• Nenhum resultado encontrado

A mobilidade espacial: desafios conceptuais e analíticos

I. A MOBILIDADE ESPACIAL: CENTRALIDADE HISTÓRICA NOS ESTUDOS

3. A mobilidade espacial: desafios conceptuais e analíticos

A revisão da literatura sobre as questões da mobilidade espacial e a breve incursão pelo percurso dos estudos ciganos apontava, por um lado, para algumas generalizações que não pareciam dar conta das situações encontradas ao longo da pesquisa e, por outro, para a prevalência de conceitos relacionados com a fixação a um espaço delimitado, com os fluxos e o deslocamento no espaço e menos sobre os sujeitos em movimento, com a determinação social das posições no espaço físico e menos sobre os recursos espaciais dos indivíduos. As pistas conceptuais e analíticas avançadas começavam, assim, a ser problematizadas por aquilo que a análise do material empírico recolhido sugeria, dando lugar à necessidade de construção de um referencial teórico capaz de gerar conceitos que permitisse uma análise mais fina da

realidade observada, ao mesmo tempo que possibilitasse proceder a comparações mais sistemáticas. De facto, são vários os autores que têm chamado a atenção para a necessidade de novas conceptualizações em torno dos fenómenos contemporâneos associados a fluxos e mobilidades decorrentes das migrações contemporâneas, no sentido de analisar configurações territoriais e identitárias inéditas, não caracterizadas exclusivamente pelo espaço físico (Tarrius, 1992; Clifford, 1997; Theodosiou, 2004; Breton, 2006a, Stock, 2006 e 2007, entre outros).

A título de exemplo, refira-se a associação que tem vindo a ser difundida entre estratificação social e capacidade de mobilidade, ou seja, seria possível hierarquizar os grupos sociais em função das suas capacidades para desencadear a mobilidade espacial. É neste sentido que vemos surgir noções como as de “classes móveis” (Ollivro, 2005) ou as de “capital de mobilidade” (Urry, 2005) que no fundo vêm reforçar a ideia de uma interdependência entre capital social e capital de mobilidade. No entanto, e tal como alerta Breton, esta perspectiva tende a ser anacrónica e pode conduzir a impasses na investigação quando deixa de fora certos grupos sociais (Breton, 2006a: 5). Há estudos que têm efectivamente apontado para o facto de as populações mais vulneráveis apresentarem níveis de mobilidade mais fracos que as impedem de aceder a um conjunto de recursos e oportunidade de integração social (Breton, 2005; Orfeiul, 2004). Porém, os resultados devem ser relativizados, nomeadamente ao nível das generalizações de classificação na estratificação social em função do grau de mobilidade dos indivíduos.

Como se constatou anteriormente, a relevância assumida pelo estudo da mobilidade espacial entre os ciganos residia no facto de interrogar as condições em que se estabelece a coexistência, as formas de reconhecimento e representar o Outro. Contudo, apesar de se poder assumir, a nível europeu, algum pioneirismo por parte dos ciganos no desenvolvimento de relações ao espaço e ao tempo “fundadas sobre o modo reticular de abertura às oportunidades” (Montulet, 2007), o aprofundamento conceptual e analítico capaz de abordar a complexidade do real parece ter ficado para segundo plano, ganhando apenas nos últimos anos a sua centralidade no campo das ciências sociais, nomeadamente na antropologia, sociologia e geografia.

John Urry chega mesmo a afirmar que a mobilidade se tornou um desafio crucial da sociologia (2005). O autor refere que todas as formas de vida social envolvem combinações de proximidade e distância que necessitam de ser analisadas, através da conjugação de diferentes

formas de mobilidade (física, imaginativa, virtual), sobretudo, num momento em que a mobilidade física tem uma grande expressividade, não se conhecendo em profundidade as suas bases sociais nem o seu significado exacto na construção e manutenção do capital social (Urry, 2002). Também Michel Lussault, do lado da geografia, sublinha esta dimensão. Reconhecendo que em cada acontecimento de mobilidade se forma um espaço prático complexo, o autor admite a mobilidade como uma entrada pertinente para tentar compreender os sistemas de laços que os indivíduos criam com os seus espaços de actos. Estes sistemas nascem do jogo que a prática espacial cria entre o móvel e o inerte e a análise da mobilidade surge, assim, como uma forma de se interrogar sobre as condições de estabelecimento da relação de cada indivíduo com o outro (Lussault, 2004: 116).

Marc Augé (2009), por seu lado, constatando a abundância de causas que dificultam a análise dos efeitos da mobilidade contemporânea, considera necessário pensá-la a diversas escalas para tentar compreender as contradições que minam a história, mas também enfatiza a importância de se aprender a repensar o tempo, pois “devant l’émergence d’un monde humain consciemment extensif à la planète tout entière, tout se passe comme si nous reculions devant la nécessité de l’organiser, en nous réfugiant derrire les vieilles divisions (frontières, cultures, identités) qui jusqu’à present ont toujours été le ferment actif des affrontements et des violences” (Augé, 2009: 87-88).

