregando” o espaço digital conosco. Dessa forma, nesse movimento, “[…] não apenas os nós da rede se tornam móveis, mas também os caminhos através dos quais os nós se movem são de suma importância para reconfiguração da rede.” (SOUZA E SILVA, 2006, p. 39). Notamos que esses territórios informacionais se transformam em interfaces móveis quando a mobilidade se torna integrante do processo.
como um todo – com informações do tipo: congestionamentos, caminhões quebrados, acidentes, etc. É reconhecido como uma comunidade de interagentes para “combater o tráfego”, e funciona de forma colaborativa e dinâmica.
Assim, a ligação entre os territórios informacionais, as interfaces móveis e os lugares, em grande medida, é proporcionada, também, pela difusão das mídias locativas nos cotidianos. Lemos (2009a) define as mídias locativas como “dispositivos, sensores e redes digitais sem fios e seus respectivos bancos de dados ‘atentos’ a lugares e contextos. […] elas reagem informacionalmente aos mesmos, sendo eles compostos por pessoas, objetos e/ou informação, fixos ou em movimento.” (p. 91). Para o autor, a característica fundamental das mídias locativas é que elas aliam, paradoxalmente, localização e mobilidade. Santaella (2008) contribui com essa caracterização ao definir que mídias locativas são baseadas em “tecnologias sem fio, tecnologias de vigilância, de rastreamento e de posicionamento que permitem que a informação seja ligada a espaços geográficos.” (p. 22).
Na mobilidade informacional, as mídias locativas permitem a emissão de informação digital a partir de lugares/objetos. Essa informação é processada por dispositivos móveis como GPS, telefones celulares, palms e laptops conectados em rede Wi-Fi ou Wi-Max, 3G, 4G
bluetooth, ou etiquetas de identificação por rádio frequência. Para Lemos (2008), essas mídias
agregam conteúdos digitais a uma localidade, servindo para funções de monitoramento, vigilância, geoprocessamento, localização, anotações urbanas ou jogos. Nesse sentido, os lugares passam a dialogar com os dispositivos, enviando, coletando e processando informações, a partir da relação estreita entre os conteúdos digitais, localização e as tecnologias digitais móveis. Ou seja, o que se percebe é que, cada vez mais, essas tecnologias que possuem a dinâmica da mobilidade, sensíveis aos locais, podem conectar-se à internet, possibilitando que as informações sejam armazenadas e recuperadas a partir de bases de dados remotos.
Vale destacar que, no contexto analógico, também podemos encontrar as mídias locativas, a exemplo das placas que contêm a localização de um hotel, pizzaria, loja de departamento, pois nelas encontramos informações agregadas a uma localidade. Entretanto, “essa informação é estática, não sensitiva, limitando-se a dizer o que é aquele lugar” (LEMOS, 2008, p. 208). Com isso, a diferença é que ela não processa informações, não informa quando foi vista, nem por quem, nem para que uso.
Para compreensão das mídias locativas no território informacional, Lemos (2008) classifica quatro funções dessas mídias, a saber: realidade móvel aumentada; mapeamento e monitoramento; geotags; e anotações urbanas. A realidade aumentada nasce de um conjunto de dispositivos e serviços cuja ênfase está na relação híbrida, local e informacional e permite
172 a sobreposição de informação/objetos virtuais em um ambiente real (LEMOS, 2013). Ela é herdeira do desenvolvimento de simuladores e de realidade virtual, mas o que a diferencia é que, “enquanto essa última compõe uma interação computacional em que os sujeitos ‘entram’ no mundo simulado, a realidade aumentada faz com que a informação entre no ‘mundo real’.” (p. 87).
Para o autor (2008), com as mídias locativas, emerge a realidade móvel aumentada que permite que as informações sobre uma determinada localidade sejam visualizadas em um dispositivo móvel, “ampliando” a informação, isto é, a realidade informacional do sujeito que interage com uma mídia desse tipo. Assim, a realidade móvel aumentada proporciona uma nova interface homem – informação – mundo. Cordeiro (2014) nos apresenta alguns exemplos desse contexto, ao citar que a realidade aumentada já está sendo usada em alguns tipos de intervenções médicas e em publicações de impressos, como livros de literaturas, panfletos, propaganda de imóveis, automóveis e jogos. Além desses, também temos visto essa realidade em museus, praças, locais históricos, em que são agregadas informações a um monumento, um objeto, um local, e com um aplicativo de leitura de código 2D ou 3D, ao apontar a câmera do celular, o interagente pode ter acesso a informações textuais ou visuais sobre os mesmos na tela.
A segunda função definida por Lemos (2008) para as mídias locativas é aquela aplicada às formas de mapeamento e de monitoramento do movimento no espaço urbano através dos dispositivos móveis. Nessa função, que envolve, especialmente, tecnologias de GPS, os percursos dos interagentes são mapeados, de forma a mostrar e registrar, a partir dessa experiência, as vivências específicas que cada um cria ao realizar seus deslocamentos, assim como os fluxos e os usos dos dispositivos móveis nessa locomoção. Já na terceira função das mídias locativas encontramos nas geotags a possibilidade de agregar informação digital em mapas que podem ser acessadas por diferentes pessoas por meio de seus dispositivos móveis, formando, assim, um amplo mapa coletivo produzido por interagentes nos seus cotidianos. Essas informações podem ser textuais ou imagéticas (a exemplo do que encontramos hoje no
Google Maps e a sua função Street View36). Lemos (2008) cita alguns projetos que, a partir das
geotags, trazem informações sobre vagas em estacionamentos ou ainda localização de eventos
que acontecem pela cidade, assim como cafés ou curiosidades de um determinado local. O 36 Permite a todos uma exploração do mundo por imagens tridimensionais panorâmicas. Com isso, além da visão aérea, possibilita que o interagente possa explorar, por meio de imagens, as ruas, avenidas, praças, bairros como se fosse um pedestre. Isto é uma possibilidade de trazer informações textuais e imagéticas.
importante a se destacar das geotags é que, além de agregar informações aos lugares, também podem ser atualizadas em tempo real.
