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A natureza do objeto litigioso do processo e a eficácia da decisão: a

4 JULGAMENTOS IMPLÍCITOS: O ESBOÇO DE UMA TEORIA PARA A SUA

4.2. A INTERPRETAÇÃO DA SENTENÇA: A RECONSTRUÇÃO DO SENTIDO DO

4.2.3. A natureza do objeto litigioso do processo e a eficácia da decisão: a

Além do critério interpretativo dos fundamentos da decisão, outro critério é ainda apontado pela doutrina e pela jurisprudência que se mostra da maior importância, qual seja o de interpretar a sentença em conformidade com os limites da demanda e os pedidos das partes.

Neste sentido, afirma CARNELUTTI que “sotto questo aspetto un elemento di grande valore per la interpretazione della sentenza e quindi per la delimitazione del contenuto del giudicato sono le domande delle parti.”302

Em sentido similar, o Superior Tribunal de Justiça, em acórdão proferido em 26/10/2006, sustentou que:

Havendo dúvidas na interpretação do dispositivo da sentença, deve-se preferir a que seja mais conforme à fundamentação e aos limites da lide, em conformidade com o pedido formulado no processo. Não há sentido em se interpretar que foi proferida sentença ultra ou extra petita, se é possível, sem desvirtuar seu conteúdo, interpretá-la em conformidade com os limites do pedido inicial.303

Destarte, quando se interpreta a sentença, deve-se observar não só os seus fundamentos, mas também as particularidades próprias do objeto litigioso do processo, procurando captar o verdadeiro sentido do dispositivo em conformidade com a natureza própria desse objeto litigioso. Os limites da demanda fixados pelas partes, portanto, também condicionam e possibilitam a reconstrução do sentido e do alcance do dispositivo da sentença.

302

CARNELUTTI, Francesco. Sistema di Diritto Processuale Civile. Padova: CEDAM, 1936, v. 1, p. 272.

303

BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Recurso Especial nº 818614-MA. Relatora: Ministra Nancy Andrighi, julgado em 26/10/2006, DJ 20/11/2006, p. 309. Disponível em: <http://www.stj.gov.br>. Acesso em: 13/06/2012.

Este critério interpretativo visa, acima de tudo, garantir eficácia à decisão judicial, pois interpretar a sentença em conformidade com os pedidos das partes nada mais é do que interpretar a sentença buscando dar resposta concreta aos pedidos formulados, sempre, por óbvio, dentro dos limites da demanda. Parece-nos que a decisão do STJ citada acima, na sua parte final, deixa isto bem claro, ao afirmar que “não há sentido em se interpretar que foi proferida sentença ultra ou extra petita, se é possível, sem desvirtuar seu conteúdo, interpretá-la em conformidade com os limites do pedido inicial.”304

Sobre a necessidade de se garantir uma interpretação da sentença que promova a eficácia do decisum, ESTÊVÃO MALLET sustenta que “entre duas interpretações possíveis da decisão, igualmente adequadas ao seu texto e em conformidade com os demais cânones hermenêuticos, prefere-se aquela de que decorre alguma eficácia, em detrimento da que a priva de eficácia.”305

Ora, o que se visa com este critério interpretativo é, em suma, garantir a efetividade do processo, procedendo-se à reconstrução e fixação do sentido do dispositivo da sentença em conformidade com o quanto requerido pelas partes, garantindo assim a eficácia da sentença, ou seja, a produção do efeito útil pretendido com a instauração da demanda, sob pena de se frustrarem os fins do processo.

Neste sentido, quando o objeto litigioso do processo é composto, por exemplo, por dois pedidos que formam uma cumulação aparente, conforme conceituado supra em 2.3.4., em que o autor, apesar da cumulação de pedidos, visa apenas a obtenção de um único efeito substancial, encontrando-se os pedidos deduzidos ligados por um estreito nexo de causalidade para a obtenção do efeito útil pretendido com a instauração da demanda, sendo, portanto, inseparáveis, o juiz não se pode manifestar sobre um sem ter apreciado também o outro. Assim, a interpretação da sentença não pode deixar de levar em conta a natureza complexa deste objeto litigioso do processo, atentando para o efeito efetivamente pretendido pelo demandante com a interposição da demanda (pedido complexo), devendo

304

BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Recurso Especial nº 818614-MA. Relatora: Ministra Nancy Andrighi, julgado em 26/10/2006, DJ 20/11/2006, p. 309. Disponível em: <http://www.stj.gov.br>. Acesso em: 13/06/2012.