Alain Tarrius, no cruzamento da sociologia e da antropolgia, afirma que existe um conjunto de transformações que tornam o objecto das mobilidades pertinente para repensar as formas sociais. Por um lado, durante muito tempo considerou-se o vínculo ao lugar e as diversas manifestações sedentárias como universalmente legitimadoras das identidades. Por outro lado, o aparecimento de indivíduos ou grupos estrangeiros aos espaços que os acolhem permitiu constatar que a partir das suas experiências circulatórias eram improvisadas identidades mestiças em constante processo (que se opõem ao ser daqui ou dali, Nós e os Outros…). O saber ser daqui, mas simultaneamente de outra parte, produz construções territoriais originais com redes sociais propícias às circulações, onde os critérios de reconhecimento do outro estão em ruptura com os traços tranquilos e “óbvios” de fronteiras produzidas pelas sociedades locais (Tarrius, 2000: 41).

A intensidade e extensividade da mobilidade espacial coloca-se, assim, na actualidade como um fenómeno crucial que abala a relativa unidade do lugar e permite a cada pessoa definir vários espaços, daí o aparecimento da noção de “geometria variável” (Joye e Schuler, 2007)

nos modos de organização dos diferentes espaços de pertença e regulação, mas também de sujeitos “geograficamente plurais” (Stock, 2006), pois encontram-se implicados em múltiplos lugares. De facto, um dos grandes desafios que hoje se coloca ao estudo das mutações urbanas passa por substituir as análises estáticas em termos de lugares, por uma abordagem dinâmica que, não ignorando as dimensões estruturais, integra também o movimento nas dimensões sociais e espaciais. Aprofundar a conceptualização da noção de mobilidade traz contributos inéditos no debate sobre as relações entre estratificação e exclusão social; globalidade e localidade; informação e produção; segregação social na cidade e acessibilidade espacial e temporal (Bassand, Kaufmann e Joye, 2007).

Como refere V. Kaufmann (2007), desenvolver a mobilidade como conceito e como objecto de pesquisa encerra em si algumas dificuldades, uma vez que permanecem “zonas importantes de sombra”: i) tratando-se de uma noção polissémica (mobilidade social, profissional, residencial, quotidiana, das migrações…) as formas assumidas pela mobilidade são consideradas independentes umas das outras e não dão conta da mobilidade como fenómeno social; ii) tendência para se negligenciar a dimensão temporal capaz de dar conta do universo de constrangimentos ligados à programação de actividades da vida quotidiana e a determinados ritmos sociais, bem como às diferentes dimensões de um percurso de vida; iii) focalização sobre a geografia das deslocações e não tanto sobre o actor móvel; iv) fraco desenvolvimento da sociologia dos transportes27.

O autor sugere três pistas para contribuir para o debate científico: por um lado, proceder a uma abordagem sistemática da mobilidade implica considerá-la um fenómeno único, susceptível de se manifestar de diferentes formas. Por outro lado, interessa reconstituir a sua unidade, onde o “puzzle dos campos de pesquisa e de disciplinas científicas faz alinhar as peças”. Por fim, importa encarar a mobilidade como uma noção integradora para reencontrar o actor, na medida em que ela aparece como um potencial próprio a cada actor, que ele pode ou não transformar em movimento pela combinação de diferentes lógicas de acção, em função dos seus desejos, dos seus objectivos e das suas circunstâncias (Kaufmann, 2007: 178-181).

É neste sentido que Kaufmann, avançando com a noção de “motilidade”, refere os seus contributos para a sociologia urbana, nomeadamente pelo seu interesse heurístico em repousar

27 Também Stock (2007) refere o fraco enfoque teórico das pesquisas sobre a mobilidade espacial e as questões que

esta ausência suscita: i) falta de palavras para designar de maneira pertinente os diferentes tipos de mobilidade; ii) estudos sectorizados que não se preocupam com as interdependências entre os diferentes tipos de movimentos; iii) as consequências da mobilidade na relação dos indivíduos ao espaço e a forma de captar a reorganização do significado dos lugares.

sobre “velhas questões” com um ângulo novo, ou seja, descortinando outros fenómenos que determinados aparelhos conceptuais não permitiram compreender tão bem. Abre-se, assim, uma nova luz sobre a questão das desigualdades sociais, procurando-se a sua reversibilidade, mas também detectando-se como a ambivalência da conexão se pode tornar um constrangimento à inserção social (idem: 186). Embora o autor dê como exemplo a substituição de serviços de proximidade por serviços conexos disponíveis na Web, esta ambivalência da conexão transposta para o caso dos ciganos a contradição inerente à compatibilidade da estratégia que conjuga mobilidade e fixação: do potencial aumento das oportunidades disponíveis às dificuldades de enraizamento e à submissão à expulsão (San Roman, 1997).