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Do enfoque nos sujeitos ao funcionamento do sistema

II. A SITUAÇÃO PERIFÉRICA DOS CIGANOS: CONTRASTES SOCIAIS,

3. Modalidades de acção pública e contrastes sociais

3.2. Inscrição territorial precária, etnicização da exclusão social e práticas

3.2.3. Do enfoque nos sujeitos ao funcionamento do sistema

Existe, porém, entre alguns dos actores auscultados, uma postura mais reflexiva e crítica que tende a encontrar as razões associadas à subsistência de situações de exclusão habitacional entre a população cigana noutro tipo de vectores: i) nos instrumentos de regulação e financiamento que têm sido produzidos; ii) nos modelos de habitat e nas formas de gestão do parque habitacional público que têm sido privilegiados; e iii) no peso exercido pelos estereótipos (cf. Figura seguinte).107

Figura 8: Razões associadas à precariedade habitacional

107 Os dados agora apresentados para além de decorrerem da informação referenciada na nota 103, são também o

resultado dos grupos de discussão realizados no âmbito do Seminário Internacional Ciganos Territórios e Habitat (CET, 2008).

Relativamente aos “instrumentos de regulação e financiamento” um dos aspectos largamente apontados prende-se com a reduzida dimensão do parque habitacional público em Portugal perante o número de famílias que apresentam níveis elevados de insolvência face ao mercado privado e que precisam de apoio do Estado para poder aceder a uma habitação. Trata-se, no fundo, de um problema estrutural da sociedade portuguesa quando comparado com outros países europeus e que afecta não apenas a população cigana. Existem, no entanto, alguns constrangimentos que ultrapassam a dimensão dos recursos financeiros, sobretudo, quando a nível local se procura encontrar respostas não contempladas nos instrumentos em vigor ou quando não existe um consenso político alargado sobre a necessidade de intervenção nas situações de precariedade habitacional, no sentido de se assegurar o impacto e a sustentabilidade dos projectos, ao longo do tempo e para além dos mandatos políticos.

No que respeita aos modelos de habitação social que decorrem da implementação das políticas públicas, bem como as formas privilegiadas de gestão do parque habitacional público a nível local, os actores auscultados questionam, no fundo, se a qualidade das oportunidades de integração, muitas vezes assentes em “processos de segregação passiva de carácter étnico” (Malheiros et al., 2007: 42), não serão piores que a presença em habitações inadequadas do ponto de vista físico108.Ou como diria San Roman “de ofertas impossíveis de aceitar porque

não solucionam os seus problemas, mas agravam-nos” (San Roman, 1986c: 232).

Critica-se, assim, a ausência de modelos de habitat que vão ao encontro das expectativas e dos modos de vida dos futuros residentes, mas também a gestão dos processos de realojamento. Apesar das orientações no sentido da mistura, esta gestão acaba por desenvolver formas de microsegregação através de um trabalho subtil de manter um suposto equilíbrio, colocando as famílias ditas desestruturadas em pequenos territórios, mas potenciando a existência de conflitos e a consolidação de uma imagem para o exterior negativa.Como consequência poderá assistir-se, por parte de determinadas famílias, ao abandono do alojamento atribuído e ao aumento da dificuldade de serem contempladas num outro processo de realojamento.

Nestes processos de gestão do parque habitacional não fica também esquecido, entre os actores auscultados, que a intervenção ao nível da habitação é um domínio complexo, pois exige o combate à multidimensionalidade que assume a pobreza e a exclusão social. Neste sentido, ao

108 Estes processos resultam de condições limitadas no acesso ao mercado residencial, não só traduzidas pelos

baixos rendimentos, mas também decorrentes de processos discriminatórios; condicionam as possibilidades de participação na sociedade por parte das populações neles envolvidas, dadas as reduzidas ocasiões de contacto que têm com o exterior, e tendem a reforçar os estereótipos com implicações ao nível do acesso ao mercado de trabalho e a percursos escolares de maior sucesso (Malheiros et al., 2007: 42).

se assumir que a habitação social se torna a solução mais adequada para determinados públicos que carregam um grande estigma social e se defrontam com dificuldades no acesso ao mercado privado de habitação, então, esta solução deveria também permitir abordar as diversas necessidades sociais das pessoas. Reconhece-se, assim, que não estando garantido que todos os actores relevantes desenvolvem um trabalho de cooperação genuína e têm as competências profissionais adequadas para a implementação das acções torna-se mais difícil quebrar o ciclo intergeracional da pobreza.