Por fim, a quarta função das mídias locativas – as anotações urbanas – se caracteriza por possibilitar formas de apropriação do espaço urbano a partir de escritas eletrônicas. Cordeiro (2014) esclarece que, nessa função, os interagentes se apropriam do ambiente e, a partir de escritas com os dispositivos móveis, indexam mensagens através de etiquetas RFID37 e rede
bluetooth. Esses registros podem ser em formato de texto, áudio ou vídeo. André Lemos
(2008) apresenta alguns exemplos de projetos, tais como Yellow Arrow e Undersound, em que, no primeiro, através dos aparelhos celulares, os interagentes sinalizam com setas amarelas em espaços públicos da cidade, contando suas experiências pessoais; no segundo, alia música, compartilhamento e mobilidade no metrô de Londres, possibilitando que os interagentes façam upload de músicas para o sistema e possam baixar músicas deixadas por outros usuários no metrô, com identificação das estações.
Essas quatro funções das mídias locativas mostram como elas podem fomentar processos de criação, ao mesmo tempo que evidenciam que a interação das pessoas com seus dispositivos móveis intensificam a convergência entre os espaços fluxos e o espaço físico. Esses processos também proporcionam espaços fecundos para produções singulares, através dos quais os interagentes expressam seus pensamentos, recordam de momentos, narram acontecimentos. Ao tomar como pano de fundo esses processos, passamos a relacionar a discussão com a terceira dimensão da mobilidade apresentada por Lemos (2009c), que é a do pensamento, entendendo que esta sempre esteve presente em nossas práticas cotidianas, entretanto, passa a ser “dinamizada e ganha o potencial da conexão, das redes e do movimento físico por diversos espaços.” (CORDEIRO, 2014, p. 149).
Para compreender essa dimensão da mobilidade, Lemos (2009c) apresenta duas noções: a extensibilidade e a acessibilidade. O autor sinaliza que essas duas noções são complementares, pois enquanto a primeira refere-se ao poder e à habilidade de se mover, a acessibilidade indica as possibilidades de alcançar determinados pontos nos deslocamentos – sejam eles físicos, informacionais ou cognitivos. Aliadas a essas noções, mais dois fatores são agregados para a dimensão da mobilidade do pensamento: a velocidade e a aceleração. Para o
37 Identificação por Rádio frequência ou RFID – método de identificação automática através de sinais de rádio, que recupera e armazena dados remotamente, através de dispositivo denominado etiquetas RFID (WIKIPÉDIA, 2017).
174 autor, a extensibilidade e a acessibilidade variam de pessoas e/ou grupos e seu valor está associado à possibilidade de ser veloz e de acelerar.
No nosso modo de pensar, a imediaticidade e instantaneidade são fatores que influenciam diretamente as três dimensões da mobilidade. Precisamos considerar que, no contexto atual, com a presença marcante das tecnologias digitais móveis em rede, temos a possibilidade de ultrapassar os espaços territoriais, criando novos ambientes, nos quais é possível viver e conviver a partir das experiências cotidianas marcadas pela velocidade com que as informações nos chegam. Assim, compreendemos que a mobilidade do pensamento entrelaça questões pessoais, sociais e culturais, pois no movimento em busca de novos espaços e informações, os pensamentos e conhecimentos são produzidos, veloz e constantemente.
Nesse sentido, a nosso compreender, as mobilidades física e informacional proporcionam o acesso a diferentes informações, diversificados pontos de vistas, e isso provoca nosso pensamento. Em razão disso, precisamos estabelecer relações entre esse volume de informação o tempo todo. Além disso, Lemos (2005), apoiado em John Urry (2000), esclarece que todas essas dinâmicas vividas na sociedade exigem um pensamento em movimento, complexo, fluido e desterritorializado. Nesse sentido, a qualquer momento, a premissa de pensamento e de reflexão pode ser ativada por meio desse intenso fluxo de comunicação, de processamento de informações, de produção e organização de conteúdos e das formas como são disponibilizados.
Definidas essas três dimensões da mobilidade, não podemos deixar de sinalizar que, na atual cultura da mobilidade, a potência dessas dimensões não acontece de forma igualitária para todos, mas, ao contrário, varia a depender de cada pessoa ou grupo social. A partir desse contexto, Lemos (2009c) nos convida a pensarmos naqueles sujeitos que se deslocam em transporte público e/ou privados, nos que possuem acesso à internet de qualidade por banda larga e aqueles que têm um acesso limitado, nos que podem viajar pelo mundo e nos que nunca saem dos seus lugares de nascimento. Todas essas situações nos levam à compreensão de que, nessa cultura, parece existir uma “correlação e ampliação dos poderes, já que quanto maior a potência de mobilidade informacional-virtual, maior é a mobilidade física e o acesso a objetos e tecnologias” (p. 29).
Com isso, as desigualdades sociais e econômicas influenciam a potência dessa mobilidade, pois não podemos deixar de reconhecer que aqueles que podem se movimentar mais facilmente pelo ciberespaço são também os que têm maior autonomia para os