305

MALLET, Estêvão. Breves Notas Sobre a Interpretação das Decisões Judiciais. In: Revista do

proceder-se, assim, a uma interpretação da sentença conforme aos limites da demanda e ao pedido formulado pela parte.

Nestes casos, a estreita ligação existente entre os pedidos deduzidos (pressuposto e consequência necessária) faz com que, em situações em que o texto da sentença não tenha sido expresso de forma clara quanto à resposta dada a um dos pedidos formulados, esta resposta possa resultar claramente individualizada e identificada no decisum pelo sentido da decisão dada ao outro pedido, pois deste se deduz com facilidade a solução dada à outra questão não expressamente decidida, haja vista que em razão do nexo causal existente entre ambos os pedidos para a obtenção do único efeito útil pretendido pelo autor (na verdade, um único pedido complexo), um não pode ter sido apreciado sem o outro.

Isto sucede, por exemplo, na ação de despejo fundada em falta de pagamento de aluguel, onde o autor cumula com o pedido de rescisão do contrato de locação o pedido de condenação do réu a despejar o imóvel. Como se vê, o efeito útil pretendido (efeito substancial) é apenas um, o de reaver o imóvel, contudo, para que este se possa produzir, o juiz tem que examinar e decidir os dois pedidos cumulados (cumulação aparente). Imaginemos, então, que após extenso debate instrutório e comprovada a falta de pagamento por parte do locatário, o juiz condena expressamente no dispositivo da sentença o réu a despejar o imóvel, mas omite-se de expressamente colocar no mesmo dispositivo da sentença a expressão “declaro rescindido o contrato de locação.” Ora, é possível que o juiz não tenha examinado e decidido esta questão? Da resposta dada ao pedido condenatório, juntamente com os fundamentos expressos na parte motivatória da decisão (provada a falta de pagamento), não é possível deduzir a resposta dada ao pedido de rescisão contratual? É possível, sequer, considerar que sobre este pedido de rescisão contratual não existiu uma decisão e, portanto, o contrato se mantém válido? A condenação constante do dispositivo consegue preservar a sua eficácia se considerarmos que o contrato de locação se mantém válido, podendo ser, inclusive, objeto de nova demanda?

Da mesma forma, na ação em que se cumulam os pedidos de reconhecimento do direito de preferência e o pedido de condenação a entregar a coisa objeto desse direito, efetuando o autor, no ato de interposição da ação, depósito judicial no valor do bem, transcorrido todo o iter procedimental e provado

que o demandante tem de fato o direito de preferência sobre o bem e não tendo sido suscitada nem comprovada qualquer causa impeditiva da entrega desse bem, eventual dispositivo da sentença em que conste expressamente apenas a declaração de reconhecimento do direito de preferência não decidiu o pedido de condenação à entrega da coisa? Ou da resposta dada ao pedido de reconhecimento do direito de preferência podemos deduzir a resposta dada ao pedido condenatório?

Nestas situações, parece-nos ter aplicação plena o ensinamento de ALFREDO ROCCO, que afirma que pode o pensamento do juiz “su una questione desumersi soltanto dalla soluzione data ad un’altra questione, che presupponga

necessariamente esaminata e risolta in modo unívoco la prima.”306 Em casos como estes, o juiz manifestou indiretamente o seu pensamento, mas manifestou-o, pelo que da interpretação da sentença é possível retirar, com suficiente clareza, que ele “ha esaminato e deciso il punto taciuto.”307

Neste sentido, milita ainda a lição de CASTRO MENDES, que esclarece que cabe à interpretação ainda “a extracção, de certo conteúdo de pensamento, de outros com ele necessariamente relacionados.”308

Do que antecede, podemos concluir que a interpretação da sentença, além de ter que utilizar os fundamentos constantes na parte motivatória da sentença, tem que levar ainda em consideração, na reconstrução do sentido e alcance do dispositivo da sentença, os limites da demanda e os pedidos formulados pelas partes, tendo, portanto, que atentar para a natureza do objeto litigioso do processo, por forma a garantir a eficácia da decisão, preservando o seu conteúdo útil.