Em síntese, é possível afirmar que determinadas características do território e uma orientação ideológica da governação autárquica mais homogénea tende para a subsistência dos problemas de precariedade habitacional entre a população cigana. Constata-se, pois, por um lado, que os grupos de concelhos onde as necessidades habitacionais da população cigana mais se evidenciam tendem a ser aqueles onde a grande maioria da população vive em centros com menos de 5.000 habitantes e para onde menos foram canalizados os recursos das políticas públicas de habitação dos últimos anos. Por outro lado, nestes territórios a mesma ideologia política mantém-se há mais de dez anos, e esta homogeneidade poderá indiciar algum bloqueio à incorporação de outras perspectivas/soluções sobre as problemáticas que localmente se fazem sentir.

Existe, no entanto, um conjunto de obstáculos que ultrapassam ou se conjugam com a dimensão dos recursos necessários para permitir o acesso ao alojamento em tempo, lugar e a custos adequados a esta fatia da população cigana. A exploração do material empírico recolhido, de cariz mais qualitativo, permitiu evidenciar aspectos transversais aos dois grupos de territórios que tendem a dificultar a alteração positiva das condições habitacionais e a deslocalizar o foco das causalidades do sistema para os actores.

Constatou-se também que a dimensão do parque habitacional público não consegue suprir em quantidade as necessidades existentes ou emergentes decorrentes da reprodução das situações de precariedade económica entre gerações e o crescimento de necessidades ao nível do apoio habitacional. Ficou ainda patente que a qualidade dos modelos propostos parece encontrar resistências por parte de algumas famílias ciganas em aceitar as soluções de realojamento propostas. Como se verificou a explicação desta resistência pode ser encontrada através de processos que naturalizam as identidades e etnicizam a exclusão social e que raramente questionam a qualidade dos processos que são postos em prática.

Encontra-se, assim, transversalmente aos dois grupos de territórios, mas apenas para alguns concelhos, a utilização frequente de poderes discricionários para bloquear as iniciativas que visem a melhoria das condições de vida da população cigana, perpetuando-se a precariedade da sua situação habitacional. Estes poderes passam por: i) não se possibilitar o acesso a água, à electricidade ou a saneamento básico, sob o pretexto de que seria um incentivo para o aumento da fixação de outras famílias; ii) não se fazer deliberadamente a recolha do lixo à espera que a situação se torne insustentável e os ciganos abandonem o concelho; iii) demolir habitações precárias sem a disponibilização de alternativas residenciais; iv) não se reconhecer o estatuto de residente, impedindo-se o acesso a determinadas serviços (ex.: conta bancária); v) adiar-se a procura da localização possível no concelho para determinadas famílias se poderem instalar, inviabilizando-se a apresentação de candidaturas a medidas e projectos de intervenção social; vi) influenciar a opinião pública local para impedir o arrendamento ou a compra de uma casa no mercado livre de habitação. Trata-se, pois, de práticas de rejeição, carregadas de medidas de expulsão simbólicas que podem ou não produzir os efeitos desejados: a saída efectiva do concelho.

Vitale, reportando-se à situação dos ciganos em Itália, refere que esta hostilidade se caracteriza por mobilizações muito localizadas, onde se estigmatizam comportamentos, generalizando-os à globalidade da população identificada. Estas mobilizações nunca são espontâneas, mas assentam em acções colectivas organizadas por “empreendedores” que levantam problemas locais e os tornam públicos, interagindo com autoridades locais e políticas públicas e perseguindo um ou mais objectivos partilhados entre si. Como consequência produz-se um efeito generativo muito forte, quer sobre as dinâmicas da opinião pública, a partir da qual se reforçam os estereótipos, quer sobre as modalidades de selecção ou de implementação de medidas e programas, quer ainda sobre as formas de complementaridade das políticas sociais (Vitale, 2009a: 66-69).

Constata-se, pois, que nos concelhos onde se desenvolve estas estratégias o acesso ao mercado público de habitação deve ser assegurado noutro sítio, traduzindo aquilo que em linguagem anglo-saxónica se apelida de sindromas NIMBY (not in my back yard) e NOTE (not over there either). Ascher considera estes fenómenos como um traço específico da modernidade, um reflexo do individualismo levado ao extremo, e que pode constituir uma ameaça à coesão social. Estes fenómenos de rejeição são encarados como défices de cidadania, fundados na prevalência dos direitos subjectivos e individuais (corporativos ou localistas) sobre os direitos e necessidades da colectividade. E é perante tal contexto socio-político que se favorece a

emergência de comunitarismos inscritos nas lógicas de exclusão e rejeição (Ascher, 1998 [1995]: 102-103).

III. CIGANOS E DINÂMICAS DE MOBILIDADE: DESAFIOS AOS PROCESSOS